F na Iluminao

Por

Ajaan Thanissaro

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O Buda nunca colocou exigncias incondicionais em relao f de uma pessoa. E para qualquer pessoa de uma cultura onde a religio dominante coloque tais exigncias, essa uma das caractersticas mais atrativas do Budismo. Ns lemos as conhecidas instrues do Buda para os Kalamas, onde ele os aconselha a testar as coisas por eles mesmos, e ns vemos isso como um convite para acreditar, ou no, naquilo que quisermos. Algumas pessoas chegam at a dizer que a f no tem lugar na tradio Budista, que a atitude Budista correta a do ceticismo.

Mas mesmo que o Buda recomende tolerncia e um ceticismo saudvel em relao a assuntos de f, ele tambm faz um pedido condicional sobre a f: Se voc quer sinceramente colocar um fim ao sofrimento esta a condio voc dever aceitar certas coisas com base na f, como trabalhar com hipteses e a test-las atravs do caminho de prtica dele.

Existe uma dica dessa necessidade de f at no discurso para os Kalamas:

"No se deixem levar pelos relatos, pelas tradies, pelos rumores, por aquilo que est nas escrituras, pela razo, pela inferncia, pela analogia, pela competncia (ou confiabilidade) de algum, por respeito por algum, ou pelo pensamento, 'Este contemplativo o nosso mestre.' Quando vocs souberem por vocs mesmos que, 'Essas qualidades so hbeis; essas qualidades so isentas de culpa; essas qualidades so elogiadas pelos sbios; essas qualidades quando postas em prtica conduzem ao bem-estar e felicidade' - ento vocs devem penetrar e permanecer nelas." (AN III.65)

As primeiras frases nessa passagem, refutando a autoridade das escrituras e tradies, tm um carter emprico to marcante que fcil omitir a frase mais adiante, afirmando que voc tem de levar em conta o que aceito pelos sbios. A frase importante, pois ajuda a entender os ensinamentos do Buda como um todo. Se ele tivesse desejado simplesmente que voc confiasse s no seu prprio senso de certo e errado, porque teria ele deixado tantos outros ensinamentos?

Portanto, o conselho do Buda para os Kalamas equilibrado: assim como voc no deveria confiar incondicionalmente numa autoridade externa, voc tambm no deve confiar cegamente na sua lgica e nas suas sensaes se elas forem contra a verdadeira sabedoria de outras pessoas. Como outros discursos mais antigos deixam claro, os sbios podem ser reconhecidos por suas palavras e comportamento, mas os padres de sabedoria so claramente avaliados em relao ao Buda e seus nobres discpulos, pessoas que j tocaram a Iluminao. E a atitude apropriada em relao queles que servem como modelo a de f.

Para um discpulo que tem convico na mensagem do Abenoado e vive para penetr-la, o que se harmoniza com o Dhamma : O Abenoado o Mestre, eu sou um discpulo. O Abenoado aquele que sabe, no eu... Para um discpulo que tem convico na mensagem do Mestre e vive para penetr-la, o que se harmoniza com o Dhamma : Com satisfao eu deixaria a carne e o sangue do meu corpo secar, deixando s pele, tendes e ossos, se eu no tiver atingido o que pode ser atingido atravs da firmeza humana, da energia humana e do esforo humano, no haver nenhum relaxamento na minha energia. (MN 70)

Repetidamente o Buda afirmou que a f no professor o que leva voc a aprender. F na prpria iluminao do Buda um requisito indispensvel para qualquer pessoa que quiser atingir a Iluminao. Como a f estimula a energia, a ateno plena, a concentrao e a sabedoria, ela pode lev-lo at o fim, para o imortal.

Assim, existe uma tenso nas recomendaes do Buda sobre a f e o empirismo. Poucos Budistas asiticos, que eu conheo, acham essa tenso desconfortvel. Mas os Budistas ocidentais, criados numa cultura onde religio e f h muito tempo tm estado em guerra com a cincia e o empirismo, acham essa tenso muito desconcertante. Nas minhas discusses, eles quase sempre tentam resolv-la da mesma maneira em que historicamente a tenso entre a f crist e o empirismo cientfico tem sido resolvida na nossa cultura. Trs posies se destacam, no s por que elas so as mais comuns, mas tambm porque elas so claramente bem ocidentais. Conscientemente ou no, eles tentam entender a posio do Buda, em relao f e o empirismo, de uma maneira que pode ser facilmente mapeada nas linhas de batalhas modernas ocidentais entre religio e cincia.

A primeira interpretao tem suas razes num lado da cultura ocidental que rejeita totalmente a legitimidade da f. Nessa viso, o Buda foi a personificao do ideal Vitoriano do heri agnstico, algum que evitou o consolo infantil da f e que, ao invs disso, advogou um mtodo puramente cientfico para o treinamento e fortalecimento da nossa mente. Porque o seu mtodo se concentrava inteiramente no momento presente, questes do passado e do futuro eram totalmente irrelevantes para a sua mensagem. Assim, quaisquer referncias f em assuntos como karma passado, renascimento futuro ou felicidade incondicional separada da contribuio imediata dos sentidos so interpolaes nos textos, que os budistas agnsticos, seguindo o exemplo do Buda, deveriam fazer o impossvel para rejeitar.

A segunda interpretao tem razes num lado da cultura ocidental que tem rejeitado ou os detalhes da f Crist, ou a autoridade de qualquer religio organizada, mas que tem apreciado a emoo da f como um requisito essencial da sade mental. Essa viso apresenta o Buda como um heri romntico que apreciava o valor subjetivo da f no estabelecimento de um sentido de totalidade interior e interligao exterior. Tolerante e oposto ao dogmatismo, ele viu o fato psicolgico de uma f viva como mais importante do que o seu objeto. Em outras palavras, no importa para onde a f seja direcionada, contanto que seja profundamente sentida e substancial pessoalmente.

A f na Iluminao do Buda significa simplesmente acreditar que ele encontrou aquilo que funcionou para si prprio. E isso no tem nenhuma implicao no que pode funcionar para voc. Se voc achar o ensinamento sobre karma e renascimento reconfortante, muito bem: Acredite nele. Seno, no acredite. Se quiser incluir um deus, ou deusa, todo poderoso na sua viso do mundo, o Buda no far nenhuma objeo. O que importante que voc se relacione com a sua f de um modo que seja emocionalmente restaurador, fortalecedor e que lhe proporcione poder fsico e mental.

Como essa segunda interpretao tende a aceitar e incluir tudo, ela s vezes leva a uma terceira que abrange as duas primeiras. Essa interpretao apresenta o Buda como algum preso na sua situao histrica. Como ns, ele foi confrontado com a problemtica de encontrar um significado na vida considerando a viso do mundo da sua poca. Suas idias sobre karma e renascimento eram simplesmente concepes tiradas da cincia tosca da antiga ndia, enquanto que o seu caminho de prtica era uma tentativa de negociar uma vida gratificante dentro dessas concepes. Se ele estivesse vivo hoje, ele tentaria reconciliar seus valores com as descobertas da cincia moderna, da mesma maneira que alguns ocidentais tm feito com a sua f no monotesmo.

A concepo bsica dessa posio que a cincia se preocupa com fatos e religio com valores. A cincia fornece dados reais e concretos para os quais a religio deveria prover sentido. Assim, cada budista desempenharia o trabalho de um Buda ao aceitar os fatos concretos que tm sido cientificamente provados para a nossa gerao e a, buscar a tradio budista bem como outras tradies se for o caso para os mitos e valores proporcionarem sentido a esses fatos, e no processo, forjar um novo Budismo para a nossa era.

Cada uma dessas trs interpretaes podem fazer muito sentido para um ponto de vista ocidental, mas nenhuma delas faz justia quilo que ns sabemos do Buda ou do seu ensinamento sobre o papel da f e do empirismo no caminho. Todas as trs so corretas ao enfatizar que o Buda no queria impor s outras pessoas os seus ensinamentos, mas ao imporem as suas prprias concepes aos ensinamentos e aes dele elas interpretaram mal o que esse no querer significa. Ele no era agnstico; ele tinha fortes razes para declarar algumas idias como dignas de f e outras como no; e os ensinamentos sobre karma, renascimento e nibbana romperam radicalmente com a viso do mundo dominante da sua poca. Ele no era nem vitoriano, nem um heri romntico e tampouco uma vtima do seu tempo. Ele era um heri que, entre outras coisas, dominou o assunto da f e do empirismo dentro do seu prprio mtodo. Mas para avaliar dessa maneira, ns primeiro temos de nos afastar um pouco do campo de batalha cultural e olhar para a f e o empirismo num contexto mais bsico, simplesmente como processos dentro da mente individual.

Ali, eles desempenham os seus papis principais na psicologia de como ns decidimos agir. Embora gostemos de pensar que ns baseamos nossas decises em fatos reais e concretos, ns na verdade, usamos tanto a f como o empirismo em cada deciso que tomamos. Mesmo nas nossas decises baseadas principalmente no empirismo, nossas vises so afetadas pela nossa posio no tempo. Como Kierkegaard observou, ns vivemos para frente, mas entendemos para trs. Qualquer empresrio obstinado dir para voc que o futuro tem de ser tratado com base na f, no importa quanto ns saibamos a respeito do passado. Alm disso, ns somos frequentemente forados a tomar decises em situaes em que no h tempo ou oportunidade para juntarmos fatos passados suficientes para uma escolha baseada em informao. Outras vezes, ns temos fatos em demasia como quando um doutor se defronta com vrios testes conflitantes sobre o estado de sade de um paciente e ns temos de nos basear na f para decidir em quais fatos focar e quais ignorar.

De qualquer forma, a f tambm tem um papel profundo em muitas das nossas decises. Como William James observou certa vez, existem dois tipos de verdade na vida: aquelas cuja validade no tem nada que ver com as nossas aes e aquelas cuja realidade depende do que ns fazemos. Verdades do primeiro tipo verdades do observador incluem fatos sobre o comportamento do mundo fsico: como os tomos formam as molculas, como as estrelas explodem. Verdades do segundo tipo verdades que dependem da vontade incluem habilidades, relacionamentos, projetos empresariais, qualquer coisa que requeira seu esforo para fazer com que seja real. Com verdades do observador, melhor permanecer ctico at que uma evidncia razovel surja. Com verdades que dependem da vontade, no entanto, a verdade no acontece sem a sua f e quase sempre diante de chances no muito promissoras. Se voc no acreditar que a democracia funcionar no seu pas, ela no vai funcionar. Se voc no acreditar que vale a pena se tornar um pianista ou que voc tem as qualidades de um pianista, nada acontecer. As verdades que dependem da vontade so as mais relevantes dentro da nossa busca da verdadeira felicidade.

Muitas das histrias mais inspiradoras na nossa vida so de pessoas que criam verdades desse tipo, quando uma montanha de evidncias empricas esto contra elas. Em casos como esses, a verdade requer que a f ativamente cancele os fatos presentes.

Se formos mais a fundo dentro da psicologia do processo de tomada de deciso, entraremos numa rea em que nenhuma evidncia cientfica poder nos oferecer alguma prova: Ns realmente agimos ou as aes so uma iluso? Nossos atos j so predeterminados pelas leis da fsica ou uma inteligncia externa, ou ns temos livre arbtrio? Os resultados das nossas aes so ilusrios? As relaes de causa e efeito so reais ou s uma fico? Mesmo o experimento cientfico planejado com o mximo de cuidado no poderia nunca resolver essas questes, e uma vez que nos tornemos conscientes delas, teremos de tomar uma posio, se queremos continuar colocando energia nesses pensamentos, palavras e aes.

Essas foram as reas onde o Buda focou seus ensinamentos, no empirismo e na f. Embora a sua primeira nobre verdade requeira que observemos o sofrimento at que o compreendamos, ns temos de, com base na f, aceitar a sua afirmao de que os fatos que observamos sobre o sofrimento so o guia mais importante para a tomada de decises a cada momento, a vida toda. Porque a sua terceira nobre verdade, a cessao do sofrimento, uma verdade que depende da vontade, ns temos de aceit-la com base na f de que esse um objetivo possvel, um objetivo que vale a pena e que ns somos capazes de atingi-lo. E porque a quarta nobre verdade o caminho para a cessao do sofrimento um caminho de ao e habilidade, temos de aceit-lo com base na f de que as nossas aes so reais, que ns temos livre arbtrio, e alm disso, que existe um padro de causa e efeito no funcionamento da mente com o qual podemos aprender a dominar essa habilidade. Como o Buda disse, o caminho levar a uma experincia direta dessas verdades, mas s trazendo a f para a prtica que voc ter o conhecimento disso por voc mesmo. Em outras palavras, f no contexto budista significa f na habilidade das suas aes de levar a uma experincia direta do fim do sofrimento.

O Buda ofereceu esses ensinamentos s pessoas que buscavam aconselhamento sobre como encontrar a verdadeira felicidade. por essa razo que ele foi capaz de evitar qualquer tipo de coero; seus ensinamentos assumiram que seus ouvintes j estavam envolvidos numa busca. Quando ns entendemos a sua concepo sobre o que significa buscar porqu as pessoas buscam e o que elas esto buscando ns podemos compreender o conselho dele sobre como usar a f e o empirismo numa busca bem sucedida. A melhor maneira de fazer isso examinando cinco dos seus smiles que ilustram como uma busca deveria ser conduzida.

O primeiro smile ilustra a busca na sua forma mais crua e desfocada:

Dois homens fortes agarraram um outro homem pelos braos e arrastando-o at uma cova cheia de carvo em brasa. O Buda observa, O homem no se contorceria todo? O contorcimento do seu corpo simboliza a maneira pela qual reagimos ao sofrimento. Ns no nos damos o trabalho de perguntar se o nosso sofrimento predeterminado ou se as nossas aes tm alguma possibilidade de serem bem sucedidas. Ns simplesmente arranjamos uma briga e fazemos tudo que podemos para escapar dela. a nossa reao natural.

O Buda ensinou que essa reao tem dois desdobramentos: Ns ficamos confusos Porque isto est acontecendo comigo? e a buscamos uma maneira de por fim ao sofrimento. Quando ele afirmou que tudo que ele ensinava era o sofrimento e o fim do sofrimento, ele estava respondendo a essas duas reaes, oferecendo uma explicao para o sofrimento bem como para o seu fim para terminar com a nossa confuso e ao mesmo tempo mostrar o caminho do fim do sofrimento como um modo de satisfazer a nossa busca. Ele no tinha nenhuma utilidade para a idia freqentemente promovida por escritores que vieram depois que o nosso sofrimento provm da nossa luta para resistir ao sofrimento, que a busca do fim do sofrimento precisamente o que nos impede de ver a paz j existente. Em vista do smile mencionado acima, relaxar simplesmente na aceitao total do momento significa relaxar na possibilidade de ser queimado vivo. O presente fica se transformando em futuro e voc no pode ignorar para onde isso o est levando.

Esse smile explica tambm porque a idia de um Budismo sem f tem muito pouco apelo para as pessoas que esto sofrendo de doenas srias, opresso, pobreza ou racismo. A experincia deles mostrou que o nico caminho para vencer esses obstculos buscar verdades da vontade, que requerem f como sua base slida.

O Segundo simile:

Um homem buscando fruta, sobe numa rvore para comer at se satisfazer e para encher os seus bolsos de fruta e assim poder lev-las para casa. Enquanto ele est ali, um outro homem buscando fruta aparece. O segundo homem no pode subir na rvore, mas ele tem um machado e assim ele corta pedaos da rvore. Se o primeiro homem no descer rpido da rvore, ele pode quebrar um brao ou uma perna, ou mesmo morrer.

Esse smile mostra os perigos de buscar a verdadeira felicidade no lugar errado: nos prazeres sensuais. Se a sua felicidade depende de qualquer coisa que outras pessoas possam tomar de voc, voc est se colocando em perigo. Como o Buda observa, ns ansiamos pela felicidade dos prazeres sensuais no porque eles alguma vez realmente nos satisfizeram completamente, mas porque no podemos imaginar nenhum outro jeito de escapar da dor e do sofrimento. Se ns nos permitirmos acreditar que existe uma outra alternativa, ns estaramos mais dispostos a questionar nossa f cega em nossos desejos e apegos, mais dispostos a buscar aquela alternativa e fazer uma tentativa.

E como o terceiro smile argumenta, se ns olharmos na direo certa, ns encontraremos o que buscamos.

Uma pessoa buscando leite tenta obt-lo torcendo o chifre de uma vaca. Uma outra, buscando leite, tenta obt-lo ordenhando a vaca.

O Buda ensinou esse smile em resposta a uma afirmao de que no existe nada que um ser humano possa fazer para alcanar a libertao do sofrimento. Ns podemos alcan-lo, ele disse, contanto que sigamos o mtodo certo, como a pessoa que ordenha a vaca.

O mtodo certo comea com o entendimento correto, e a que entra a f na Iluminao do Buda. Como o Buda afirmou uma vez, ele no nos disse tudo que ele sabia. O que ele nos disse se comparava a uma mo cheia de folhas; o que ele sabia se comparava quantidade de folhas de uma floresta. Mas, assim mesmo, uma mo cheia de folhas continha todas as lies que ajudariam outras pessoas a despertar; o entendimento correto comea com o aprendizado do que so essas mesmas lies.

A lio mais importante, e o mais importante item da f, o fato da iluminao em si. O Buda a alcanou atravs dos seus prprios esforos e ele assim fez, no por que ele era mais do que humano, mas porque ele desenvolveu qualidades mentais que cada um de ns tem o potencial de desenvolver. Ter f na iluminao dele significa, assim, ter f no seu prprio potencial para despertar.

No entanto, os detalhes do que ele descobriu na sua iluminao tambm so importantes. No simplesmente o caso de que ele encontrou o que funcionou para ele, enquanto que o que funciona para voc pode ser uma outra coisa totalmente distinta. No importa quanto voc tora o chifre da vaca, ele no produzir leite. Os insights do Buda chegaram verdade de como as coisas funcionam e o que significa elas funcionarem. Esses insights se aplicam a todos, o tempo todo.

Ao resumir a sua iluminao na forma mais condensada, o Buda focou num princpio de causalidade que explica como ns vivemos num mundo onde padres de causalidade moldam os eventos e ainda assim esses eventos no so totalmente predeterminados pelo passado.

O princpio na verdade dual, pois existem dois tipos de causalidade se entrelaando em nossas vidas. O primeiro o de uma causa dando resultados no presente imediato: Quando existe isso, aquilo existe; Quando no existe isso, aquilo tambm no existe. Quando voc liga o estreo, por exemplo, o barulho comea; quando voc o desliga, o barulho cessa. O segundo tipo de causalidade o de uma causa dando resultados ao longo do tempo: Com o surgimento disso, aquilo surge; Com a cessao disto, aquilo cessa. Se voc estuda agora, voc obter conhecimento em algum tempo no futuro. Se voc causar dano ao seu crebro, os efeitos negativos aparecero dali a algum tempo tambm.

No que se refere ao karma ou inteno, o princpio dual significa isso: Qualquer momento de experincia consiste de trs coisas: (1) prazeres e dores resultantes de intenes passadas, (2) intenes no momento presente , e (3) prazeres e dores resultantes de intenes no momento presente. Assim, o presente no totalmente moldado pelo passado. De fato, o elemento mais importante moldando a sua experincia presente de prazer ou dor a sua prpria criao, que toma as suas intenes no momento presente e a matria prima fornecida pelas intenes do momento passado. E as suas intenes no momento presente podem ser totalmente livres.

Assim como existe livre arbtrio no meio da causalidade. Ao mesmo tempo, o processo como as intenes levam a resultados nos permite aprender dos erros passados. Essa libertao dentro de um processo abre a rota para o caminho do treinamento mental que pode levar ao fim do sofrimento. Ns praticamos generosidade, virtude e meditao para conhecer o poder das nossas intenes e especialmente para ver o que acontece quando as nossas intenes ficam mais habilidosas, to habilidosas que as intenes no presente momento na realidade param. S quando elas param voc pode provar para voc mesmo quo poderosas elas tm sido. E o lugar onde elas param onde o incondicionado o fim do sofrimento encontrado. Da, voc pode retornar s intenes, mas voc no mais prisioneiro ou escravo delas.

Ao apresentar os seus ensinamentos sobre karma e sofrimento para os seus ouvintes, o Buda ofereceria evidncia emprica para corrobor-los observando, por exemplo, como a sua reao ao sofrimento de uma outra pessoa depende de quo apegado voc est a ela mas ele nunca tentou apoiar esses ensinamentos com uma prova emprica completa. Na realidade, ele amontoou os seus contemporneos Jainistas de ridicularizaes, ao tentarem provar seus ensinamentos mais deterministas sobre karma afirmando que todos aqueles, que matam, roubam ou mentem ou praticam sexo imprprio, sofrem as conseqncias desses atos aqui e agora. Vocs nunca viram o caso, o Buda perguntou, no qual um homem premiado por um rei por matar um inimigo do rei, por roubar uma pessoa que inimiga do rei, por divertir o rei com uma mentira inteligente, por seduzir a mulher de um inimigo do rei? Mesmo assim o princpio bsico de karma suficientemente simples intenes habilidosas levam ao prazer, intenes inbeis dor o princpio dual de causalidade atravs do qual o karma opera bastante complexo, como afirmou Mandelbrot, [1] que voc ficaria louco tentando finalizar a coisa toda empiricamente.

Assim, ao invs de uma prova emprica para o seu ensinamento sobre karma, o Buda ofereceu uma prova pragmtica: Se voc acreditar nesses ensinamentos sobre causalidade, karma, renascimento e as quatro nobres verdades, como voc agir? Que tipo de vida voc levar? Voc no tender a ser mais responsvel e cheio de compaixo? Se, por outro lado, voc fosse acreditar em qualquer das alternativas como uma doutrina de um destino impessoal ou uma deidade que determinasse o curso do seu prazer e dor, ou uma doutrina em que todas as coisas fossem ao acaso e sem causa o que essas crenas o levariam a fazer? Elas permitiriam que voc colocasse um fim ao sofrimento atravs dos seus prprios esforos? De alguma maneira, elas levariam em conta qualquer inteno visando o conhecimento? Se, por outro lado, voc se recusasse a se comprometer com uma idia coerente sobre o que uma ao humana capaz de fazer, voc empreenderia um caminho de prtica cheio de desafios at o fim?

Esse era o tipo de raciocnio que o Buda usou para inspirar f na sua iluminao e na sua relevncia para a nossa prpria busca da verdadeira felicidade.

O quarto smile enfatiza a importncia de no se contentar com nada menos do que a coisa genuna:

Um homem em busca do cerne vai para uma floresta e chega at uma rvore que contm o cerne, mas ao invs de levar o cerne, ele leva para casa um pouco do alburno, galhos ou mesmo a casca da rvore.

F na possibilidade de nibbana o cerne do caminho o que faz com que voc no seja atacado pelos prazeres do alburno e da casca: a gratificao resultante de um ato de generosidade e virtude, o sentido de paz, a interconexo e unicidade que vem com a forte concentrao. Isso surpreendente porque nibbana est muito menos relacionado com as nossas experincias dirias do que o karma ou o renascimento. Ns vemos os frutos das nossas aes ao nosso redor; ns vemos as pessoas nascerem com distintas personalidades e diferentes foras e no precisa de um grande salto para chegar idia de que existe alguma conexo entre essas coisas. Nibbana, no entanto, no est conectado de nenhuma maneira com nada que ns experienciamos. J est l. Mas escondido por todos os nossos anseios por atividade fsica e mental. Para toc-lo, ns temos de abandonar nosso apego habitual atividade. Acreditar que tal coisa seja possvel, e que a felicidade ltima, dar um grande salto.

Muitos na poca do Buda estavam desejosos de dar o salto, enquanto muitos outros no, preferindo se contentar com os galhos e o alburno, querendo simplesmente aprender como viver feliz com as suas famlias nessa vida e ir para o paraso na prxima. Nibbana, eles diziam, poderia esperar. Confrontado com essa resistncia honesta e gentil ao seu ensinamento sobre nibbana, o Buda alegremente aceitou. Mas ele era menos tolerante em relao resistncia mais forte que ele recebeu dos brahmas, divindades celestiais que tranqilamente sentiam que a sua experincia de unicidade ilimitada e compaixo no meio do samsara o alburno deles era superior ao cerne de nibbana.

Em casos como esse, ele usava todos os poderes supra-humanos e intelectuais que ele possua para abater o orgulho deles, porque ele entendia que as idias deles fechavam totalmente a porta para a iluminao. Se voc pensa que o seu alburno na verdade o cerne, voc no buscar nada melhor. Quando seu alburno quebrar, voc decidir que o cerne uma mentira. Mas se voc compreender que voc est usando a casca da rvore e o alburno, voc deixar aberta a possibilidade para algum dia voltar atrs e fazer uma tentativa com o cerne. claro, ainda melhor se voc puder aceitar os ensinamentos do Buda sobre nibbana como um desafio direto, imediato, nesta vida como se ele estivesse dizendo, Aqui est a sua chance. Voc pode provar que estou errado?

O quinto smile:

Um matuto perito em elefantes, procurando um grande elefante macho, se deparou com uma grande pegada de elefante na floresta. No entanto, ele no concluiu precipitadamente que essa a pegada de um elefante macho. Porque? Porque existem elefantas pequenas com pegadas grandes. Poderia ser de uma delas. Ele segue na floresta e v umas marcas de raspas e presas de elefante no alto das rvores, mas assim mesmo ele no concluiu precipitadamente que ele estava na rota de um grande elefante macho. Porque? Porque existem elefantas altas com presas. As marcas poderiam ser delas. Ele segue ainda mais e finalmente v um grande elefante macho sob uma rvore ou numa clareira. A quando ele conclui que ele havia encontrado o seu elefante macho.

Ao explicar esse smile, o Buda disse que todos os passos preliminares da prtica ir para a floresta como um monstico; seguir os preceitos; desenvolver a conteno, contentamento e forte concentrao; ver as vidas passadas e ver os seres do cosmos morrendo e renascendo de acordo com o karma deles so meramente pegadas e marcas de raspas da iluminao do Buda. S quando voc tiver a sua primeira experincia da iluminao, depois de seguir o caminho dele, voc realmente saber que a sua f na iluminao dele foi bem colocada. Ao tocar a dimenso onde o sofrimento termina voc compreende que os ensinamentos do Buda sobre isso no eram s verdadeiros, mas tambm teis: Ele sabia o que estava falando e alm disso, foi capaz de dirigi-lo para l.

O que interessante sobre esse smile a maneira pela qual ele combina a f saudvel com o ceticismo honesto. Agir de acordo com essa f test-la, do mesmo modo que voc testaria uma hiptese prtica. Voc precisa de f para continuar seguindo as pegadas, mas voc tambm precisa de honestidade para reconhecer quando a f termina e o conhecimento comea. Essa a razo pela qual, no contexto Budista, f e empirismo so inseparveis. Ao contrrio de uma religio monotesta onde a f est centrada no poder de um outro ser a f na iluminao do Buda continua apontando de volta para o poder das suas prprias aes: Voc tem poder suficiente sobre as suas intenes para fazer com que elas sejam incuas? E depois as intenes incuas lhe daro a liberdade de abandonar a inteno totalmente? A maneira pela qual voc pode responder a essas perguntas sendo rigorosamente honesto sobre as suas intenes para detectar at mesmo o menor trao de malcia, at mesmo o menor movimento da prpria inteno. S ento voc, com certeza, conhecer o imortal, totalmente incondicionado pela inteno. Mas se voc afirmar que sabe coisas que na verdade no sabe, como que poder confiar em si mesmo para detectar qualquer uma dessas coisas? Voc precisa fazer com que a sua honestidade seja digna da sua f, testando as suas suposies at que voc encontre o verdadeiro conhecimento nesse teste.

por essa razo que a cincia nunca ser capaz de passar um julgamento vlido sobre as verdades da iluminao, pois o caminho lida com assuntos que fora dele o experimentador no pode entender. Embora outros possam sentir empatia pelo seu sofrimento, o sofrimento em si uma experincia que voc no pode partilhar com ningum. A honestidade e habilidade das suas intenes um assunto do seu dilogo interior, alguma coisa que tambm s sua. Os cientistas podem medir os dados neurolgicos indicando dor ou atividade intencional, mas no existe um medidor externo para medir como a dor ou quo honesto o seu dilogo intencional pode ser. E quanto ao imortal, ele no tem de maneira alguma nenhuma correlao fsica. O mais prximo que uma medio emprica externa pode chegar so fotos de marcas dos ps no cho e em marcas nas rvores.

Para conseguir o elefante macho, voc deve fazer o que o discpulo do Buda, Sariputta, fez. Ele ficou seguindo o caminho, sem tirar concluses precipitadas desonestas, at ele ver o elefante dentro da sua mente. A, quando o Buda perguntou a ele, Voc aceitou baseado na f que esses cinco poderes convico, energia, ateno plena, concentrao e sabedoria levam ao imortal, Sariputta pde responder honestamente, No, eu no aceito isso baseado na f. Eu sei.

Como Sariputta afirmou num outro discurso, a sua prova era experiencial, mas to ntima que tocava uma dimenso onde no s os sentidos externos, mas at o sentido de funcionamento da mente no podia chegar. Se quiser confirmar esse conhecimento, voc ter de tocar essa dimenso no nico lugar que voc pode acess-la, dentro de voc. Esse um dos dois modos pelos quais o mtodo do Buda difere do empirismo moderno.

O outro tem que ver com a integridade da pessoa que est executando a prova.

Como na cincia, a f na Iluminao do Buda funciona como uma hiptese de trabalho, mas o teste da hiptese requer uma honestidade mais profunda e mais radical do que qualquer coisa que a cincia exija. Voc tem de se comprometer todas as variaes de quem voc pensa ser totalmente com o teste. S quando voc desmontar todo o apego aos seus sentidos internos e externos que voc poder provar se a atividade de apego o que esconde o imortal. O Buda nunca forou ningum a se comprometer com esse teste por dois motivos, porque voc no pode coagir as pessoas a serem honestas com elas mesmas, e porque ele viu que a cova de carvo em brasa era coero suficiente.

 


 

Notas:

[1] Benoit Mandelbrot: cientista e matemtico que desenvolveu teorias sobre fractais. [Retorna]

 

 

Revisado: 27 Abril 2007

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