Os Defeitos dos Outros

Por

Ayya Khema

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O que percebemos como defeito nos outros simplesmente uma representao dos nossos prprios defeitos. Se observarmos o que se passa com a outra pessoa, poderemos usar aquilo que notamos como um espelho para conhecermos a ns mesmos. Um comentrio sobre dois versos do Dhammapada, de autoria da falecida Ayya Khema.

Fceis de serem vistos so os defeitos dos outros,
Difceis mesmo de ver so os nossos;
Os defeitos dos outros voc revela
Como no ato de separar a casca do gro,
Mas os seus prprios defeitos voc esconde
Como o trapaceiro esconde a jogada perdida.

Quem sempre busca defeitos nos outros,
constantemente criticando,
as suas impurezas se incrementam,
estando distante da destruio das impurezas.
(Dhp 252-253)

ESSAS DUAS ESTROFES do Dhammapada so de relevncia universal e capazes de gerar insights significativos. Na primeira estrofe, nossa tendncia para esconder nossos defeitos como o subterfgio de trapacear, porque essencialmente estamos sendo desonestos para com ns mesmos. Reconhecer como somos na realidade extremamente difcil, especialmente em relao aos nossos defeitos, pois a nossa opinio sobre ns mesmos sempre to fora do ponto, ela ou muito alta, ou muito baixa. A melhor maneira de obtermos um retrato claro e realista de ns mesmos nos observarmos com ateno plena.

No difcil para ns notarmos os defeitos das outras pessoas, pois eles freqentemente nos irritam e nesse estado negativo ficamos convencidos de que aquilo que pensamos o certo e que por isso temos o direito de julgar. E ns ficamos prontos para criticar, e ao fazer isso esquecemos que o nosso pensamento est baseado nas nossas prprias opinies, que no so completamente imparciais. Num certo sentido, todas as nossas opinies esto erradas, pois elas esto enraizadas na iluso do nosso ego: eu tenho, eu quero, eu farei; eu acredito, eu sei, eu penso. No nvel relativo, essas nossas opinies podem retratar a verdade, mas a verdade relativa no poder nunca ser suficiente para nos satisfazer completamente, pois no fim, ela pode expressar apenas a verdade de um ego contra a de um outro ego. Uma pessoa acredita nisso, uma outra acredita naquilo; uma faz isso de um jeito, uma outra faz isso exatamente do jeito oposto. A verdade construda em torno da noo de um ego no pode ser absoluta e pura. Na melhor das hipteses, ela reflete preferncias pessoais. A verdade relativa no pode ir alm disso.

Partindo do ponto de vista da verdade absoluta, temos um quadro muito diferente. A partir dessa perspectiva, ns comeamos a entender que os defeitos que nos preocupam nos outros deveriam ser reconhecidos em ns mesmos com o mesmo interesse. Os defeitos dos outros so um reflexo dos nossos prprios, pois do contrrio no seramos capazes de reconhec-los. Quando vemos algum com raiva ou exibindo-se com ostentao, ns reconhecemos esses defeitos por j termos experienciado esses estados em ns mesmos. Ns sabemos como essas reaes emocionais surgem e como as sentimos. Do mesmo modo, diz-se que s um Buda pode reconhecer um Buda, porque s um iluminado conhece a iluminao.

Quando nos damos conta de que estamos criticando outras pessoas, deveramos entender que estamos no caminho errado. improvvel que a nossa crtica ter alguma utilidade; pensando bem, quando foi que algum mudou depois de ser duramente criticado? Espalhar negativismo sempre prejudicial, principalmente para ns mesmos. provvel que uma outra pessoa fique irritada conosco e se reagirmos com raiva e ressentimento, entraremos num crculo vicioso de mais negativismo ainda, e possivelmente perderemos um amigo.

Portanto, a crtica no ajuda mas ficar ciente, sim. Se, por exemplo, notamos algum agindo sem ateno plena, a reao correta seria, Eu me pergunto quo atento estou neste momento? E essa a nica resposta vlida. Se observarmos algo inbil no comportamento de uma outra pessoa e quisermos critic-la, deveramos nos lembrar que a crtica prejudicial para ns mesmos.

Quando a crtica repetida se tornar um hbito, ns teremos entalhado marcas de negativismo dentro de ns mesmos. Provavelmente todos ns conhecemos algum que faz da crtica um hbito, e ns sabemos o quo desagradvel escut-lo. Portanto, devemos estar alertas para com as nossas crticas, e evitar que as outras pessoas sofram com esse hbito desagradvel. Deveramos tambm estar conscientes de que cada vez que criticamos, estamos gradualmente formando um hbito.

E se, ao contrrio, usarmos a oportunidade para observar o que est acontecendo com as outras pessoas, poderemos usar o que notamos no comportamento delas como um tipo de espelho de ns mesmos. E esse um espelho precioso, porque embora ele no nos proporcione uma vista dos nossos traos fsicos, ele nos permite comear realmente a difcil tarefa do auto-conhecimento. Essa tarefa difcil porque ns no s somos desprovidos de ateno, como preferimos essa situao ns preferimos no conhecer a verdade; estamos ansiosos por evit-la por que tememos que ela seja desagradvel.

Dois dos oito fenmenos mundanos esto envolvidos aqui: elogio e crtica. Preocuparmo-nos em ganhar elogio e evitar a crtica obviamente um pouco absurdo, mas na verdade ns no questionamos isso. E alm disso, essa preocupao a responsvel pela nossa relutncia em entrar em qualquer tipo de auto-anlise: temos medo de encontrar coisas que poderiam fazer com que tenhamos que aceitar a nossa culpa. Preferimos usar viseiras, evitando olhar para dentro de ns mesmos de maneira abrangente.

O medo da censura pode ser tratado usando a frmula, Reconhea, no critique, mude. O primeiro passo se tornar consciente desse medo de ser repreendido, do desacordo, da falta de apoio e apreciao.

A raiz de todo medo o medo da no existncia. De modo subliminar, ele est presente em todos ns e pode emergir repentinamente com o pnico, simplesmente por que ns no queremos incorrer em censura. Ao mesmo tempo, estamos sempre prontos para colocar a culpa nos outros, com a crena de que isso no ir nos prejudicar. Mas estamos enganados, pois ao dar lugar para a negatividade, somos ns que sofremos.

O medo da censura o mesmo que o nosso medo da morte, ou o nosso medo como agente do nosso ego, da nossa auto-afirmao. No final, o medo de no estar mais aqui. claro que quando prevemos uma acusao, no tememos desaparecer naquele momento; tememos o desaparecimento da nossa auto-estima que depende da apreciao dos outros.

Obviamente, isso loucura, mas mesmo assim a maioria das pessoas est totalmente convencida dessa idia, algumas ao ponto da obsesso, de modo que elas ficam o tempo todo tentando agradar a todos. Mas como esperamos alcanar isso? Ns, em primeiro lugar, sequer sabemos quais so os sentimentos e desejos das outras pessoas.

Embora no possamos fazer tudo de acordo com o que os outros querem, podemos sempre tentar fazer o que mais benfico.

Que ns queremos aplauso e elogio, um fato da vida. Nossas aes so geradas com esse fim e se o nosso desejo frustrado, somos tomados pelo medo que impede a objetividade. Em outras palavras, ns tememos a crtica. Para nos livrarmos desse medo, deveramos comear tentando no ser to crticos ns mesmos, compreendendo que o que quer que faamos retornar como um bumerangue.

Esse primeiro passo em direo ao insight do princpio de causa e efeito algo observvel por toda parte no universo insuficiente para superar todo o medo. O segundo passo envolve a compreenso da natureza do medo. Na nossa busca por afirmao por parte dos outros, nos tornamos escravos do nosso ambiente. E enquanto esse ambiente deixar de corresponder s nossas expectativas ou de confirmar o quo maravilhosos, inteligentes e bonitos ns somos, continuaremos desconfortveis. Tal atitude torna a vida imensamente difcil e obstrui nosso progresso em direo ao auto-conhecimento.

Por outro lado, o auto-conhecimento honesto essencial para que sejamos capazes de abandonar as nossas obsesses, inclusive o nosso medo da censura. Pois s podemos abandonar aquilo que tivermos reconhecido completamente por ns mesmos, e bem desnecessrio transformar o nosso medo da censura em medo do auto-conhecimento. O fato de sermos capazes de abandonar o ego, depois de termos compreendido que isso no significa que iremos morrer, significa que o egocentrismo no mais a fora dominante na nossa vida. As coisas no precisam revolver em torno de como ns as vemos todo o tempo. Ao invs disso, abrimos um espao dentro de ns para aquilo que universalmente verdadeiro. Ns ento compreendemos que, por que existem erros em cada aspecto da existncia condicionada, a perfeio no ser encontrada em lugar nenhum.

Considere o fato da impermanncia: tudo que existe deve desaparecer, e nada permanece o mesmo. Se tentarmos nos agarrar a alguma experincia, ela escapar como areia atravs dos nossos dedos. A falta de confiabilidade fundamental nas coisas pode, claro, se tornar uma ocasio para uma crtica, especialmente quando outras pessoas nos deixaram na mo por no manter um compromisso ou no completar um trabalho como combinado.

Ningum, sob forma nenhuma, criticaria uma estrela no cu quando ela se torna supernova e desaparece ns sabemos que no teria sentido demonstrar esse tipo de reprovao j que isso acontece naturalmente. Mas na realidade, isso a verdadeira natureza de todas as coisas, e igualmente no faz sentido se queixar sobre a falta de confiabilidade de tudo o mais no universo. Todas as coisas condicionadas so imperfeitas.

Essa a razo pela qual vale a pena olharmo-nos sem medo e ver o que que ns no gostamos nas outras pessoas. Desgostamos da negatividade delas? Deveramos nos examinar em relao negatividade. Desgostamos da busca constante de ateno da parte delas? possvel que ns tambm tenhamos o mesmo desejo de ser o centro de ateno? Dessa maneira, conseguiremos nos conhecer cada vez mais.

Todos ns conhecemos o medo que surge repetidamente no decorrer desse exerccio: Talvez eu no seja to bom quanto eu pensava e se eu no sou bom, outras pessoas iro me desaprovar . Eu chamo isso de pensamento de resultado direcionado: nos enrijecemos de medo diante dessa ameaa como diante de uma chicotada, e isso poder levar dor fsica. Ns acreditamos que tudo tem que ser perfeito, correto em tudo. Mas que expectativa essa? No universo tudo caminha do seu prprio jeito continuamente. Os rios fluem e qualquer tentativa de par-los causaria uma enchente. A vida flui continuamente; quando cada dia termina, um novo dia nasce. Por que no nos entregamos a esse fluir das coisas e paramos de pensar em colocar numa direo especfica todas as coisas que tm que ser corrigidas?

Isso se aplica tanto nossa meditao quanto a tudo o mais. Embora possamos estar sentados calmamente na nossa almofada, sem que ningum nos diga nada ou nos critique, ainda assim descobrimos que ns mesmos estamos colocando presso e bloqueando a nossa meditao. Se pensarmos que a nossa meditao tem que ser perfeita, seremos incapazes de meditar, e s encontraremos ansiedade. No tem sentido pretender fazer tudo de modo perfeito; s podemos nos esforar para fazer o melhor possvel. Estaremos em melhor situao se desistirmos do desejo de sermos estimados. claro que se algum nos demonstra sua apreciao, gratido e mesmo contentamento pelo que fizemos, isso bom, mas bom para eles.

Deveramos lembrar tambm que estamos mudando constantemente. Nossos poderes e capacidades podem ser vistos flutuando de um momento para outro. Isso tambm se aplica na meditao. Algumas vezes a mente foca muito rapidamente; em outras ocasies ela pode ter que se livrar de tantos pensamentos que uma hora ter passado antes mesmo de termos alcanado um grau de silncio interior. Ns tendemos a atribuir essa inabilidade ao nosso ego e assum-la como nossa. Mas, por que ser que sentimos a necessidade de fazer isso? O que acontece realmente que a mente est constantemente mudando.

Se pudermos ver como tudo muda em ns mesmos, ser lgico concluir que o mesmo acontece com todos os demais. Se uma pessoa se comporta de modo indigno de elogio, deveramos considerar que ela mudar, na esperana de que seja para melhor. Assim, ao tornarmo-nos mais conscientes da impermanncia, especialmente da impermanncia do mau comportamento, ns acharemos mais fcil abandonar o hbito de prestar ateno obsessiva aos pequenos erros e de criticar.

Como vimos, aquilo de que nos ressentimos mais nos outros so aquelas caractersticas que menos gostamos em ns mesmos. Ns tambm vimos que se despendermos algum tempo, de vez em quando, para investigar e compreender essas tendncias, poderemos fazer um esforo para super-las. Entretanto, no decorrer desse processo estaremos susceptveis de fazer algumas crticas pesadas, porque ao mesmo tempo que o comportamento que observamos possa se assemelhar com o nosso prprio comportamento, as pessoas que criticamos podem no estar fazendo o esforo para a purificao que ns fazemos. E essa atitude cria uma quantidade enorme de atrito nos relacionamentos; pode no ser de forma explcita, mas mesmo assim, estaremos guardando sentimentos de desaprovao e antipatia. Repetidamente precisamos fazer um novo esforo para aceitar os outros e refrearmo-nos de criticar. E isso verdadeiro at em relao a ns mesmos. No deveramos criticar e reclamar, mas ter sempre em mente a frmula: Reconhea, no critique, mude.

A primeira parte - obter uma opinio clara sobre ns mesmos - o mais difcil. A segunda no criticar, tambm no fcil, pois a mente responde negativamente a qualquer sensao desagradvel. Tudo que desgostamos em ns mesmos tudo que no podemos aceitar e que gostaramos de mudar produz uma sensao desagradvel e a auto-reprovao, e com isso podemos perder a noo do caminho para o auto-conhecimento.

o insight da impermanncia que facilita a busca do auto-conhecimento. Quando se tornar claro que tudo que vemos est desaparecendo, ficar muito mais fcil evitar o hbito de nos criticarmos.Tudo que vem, vai, e nunca mais retorna, e nada que vem em seguida ser exatamente o mesmo, no importando o quo parecido possa ser. Investigando a impermanncia deste modo, comearemos a ser capazes de nos aceitar e de aceitar os outros de bom grado. 

Reconhecer a verdadeira natureza daquilo que criticamos nos outros, ir nos ajudar a desenvolver uma nova opinio a nosso respeito. Ns nos libertaremos daquilo que nos ofende, no evitando as pessoas com esses defeitos, mas deixando de lado a necessidade de fazer com que os outros sejam responsveis por no serem do jeito que ns achamos que eles deveriam ser.

Nesse processo, podemos reconhecer tanto a impermanncia, como dukkha. Compreender que dukkha surge de nossas prprias reaes negativas, que inclui o medo da crtica, torna as coisas mais fceis para que nos refreemos de criticar os outros. Podemos ver que quase todos conhecem o medo que deriva da falta de apoio e da falta de julgamento positivo, e que esse tipo de dependncia das pessoas extremamente desagradvel.

Como podemos supor que as outras pessoas possam ter sempre uma opinio correta sobre ns? Ser que no acordamos para o fato de que estamos todos presos na armadilha da iluso, que torna impossvel para ns termos uma opinio verdadeiramente objetiva? A iluso que somos indivduos separados e que podemos ter unicamente contatos agradveis, atravs dos meios dos sentidos, se formos suficientemente espertos para arranjar as coisas da maneira certa.

Todos vivem com essa iluso que lhes proporciona o desejo pela existncia e o medo da aniquilao. Como, ento, possvel que outra pessoa nos confirme a nossa existncia? Todos os medos refletem esse medo da aniquilao. O medo no est limitado ao medo relacionado com a nossa existncia fsica, mas se estende para a nossa existncia emocional ou auto-afirmao. Se nos tornarmos cientes desse medo, poderemos desenvolver uma profunda empatia em relao s outras pessoas, pois toda a humanidade sente esse desejo pela existncia, que produz o dukkha mais severo.

Esse medo profundamente enraizado o obstculo no caminho para o contentamento perfeito, num nvel humano bsico, e uma vez que comecemos a entender essa correlao, pararemos a busca da satisfao nos lugares errados. Ao invs disso, tentaremos transcender as dificuldades da condio humana causadas pela iluso do ego. Mas, primeiro, temos de reconhecer que o medo do auto-questionamento, junto com o medo de ser criticado pelos outros, e a correspondente compulso para criticar, so motivados pela necessidade de reforar a nossa auto-afirmao. Ao condenarmos os outros, estamos fazendo com que nos sintamos melhor. Chegaremos perto da verdade se admitirmos que todos ns temos fraquezas.

Esse reconhecimento nos leva um grande passo adiante em direo ao insight quanto fundamental insuficincia da existncia, nesse nvel humano, condicionado. E s quando nos tornarmos cientes dessa insuficincia que experienciaremos uma urgncia de deixar esse nvel para trs no fisicamente, claro, mas no que se refere a abandonar nossa iluso do ego. Os problemas que temos que superar no nos incomodaro mais e ns ganharemos o insight de quaisquer outros problemas que continuem a nos causar dificuldades. Seremos capazes de ver que ainda temos de transcender aqueles problemas, uma vez que alguns eventos ainda podem nos incomodar. Se, por exemplo, ao ler nos depararmos com ms notcias e instantaneamente sentirmos negatividade brotando dentro de ns, poderemos assumir que ainda no perdemos nosso desejo e a nossa raiva. Existe muito de destruio no mundo, mas irritao e condenao mostram apenas que o dio est profundamente enraizado nas pessoas.

Todos ns nascemos com seis razes trs boas e trs ms e elas so a razo pela qual no faz sentido fazermos crticas, tanto a ns mesmos, como aos outros. A nica resposta que faz algum sentido reconhecer essas razes e nos comprometermos a encorajar as boas razes a florescer para que gradualmente atenuemos as prejudiciais.

As razes prejudiciais so, claro, o desejo, a raiva, e a deluso, (deluso no sentido de iluso do ego). Mas os seus opostos tambm nos deveriam ser familiares. Se pudemos ver as trs razes boas generosidade, amor incondicional, e sabedoria nas outras pessoas, poderemos chegar concluso natural de que elas tambm esto presentes dentro de ns. Na realidade, ns sabemos muito bem, exatamente quando, onde e como praticar. Palavras e preceitos nunca so suficientes por eles mesmos, mas ns j temos sabedoria dentro de ns, o bastante para perceber a verdade quando queremos ouv-la, e saber onde ela pode ser encontrada.

Quem sempre busca defeitos nos outros,
constantemente criticando,
as suas impurezas se incrementam,
estando distante da destruio das impurezas.
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Nessa estrofe, destruio das impurezas um termo para a perfeita purificao. Isso quer dizer que o desejo e a raiva no esto mais presentes, e quando eles tiverem desaparecido a pessoa estar perto da completa iluminao. At l, como essas palavras do Buda deixam claro, existe muito trabalho interior a ser feito, pois enquanto criticarmos, no estaremos cientes das nossas motivaes e seremos incapazes de trabalh-las.

Essas motivaes so principalmente as duas razes do desejo e da raiva. Ambas brotam da deluso, ou ignorncia, da iluso que nos leva a crer que realmente existe algum. No nvel relativo verdade que estamos aqui sentados na nossa almofada de meditao, mas a verdade absoluta completamente diferente. E como vivemos de acordo com a verdade relativa, como um eu que existe em relao a voc, ns nos experienciamos como separados dos outros e queremos proteger e construir paredes nossa volta. Para realizar isso, ns fazemos uso dessas motivaes e a cada vez que formos negativos, elas so fortalecidas .

Essa a razo pela qual to importante observarmos nossas reaes emocionais com ateno plena estarmos conscientes delas repetidamente, assim que elas ocorrerem, ainda que no possamos abandon-las. Uma vez que notemos essas reaes, poderemos notar tambm quanta agitao elas incitam e portanto, quo prejudiciais elas so para a calma que necessitamos para a meditao. Na vida diria, no fcil notar a diferena entre uma mente calma e uma agitada; a meditao, a longo prazo, faz com que esse contraste seja mais aparente. Notamos que nossas reaes no consistem unicamente de crtica; suas razes podem ser encontradas no desejo, na averso e no medo.

De acordo com o Buda, nossos desejos crescem quando olhamos para os defeitos dos outros e cedemos ao anseio por emoes negativas, pois isso refora a nossa separao, o que por sua vez leva a uma iluso de ego ainda mais entrincheirada. Por outro lado, nossos relacionamentos tambm podem ajudar-nos a aprofundar o insight, se compreendermos que os outros esto sujeitos s mesmas leis da impermanncia, sofrimento e insatisfao como ns. Na verdade, deveramos considerar os relacionamentos com outras pessoas como ocasies para um aprendizado, e se os usarmos dessa maneira, nos beneficiaremos de um sistema educacional de primeira classe. De fato, podemos considerar nossa vida de modo geral como uma contnua oportunidade para aprender. Todos os relacionamentos podem ser uma medida do nosso treinamento no amor e compaixo e uma excelente oportunidade para podermos nos conhecer.

Se rejeitarmos ou condenarmos uma pessoa, estaremos agitados por dentro. No momento em que abandonamos esse sentimento de censura, a paz retorna. Abandonar no fcil, mas existem muitos insights pequenos que podem ajudar-nos nessa direo, por exemplo, o insight de que ns mesmos criamos essa agitao e que isso nos prejudica.

Se continuarmos refletindo sobre a impermanncia e dukkha, comearemos a entender que o universo todo est sujeito a eles. Tudo est em constante processo de dissoluo, de desaparecimento e de um novo surgimento. por causa desse movimento ininterrupto de todas as coisas que nada pode ser inteiramente satisfatrio. Uma vez que reconheamos o fato da impermanncia em todas as coisas, no sofreremos mais por isso. Somos, afinal, parte de uma comunidade de bilhes de pessoas, e cada uma experienciando exatamente o mesmo fato da vida.

Podemos aplicar os princpios gerais da impermanncia e dukkha a qualquer situao. Observar essas caractersticas em tudo que colocarmos os nossos olhos o prximo passo no caminho em direo ao insight. Ns ento veremos que nada perfeitamente satisfatrio, que tudo impermanente. Nessa anlise, nenhuma exceo pode ser feita; tudo tem de ser includo. No podemos dizer, eu tenho a experincia de dukkha, mas aquela pessoa que me causou tanto dukkha uma imprestvel. Na verdade, ela experiencia tanto dukkha quanto ns. Assim, gradualmente, desenvolveremos um sentimento de que o mundo uma totalidade, e que ele no consiste meramente de fenmenos individuais.

Cada vez que reagimos com medo, a soma total de medo no mundo aumentada. Cada vez que guardamos negatividade dentro de ns, desaprovao ou crtica, a soma total de negatividade aumentada. Por outro lado, se compreendermos a impermanncia e dukkha, esse insight aprofundar a soma total de sabedoria no mundo. Se virmos claramente que cada indivduo carrega a responsabilidade pela totalidade, estaremos mais preparados para viver num nvel onde no vejamos mais todas as coisas como entidades separadas.

 Cada boa ao acrescenta bondade no mundo, porque ns somos o mundo. Nossas sensaes, pensamentos, palavras e aes so um componente do mundo. Com base nisso, pura falta de viso criticar; fazer isso deixar de ver as caractersticas fundamentais, ou marcas da existncia que so: impermanente, insubstancial e insatisfatria. Quanto mais meditarmos e quanto mais profundamente absorvermos e refletirmos sobre as verdades universais do dhamma, mais fcil ser para ns aplicarmos ateno plena nessas marcas da existncia e na vida diria.

No nvel da verdade absoluta no existem entidades separadas tudo manifestao. Mas no nvel relativo cada um carrega a responsabilidade pela manifestao do bem. O medo uma caracterstica que pode ter suas origens no desejo de reter uma natureza essencialmente fixa e separada como indivduos, e no desejo de que a vida seja agradvel o tempo todo. Ambos os desejos no so realistas: no podemos ficar aqui para sempre e as coisas no podem ser agradveis o tempo todo, assim, o medo surge em relao a esses dois objetivos e bloqueia o nosso caminho. O medo pode ser uma emoo muito poderosa. Diz-se que o medo da morte pior que a morte. Do mesmo modo, este tipo de emoo desabilita qualquer tentativa de sustentar um insight real. Quase todo meditador experimentou o medo que pode surgir durante a concentrao, quando a asseverao do ego repentinamente entra em temporria suspenso.

Uma vez vencido esse medo, o prximo passo compreender que estivemos correndo atrs de algo impossvel. Ento, o desejo, realmente srio, de transcender esse nvel humano comum de existncia se desenvolver. O medo que surge no curso desse processo precisa ser abandonado, no uma vez, mas muitas vezes, sempre que formos atacados pelo medo de que o nosso ego esteja sob ameaa. Essencialmente, o mesmo medo de quando estamos sendo criticados ou quando nos negada a certeza de um ego, que tanto desejamos. Existem muitos nomes diferentes para o medo, mas basicamente o medo da no-existncia.

O antdoto mais efetivo contra a nossa tendncia de criticar, os nossos prprios erros e os dos outros, testemunhar a verdade da impermanncia e dukkha. No suficiente dizermos para ns mesmos, eu no deveria criticar. Ns provavelmente sabemos disso h muito tempo. O problema que ns somos freqentemente atrados pelas coisas que no deveramos ser. Com relao a isso, s uma atitude engajada com o insight, o principal propsito da meditao, que poder nos ajudar.

O objetivo da meditao fazer com que experienciemos a ns mesmos mais profundamente, e essa a razo pela qual ela deveria ser apoiada pela contemplao e reflexo para aumentar a nossa autoconscincia. Que grau de medo ns guardamos dentro de ns? Quanto tememos a perda de ns mesmos? Esse tipo de inquisio nos leva mais prximos da verdade. O problema crucial aqui no se somos capazes de abandonar o nosso medo imediatamente, mas se podemos ganhar novos insights atravs desse nosso exame.

Poderemos aprender muitas coisas com os defeitos dos outros. Acima de tudo, poderemos chegar a conhecer muita coisa sobre ns mesmos. E quando assim o fizermos, alcanaremos um sentimento de conexo, de solidariedade para com os outros, como se eles fossem nossos irmos e irms. Do contrrio, enquanto nos mantivermos separados e enfatizando nossas diferenas pessoais, nossos apegos, nossos desejos e raiva tero a sua fora aumentada.

 


 

Nota: Original em ingls publicado na revista Buddhadharma Volume 1, Nmero 3 - Spring 2003.

 

 

Revisado: 6 Dezembro 2003

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