Praticando no Mundo

Por

Ajaan Brahmavamso

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O retiro que acabamos de experienciar foi longo. Esta noite todos vocs estaro indo para casa: de volta aos seus monastrios, para outros lugares, para outras palestras, ou para um outro retiro.

O que realmente estaremos fazendo? Como podemos fazer uso de tudo que criamos neste retiro? A primeira coisa a mencionar que vocs precisam ter muito cuidado ao deixarem este retiro, ao dirigir para casa e retornar para o mundo. s vezes simplesmente no nos damos conta o quo relaxados e tranquilos nos tornamos num retiro como este. Todos aqui esto seguindo na mesma direo, ento no temos muito com que nos compararmos. s vezes pensamos que realmente no aconteceu nada no retiro. Mas garanto a vocs que devido sua perspectiva calma, relaxada e pacfica, quando passarem dessas portas e sarem, o trnsito, o barulho e a agitao parecero a mais completa loucura.

Eu encorajo as pessoas antes de entrarem nos seus carros e dirigirem para casa, que subam e desam as pequenas ruas laterais por alguns minutos, para acostumar-se ao mundo novamente. s vezes muito difcil responder quando algum tenta cortar a sua frente, ou quando os semforos de repente mudam para vermelho, e voc tem que colocar o p no freio muito rapidamente ao invs de dizer: "Solte, solte, solte, sem controle". Ento, por favor, cuidem-se, quando sarem permitam-se tempo para realmente voltar para o mundo novamente.

No sejam Negligentes

Lembro a primeira vez que estive em um retiro. Foi, na verdade, muitos, muitos anos atrs, em um monastrio aparentemente tibetano no norte da Esccia. Eu estava apenas meditando e fazendo as minhas atividades. Todos os demais estavam fazendo o mesmo, assim realmente no notei nada at que sa do retiro e voltei para Londres. Foi realmente chocante como as pessoas eram barulhentas, como elas estavam frenticas, quo alto falavam, e como se moviam agitadamente. Eu no tinha percebido que tinha desacelerado tanto. Ento uma das primeiras coisas que vocs iro reconhecer ao voltarem para o mundo que agora vocs tm algo para se compararem. Eu garanto que vocs descobriro que mudaram muito, muito mais do que seria de se esperar.

Sejam gentis com vocs mesmos ao voltarem para casa. to fcil jogar fora toda a paz, toda a tranquilidade, e toda a sabedoria que ganhamos em um retiro como este. uma pena que s vezes no apreciamos essas qualidades. Ns pensamos que uma vez que tenhamos desenvolvido essas qualidades maravilhosas: quietude, silncio, paz, satisfao interior e liberdade, elas sempre vo estar presentes. E por isso ns realmente no as mantemos, no as protegemos. Os Quatro Esforos Corretos precisam ser trazidos mente. O quarto esforo talvez o mais importante, como se o Buda tenha deixado o melhor para o final. Esse quarto esforo correto quando o praticante se esfora, estimula a energia, e aplica a mente para manter, desenvolver, e ajudar a crescer, todos os estados mentais saudveis, hbeis, que surgem na mente. Ns cuidamos deles e os mantemos, para que eles possam crescer mais fortes. s vezes, fazemos todo o esforo para manter afastadas as coisas ruins, fazemos todo o esforo de cultivar, e trazer as coisas boas, mas assim que elas esto presentes, ficamos negligentes e permitimos que elas desapaream.

Por causa das caractersticas de sofrimento, impermanncia e no-eu, e por causa das contaminaes no mundo, a bondade muito frgil. Ela precisa ser cultivada e mantida segura. Caso contrrio, pode muito facilmente ser subjugada e perdida, simplesmente pelas foras destrutivas do mundo. Sabemos que as coisas como a paz e o amor, a bondade e a liberdade, to fcil perd-las no mundo, porque somos negligentes. por isso que o Buda disse, para no sermos negligentes, para ter cuidado e proteger os bons estados, os estados bondosos, os estados preciosos, que desenvolvemos.

Quando deixarem este retiro, vejam se vocs conseguem proteger essa jia preciosa que lhes foi dada. muito preciosa. No importa quanto vocs tenham avanado na sua meditao, alguma coisa foi obtida. Eu garanto isso. Eu sei disso. Vocs experimentaram um estado de paz, um estado de liberdade. apenas um gosto de liberdade - mesmo que esse gosto de liberdade possa parecer ser apenas a luz no fim de um longo tnel - vocs chegaram mais perto do que vocs normalmente estariam. Vocs a viram por vocs mesmos. Sim, existe tal coisa como a liberdade, a paz e contentamento, e nisso realmente se encontra a felicidade. Se ns a cultivarmos, se a cuidarmos e a mantivermos o maior tempo possvel, ento, essa paz, liberdade, essa sabedoria no interior do corao, cuidar de vocs na vida diria.

Nosso Verdadeiro Lar

Na vida leiga trabalhamos muito duro, fazemos todas as nossas tarefas e deveres, mas ns sempre temos um lugar para voltar. No entanto, Ajaan Chah dizia: "Nosso verdadeiro lar a paz interior". O nosso lar no a casa em que vivemos, ou o kuti, que um monge ou um anagarika habita. O nosso verdadeiro lar est dentro de ns mesmos. Podemos ver isso na meditao. s vezes sentamos e vamos para o interior da mente, e nos sentimos to felizes quanto possvel. Ns no queremos nada. Podemos realmente descansar e relaxar, nos sentirmos confortveis. Um lar se supem ser um lugar de conforto, um lugar onde podemos relaxar. Em casa, podemos abrir mo, soltar, no temos que lutar com o mundo. No h nada pedido ou exigido de ns, podemos realmente descansar e estar em paz. Para isso que construmos as nossas casas.

Infelizmente, muitas casas so lugares de conflitos e brigas, e ainda pior, de tumulto. Isso no um verdadeiro lar. O que queremos dizer com o lar ideal, o lar real, o refgio no Buda, Dhamma e Sangha, que tomamos profundamente dentro de ns mesmos. Um refgio significa: um lugar de paz, um lugar de liberdade do perigo, um lugar de segurana, um lugar onde no h mais medio. O lar um lugar onde podemos ser ns mesmos, estarmos em paz, estarmos vontade, no sermos nada, apenas o vazio e liberdade.

O objetivo da meditao fazer com que entremos em contato com o nosso verdadeiro lar, o lugar de quietude dentro de ns. Percebemos que o nosso verdadeiro lar est conosco o tempo todo. Mas como vamos chegar l? A porta do nosso corao est aberta para ns, no importa o que faamos. Liberdade, amor, compaixo, quietude, no controlar, abrir mo, soltar, a porta para o lar dentro de ns. No conseguimos entrar medindo e julgando. Entramos com a quietude e sem pensar. Assim passamos pela porta do nosso lar interior, onde podemos estar de acordo com a nossa vontade, a qualquer momento.

Se conhecemos esse lar, esse lugar, isso significa que quando samos de l para o mundo, onde trabalhamos duro, nos esforamos e lutamos para o bem de outros seres, pelo menos temos um lugar para onde voltar, um refgio, um lar. Quando no temos esse refgio, esse lar, no sabemos como escapar do tumulto da vida.

Nos suttas, o Buda diz que devemos saber a gratificao, o perigo e a escapatria dessas coisas mundanas. Podemos entender a gratificao, podemos entender o perigo dos caminhos mundanos, mas por favor, saibam tambm como escapar. Eu lhes ensinei a escapatria: ir para o lar interior. Assim, conhecendo esse lar interior e tendo se familiarizado com ele, podemos sempre voltar a qualquer momento. um lugar de descanso, o refgio real do Buda, Dhamma e Sangha. Aquele que v o Dhamma v o Buda, no Gotama o Buda, que faleceu em Nibbana milhares de anos atrs. Vemos o Dhamma dentro do nosso corao, aquele estado de liberdade, de conhecimento, o despertar, a libertao, que o refgio real. Isso o que nos conecta, e todos os demais, aos Ariyas do mundo: a 'Ariya Sangha dentro do corao'. Por isso um refgio, porque est no fundo do nosso ntimo. Sabemos que um refgio, porque no importa o que estejamos fazendo l fora no mundo, sempre podemos voltar para o nosso lar e colocar os ps para cima e tomar uma xcara de ch, como se fosse. Podemos voltar para casa e realmente relaxar no refgio do nosso verdadeiro lar.

Quando samos de casa todas as manhs - no me refiro nossa casa, quero dizer o nosso lar interior - samos para os nossos deveres e para o trabalho. Mas sabemos que sempre temos um lugar para voltar, um lugar de descanso e paz. Isso o que fazemos no mundo. Esta tarde irei para Sydney. Vou trabalhar l, mas levo o meu lar interior comigo. A qualquer momento, se nos sentimos cansados ou estressados, podemos voltar para o nosso lar interior. um recurso maravilhoso. s vezes, como um monge snior, fao muitas coisas, e me sinto muito cansado fisicamente. Ento, o que precisamos fazer s ir para o lar interior e descansar por um tempo. Quando samos podemos estar to lcidos, to calmos e to claros.

disso que vem o Dhamma, do lar interior. Lembro que uma vez, h muitos anos, fui a Canberra para dar algumas palestras. Canberra um lugar muito frio e mido. No tendo estado l antes, claro, eu no levei as roupas apropriadas para o frio. Depois de apenas um par de dias eu peguei um forte resfriado. As pessoas em Canberra insistiram em me levar para visitar um monastrio em Bundanoon, apenas para passar o dia. As pessoas nesse monastrio insistiram em manter-me l at muito tarde, e para se despedirem, elas organizaram toda uma cerimnia para dizer adeus. Quando finalmente votei para Canberra, onde deveria dar uma palestra, eu no tinha tomado banho, no tinha feito a barba, e tinha apenas cerca de quinze minutos para tomar uma xcara de ch. Eu tinha que dar uma palestra pblica e me sentia absolutamente terrvel. Meus olhos estavam lacrimejando, meu nariz estava escorrendo, eu estava espirrando e tossindo. Eu estava com um forte resfriado. Mas eu tinha que dar a palestra. Lembro-me de comear a palestra, mas foi absolutamente impossvel. Eu simplesmente no conseguia manter uma linha de pensamento antes de espirrar e meus olhos lacrimejarem. As pessoas estavam com pena de mim, ento eu disse, "Ok, vamos parar a palestra e meditar por meia hora". Ns meditamos por meia hora e eu fui para o meu lar interior. Depois que a meditao terminou, mais tarde me disseram, dei uma palestra realmente brilhante. Meu nariz parou de escorrer. Eu parei de espirrar. Meus olhos pararam de lacrimejar, e eu me senti to feliz quanto poderia estar. Esse o recurso que temos disponvel, no importa o que esteja acontecendo. s vezes tenho que lidar com o estresse do corpo, e at mesmo com o estresse do mundo, mas o meu recurso o meu lar interior. Ao irmos para o mundo temos esse lugar, um recurso, um refgio. Podemos usar esse refgio habilmente.

Um Lugar Sagrado

Encorajo todos os Budistas a terem um lugar em suas casas, se no for um quarto, pelo menos um canto na casa, que seja o seu santurio, seu canto religioso. s vezes, vejo como os banheiros so grandes. Alguns feitos com mrmore, com torneiras extravagantes. Para que so usados? As pessoas usam esse local para limpar seus corpos!

As pessoas tambm tm essas cozinhas incrveis, salas de estar, salas de jogos, salas de TV, e salas de jantar, quartos enormes, gigantescos, do tipo sute. Mas muito poucas casas tm um quarto espiritual. Um quarto reservado s para o cultivo da prtica do Dhamma, ou da prtica religiosa. As pessoas no tm um refgio espiritual nas suas casas, um lugar onde no limpem os seus corpos, mas limpem as mentes. Um lugar onde no estejam alimentando o estmago, mas que alimentem o corao. Eu acho que isso to necessrio no mundo de hoje, ter uma sala de meditao, um santurio - um lugar de apenas paz e silncio.

Se vocs realmente no tm um quarto nas suas casas para fazer isso, perguntem a si mesmos: "Eu preciso de todas essas outras salas?" Elas so realmente to importantes assim, um escritrio e todo o demais? Coloque o escritrio em um canto do seu quarto, e coloque a sua sala de meditao no lugar do seu escritrio. O que mais importante? Mas se voc no tem um quarto disponvel, pelo menos, use um canto de algum quarto silencioso, um espao tranquilo, onde voc possa colocar a sua esttua do Buda, ou as suas fotografias, e os seus livros do Dhamma. Tenha isso como um espao sagrado em sua casa, um lugar onde voc pode ir a qualquer momento. Depois de um tempo, meditando l regularmente, recitando, mesmo lendo livros do Dhamma, esse lugar acumula poder e se transforma num ponto de energia na sua casa. Um lugar onde voc pode simplesmente sentar, porque a nica coisa que voc faz ali : meditar, recitar, ler livros do Dhamma, aquietar. Esse lugar se torna psicologicamente habilitado como um lugar de paz.

Tenho ensinado desta forma por muitos anos, encorajando as pessoas a criar esses espaos nas suas casas, ou no canto de algum quarto. Algumas pessoas me contaram histrias incrveis sobre o que acontece quando tm esses lugares tranquilos. Sempre que ficam nervosos, ou tensos, ou tm uma discusso com a esposa, ou o marido, elas simplesmente se retiram para o seu canto tranquilo e sentam-se para meditar por algum tempo. Isso salva muitos casamentos, e muita dor. Uma famlia me disse certa vez, que o filho e a filha estavam tendo uma discusso, uma briga. O filho bateu na filha, ou algo parecido, em vez de bater de volta, ela correu para o quarto de sua me, sentou no lugar sagrado e meditou por alguns minutos. Os pais ficaram muito impressionados, porque nunca tinham lhe ensinado a fazer isso. Ela simplesmente sentiu que quando estivesse muito decepcionada, ou com muito medo, ou muito tensa, aquele era o lugar para ir. maravilhoso para a sua famlia poder ter um lugar como esse, para que as pessoas da sua famlia, alm de voc mesmo, o seu parceiro ou filhos, tenham um lugar, um refgio, que os recorde do seu lar interior.

Quando temos um lugar na casa, que um local sagrado, devemos nos certificar que o local no seja usado para nenhuma outra atividade. Por favor, respeitem a sacralidade da rea. No usem o local para ouvir o rdio ou CDs, ou para escrever livros, ou qualquer outra coisa. um lugar sagrado, um lugar para no fazer nada, um lugar de relaxamento. Em qualquer outro lugar do mundo temos que fazer esforo, temos que exercer o controle, temos que fazer nossos deveres, e fazer o trabalho que esperado de ns. Temos que suportar pessoas tolas dizendo para fazermos coisas estpidas. Mas o fato que quando vamos para o nosso cantinho, ali podemos estar em paz e abrir mo, soltar. o nosso pequeno monastrio, o nosso pequeno refgio, o "Pico do Abutre" em nossa casa, e isso ajuda muito. Esse um conselho hbil para vocs.

s vezes, podemos encontrar um local adequado, mesmo quando no estamos em nossa prpria casa, mesmo quando estamos no nosso local de trabalho. Li recentemente sobre uma pessoa que fez uma coisa muito hbil para poder meditar no trabalho. Essa pessoa no conseguiu encontrar um lugar para meditar. Ela no conseguia sentar e meditar no seu escritrio, porque vocs sabem como o mundo. Voc est sentado em seu escritrio sem fazer nada, e com certeza algum vir para pedir alguma coisa. Eles no vo deix-lo sozinho, porque todo mundo est ocupado e ao verem que voc no est fazendo nada, ento porque voc est disponvel. No livre em paz, mas livre para ajud-los. "Voc no est fazendo nada no momento, voc pode nos dar uma mo?" Eles no percebem que no fazer nada e meditar pode ser to importante e valioso. As pessoas no respeitam a paz em nossa sociedade, elas pensam que uma evaso. por isso que as pessoas ocupadas tendem a fazer as outras pessoas se ocuparem, porque elas no respeitam a tranquilidade. Ento aquela pessoa decidiu que a cada hora ela iria fechar os olhos e meditar por um minuto. No poderia ser exatamente no intervalo de uma hora, porque se houvesse uma conversa telefnica, ou uma reunio com um cliente, ou algo assim, ela teria que adiar por algum tempo. Mas, a cada hora ela sempre meditava por um minuto. Ela fechava os seus olhos, sentada no seu escritrio, apenas ficando quieta e apreciando a ateno no momento presente, o silncio e a respirao. Isso lindo. Ela s tinha um minuto de silncio e quietude. Funcionou to bem que as pessoas que passavam, vendo-a com os olhos fechados, pensavam que ela estava pensando em alguma coisa, ou tomando alguma deciso.

As pessoas no sabiam o que ela estava fazendo. Como no era por muito tempo, elas no a incomodavam. Ela tinha um minuto de paz a cada hora de trabalho. No seu escritrio, ningum sabia o que ela estava fazendo, e ela conseguiu o que queria. Imaginem se vocs fossem para o escritrio e sentassem de pernas cruzadas num canto, o seu chefe viria e diria: "Ns no estamos lhe pagando para fazer isso, volte para o seu computador e trabalhe." Mas no foi isso que aconteceu. Ela s tomou um minuto de silncio a cada hora, na sua escrivaninha, de modo que ela estava continuamente em repouso. Depois de 59 minutos de trabalho duro, ela fazia uma pausa de um minuto para se recompor, e para ficar quieta. Essa pessoa descobriu que tinha muito mais ateno plena durante os 59 minutos seguintes e assim a sua produtividade aumentou. Ela estava mais alerta, percebia os problemas com mais rapidez, na verdade uma funcionria mais eficiente depois do minuto de silncio.

Boa Gesto

Muitos anos atrs, eu estava na Tailndia, num voo domstico de Ubon para Bangkok. Me foi dado um exemplar do jornal Bangkok Post, e na seo de atraes havia um artigo sobre o Hotel Mandarin Oriental, em Bangkok. Esse um hotel muito famoso. Naquele ano, eles ganharam um prmio, como o melhor hotel do mundo! As pessoas na Tailndia ficaram muito, muito impressionadas, e satisfeitas com esse grande prmio para um de seus hotis. Ento, por causa disso, vrios artigos foram escritos sobre o Hotel Mandarin Oriental.

O autor daquele artigo em particular entrevistou o gerente, e perguntou: "Por que o seu hotel ganhou esse grande prmio este ano? Qual o seu segredo? Diga-nos algumas das coisas que voc faz para tornar o seu hotel bom o suficiente para ganhar um prmio internacional". Uma das coisas que o gerente disse que fazia era a cada ano enviar cada membro da sua equipe - os porteiros, pessoal de limpeza, concierge, os cozinheiros, e os gerentes - para um monastrio para meditar por uma semana. No era tempo descontado das frias, era por conta da empresa. Ento, lhe perguntaram por que ele fazia isso. O entrevistador quis saber se ele era um Budista fundamentalista, querendo converter todos da sua equipe. "No", ele respondeu, e passou a explicar que isso era simplesmente um princpio bsico de boa gesto. Meditar durante uma semana no monastrio resultava em que a equipe no tinha licena mdica tantas vezes, e eles no ficavam to irritados uns com os outros. No havia conflito na fora de trabalho, e eles tambm eram muito mais sensveis s necessidades dos hspedes do hotel. So apenas pessoas melhores, pois so pessoas mais felizes. Gerir um hotel, voc no quer que as pessoas que esto trabalhando estejam mal-humoradas o tempo todo, voc quer que os hspedes sejam recebidos com um sorriso. Voc deseja ver as pessoas felizes, como resultado elas trabalham melhor. um princpio bsico de boa gesto enviar os colaboradores para um retiro de meditao, uma vez a cada ano.

uma pena eu no ter guardado uma cpia do referido artigo. Vocs poderiam tirar cpias para mostrar para o chefe de vocs. Assim, no prximo ano, vocs poderiam vir a este retiro pago pela companhia. Vocs poderiam dizer ao seu chefe: "Por favor, voc pode pagar os 230 dlares? do seu interesse!" O ponto da histria que o gerente do hotel valorizou os resultados da meditao na vida diria. Ele realmente pode v-los no prmio que o hotel ganhou naquele ano. Ele pode v-los na maior eficincia, ateno e sensibilidade da sua equipe. Qualquer tipo de trabalho em que estejamos, tendo essa atitude, o trabalho feito mais rapidamente e com mais alegria. Quer seja: o trabalho de um abade, o trabalho de um anagarika, o trabalho de me, o trabalho de marido, o trabalho de gerente, ou o trabalho de lavar pratos; qualquer coisa que faamos, iremos descobrir que somos mais eficientes.

Quando compreendemos as coisas desta forma, podemos ver as conexes entre a meditao e o trabalho. Por vezes, no h uma diferena to grande de um para o outro. Descobrimos que podemos trabalhar de forma mais eficiente com uma mente clara e pacfica, isso torna a meditao valiosa. Percebemos o seu valor, no apenas para o Despertar, mas na verdade para nos conduzir pela vida. Isso significa que realizamos mais.

A Felicidade da Meditao

Uma das coisas que eu sempre enfatizo com relao meditao a felicidade da meditao. A inteno da meditao ser divertida. A meditao deve ser divertida. Na noite passada, um dos monges me contou uma histria sobre Ajahn Mun que eu nunca tinha ouvido antes. Ajaan Mun era um grande mestre Tailands de meditao. Um monge que havia passado muito tempo com ele, e o conhecia muito bem, disse que ele tinha um grande senso de humor, e que ria muito, uma grande risada, uma risada contagiante. Eu nunca soube disso acerca de Ajaan Mun. Mas faz muito sentido, porque isso que os Arahants fazem, eles riem muito e sorriem muito. Eu sei que isso um pouco atrevido, mas s vezes eles so chamados de 'Ha Ha Harahants'. Eu vou entrar em apuros por isso, mas no me importo. Foi muito bom ouvir essa histria.

A felicidade uma coisa importante na meditao. Se voc sentir felicidade na sua prtica de meditao, sempre ir querer meditar. No o caso de se levantar pela manh e dizer: "Ah, tenho que fazer a minha meditao agora. Devo tirar isso da frente para poder tomar o caf da manh." Voc sabe como ? Voc faz a sua meia hora todos os dias como se tomasse um remdio. No nada disso. Se voc realmente entende o que a meditao, voc ama fazer meditao. Voc s quer fazer isso. s vezes, voc tem que tirar da frente o caf da manh para meditar, ou voc tem que tirar da frente o seu trabalho para meditar. Voc senta na sua cadeira, ou no seu banco, ou na sua almofada, e a sua mente salta sobre o silncio. O Buda disse que quando a mente salta ou pula sobre a quietude, a tranquilidade, a calma, o no-fazer, esse um importante estgio no caminho da sabedoria, no caminho para a iluminao.

Espero que eu tenha condicionado muitos de vocs forte o suficiente para perceber o quo bonito o silncio. Para que em momentos durante o dia, quando vocs no tenham nada para fazer, a sua mente salte para a oportunidade de quietude, em vez de tentar preencher essas lacunas com coisas estpidas, coisas inteis, que so apenas distraes irracionais. A mente agarra a chance, vai para a quietude, estabilidade, paz e liberdade.

Esse o sinal de um praticante, algum que est no caminho. Esse o sinal de algum que tem sabedoria suficiente para que a sua mente reconhea o que de seu prprio interesse. Para que no perodo da manh, ou noite, a mente apenas salte para a sua almofada de meditao. Sua meditao no um medicamento, no algum tipo de castigo, no algum tipo de penitncia, simplesmente algo que voc quer fazer. A razo porque algumas pessoas que so crists no vo igreja, porque isso chato, elas no gostam de ir. Porque domingo, elas no saltam e dizem: "Vamos para a igreja, vamos l e ouvir um bom sermo". Isso se tornou chato e frio. por isso que as pessoas se afastaram das igrejas no Ocidente. As pessoas tambm iro se afastar da meditao e parar de meditar rapidamente, a menos que se divirtam com isso.

Assim, desenvolver a diverso na meditao em casa e aqui, onde quer que estejamos, a maneira de dar continuidade a essa prtica. Pouco a pouco, dando continuidade prtica no mundo, mantendo-a por conta da diverso, por conta da paz, por conta de um lugar de liberdade. No temos outra escolha. Algumas pessoas dizem, e eu entendo isso muito bem, porque era igual quando eu era um leigo, que se voc no meditar por um dia, como no comer. Seu corao se sente doente, sem fora, e voc fica mal-humorado, fica irritado, porque voc no est recebendo esse alimento de felicidade. No importa se as pessoas disserem que voc est viciado na meditao. timo! Seja viciado na paz, na felicidade. Seja viciado na liberdade, no existe vcio melhor.

Algumas pessoas dizem que no devemos nos apegar a essas coisas, e elas citam o smile da balsa. O Buda disse que a balsa era s para atravessar o rio de uma margem para a outra, mas que no devemos nos agarrar balsa (MN 22). Temos que soltar da balsa uma vez que tenhamos atravessado para a outra margem. Mas claro que no devemos jogar fora a balsa no meio do rio! Isso o que muitas pessoas fazem. Portanto agarre-se a essa balsa, apegue-se meditao, apegue-se aos preceitos, e apegue-se bondade.

Entendam deste smile a importncia dos estados pacficos, a importncia da bondade, e ento receberemos nossa recompensa. Lembrem-se dos preceitos. Lembrem-se da bondade, da generosidade, da gentileza, do altrusmo que tenhamos feito ao longo do ano. Em seguida, receberemos o pagamento na nossa meditao. O pagamento a mente bela. Voc entender que esta mente bela a razo porque mantemos os preceitos, porque somos generosos, por isso que damos, por isso que damos de ns mesmos, por isso que perdoamos os outros, e porque perdoamos a ns mesmos. tudo parte de dana, tudo parte da generosidade. Por isso que praticamos o amor bondade e damos s pessoas o benefcio da dvida. Ns damos a nossa felicidade e compartilhamos nossos mritos com os outros. Por que fazemos isso? Fazemos isso porque vemos que isso realmente faz esta mente to bela. Sentimos isso no dia a dia, temos algo dentro de ns do qual nos sentimos muito, muito orgulhosos. bom sentir orgulho da bondade.

Aquilo que Digno de Louvor

A bondade digna de louvor. A boa meditao digna de louvor, e por isso que devemos louvar a ns mesmos. Diga para si mesmo como a meditao boa, como maravilhosa. Assim voc ir fazer isso de novo, e de novo. A mente se alimenta de louvor, se alimenta de alegria. Use isso como um dos meios hbeis, para incentivar-se mais, e mais, e mais. Ns at temos uma palavra no Budismo: Sadhu, Sadhu, Sadhu, muito bem, muito bem, muito bem! Vocs j ouviram isso tantas vezes.

No Budismo usamos o louvor, o encorajamento, porque isso funciona. Ento venere aquilo que digno de venerao. No elogie as pessoas tolas, no louve as estrelas do esporte que ganham trofus, ou as estrelas do cinema, ou o que quer que seja. Se algum ganha uma guerra, no louvem esse tipo de coisa. Louve aqueles que so dignos de louvor. No vale a pena elogiar as qualidades do mundo. Se voc se tornar um milionrio, isso no digno de louvor.

O que digno de louvor? Algum que acabou de dar flores no templo, ou algum que se dedica meditao, so dignos de louvor. Talvez, tenha sido a primeira vez que ele esteve num retiro, e se sau to bem. Isso digno de louvor. Algum que pela primeira vez tenha mantido a mente no momento presente, mesmo que apenas durante parte do tempo durante este retiro de nove dias, isso digno de louvor. Louvado seja o que digno de louvor. Trabalhe naquilo que verdadeiramente vivel, e ento encoraje-se, incentive as boas qualidades no mundo. Isso significa que a meditao se torna forte. A bondade se torna forte. A virtude se torna forte. No s significa que o nvel de felicidade na vida aumenta, mas tambm significa que quando voc vem para um retiro de meditao, todo o trabalho de base j foi feito. Voc vem para o retiro no com as mos vazias, mas com todas essas grandes qualidades espirituais, com essa grande riqueza espiritual, com toda a bondade que voc fez.

Praticando a Virtude

Nas meditaes profundas, especialmente nos estgios dos nimittas e dos jhanas, a mente se torna poderosa, forte e bela. Mas os nimittas tambm podem surgir mais cedo do que o esperado; eles brotam da respirao, simplesmente porque so demasiado poderosos para serem ignorados. Mas se os nimittas no surgem, ou se quando surgirem forem muito fracos, isso pode significar que a sua mente no pura o suficiente, no forte o suficiente. A mente no tem poder suficiente atravs da bondade, da virtude, da pureza, da fora. Quando se percebe isso, tambm se compreende que os preceitos no so observados apenas para renascer no paraso. No se pode meditar e simplesmente esquecer os preceitos como sendo um "adendo cultural" ao Budismo. No observamos os preceitos s porque diz isso nas escrituras, ou porque um monge disse isso. Pode ser visto em primeira mo, que uma das razes pelas quais temos que manter esses preceitos para ter sucesso na meditao.

Quando vemos essa conexo em primeira mo, tambm vemos a importncia de no somente manter os preceitos, mas tambm de realmente fazer o oposto da violao os preceitos. O oposto de matar ajudar as pessoas, salvar a vida das pessoas, e aliviar a sua dor cuidando delas. Compaixo o oposto da morte. O oposto de roubar a generosidade, no apenas no tirando dos outros, mas tambm dando aos outros. O oposto de adultrio o compromisso fiel, manter as nossas promessas. O oposto da mentira ser honesto e sincero, e falar gentilmente um com o outro. Nunca dizer uma palavra que voc no goste venha ser dita para voc mesmo. E, por ltimo, o oposto de tomar bebidas alcolicas e drogas que obscurecem a mente desenvolver a ateno plena, e praticar a meditao, que clareia a mente.

Nossa prtica da virtude no apenas evitar o mau, tambm fazer esforo para fazer o bem. um aspecto ativo de nossas vidas, apoiando: a comunidade, a BSWA, o monastrio, nossos pais, os idosos, ou qualquer outra coisa que possamos fazer. Ns, na verdade, samos e fazemos alguma coisa em vez de pensar: "Olhe para mim, eu sou to bom, eu no mato, eu no roubo, eu no cometo adultrio, no minto, eu no tomo lcool e drogas. Eu no falo com ningum. Eu fico s na minha pequena casa durante todo o dia e toda a noite". Mas isso no bom o suficiente! Ser?

Aqueles de vocs, que me conhecem h muito tempo, sabem o quo ocupado eu tenho estado, especialmente nos primeiros anos de construo do nosso monastrio em Serpentine. Isso realmente foi um trabalho rduo, trabalhando todos os dias desde o incio da manh at tarde da noite, e depois tomar banho no lago frio, com o vento como um fator adicional de resfriamento. Costumvamos trabalhar o dia todo e quase no dormamos porque ficvamos ao relento com o vento. Acordvamos no meio da noite e ficvamos acordados durante o resto da noite. Nas noites de sexta-feira, costumvamos ir para o nosso pequeno centro na cidade, no norte de Perth. Eu aguardava esse dia ansiosamente, porque primeiro antes de tudo poderia tomar um banho quente pela primeira vez na semana, e limpar toda a sujeira, e depois, poderamos ter um bom sono para nos recuperarmos.

Foi uma poca muito difcil, e s vezes eu pensava que estava sacrificando a minha meditao. Eu pensava que estava trabalhando demais, e no tendo tempo para mim. Sempre que voltvamos noite, simplesmente desmaivamos at as quatro horas da manh, para ento sairmos da cama para mais um dia de trabalho. Foi to difcil. Eu pensava que no estava fazendo nenhum progresso. Mas a surpresa veio quando eu tive uma semana de folga. Quando me sentei para meditar, fui direto de volta para os nimittas belos, e tive uma bela meditao. Num primeiro momento no pude acreditar. O que est acontecendo? Eu no tinha estado meditando faziam semanas, meses, realmente no de forma contnua. Eu tentava, mas sempre estava muito sonolento. Mas assim que tive algum tempo, tudo voltou novamente. Na poca, eu no entendia muito bem porqu.

Por que foi to fcil meditar aps um perodo to longo de trabalho rduo? claro, foi porque eu tinha acumulado virtude, aumentado o poder da mente. Eu estava sendo altrusta, dando-me para um dos maiores atos de bom kamma no mundo - a construo de um monastrio. Foi um imenso ato de bom kamma. Eu estava realmente ajudando, eu estava colocando todo o meu esforo, e tambm realizando enormes quantidades de bom kamma. Assim, quando parei de trabalhar a mente bela estava l, e ela simplesmente brotou na minha mente.

Na poca compreendi, como percebi vrias vezes desde ento, que no perdemos nada por dar aos outros. No como se perdssemos energia, ns ganhamos mais energia. As pessoas s vezes dizem, "Ajaan Brahm trabalhou to duro no retiro, deu duas palestras por dia, alm de todas as entrevistas". Se forem contadas as horas que dei, foi na verdade um monte de horas. Na verdade, no mercado de trabalho, provavelmente ningum esperaria que algum trabalhasse tanto. No entanto, eu recebo tanta felicidade disso. Se recebemos felicidade, ento um bom kamma, e sempre que voc parar, entrar em um espao belo. Eu adoro fazer esses retiros. So as minhas frias, porque tenho meditaes belas. Temos a oportunidade de iluminar as nossas mentes ao dar ainda mais.

Samadhi Acompanhado pela Virtude

No faam tanta distino entre a meditao e a vida l fora. Faam da vida l fora um apoio para a meditao. Mantenham seus preceitos, mas tambm faam coisas boas. Prestem servio comunidade. Depois s observar a respirao e voc ir descobrir que esses estados mentais belos iro surgir. Tanta pureza! Tanta inspirao! Uau! Isso to bom, de onde veio isso? Isso veio de todo altrusmo, toda generosidade, do corao puro. O Buda disse que a meditao de samadhi, quando acompanhada pela virtude produz grandes frutos, grandes benefcios. Podemos entender que quando a virtude est por trs da meditao, e a bondade sendo forte, ento a sabedoria vem de samadhi. a prtica suportada pela sabedoria, que conduz destruio das impurezas da mente, das contaminaes, da ignorncia.

Portanto, como praticantes devemos treinar a virtude, torn-la completa. Devemos praticar a meditao. Complet-la. Devemos praticar a sabedoria e torn-la completa para realizar a iluminao. Mas, certamente, vocs podem ver como a virtude suporta samadhi. Assim, vivendo no mundo podemos praticar a meditao, praticando aquilo que lhe d suporte, certificando-nos que somos virtuosos e bons.

Assim como vocs devem levar de volta para o mundo aquilo que aprenderam neste retiro. H sempre ocasies em que podemos praticar a virtude. H sempre algum no escritrio, em casa, ou algum que voc conhece, que precisar do seu tempo, que voc pode ajudar. No pense que voc est negligenciando a sua meditao. O que voc est fazendo construir os suportes para a meditao, a construo de suportes para a liberdade, a construo de suportes para nibbana.

O Buda disse que mesmo os monges e as monjas no devem deixar de fazer mritos, fazer pua. Quando ouvi isso pela primeira vez fiquei surpreso. Pensei na poca que mritos era exatamente o que os leigos fazem. Pensei que no Budismo tradicional, ir aos templos, oferecer dana, observar os cinco preceitos e recitar, eram coisas de pessoas leigas. Mas isso tambm so coisas dos monges, so coisas de todos. Isso capacita a mente, e os frutos sero colhidos na meditao. Em retiros como este, vemos o quadro geral. Vemos como a meditao, a virtude, conduz sabedoria, ao insight e como isso conduz verdadeira liberdade. Isso conduz libertao das contaminaes, a libertao das asavas, as impurezas da mente, livre do renascimento, e no final livre de samsara. Quer seja um monge ou um leigo, uma vez que vejamos o problema, uma vez que vejamos o que est realmente acontecendo, ento vemos onde a felicidade, a verdade e a liberdade realmente esto.

Chega um ponto em que no podemos nem mesmo esquecer esses ensinamentos, um ponto em que realmente no podemos jog-los fora. Eles sempre voltam, de novo, e de novo, e de novo. Uma pessoa que eu conhecia veio para a BSWA logo no incio mas depois foi embora e no praticou durante trs ou quatro anos. Depois, ela voltou novamente, e disse: "Sabe, mesmo que eu tentasse, eu no poderia esquecer esses ensinamentos". No podemos coloc-los de lado. O que acontece que eles ficam gravados dentro de ns, como o reconhecimento de uma verdade, o reconhecimento da verdadeira felicidade, e do caminho para a liberdade. J aconteceu comigo e isso tambm j aconteceu com muitos de vocs na sua meditao, que parece to pura, que promete essa liberdade. Voc pode no ser capaz de apontar o dedo para o que , e explic-lo para voc mesmo de modo to claro, mas isso real, est l.

Um Momento de Paz

A primeira vez que meditei foi incrvel! Os primeiros dez minutos esto gravados na minha memria para sempre. Foi no Wordsworth Room no Kings College da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Mesmo agora, eu lembro a sala, onde, pela primeira vez fiz meditao. Eu no entrei nos jhanas ou algo parecido, mas simplesmente me senti muito bem. Foi to pacfico, e daquele momento em diante fui fisgado. estranho como esse momento de paz parecia to familiar, o que nos mostra que, espera a, este o caminho para a paz. a coisa mais pura que j vi, esta a verdadeira liberdade.

O Buda disse: "experimentem a liberdade". Quando temos apenas o gosto dessa liberdade, ela permanece na nossa mente para sempre. preciso desenvolv-la e cultiv-la, at que tenhamos no s o gosto, mas toda a refeio. E essa refeio cumpre o seu papel, preenchendo a mente com sabedoria, e dando a libertao plena e verdadeira. Assim, cada um de ns - quer seja monge ou leigo - estamos nesse caminho para nibbana. Ns j fomos longe demais para pararmos.

Quando vocs tiverem provado uma meditao profunda, vocs tero provado algo que excede em muito o poder, a felicidade e a liberdade de qualquer outra coisa no mundo. A mente se inclina na direo disso. A mente sempre volta, s vezes aos trancos e barrancos, para revisitar a experincia. s vezes a mente se perde e no encontra o caminho de volta. Mas no ser capaz de desistir. A mente no ir ser capaz de abandonar a tarefa. Ela vai continuar se inclinando na direo de nibbana. A experincia vai mudar o seu estilo de vida, pouco a pouco. Voc muda o seu estilo de vida para se ajustar ao caminho para nibbana.

Voc no ir encontrar oportunidades suficientes para ajudar as pessoas, ou para praticar a generosidade, e voc encara isso como sendo um privilgio, no uma obrigao. Se voc participar de um comit isso ser um privilgio. Se for ajudar a comunidade de alguma forma, voc diz: "Obrigado por me convidar, uma coisa maravilhosa que eu possa fazer isso por outra pessoa". Voc pratica bons atos e generoso, porque isso uma coisa maravilhosa de ser feita.

No Budismo algumas vezes dito que aqueles que entraram na correnteza (sotapanna) tm que ser cuidados pela Sangha. Na poca do Buda, certa vez houve o caso de uma famlia, que se supunha serem sotapannas, que sempre davam muito para a Sangha na coleta de esmolas. Eles eram muito pobres e no tinham muito o que comer. As pessoas comearam a criticar os monges, dizendo: " bom que vocs recebam essas coisas, mas essas pessoas, elas mesmas no tm o suficiente para comer". Ento, o Buda convocou uma reunio e estabeleceu uma regra para esse tipo de situao. A Sangha concordou que, nessas circunstncias deveriam ter compaixo com a famlia, e no aceitar muito deles. Algumas vezes acontece isso quando algum tem muita f. A pessoa acha que muito melhor dar a sua comida para a Sangha, do que ela comer. muito melhor passar fome. "Por favor, aceite. Fico to feliz em dar, eu posso comer num outro dia, ento por favor me d a oportunidade de fazer mais mritos. Por favor! Por favor!"

Assim, os monges tiveram que dizer, "Agora espere, o Buda disse que no podemos fazer isso, dito pelo Buda, por isso no podemos discutir sobre isso". Isso o que acontece quando ns realmente entendemos como as coisas so. s vezes, voc tem que conter as pessoas. Estou falando principalmente sobre as pessoas que do qualquer coisa, que do a camisa que esto vestindo, e a comida de seus pratos. s vezes elas at mesmo do as suas vidas. Essas pessoas podem se tornar pobres, mas os seus nimittas so algo para ser visto. Uau! Quem se importa estar com fome quando se tem nimittas to belos? Uau! Isso muito bom. Essa a pureza. Essa de fato a realizao de mritos inspiradora, e ns precisamos estar inspirados assim para entrar nos jhanas.

Emoes Inspiradoras

No tenham medo das emoes inspiradoras. Se vocs tiverem a oportunidade de visitar os lugares sagrados na ndia, ou alguns dos antigos monastrios no Sri Lanka, Myanmar e Tailndia, faam valer o dinheiro gasto. Derramem todas as lgrimas que puderem. Sintam-se realmente inspirados. Imaginem o Buda ali sentado, imaginem Ajaan Chah na floresta nos primrdios ensinando os monges. Simplesmente permita que a alegria preencha e flua atravs de todo o corpo. Vocs ficaro to inspirados. As pessoas na atualidade no sabem como corretamente se entregar s emoes positivas de alegria, inspirao e f. Essas emoes so chamadas de poderes que controlam as faculdades, e so elas que realmente fazem a meditao avanar. o caminho mais rpido para a iluminao.

Ento, visite esses lugares e obtenha alegria, obtenha inspirao. Quando ler os suttas, ou recit-los, recite com o corao, e no apenas com a boca. No se preocupe como soa do lado de fora, preocupe-se como soa dentro, e de onde est vindo. timo ser capaz de recitar e compreender o significado. Ficamos to inspirados, to lindamente inspirados, e isso pura emoo. Ento, l fora, no mundo, desenvolva emoes e inspiraes puras. Elas s podem ser boas, e conduzem a nibbana.

Resumo e Concluso

Ento, essas so algumas prticas que vocs podem realizar no mundo. Vocs podem faz-las a qualquer momento. Em particular, h muitas oportunidades para praticar os dois primeiros estgios da meditao: a ateno no momento presente e a ateno silenciosa. Quando vocs estiverem trabalhando na sua escrivaninha, pratique a ateno no momento presente, trabalhem em silncio. O seu trabalho ir render muito mais. Ao dirigir o carro desliguem o rdio. Desliguem o CD. Nem mesmo ouam um discurso do Dhamma por Ajaan Brahm. Ouam o silncio, porque de qualquer maneira aquilo que vocs ouviriam seria Ajaan Brahm lhes dizendo para ficarem quietos. Qualquer pessoa que realmente entenda diria, "Ah, sim, isso est certo", e simplesmente desligaria.

Existem tantas oportunidades na vida para realmente praticar a ateno no momento presente, e a ateno silenciosa. Existem tantas ocasies e oportunidades durante o dia para abrir mo, soltar. Mesmo se estivermos atrasados para o trabalho, s vezes simplesmente no possvel fazer nada a respeito, solte. Preocupar-se com isso no far voc chegar mais rpido. Veja se vocs podem aprender a ficar apenas em paz com o mundo, e tentem incorporar estas sugestes na sua prtica. Pratiquem o no controle, abrindo mo. H tantas oportunidades na vida. Muitas vezes, no h nada que podemos fazer. No h nenhum modo de fazer com que a aeronave voe mais rpido porque voc est atrasado. No podemos ir at o capito e lhe pedir para voar mais depressa, simplesmente no podemos fazer isso na vida, por isso que temos que abrir mo. Ns todos temos que abrir mo de algumas coisas na vida, por isso, poderamos muito bem comear agora.

Aprendemos muito como abrir mo neste retiro de meditao. Quando forem para o mundo, tero aprendido a habilidade de abrir mo das coisas que no podem controlar. J fizemos isso durante todo o retiro, ento agora podem continuar fazendo isso. Isso realmente nos ajuda no mundo l fora. As coisas que no podemos fazer nada a respeito, apenas abrimos mo. Se este o seu marido, ou a sua esposa, se voc no pode fazer nada respeito, basta abrir mo. Se os seus filhos esto bagunando e voc no pode interferir, basta abrir mo. Atravs da prtica, aprendemos a habilidade de abrir mo.

Com as crianas, sempre podemos usar o smile do bfalo. Certa vez, na Tailndia, um homem estava levando o seu bfalo para pastar no campo. O bfalo ficou muito animado e saiu correndo. O homem tentou det-lo. Tente parar um bfalo. Pense no tamanho de um bfalo. enorme, e ele era apenas um pequeno agricultor Tailands. Ele segurou a corda. A corda se enrolou em torno de seu dedo e arrancou o dedo! Ele veio para o monastrio faltando metade de um dedo. Obviamente, havia sangue por toda parte, e muita dor. O abade levou o homem para o hospital local para ser medicado. Depois o homem se recuperou. Mas essa uma grande metfora. A metfora que apenas um tolo tentaria parar um bfalo; simplesmente ele vai lhe arrancar os dedos. Seu marido, sua esposa, seus filhos, e s vezes a sua mente como um bfalo. Se voc tentar det-los, o que acontece que algo "arrancado", e voc ter muita dor e sofrimento. O que acontece se voc soltar o bfalo? O bfalo s ir correr cerca de meio quilmetro ou at a estrada. Ele no ir to longe. Ele pra e se acalma, e ento voc pode andar at l e suavemente traz-lo de volta. Ele para, e fica fcil de ser controlado. s vezes isso que precisamos fazer com maridos e esposas, e as crianas. Elas fogem, e depois param e voc pode traz-las de volta. Muitas vezes, a mente assim na meditao, sai correndo atrs de pensamentos e fantasias. Deixem-na ir. No deixe que ela arranque o dedo. Tendo perambulado um pouco, ao parar, depois de ter a sua diverso, agora traga a mente de volta para o silncio.

Esse na verdade um bom um smile para a nossa vida. Estamos aprendendo a soltar, abrir mo. Podemos fazer isso com a mente. Tambm podemos fazer isso com outras coisas na vida, e tornar-nos uma pessoa muito mais tranquila e um gestor muito mais eficiente. Podemos nos tornar num gestor do marido, da esposa, dos filhos, um gestor das contas, um gestor da vida. Com frequncia costumo dizer que a meditao como um microcosmo do mundo real, se soubermos como meditar, saberemos como viver. Se soubermos como abrir mo e estar em paz, saberemos tudo o que precisamos saber sobre a vida no mundo.

Podemos viver uma vida muito feliz, uma vida muito bonita, mesmo se quisermos dar um passo alm e realizar a iluminao. Sabemos como fazer isso tambm. o mesmo processo apenas intensificado. Ento, isso o que fazemos l fora no mundo, no pense que estar l fora vai ser uma transio muito grande. Vai ser um choque para o sistema, mas, na verdade, voc vai aprender a se adaptar. Voc pode estar em paz entre os pacficos. Voc pode trabalhar com as pessoas que esto trabalhando, e rir com os que esto rindo. Voc pode ser solidrio com aqueles que esto chorando, e voc tem todos os recursos para ajudar e servir no mundo.

Mencionei no incio deste retiro que no h diferena entre a meditao vipassana e meditao samatha. Agora vou acrescentar tambm que no h diferena entre o caminho do Bodisatva, e o caminho do Arahant. Essas so apenas diferenas que as pessoas criam, porque elas realmente no entendem. A melhor coisa que algum pode fazer para o mundo inteiro, o melhor presente que algum pode dar aos outros, tornar-se Iluminado, de modo que possa ter enorme compaixo e enormes recursos de sabedoria para compartilhar com os outros. Voc realiza a iluminao para o seu prprio bem e para o bem dos outros. No existe qualquer diferena entre essas duas formas. As pessoas criam todas essas diferenas. Ento, v para o mundo, e para seu prprio bem realize a iluminao, e realize a iluminao para o bem dos outros.

 


 

Fonte: Palestra dada no dia 26.04.2003 ao final de um retiro de nove dias.

 

 

Revisado: 11 Janeiro 2014

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