Desembaraando o Presente -
O Papel da Ateno com Sabedoria

Por

Ajaan Thanissaro

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Se os caminhos da mente fossem simples, os seus problemas seriam simples e fceis de resolver. O Buda, ao mostrar como dar um fim a esses problemas, poderia ter dado instrues simples e breves uma abordagem nica para tudo aquilo que ocorrer no presente, um nobre caminho nico: apenas ateno plena, apenas concentrao, ou somente ateno no-reativa. Ou ele poderia nem ter se preocupado muito em ensinar sabendo que as pessoas poderiam facilmente resolver os seus problemas por conta prpria. Confiem, ele poderia dizer, na sua natureza interior, no seu entendimento inato, e deixado por isso mesmo. Mas no assim que a mente funciona e no foi assim que ele ensinou.

Mesmo apenas alguns minutos gastos observando os caminhos da mente podem mostrar quo complexos e enrolados eles so. E isso significa que os seus problemas tambm so complexos. Especialmente o problema do sofrimento: como o Buda advertiu, as causas do sofrimento so como um novelo embaraado, como uma corda embolada cheia de ns.

Qualquer pessoa que tenha solucionado problemas complexos sabe que o truque para encontrar a soluo encontra-se no modo como a questo formulada: identificar o problema e classificar o modelo dos fatores a ele relacionados. Vendo o modelo, voc poder decidir em quais fatores focar como decisivos para a soluo e quais fatores devem ser ignorados para que voc no seja desviado para becos sem sada. Formular a questo significa tambm decidir como abordar cada um dos fatores decisivos, de modo que, ao invs de manter ou exacerbar o problema eles auxiliem na soluo. O que isso significa em resumo , ao se defrontar com um problema, saber quais perguntas sero benficas e quais perguntas no sero.

Se, por exemplo, voc for um mdico numa sala de emergncias e o seu paciente estiver se queixando de dores no peito, voc ter que tomar muitas decises rapidamente. Voc ter que decidir quais exames sero necessrios, quais perguntas fazer ao paciente e quais sintomas fsicos devem ser identificados antes de poder diagnosticar as dores como um sintoma de indigesto ou o comeo de um ataque cardaco, ou alguma outra coisa completamente diferente. Voc tambm tem que decidir quais as perguntas que no devem ser feitas para no ser atrapalhado por informaes irrelevantes. Se voc focar nos sintomas errados, o paciente poder morrer ou ir passar desnecessariamente mais uma noite na unidade de terapia intensiva, privando, assim, de um leito, um outro paciente que tenha de fato sofrido um ataque cardaco. Uma vez feito o diagnstico, voc ter que decidir qual tratamento ser adotado e como acompanhar o tratamento para ver se ele de fato est funcionando. Se os sintomas forem interpretados de modo equivocado voc poder causar mais dano que benefcio. Se forem interpretados corretamente, voc poder salvar vidas.

O mesmo princpio se aplica na soluo do problema do sofrimento, sendo que essa a razo porque o Buda atribuiu uma importncia capital habilidade de interpretar a questo do sofrimento de modo apropriado. Ele chamou essa habilidade yoniso manasikara ateno com sabedoria e ensinou que nenhuma outra qualidade interior gera mais benefcio para desenredar o sofrimento e conquistar a libertao (It 16).

Ao proferir a explicao mais detalhada sobre a ateno com sabedoria (MN 2), o Buda comea com o exemplo da ateno sem sabedoria, que se centraliza nas questes de identidade e existncia: Eu existo? No existo? O que sou? Existi no passado? Existirei no futuro? Essas questes no so sbias porque elas conduzem a um emaranhado de idias, uma confuso de idias, tais como Tenho um eu, ou No tenho um eu, todas as quais conduzem ao enredamento e nenhuma, ao fim do sofrimento.

Em contraste, o Buda ento descreve a ateno com sabedoria como a habilidade de identificar que Isto sofrimento, Esta a origem do sofrimento, Esta a cessao do sofrimento, Este o caminho que conduz cessao do sofrimento. Essas so as quatro categorias que o Buda, no seu primeiro discurso, chamou de quatro nobres verdades. A habilidade de interpretar a questo do sofrimento de acordo com essas categorias aquilo que permite em ltima instncia dar um fim ao problema do sofrimento de uma vez por todas. por isso que esse tipo de ateno sbia.

A lio mais bvia que pode ser extrada desse mtodo para distinguir a ateno com sabedoria da ateno sem sabedoria que a ateno sem sabedoria interpreta as questes da mente como categorias abstratas, enquanto que a ateno com sabedoria as interpreta como coisas que podem ser identificadas diretamente na experincia imediata como Isto ... Esta Esta Este. As idias de identidade e existncia so a base do pensamento abstrato e muitos filsofos tm argumentado que se encontram no fundamento de qualquer busca espiritual. O Buda, no entanto, observou que a idia Eu sou o pensador encontra-se na raiz de todas as categorias e rtulos de proliferao conceitual, o tipo de idia que pode se virar e atacar a pessoa que a est empregando. So categorias notoriamente difceis de identificar com exatido, dissolvendo-se freqentemente numa semntica arbitrria. Eu existo? depende do que voc quer dizer com existir. Tenho um eu? depende do que voc quer dizer com eu. As idias guiadas por esse tipo de definies, com freqncia, acabam sendo vtimas de motivos ou intenes dissimulados por trs das definies, significando que no so confiveis.

No entanto, o sofrimento algo que pode ser conhecido diretamente: pr-verbal, pessoal, mas universal. Ao interpretar as questes da mente em torno do sofrimento, o Buda baseou os seus ensinamentos numa aspirao plenamente confivel o desejo dos seus ouvintes de dar um fim a todo o sofrimento e focou em algo que no depende de definies. Na verdade, ele nunca oferece uma definio formal para o termo sofrimento. Ao invs disso, ele explica atravs de exemplos o sofrimento do nascimento, envelhecimento, enfermidade e morte e depois aponta para o elemento funcional que compartido por todas as formas de sofrimento mental: apego aos cinco agregados da forma, sensao, percepo, formaes mentais e conscincia. O apego no a totalidade do sofrimento, mas o aspecto do sofrimento mais til para se focar com o propsito de dar um fim ao sofrimento.

Embora exista um discurso no qual o Buda define o apego como desejo-cobia (SN XXII.121), ele nunca descreve com preciso o que desejo-cobia. No que parece ser a parte mais antiga do Cnone, o Atthaka Vagga (Snp IV), ele preenche uma longa discusso sobre o apego com trocadilhos e jogos de palavras, um estilo que desencoraja qualquer tentativa de sistematizar e definir, pela prpria proliferao conceitual que isso gera. O que isso significa que se voc quiser aperfeioar o seu entendimento com relao ao apego, desejo-cobia e sofrimento, voc no poder se apegar a palavras ou textos. Voc tem de olhar de modo mais profundo para a sua experincia presente.

No entanto, ao apontar repetidamente para a experincia direta, o Buda no desencoraja todo tipo de pensamento e conceitos. A habilidade para distinguir as quatro categorias da ateno com sabedoria requer pensamento e anlise o tipo de pensamento que questiona os entendimentos e desentedimentos passados e pondera sobre aquilo que est acontecendo no presente; o tipo de anlise que capaz de identificar conexes entre as aes e os seus resultados e pode avaliar se foram benficas ou no. Por exemplo, h desejos que agem como causa do sofrimento e outros que podem formar parte do caminho que conduz ao seu fim. Embora o Buda oferea um delineamento geral para indicar que tipo de desejo funciona de que modo, voc deve aprender como observar os seus prprios desejos com cuidado e honestidade para identificar que tipo de desejo eles so.

Ao prosseguir analisando o presente sob a perspectiva dessas quatro categorias, voc estar seguindo os passos do Buda medida que ele se aproximava da iluminao. Tendo focado no apego como suporte funcional do sofrimento, ele investigou as condies que constituam a sua base e as encontrou em trs tipos de desejo ou sede: desejo pelos prazeres sensuais, desejo por estados de existncia e desejo de destruir estados de existncia. Depois ele identificou a cessao do sofrimento como o total desapego, a cessao e a libertao desse tipo de desejos. E ele identificou as qualidades mentais e prticas que conduziriam a essa cessao entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ao correta, modo de vida correto, esforo correto, ateno plena correta e concentrao correta todos elas podem potencialmente ser encontradas no momento presente.

Portanto, ao invs de simplesmente jogar o momento presente em voc como um todo monoltico, o Buda dirige a sua ateno para quatro coisas significativas que podem ser encontradas ali. Isso porque h um padro nas mudanas que experimentamos momento a momento. A mudana nunca to aleatria ou radical de modo que o conhecimento obtido no passado seja intil no presente. Os conceitos ainda servem um propsito importante, muito embora possam estar carentes do frescor do aqui e agora imediato. Quando voc enfia o dedo numa fogueira, inevitvel que voc se queime. Se voc cuspir contra o vento, inevitvel que volte na sua cara. bom ter em mente lies como essas. Embora os padres que sustentam o sofrimento possam ser mais enredados que aqueles por detrs do fogo e do vento, eles ainda assim so padres. Isso pode ser aprendido e dominado e as quatro categorias da ateno com sabedoria so cruciais para compreender esses padres e dirigi-los para o fim do sofrimento.

Em termos prticos, distinguir entre as categorias s vale a pena se voc tiver que tratar cada categoria de modo distinto. Um mdico que formula uma teoria de dezesseis tipos de dor de cabea s para, por exemplo, trat-las todas com aspirina, estar perdendo o seu tempo. Mas aquele que ao observar que diferentes tipos de dor de cabea respondem a diferentes tipos de medicamentos, e a desenvolver um teste acurado para diferenci-las, estar fazendo uma genuna contribuio para a cincia mdica. O mesmo princpio se aplica s categorias da ateno com sabedoria. Como o Buda declarou no primeiro relato da sua iluminao, uma vez que ele havia identificado cada uma das quatro categorias, ele viu que cada uma tinha de ser tratada de forma distinta. O sofrimento tinha de ser compreendido, a sua causa abandonada, a cessao realizada e o caminho para a sua cessao desenvolvido por completo.

O que isso significa que, como meditador, voc no pode tratar tudo no momento presente do mesmo modo. Voc no pode simplesmente permanecer no-reativo ou simplesmente aceitar tudo aquilo que vier. Se momentos de calma e tranqilidade surgirem na mente, voc no deve simplesmente not-los e deixar que eles desapaream. Voc deve aprender como evolu-los para os jhanas a plenitude do xtase e felicidade da concentrao correta que constitui o ncleo do caminho. Quando o sofrimento mental surge, voc no pode deix-lo ir simplesmente. Voc deve focar todo o poder de concentrao e sabedoria que tiver no momento para tentar compreender o apego que se encontra por detrs daquilo.

O Buda e os seus discpulos ampliam esse ponto em discursos nos quais eles mostram como a ateno com sabedoria deve ser aplicada aos vrios aspectos do presente. Aplicada aos cinco agregados da forma, sensao, percepo, formaes mentais e conscincia, ateno com sabedoria significa v-los de tal modo que induza um senso de desencantamento que ir ajudar a aliviar o desapego (SN XXII.122). Aplicada s percepes de beleza ou irritao, significa v-las de tal modo que impea a alimentao dos obstculos concentrao correta, assim como o desejo sensual ou a m vontade. Aplicada sensao de tranqilidade, o potencial para o xtase, significa v-la de tal modo que ajude a desenvolv-la como um fator para a iluminao (SN XLVI.51).

Mesmo numa categoria em particular, no h apenas uma abordagem que funcione em todos os casos. Num dos discursos o Buda observa que alguns estados mentais inbeis enfraquecem se voc simplesmente observ-los com equanimidade, enquanto que outros requerem um esforo ativo para elimin-los (MN 101). Num outro discurso, ele amplia essa observao recomendando cinco maneiras de lidar com os pensamentos que distraem: substituindo-os por pensamentos hbeis, focando nas suas desvantagens, ignorando-os conscientemente, relaxando a tenso necessria para mant-los e suprimindo-os com a fora (MN 20). Em nenhum discurso, no entanto, ele d regras rgidas para dizer que tipo de pensamento ir responder a que tipo de abordagem. Voc ter que descobrir por si mesmo qual abordagem funciona melhor. Voc ter de descobrir por si mesmo afiando o seu discernimento atravs de tentativa e erro identificando o que funciona e o que no funciona numa determinada situao.

O mesmo princpio se aplica aos estados mentais hbeis. O Buda resumiu o caminho da prtica para o fim do sofrimento nos 37 apoios para a iluminao que esto agrupados em sete conjuntos quatro fundamentos da ateno plena, quatro esforos corretos, quatro bases para o poder, cinco faculdades dominantes, sete fatores da Iluminao e o nobre caminho ctuplo. E mais uma vez, cabe a voc aprender atravs de tentativa e erro qual o modo de conceber o caminho que ser mais benfico num determinado momento da sua prtica.

Isso significa que a aplicao da ateno com sabedoria aos estados mentais hbeis e inbeis no se resume numa nica tentativa para que ela seja produtiva.

As tarefas conectadas com cada uma das quatro categorias da ateno com sabedoria devem ser todas testadas atravs de tentativa e erro e serem aprendidas como uma tcnica. Emprestando uma analogia do Cnone, a perfeita iluminao no uma questo de tomar um arco e flecha e esperar que com sorte se acerte o alvo. O insight que conduz iluminao ocorre atravs da prtica num alvo, at que voc seja capaz de atirar a longas distncias, atirar com preciso uma srie rpida, e penetrar uma grande massa. (AN IX.36).

Como observado pelo Buda no seu primeiro discurso, ele no reivindicou a perfeita iluminao at que tivesse a completa maestria das tarefas apropriadas a todas as quatro categorias. Ao desenvolver por completo os fatores do caminho, ele compreendeu completamente os cinco agregados influenciados pelo apego ao ponto de abandonar todo desejo e cobia por eles. Foi ento que ele realizou o fim do sofrimento. Com isso, as categorias da ateno com sabedoria haviam realizado a sua tarefa na soluo do problema do sofrimento, mas mesmo assim elas ainda tinham utilidade. Como afirmou o Ven. Sariputta, mesmo um arahant perfeitamente iluminado as aplica para desfrutar de uma permanncia prazerosa no aqui e agora. (SN XXII.122).

Em todos esses casos, a ateno com sabedoria significa ver as coisas em relao sua funo o que elas podem fazer enquanto que o ato da ateno com sabedoria em si mesmo um tipo de ao adotada em funo daquilo que ela capaz de fazer pela mente. E o teste para a ateno com sabedoria que ela na verdade eficaz no auxlio para dar um fim ao sofrimento. Quando comparamos isso com os exemplos do Buda para a ateno sem sabedoria, vemos que a ateno no sbia quando interpreta as coisas como ser/existir e identidade, e sbia quando as interpreta como aes e seus resultados. Na verdade, a ateno com sabedoria observa o ser/existir em si como uma ao, com cada ato de ser/existir, ou assuno de uma identidade, sendo avaliado pelo prazer ou dor que ele produz. Quando olhamos para ns mesmos com ateno com sabedoria, focamos no naquilo que somos, mas naquilo que estamos fazendo e em particular se aquilo que estamos fazendo inbil conduzindo ao sofrimento ou hbil, conduzindo ao seu fim.

Este um ponto importante para ter em mente quando refletimos nas duas crticas que com freqncia so formuladas contra as quatro categorias de ateno com sabedoria. A primeira crtica que elas proporcionam uma viso limitada da riqueza e variedade da vida, que elas no abrangem o nmero praticamente infinito de meios hbeis de encarar as experincias. Ao formular uma teoria da existncia, voc poderia argumentar que quanto mais variedade ela contiver, tanto melhor. Mas ao escolher um mdico, voc no gostaria que ele insistisse em explorar uma infinidade de mtodos para avaliar a sua enfermidade. Voc quer algum que foque nos mtodos que tm mais probabilidade de funcionar. O mesmo se aplica ateno com sabedoria. As quatro categorias, com as suas tarefas respectivas, no tm o propsito de abarcar a realidade, mas de focar a sua ateno nos fatores corretos para curar o problema existencial mais bsico. O Buda limita a sua discusso a essas quatro categorias porque ele no quer que voc se distraia do problema que est vista.

A segunda crtica que as quatro categorias so dualistas e, portanto, inferiores a uma viso do mundo no dualista. Novamente, ao formular uma teoria da existncia, voc poderia argumentar, baseado na maior abrangncia do conceito no dual de existncia comparado com o dualista, que uma teoria no dualista seria superior a uma dualista e que, por conseguinte resultaria numa teoria mais unificada. Mas a ateno com sabedoria no uma teoria da existncia. um guia para o que fazer no momento presente. Porque o momento presente to enredado e complexo, as mltiplas categorias oferecidas para a ateno com sabedoria so uma fora ao invs de fraqueza. Ao invs de limit-lo a um modo de compreenso e interpretao dos eventos no presente, elas proporcionam um entendimento mais perspicaz e uma variedade de opes sobre como lidar com os enredos e complexidades do sofrimento.

Ao oferecer alternativas para solucionar um problema, em princpio, nenhuma quantidade de opes em particular superior a qualquer outra. O que importa que as opes sejam suficientemente adequadas para o problema, mas no em excesso de modo a obscurecer a soluo e acabarem se convertendo elas mesmas num enredo. Em outras palavras, as opes tm de ser julgadas, no contra princpios abstratos, mas por aquilo que elas capacitam-no a fazer. Embora o Buda descreva o seu caminho para o fim do sofrimento como a forma de fazer que em ltima instncia d um fim ao fazer, enquanto voc estiver fazendo algo no momento presente, a ateno com sabedoria assegura que aquilo que voc estiver fazendo permanea como parte do caminho: voc sabe quais so os fios do n do sofrimento que devem ser puxados e quais devem ser deixados de lado. E uma vez que voc desembaraar o problema do sofrimento, todo o mais tambm ser desembaraado.

 

 

Revisado: 5 Maio 2007

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