O Mistrio do Nimitta da Respirao ou
O Caso do Smile Desaparecido

Um ensaio sobre alguns aspectos da prtica da meditao com a respirao

Por

Ajaan Sona

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INTRODUO

Como o ttulo deste ensaio sugere, uma importante charada tem de ser solucionada por qualquer meditador ou estudioso que tentar entender de modo claro as qualidades da experincia que acompanham a transio da mera ateno na respirao at a completa imerso na conscincia dos jhanas. Mostrarei que existem bons motivos para confuso a esse respeito quando algum investiga a evoluo histrica das descries nos comentrios, desde o Patisambhidamagga passando pelo Vimuttimagga at o (mais recente) Visuddhimagga.

Visto que o Visuddhimagga exerce tanta influncia e freqentemente mencionado pelos mestres modernos, parece crtico que ele seja confivel, e se em alguns aspectos assim no for, ento, com o respaldo de evidncias, deve-se mostrar claramente porque no .

O corpo deste ensaio ir mostrar que a descrio da mente de um meditador em jhana, encontrada no prprio Cnone e mencionada no Patisambhidamagga como um smile, envolvendo uma comparao da mente com uma ntida lua cheia, degenera para a literalidade dessa imagem como um fenmeno visual produzido internamente. Como no fcil detalhar o contedo da mente, o Buda, freqentemente, empregava smiles comparando objetos visuais e outros objetos sensuais com o contedo mental para que os meditadores pudessem entender com clareza o que eles deveriam estar buscando e experimentando. Nas diversas tradies religiosas, encontramos freqentemente uma tendncia ingnua para tomar literalmente aquilo que foi intencionado como um smile. Parece que isso ocorreu em alguma etapa do processo e acabou se tornando santificado na descrio do patibhaganimitta ou sinal de contrapartida no Visuddhimagga. importante que as novas geraes de meditadores ocidentais no sejam induzidos em erro por este provvel erro histrico.

Os termos nimitta ou sinal e patibhaganimitta ou sinal de contrapartida so freqentemente mencionados neste ensaio, e melhor esclarecer o seu significado desde o incio. O sinal significa uma marca caracterstica ou fenmeno que acompanha e ajuda a identificar uma certa experincia. Por exemplo, a gripe de modo freqente acompanhada de fraqueza e nusea; nesse caso, a nusea seria um sinal da gripe. Extrema felicidade pode ser acompanhada por uma sensao de leveza do corpo e lgrimas; esses seriam sinais de felicidade. Um mdico busca certos sinais que de modo tpico acompanham certas enfermidades. Da mesma forma, certos sinais so caractersticos da entrada em estados profundos de concentrao correta e so intrnsecos aos estados de jhana.

De acordo com as definies (tomadas dos Comentrios) encontradas no Buddhist Dictionary do Ven. Nyanatiloka, existem trs tipos de nimitta. O primeiro tipo parikamma-nimitta, que se refere percepo do objeto bem no incio da concentrao este tambm conhecido como imagem ou sinal preparatrio. Quando a mente alcana um grau dbil de concentrao, surge uma imagem ou sinal ainda instvel e no muito ntido chamado uggaha-nimitta ou sinal adquirido. Essa percepo antecede o surgimento de uma imagem totalmente clara e estvel chamada patibhaga-nimitta ou imagem de contrapartida ou sinal de contrapartida. O surgimento desse terceiro tipo de nimitta indica o aparecimento da concentrao de acesso, o estado que antecede a plena absoro do jhana. Ambos os estados compartem do mesmo sinal e diferem apenas na intensidade dos fatores que acompanham cada estado. E como mencionado na definio, o sinal de contrapartida compreendido como uma verso mais refinada e ntida do sinal e o resultado natural da ateno e concentrao intensificadas. Conhecendo esses sinais, tanto o praticante como o mestre estaro aparelhados para avaliar o xito ou fracasso das respectivas realizaes na prtica de concentrao.

DISCUSSO

A ateno plena na respirao, (anapanasati), um dos mais importantes objetos ou temas de meditao recomendados pelo Buda. E tambm um dos mtodos de meditao mais populares empregados pelas geraes atuais e passadas de praticantes do Budismo Theravada que buscam realizar o caminho completo para a libertao. Esse mtodo descrito em vrios suttas que fazem parte do Cnone em Pali ( por exemplo o MN 118, MN 10, DN 22). No entanto, os suttas so bastante concisos e em alguns casos contm poucos detalhes ao tratar dos mtodos de meditao. Por conseguinte, encontramos que o principal objetivo da exegese ps-cannica comentar, explicar, complementar ou esclarecer os textos do Cnone que possam ser considerados abstrusos ou carentes de informao.

Com relao ao tema da meditao da respirao, trs dos comentrios, o Visuddhimagga (Vis., 500 DC, 1a. edio em ingls em 1956), o Vimuttimagga (Vim., 100 DC ?, 1a. edio em ingls em 1961) e o Patisambhidamagga (Pat., 300 AC ?, 1a. edio em ingls em 1982) esto no momento disponveis em tradues para o ingls. Tanto mestres como praticantes empregam-nos amplamente como referncias valiosas para esclarecer aspectos chave da prtica. Tradicionalmente, o Visuddhimagga, o trabalho mais recente dos trs acima mencionados, tem sido usado e considerado o padro qui com mais autoridade a ser seguido como manual de meditao.

No que diz respeito ao sinal, (nimitta), e ao sinal de contrapartida, (patibhaganimitta), que surgem durante a meditao da respirao, h discrepncias significativas entre o Visuddhimagga e o Vimuttimagga. Vrios textos escritos por mestres contemporneos mencionam as caractersticas do sinal e sinal de contrapartida surgindo durante a meditao da respirao. Freqentemente, essas descries tomam por base a clssica descrio do smile encontrada no Visuddhimagga, talvez como uma medida cautelosa visando no se afastar da ortodoxia. No entanto, como mostramos mais abaixo, essa descrio do sinal (adquirido ou contrapartida) pode se revelar muito enganadora e, como amide declarado por meditadores frustrados, obscura.

No Visuddhimagga a descrio da ateno plena na respirao (Vis.213-215, p.277), para. 213 diz o seguinte:

...Assim tambm, o bhikkhu no deveria procurar a inspirao e a expirao em nenhum outro lugar a no ser aquele normalmente tocado por elas. Ele deveria tomar a ateno plena como corda e o entendimento como aguilhada e fixar a mente no lugar normalmente tocado pela inspirao e expirao e prosseguir empenhando sua ateno nisso. Pois, agindo deste modo, a inspirao e a expirao reaparecero depois de no muito tempo... E assim, ele poder prend-las com a corda da ateno plena, e, emparelhando-as no mesmo lugar e estimulando-as com a aguilhada do entendimento, ele se manter empenhado no objeto de meditao.

214. Assim procedendo, o sinal [veja a nota correspondente no prximo pargrafo] em breve aparecer para ele. Mas no o mesmo sinal para todos; ao contrrio, alguns dizem que quando ele aparece, assim o faz produzindo um toque suave como o do algodo ou da seda, ou como uma brisa suave.

215. Mas esta a explicao dada nos comentrios: o sinal aparece para alguns como uma estrela ou um punhado de pedras preciosas, ou como um punhado de prolas, para outros como um toque spero parecido com o das sementes de algodo ou de um pino feito de madeira, para outros como o de uma longa trana de fios ou de uma coroa de flores, ou uma baforada de fumaa, para outros como uma teia de aranha esticada ou como uma camada muito fina de nuvem, ou como uma flor de ltus, ou como uma roda de carruagem, ou como o disco lunar, ou como o disco solar. [sublinhado pelo autor]

Uma nota que consta do comentrio ao Visuddhimagga diz o seguinte:

O sinal o sinal adquirido e o sinal de contrapartida, pois ambos so aqui mencionados juntos. Os trs smiles, comeando com o do algodo, se referem ao sinal adquirido e os restantes a ambos. Alguns so certos mestres. Os smiles, a partir do punhado de pedras preciosas, se referem ao sinal de contrapartida. (Paramattha-manjusa, Visuddhimagga Atthakatha; Vism. p.786, n.58).

Os smiles que constam das sees anteriores (Vis.214-215) representam tanto percepes tcteis como visuais. Os trechos a seguir so apresentados para que o leitor avalie se ocorreu alguma confuso resultante de erro na transmisso, (talvez um erro na transcrio), baseada em dados obtidos dos comentrios mais antigos, tais como do Vimuttimagga e do texto cannico Patisambhidamagga, ou por que foi tomado literalmente o que originalmente pretendia ser um smile.

O Vimuttimagga (p.68), ao mencionar o discernimento das qualidades dos diversos temas de meditao, afirma que ... um objeto de meditao agarra o sinal atravs do contato. A saber, a ateno plena na respirao. E novamente, um objeto de meditao agarra o sinal atravs da viso ou contato. A saber, a kasina do ar. Esta distino crtica. Ela mostra que a meditao da respirao distinta dos demais objetos de concentrao por ser exclusivamente tctil.

Os objetos visuais podem ser percebidos por alguns meditadores durante a meditao da respirao como um efeito colateral, no entanto, o meditador deve permanecer focado exclusivamente na sensao tctil da respirao. Portanto, como mencionado no Patisambhidamagga (170., p.172):

... o bhikkhu senta, estabelecendo a ateno plena na ponta do nariz ou no lbio, sem acompanhar a inspirao e a expirao enquanto estas se aproximam e se afastam, ... o corpo e a cognio daquele que energtico [nesta tarefa] se torna malevel, ... os seus pensamentos aplicados silenciam .... [e] as suas tendncias subjacentes so suprimidas ...

Voltando aos smiles do Visuddhimagga, mencionados acima (Vis.214-215), e comparando-os com aquilo que encontrado nas descries correspondentes no Vimuttimagga, (Ateno Plena na Respirao, pp.158-159; veja o pargrafo abaixo), possvel observar que eles so diametralmente opostos no significado aparentemente pretendido. Enquanto os smiles do Visuddhimagga so formulados referindo-se quilo que poder ser encontrado como sinal ao qual se deve dar ateno, no Vimuttimagga encontramos palavras de advertncia para que nos abstenhamos de dar ateno a essas percepes, (ao invs de dar ateno ao sinal tctil da respirao). O trecho correspondente do Vimuttimagga est reproduzido na ntegra a seguir:

Para o iogue que se ocupa com a respirao com a mente purificada das nove contaminaes, a imagem surge com uma sensao prazerosa semelhante quela que produzida na ao de fiar algodo ou seda. Tambm comparada sensao prazerosa produzida por uma brisa. Assim, ao inspirar e expirar o ar toca no nariz ou no lbio e causa o estabelecimento da ateno plena na percepo do ar. Isto no depende de cor ou forma e chamado de imagem. Se o iogue desenvolver a imagem, [sinal], e aument-la na ponta do nariz, entre as sobrancelhas ou na testa, ou estabelec-la em vrios lugares, ele ir sentir como se a sua cabea estivesse cheia de ar. Incrementando a imagem desse modo, todo o seu corpo ir se permear com o prazer. Isso chamado de perfeio.

Novamente, para um outro iogue: ele v vrias imagens desde o princpio. Ele v vrias formas, tais como fumaa, nvoa, poeira, ouro pulverizado ou ele experimenta algo semelhante picada de uma agulha ou mordida de uma formiga. Se a sua mente no tiver um claro entendimento dessas diferentes imagens, ele ficar confuso[!]. E assim ele obter algo oposto percepo da respirao. Se a sua mente estiver purificada, o iogue no experimentar a confuso. Ele se ocupar com a respirao e no causar o surgimento de outras percepes [sublinhado pelo autor]. Meditando desse modo ele ser capaz de dar um fim confuso e obter a imagem, [sinal], sutil. Ele estar atento respirao com a mente livre. E a imagem, [sinal], estar livre. E pelo fato da imagem, [sinal], estar livre, o desejo surgir. Com o desejo livre, este iogue estar atento respirao com equanimidade. Com a equanimidade, o desejo e o prazer livres, ele estar atento respirao e a sua mente no ser perturbada. Se a sua mente no estiver perturbada, ele destruir os obstculos e estimular o surgimento dos fatores de jhana. Assim, este iogue alcanar o calmo e sublime quarto jhana. dessa forma ampla que foi ensinado acima.

O alerta para no ficar distrado pode ter sido obtido diretamente do discurso da Ateno Plena na Respirao (Anapanasati Sutta MN 118.26): Eu no digo que possa existir desenvolvimento da ateno plena para aquele que esquecido e desprovido de plena conscincia.

A frase sensao prazerosa semelhante quela que produzida na ao de fiar algodo ou seda deve ser compreendida como a sensao tctil prazerosa experimentada num certo ponto da mo pelo fiador que segura e direciona e ao mesmo tempo fia um fio de algodo. A interpretao do smile dessa forma apropriada no sentido de que o contato inicial com o fio sentido como spero e depois de algum tempo muda a sua caracterstica (dormncia, presso, calor, etc.) para uma qualidade de percepo distinta pelo efeito da frico contnua. Este um smile mais refinado do que aquele encontrado no Visudhimagga, que se contenta com a imagem esttica do toque do algodo.

A frase isto no depende de cor ou forma deixa bem claro que o meditador no deve esperar que o sinal da ateno plena na respirao seja uma imagem visual, visto que no possvel conceber uma percepo visual que no tenha cor e forma. O que pode ser inferido dessa frase que o sinal uma percepo tctil. A propsito, no Patisambhidamagga, o tratado sobre a respirao mais antigo e mais abrangente, no h nenhuma meno ao longo de toda a seo sobre a meditao da respirao de um nimitta visual ou de uma luz.

Um grande mistrio solucionado quando compreendemos que a maioria das imagens atribudas ao sinal de contrapartida no Visuddhimagga e s distraes no Vimuttimagga, so encontradas no mais antigo Patisambhidamagga, como parte de uma descrio metafrica de um bhikkhu liberto das impurezas, por conta da sua distino na prtica da meditao da respirao. As descries seguem abaixo:

Aquele cuja ateno plena na respirao perfeita, bem desenvolvida e gradualmente conduzida sua maturao de acordo com o que foi ensinado pelo Buda, que ilumina o mundo tal qual a lua cheia livre de nuvens (Pat.III, 171, p.172). E,

Tal qual a lua cheia livre de nuvens: as impurezas so como as nuvens, o conhecimento dos nobres como a lua, o bhikkhu como o filho da divindade que possui a lua cheia. Tal qual a lua que quando liberta das nuvens, liberta da nvoa, liberta da fumaa e da poeira, liberta das garras do Demnio do Eclipse Rahu, brilha, cintila e resplandece, assim tambm o bhikkhu que est liberto de todas as impurezas brilha, cintila e resplandece. Por conseguinte, foi dito Tal qual a lua cheia livre de nuvens (Pat.III, 182, p.175). [sublinhado pelo autor]

Aqui, o que num texto do Cnone dado como um smile para a mente, no Vimuttimagga tomado literalmente, ainda que corretamente, como percepes visuais, como imagens s quais no se deve dar ateno. O Visuddhimagga, no entanto, se equivoca duas vezes tomando os smiles fumaa, nvoa, poeira, brilho, cintilante, resplandecente, e lua como imagens visuais no sentido literal, e tambm ao caracteriz-los como sinal de contrapartida, um indicador do sucesso [!], em oposio direta ao Vimuttimagga.

Resta-nos somente perguntar como essas imagens metafricas, encontradas no final do captulo, que descreve a meditao da respirao no Patisambhidamagga, acabaram por fim se convertendo em eventos visuais literais relacionados prtica de meditao nos comentrios posteriores. Dada a evidncia apresentada neste ensaio, aconselhvel considerar ambos, o Vimuttimagga e o Patisambhidamagga, como textos mais confiveis no que diz respeito meditao da respirao.

Somente no Patisambhidamagga o material tratado de modo apropriado. Os smiles para a qualidade da mente, como clara, iluminada ou livre de nuvens, so tratados como smiles, e alm disso as imagens dos smiles nuvens, nvoa, etc., so entendidas de forma correta como impedimentos para aquela claridade. O editor, (de acordo com a tradio Acariya Buddhaghosa), do Visuddhimagga demostra na verdade um certo desconforto com a diversidade de percepes dos vrios nimittas para a meditao da respirao e demonstra esse desconforto explicando que tal diversidade se origina da mera diferena de percepo entre os meditadores, (veja a citao no prximo pargrafo). Nem essa explicao e tampouco a necessidade de formul-la aparecem nos comentrios mais antigos.

216. Na verdade, isso se assemelha a uma ocasio em que muitos bhikkhus esto sentados juntos recitando um sutta e um bhikkhu pergunta, Com o que se parece este sutta para voc?, um diz, Para mim ele se parece com uma grande enxurrada montanha abaixo, outro diz,Para mim, com um grupo de rvores na floresta, ainda um outro diz, Para mim, ele como a sombra fresca de uma frondosa rvore frutfera. Pois o mesmo sutta tem uma aparncia distinta para cada um devido diferena de percepo de cada um. Assim tambm, este nico objeto de meditao aparece de modo diferente devido diferena entre as percepes. Essa diferena nascida da percepo, a sua fonte a percepo, ela produzida pela percepo. Por conseguinte, deve ser compreendido que quando a aparncia distinta, devido diferena entre as percepes. (Vis. VIII, 216, p.278).

Tenho certeza que muitos meditadores j se perguntaram porque o Buda deixou de mencionar a informao essencial acerca do sinal e do sinal de contrapartida na meditao da respirao, que o Visuddhimagga considera ser to essencial para o xito da prtica dos jhanas. Espero que este ensaio demostre que a descrio do Buda para a prtica da meditao da respirao contm toda a informao necessria e suficiente para o sucesso dessa prtica.

Eu adicionaria que o nico sinal de jhana confivel, e que se aplica a todos os casos, a descrio dos fatores de jhana dada pelo prprio Buda, quer o objeto de meditao seja visual ou tctil. Alm disso, espero que o meditador compreenda que a clareza e o refinamento progressivo da sua percepo do objeto de meditao so simplesmente os efeitos colaterais da clareza e luminosidade da mente tranqila e focada.

Por fim, gostaria de enfatizar que o objeto da meditao da respirao o contato com o ar. A qualidade do elemento ar de importncia crtica nesta meditao. Se o Buda estivesse interessado na mera sensao proveniente do contato, ento seria mais simples tocar o nariz com os dedos. Tomar a leveza do ar como uma experincia corporal crtico. Como o Vimuttimagga diz:

Ele ir sentir como se a sua cabea estivesse cheia de ar. Com o aumento dessa sensao, o seu corpo ir se permear com o prazer. Isso chamado de perfeio. [mencionado acima].

LOCALIZAO, LOCALIZAO, LOCALIZAO: UM PEQUENO ASSUNTO PERTINENTE

Um assunto secundrio, pertinente, em relao ao nimitta da respirao , uma vez mais, um mal entendido visvel que evoluiu para a sua forma final no Visuddhimagga.

Esta frase crtica empregada no Satipatthana Sutta e no Anapanasati Sutta: parimukham satim upatthapetva, que tem sido traduzida como estabelece a ateno plena sua frente. Ficamos nos perguntando porque o Patisambhidamagga, o Vimuttimagga e o Visudhimagga todos com muita segurana do a localizao do contato da respirao nas narinas. Alm disso, encontramos nessas trs obras: quer seja no nariz ou no lbio. E nesse caso, Buddhaghosa, o editor, d uma explicao que uma pessoa com a nariz comprido sente a respirao nas narinas medida que o ar passa pelo nariz. Uma pessoa com um nariz pequeno no entanto, sente o ar no lbio superior. Isso tambm soa estranho se pensarmos um pouco a respeito, porque se uma pessoa tiver um nariz pequeno, ela ser capaz de sentir somente a exalao de ar quente saindo das narinas para o lbio superior. Toda a inspirao ter sido perdida. Portanto, parece que temos mais uma charada.

Se olharmos para a palavra mukha, no sutta original, significa, literalmente, entrada ou boca. Se aplicarmos este significado bvio teremos: Ele estabelece a ateno plena na entrada, sendo que a entrada ou o nariz ou a boca. Os antigos comentaristas esto pressupondo que o leitor entende que o meditador poder estar respirando ou pela boca ou pelo nariz. Se ele estiver respirando atravs da boca dever dirigir a ateno para o contato do ar com o lbio. Na verdade, um conselho bastante sensato, pois seria uma lstima ter que abandonar a meditao da respirao s por causa de um resfriado ou porque o nariz est entupido! Portanto, podemos ver que aquilo que comeou como uma descomplicada localizao do contato com a respirao no nariz ou na boca, isto , na entrada, pouco a pouco assumiu a confusa adio de uma pessoa com o nariz comprido ou pequeno. O debate sobre o significado desta frase comeou muito cedo (veja abaixo a citao da nota original no Patisambhidamagga) e na verdade todos os trs comentrios optaram por mukha como sendo nariz ou boca.

Tem o sentido de abraar, est com o sentido de ser abraado. O que abraado? A sada. Qual sada? A concentrao baseada na ateno plena na respirao em si mesma a sada direta at o caminho do arahant. Da, a frase tem o sentido de sada. O significado de sada do ciclo de renascimentos expresso atravs do significado da palavra mukha, (boca), como principal, (frente). Tem o sentido de fundao, est com o sentido de essncia individual. O significado expresso por todas essas palavras : fez da ateno plena uma sada abraada. Mas alguns dizem que tem o sentido de abraar significa abraar com o sentido de ateno plena, e que tem o sentido de sada significa porta de entrada e sada significando a inspirao e a expirao. Ento, o significado pretendido : Estabeleceu a ateno plena como a sada abraada das inspiraes e expiraes. (Nota 14, Edio em Ingls; PsA 350-1)

Alguns mestres modernos tm sugerido que no importa onde o contato com a respirao esteja localizado, provavelmente em resposta frase que ocorre mais tarde no sutta: Eu inspiro experienciando todo o corpo ..., etc. E visto que o corpo da respirao no est mencionado de forma explcita, eles sentem que h espao para interpretao. Mas a respirao como um corpo mencionada de modo explcito no Anapanasati Sutta, embora no no Satipatthana Sutta, e o significado da frase o mesmo: Eu digo que esse um corpo entre os corpos, ou seja, a inspirao e a expirao (Anapanasati Sutta, MN 118.24; a nota diz que Inspirao e expirao devem ser consideradas ... entre os fenmenos corporais uma vez que o objeto da ateno a sensao do toque da respirao entrando e saindo das narinas). H tambm uma localizao explcita da entrada neste sutta, com o que os trs comentrios esto de acordo, qualquer que seja a confuso que tenha surgido mais tarde. Ela tambm ignora o smile que vem em seguida localizao explcita, isto , Da mesma forma como um torneiro habilidoso ou seu aprendiz, quando faz uma volta longa, compreende: Eu fao uma volta longa; ou, quando faz uma volta curta, compreende: Eu fao uma volta curta; assim tambm, inspirando longo, um Bhikkhu compreende: Eu inspiro longo...ele treina dessa forma: Eu expiro tranqilizando a formao do corpo. (Satipatthana Sutta, MN10.4). O Buda incluiu este smile aparentemente redundante por uma razo. Smiles so como retratos, valem por mil palavras e em geral sobrevivem carnificina das tradues. Este o mecanismo de segurana do Buda para mostrar que assim como um torneiro fixa a sua ateno num s ponto com o cinzel enquanto o torno est em constante movimento, o meditador faz o mesmo no ponto de entrada enquanto a respirao segue fluindo continuamente. Basicamente, todos os comentrios lograram preservar essa noo do smile da serra, mas infelizmente a boca como localizao foi descuidada na poca do Visuddhimagga.

Tudo isso no quer dizer que existe apenas uma forma de alcanar a tranqilidade usando a respirao. Se algum desenvolveu uma tcnica que resulta em jhana, e que no segue as instrues explcitas, est bem. O que quer que funcione vale.

RESUMO

A seguir, um breve resumo de instrues para os meditadores que praticam a meditao da ateno plena na respirao:

  • Coloque a ateno na sensao da respirao/ar onde quer que ela entre e saia do corpo.
  • Se surgirem percepes visuais, ignore-as.
  • No permita que a mente vagueie. Regresse para o ponto de contato da respirao.
  • Mantenha a ateno naquele ponto ao longo de toda a durao da inspirao e expirao.
  • A sensao, ou percepo, do ar se movendo ir mudar para uma sensao esttica, esse um sinal da mente se acalmando.
  • Permanea com essa qualidade area, flutuante, que deve permear toda a cabea. Experimente um frescor e um vazio areo na cabea. Essa percepo poder se estender por todo o corpo. Este mais um sinal de crescente tranqilidade.
  • Permanea com essa leveza area focando nessa experincia.
  • Todos os obstculos devero ter desaparecido e os cinco fatores de jhana estaro presentes num grau que poder ser fraco, mdio ou forte.
  • Use o Anapanasati Sutta para mais instrues.

Eu espero que os pontos acima ajudem a esclarecer as possveis confuses enfrentadas pelos meditadores e que eles possam respirar aliviados medida que progredirem ao longo do caminho.

 


 

Referncias:

1) The Path of Purification, Visuddhimagga por Bhadantacariya Buddhaghosa, traduzido do Pali por Bhikkhu Nyanamoli, 5th ed. Buddhist Publication Society, Kandy, Sri Lanka. (1991)

2) The Path of Freedom, Vimuttimagga por Arahant Upatissa, traduzido do Chins por Rev. N.R.M. Ehara, Soma Thera e Kheminda Thera; Buddhist Publication Society, Kandy, Sri Lanka (1995)

3) The Path of Discrimination, Patisambhidamagga traduzido do Pali por Bhikkhu Nyanamoli, 2nd ed. The Pali Text Society, Oxford (1997).

 

 

Revisado: 5 Junho 2004

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