Meditao Andando
na Tradio das Florestas da Tailndia

Por

Ajaan Nyanadhammo

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Introduo

Nesta palestra quero focar nos detalhes prticos da meditao andando. Vou abordar como, quando, onde e porqu desta forma de meditao. Pretendo incluir nesta palestra ambas, as instrues prticas sobre os aspectos tcnicos da meditao andando, e as instrues para criar a qualidade mental que conduz concentrao, insight e sabedoria, atravs da atividade fsica da meditao andando.

O Buda enfatizou desenvolver a ateno plena nas quatro posturas principais do corpo: em p, sentado, deitado e andando (DN 22, MN 10). Ele nos exortou que tenhamos ateno plena em todas essas posturas de modo a desenvolver a clara compreenso e a lembrana daquilo que estamos fazendo em qualquer uma dessas posturas.

Quando lemos sobre as vidas dos monges e monjas na poca de Buda vemos que muitos realizaram os estgios de iluminao enquanto praticavam a meditao andando. A meditao andando chamada cankama em pali, sendo uma atividade na qual possvel focar e concentrar a mente e tambm desenvolver o conhecimento investigativo e a sabedoria.

Algumas pessoas descobrem serem naturalmente atradas pela meditao andando porque sentem que mais fcil e mais natural do que a meditao sentada. A meditao sentada lhes parece maante, ou elas ficam tensas, ou so facilmente distradas. Sua mente no se acalma. Se este for o seu caso, no tente apenas perseverar, tente uma mudana de postura e faa algo novo. Faa algo diferente, experimente com a meditao em p ou tente a meditao andando. Essa nova postura de meditao pode lhe dar alguns outros meios hbeis na aplicao da mente. Todas as quatro posturas de meditao so apenas tcnicas, mtodos para desenvolver e treinar a mente.

Experimente e desenvolva a meditao andando, pode ser que voc veja os seus benefcios. Na tradio das florestas da Tailndia h uma grande nfase na meditao andando. Muitos monges caminham por muitas horas como forma de desenvolver a concentrao - s vezes at dez ou quinze horas por dia!

O falecido Ajaan Singtong costumava praticar tanto a meditao andando que fazia uma trilha profunda no caminho em que praticava, sendo que os novios tinham que preencher o buraco que se formava. O caminho de areia que ele usava para a meditao andando acabava se transformando num buraco pelas tantas horas que ele caminhava por dia - s vezes at quinze ou mais horas por dia! Sei de outro monge que praticava tanta meditao andando que nem se importava em ir para o seu kuti noite. Quando ficava realmente muito cansado depois de praticar a meditao andando durante o dia todo e at tarde da noite, ele deitava ali mesmo no caminho de meditao e usava o punho como travesseiro. Ele adormecia com ateno plena, tendo feito uma determinao para levantar no momento em que acordasse. Assim que acordava, ele comeava a caminhar novamente. Basicamente, ele vivia andando no seu caminho de meditao! Esse monge obteve resultados da sua prtica rapidamente.

No Ocidente no h tanta nfase na prtica da meditao andando. por isso que gostaria de descrever o processo e recomendar que sirva como complemento para a prtica da meditao sentada. Estas instrues, espero iro ajudar a desenvolver o repertrio de tcnicas de meditao - tanto na meditao formal como na vida diria. Como grande parte do tempo empregado com a atividade de caminhar, ento, se vocs souberem como aplicar a ateno, at mesmo o simples ato de caminhar em casa pode se tornar um exerccio de meditao.

Os cinco benefcios da Meditao Andando

O Buda descreveu cinco benefcios da meditao andando no Cankama Sutta :

"Uma pessoa se torna capaz de viagens (caminhar longas distncias), ela se torna capaz de se esforar, ela se torna saudvel, o que ela come, bebe, consome e experimenta digerido corretamente, a concentrao alcanada atravs da meditao andando duradoura."

Desenvolver a resistncia para caminhar longas distncias. O primeiro benefcio da meditao andando que favorece a resistncia para caminhar longas distncias. Isso era particularmente importante na poca do Buda, quando a maioria das pessoas viajavam a p. O prprio Buda regularmente perambulava de um lugar para outro caminhando at 16 quilmetros por dia. Assim, ele recomendava que a meditao andando fosse usada como uma forma de desenvolver a aptido fsica e resistncia para percorrer grandes distncias a p.

Os monges da tradio das florestas, ainda nos dias de hoje perambulam, isso chamado Tudong. Eles saem com as suas tigelas e mantos e caminham em busca de lugares isolados para meditar. Em preparao para sair perambulando, eles progressivamente aumentam o tempo de meditao andando de modo a desenvolver a sua aptido fsica e resistncia. O nmero de horas aumentado para pelo menos cinco ou seis horas por dia. Se algum caminha uma mdia de quatro ou cinco quilmetros por hora e faz cinco horas de meditao andando por dia, o nmero de quilmetros vai se acumulando.

Bom para o esforo. Esforar-se, especialmente para superar a sonolncia, o segundo benefcio. Ao praticar a meditao sentada, os meditadores podem se dar conta que tendem a deslizar para estados tranqilos, mas se forem demasiado "tranqilos", sem ateno, ento pode acontecer de adormecerem ou at mesmo roncarem. O tempo passa rapidamente, mas no h ateno plena ou clareza, muito embora possa haver paz. Sem ateno e clareza, a meditao pode se transformar em uma "tranqilidade" embotada, porque foi tomada pela preguia e torpor. Desenvolver a meditao andando pode contrapor essa tendncia.

Por exemplo, Ajaan Chah costumava recomendar que uma vez por semana ficssemos acordados a noite toda. Praticvamos a meditao sentada e a meditao andando durante toda a noite. Em geral tendemos a ficar muito sonolentos por volta da uma ou duas horas da manh, por isso, Ajaan Chah recomendava fazer a meditao andando - para trs, como uma forma de superar a sonolncia. Ningum consegue adormecer andando para trs!

Lembro-me de certa vez no Bodhinyana Monastery, saindo por volta das cinco horas da manh para praticar a meditao andando, vi um dos leigos, que estava hospedado no monastrio para o retiro das chuvas, fazendo um grande esforo para superar a sonolncia. Ele na verdade estava caminhando para c e para l no topo de um muro com dois metros de altura na frente do monastrio - muito atentamente andando para c e para l em cima do muro! Fiquei um pouco preocupado porque ele poderia cair e se machucar. No entanto, ele estava realmente se esforando muito e tendo o cuidado de aplicar a ateno plena a cada passo, estando no processo de superar a sonolncia, ao desenvolver um senso aguado de vigilncia, esforo e zelo.

Bom para a sade. O Buda disse que a meditao andando leva a uma boa sade. Esse o terceiro benefcio. Todos sabemos que caminhar considerado uma boa forma de exerccio. Nos dias de hoje at mesmo ouvimos falar de "caminhada poderosa" (power walking). Bem, estamos falando de "meditao poderosa", desenvolver a meditao andando tanto como um exerccio fsico como mental. Desta forma, a caminhada pode ser usada tanto como uma boa forma de exerccio, como uma maneira de cultivar a mente. Mas, para obter ambos benefcios, temos que trazer a ateno para o processo de caminhar, em vez de simplesmente caminhar e deixar a mente vagar, pensando em outras coisas.

Bom para digesto. O quarto benefcio da meditao andando ser bom para a digesto. Isto particularmente importante para os monges que comem uma refeio por dia. Depois de uma refeio, o sangue vai para o estmago, para longe do crebro. Assim, podemos nos sentir sonolentos. Os monges da tradio das florestas enfatizam que depois da refeio deve-se fazer algumas horas de meditao andando, porque caminhar para c e para l ajuda a digesto. Para os meditadores leigos tambm, se tiveram uma refeio pesada, em vez de ir para a cama, saiam e faam uma hora de meditao andando. Isso ir contribuir para o bem estar fsico e ser uma oportunidade para cultivar a mente.

Bom para sustentar a concentrao. O quinto benefcio importante da meditao andando que a concentrao que surge sustentada durante muito tempo. A postura caminhando realmente uma postura meditativa bastante grosseira em comparao com a postura sentada. Sentado fcil manter a postura. Estamos com os olhos fechados para que no haja estmulos sensoriais visuais, e no estamos envolvidos em qualquer movimento corporal. Ento, sentados, em comparao com uma caminhada, uma postura muito simplificada em termos das atividades envolvidas. Mesmo em p uma postura fsica mais simplificada, porque no h nenhum movimento ocorrendo. A "postura do leo", deitado do lado direito, tambm uma postura meditativa mais simplificada.

Quando estamos caminhando h muitos estmulos sensoriais. Ns estamos olhando para onde estamos indo, portanto, h o estmulo visual, e tambm h as informaes sensoriais dos movimentos do corpo. Portanto, se podemos concentrar a mente durante uma caminhada mesmo recebendo todos esses estmulos sensoriais, ento quando mudamos dessa postura para uma mais simplificada, a concentrao se torna mais fcil de manter. Isto , quando nos sentamos, a fora mental e o poder de concentrao transferido mais facilmente para a postura mais simplificada.

Enquanto que se algum desenvolveu a concentrao apenas na postura sentada, ao se levantar dessa posio e realizar movimentos corporais como por exemplo caminhar, ser mais difcil manter esse estado de concentrao. Isto ocorre porque a pessoa est se movendo do simples ao mais complexo. Assim, vemos que a meditao andando pode ajudar a desenvolver a fora e a clareza da mente, e uma concentrao que pode ser transferida para outras posturas de meditao menos ativas.

Preparao para a Meditao Andando

Encontre um Lugar Adequado

Como se pratica a meditao andando? Em primeiro lugar, encontre um lugar calmo com poucas distraes, propcio para um caminho de meditao. O lugar onde o Buda praticou a meditao andando em Bodhgaya, aps a iluminao, ainda existe at hoje. O caminho tem o comprimento de dezessete passos longos. Atualmente, os monges da tradio das florestas tendem a fazer os seus caminhos de meditao muito mais longos. Eles podem chegar at trinta passos longos. Um principiante pode achar trinta passos um pouco longo demais porque a sua ateno ainda no est desenvolvida. No momento em que chegue ao final do caminho a sua mente poder ter dado uma volta "ao redor do mundo". Lembrem-se, caminhar uma postura estimulante e, inicialmente, a mente tende a vaguear muito. Geralmente melhor para os iniciantes comearem em um caminho mais curto; quinze passos seria um bom tamanho.

Se for praticar a meditao andando num local aberto, encontre um lugar isolado, onde no haja distraes ou perturbaes. bom encontrar um caminho dentro de uma rea delimitada. Pode ser uma distrao andar em uma rea aberta, onde exista uma bela paisagem, pois a mente poder ser atrada pela paisagem. Uma rea delimitada especialmente adequada para personalidades especulativas que gostam de pensar muito pois ajuda acalmar a mente ( Vsm III.103). Se o caminho delimitado, isso tende a trazer a mente para dentro, para dentro de si e para a paz.

Preparando o Corpo e a Mente

Uma vez que tenha escolhido um caminho adequado, fique em p em uma das extremidades. Pare ereto. Coloque sua frente a mo direita sobre a esquerda. No ande com as mos atrs das costas. Lembro-me de Tan Ajaan Tui, um mestre que visitou o nosso monastrio, comentar quando viu um dos convidados andando para c e para l com as mos atrs das costas: "Ele no est praticando a meditao andando, ele est passeando". Ele fez essa observao porque ao no colocar as mos frente no havia determinao clara suficiente de focar a mente na meditao andando - para diferenciar do ato de simplesmente caminhar.

A prtica tem como objetivo desenvolver samadhi, o que exige esforo focalizado. A palavra em pali samadhi significa focalizar a mente, conduzir a mente para a unicidade atravs de vrios graus de ateno e concentrao. Para focar a mente, a pessoa tem que ser diligente e determinada. Isso em primeiro lugar requer um grau de postura fsica, bem como postura mental. A pessoa comea posicionando-se com as mos frente. Acalmando o corpo ajuda a acalmar a mente. Tendo assim acalmado o corpo, deve-se em seguida, ficar parado quieto e trazer a ateno plena para o corpo. Em seguida, levantar as mos juntas em anjali, num gesto de respeito, e com os olhos fechados refletir por alguns minutos sobre as qualidades do Buda, do Dhamma e da Sangha (Buddhanusatti, Dhammanusatti e Sanghanusatti).

Tambm pode ser contemplada a toma de refgio no Buda - no Sbio, Aquele que Sabe e V, o Desperto, o Completamente Iluminado. Reflita com o seu corao por alguns minutos sobre as qualidades do Buda. Depois lembre-se do Dhamma - a Verdade que estamos nos esforando para realizar e cultivar atravs da meditao andando. Finalmente, traga mente a Sangha - especialmente aqueles plenamente iluminados, que realizaram a verdade cultivando a meditao. Ento traga as mos para baixo sua frente e faa uma determinao mental sobre quanto tempo ir praticar a meditao andando, seja meia hora, uma hora, ou mais. No importa quanto tempo determine, mas cumpra-o. Desta forma nessa fase inicial da meditao a mente estar sendo alimentada com entusiasmo, inspirao e confiana.

Tambm importante mencionar que ao caminhar, lembre-se de manter os olhos baixos, cerca de um metro e meio frente. No olhe ao redor distrado por isso ou aquilo. Mantenha a ateno nas sensaes nas solas dos ps, e, dessa forma, desenvolva a ateno plena e a plena conscincia.

A Escolha de um Objeto de Meditao e Dando Incio

O Buda ensinou quarenta diferentes objetos de meditao (Vsm III,104), muitos dos quais podem ser usados na meditao andando. Contudo, alguns so mais adequados do que outros. Vou discutir alguns desses objetos de meditao comeando com o mais comum: ateno na prpria postura ao caminhar.

Ateno na Postura ao Caminhar

Neste mtodo, ao caminhar, toda ateno colocada nas solas dos ps, nas sensaes medida que estas surgem e desaparecem (isso pressupe que a pessoa estar caminhando descala, como a maioria dos monges. No entanto, a prtica pode ser feita calando sapatos, especialmente se as solas forem finas). Ao comear a caminhar as sensaes iro mudar. Quando o p levantado e novamente baixado entrando em contato com o solo, novas sensaes surgem. Colocamos a ateno nessas sensaes, tal como so sentidas na sola dos ps. Novamente, ao erguer o p, observamos mentalmente as novas sensaes conforme vo surgindo. Ao levantar um p e baix-lo, observamos as sensaes que so sentidas. A cada novo passo, algumas novas sensaes so experimentadas e as antigas sensaes cessam. Isto deve ser percebido com plena ateno. A cada passo, h novas sensaes que so experimentadas - sensao que surge, sensao que desaparece; sensao que surge, sensao que desaparece.

Colocamos a ateno plena na sensao de caminhar em si, em cada passo dado. Estamos cientes sobre que tipo de vedana (sensaes agradveis, desagradveis, ou neutras) surgem nas solas dos ps. Quando estamos parados, h uma sensao do contato com o solo. Esse contato pode produzir dor, calor, ou outras sensaes. Colocamos a ateno plena nessas sensaes, compreendendo-as plenamente. Ao levantar o p para dar um passo a sensao muda assim que o p perde o contato com o solo. Quando abaixamos o p, mais uma vez surge uma nova sensao quando o p entra em contato com o solo. medida que caminhamos, as sensaes esto constantemente mudando e novamente surgindo. Com ateno plena notamos esse surgimento e desaparecimento das sensaes conforme as solas dos ps se levantam ou tocam o cho. Desta forma, estamos mantendo a nossa total ateno apenas nas sensaes ao caminhar.

Alguma vez vocs antes j realmente tinham notado as sensaes nos ps ao caminhar? As sensaes ocorrem cada vez que caminhamos, mas ns tendemos a no perceber essas coisas sutis da vida. Quando caminhamos as nossas mentes tendem a estar em algum outro lugar. A meditao andando uma maneira de simplificar o que estamos fazendo enquanto caminhamos. Estamos trazendo a mente para o "aqui e agora", unificados com o caminhar, ao caminhar. Estamos simplificando tudo, aquietando a mente e simplesmente percebendo as sensaes na medida em que estas surgem e desaparecem.

Quo rpido devemos caminhar? Encontre o seu prprio ritmo. Ajaan Chah recomendava caminhar naturalmente, no muito lento ou muito rpido. Caminhando muito rpido, poder ser muito difcil concentrar-se no surgimento e desaparecimento das sensaes. Ser necessrio diminuir um pouco. Por outro lado, algumas pessoas podem realmente precisar caminhar mais depressa. Depende de cada um. Cada um tem que encontrar o seu prprio ritmo, aquilo que funciona melhor. Podemos comear mais devagar no incio, e depois gradualmente chegar ao nosso ritmo normal de caminhada.

Se a ateno plena for fraca (ou seja, se a mente divaga muito) ento melhor caminhar bem devagar at que se possa permanecer no momento presente a cada passo. Comece estabelecendo a ateno plena no incio do percurso. Quando chegar no meio do caminho pergunte mentalmente a si mesmo: "Onde est minha mente? Est nas sensaes nas solas dos ps? Estou ciente do contato aqui e agora, neste momento presente?" Se a mente se afastou, ento traga-a de volta novamente para as sensaes nos ps e continue andando.

Chegando no final do caminho, vire lentamente e re-estabelea a sua ateno plena. Onde est a mente? Ser que ela est percebendo as sensaes nas solas dos ps? Ou ser que ela se perdeu? A mente tende a vaguear perseguindo pensamentos de ansiedade, medo, felicidade, tristeza, preocupaes, dvidas, prazeres, frustraes e todos os outros inumerveis pensamentos que podem eventualmente surgir. Se a ateno plena no objeto de meditao no estiver presente, restabelea-a primeiro, e depois comece a andar. Restabelea a mente no simples ato de caminhar, e ento comece a caminhar de volta para o outro extremo do caminho. Quando chegar no meio do caminho, observe: "Estou agora no meio do caminho" e verifique novamente se a mente est com o objeto. Ento, quando chegar ao final do caminho, note mentalmente: "Onde est a mente?" Desta forma, voc caminha para c e para l com ateno plena e plena conscincia das sensaes que surgem e desaparecem. Enquanto caminha, constantemente re-estabelea a sua ateno plena - puxando a mente de volta, trazendo a mente para dentro, tornando-se consciente, percebendo as sensaes a cada momento, surgindo e desaparecendo.

medida que sustentamos a ateno plena nas sensaes nas solas dos ps, notaremos que a mente fica menos distrada. A mente estar menos inclinada a sair em busca das coisas que esto acontecendo ao nosso redor. Nos tornamos mais calmos. A mente vai se tornando tranqila. A mente se acalma. Uma vez que a mente se torna tranqila e calma, notaremos que a postura ao caminhar se torna uma atividade demasiado agitada para esse estado mental. Ns s queremos ficar quietos. Ento pare e fique em p permitindo que a mente possa experimentar essa calma tranqilidade. Isto conhecido como passaddhi, que um dos fatores da iluminao.

Se durante a caminhada a mente se torna muito refinada, podemos at achar ser realmente impossvel continuar. Caminhar implica na volio mental para se mover, e a mente pode estar demasiado envolvida na meditao para se interessar por isso. Se for assim, pare e fique em p, e continue a prtica nessa posio. A meditao diz respeito ao trabalho da mente, no necessariamente a alguma postura em particular. A postura apenas um meio conveniente para melhorar o trabalho da mente.

A concentrao e a tranqilidade trabalham em conjunto com a ateno plena. Combinados com os fatores da energia, investigao dos fenmenos, felicidade e equanimidade formam os Sete Fatores da Iluminao. Quando na meditao a mente est tranqila, ento tendo essa tranqilidade como condio, ir surgir um sentimento de xtase e felicidade. O Buda disse que a felicidade da paz a maior felicidade, (MN 66) e uma mente concentrada experimenta essa paz. Esta paz pode ser experimentada nas nossas vidas.

Tendo desenvolvido a meditao andando em um contexto formal, ento, quando estivermos caminhando nas nossas vidas dirias - indo s lojas, caminhando de uma sala para outra, ou mesmo indo ao banheiro - ns podemos usar esse ato de caminhar como meditao. Podemos estar cientes apenas do caminhar, basta estar com esse processo. A mente poder estar quieta e pacfica. Essa uma maneira de desenvolver a concentrao e a tranqilidade nas nossas vidas dirias.

Empregando um Objeto da Meditao Sentada na Meditao Andando

Se durante a meditao sentada a mente se torna calma, ento esse mesmo objeto pode ser empregado na meditao andando. No entanto, com alguns objetos de meditao muito sutis, como por exemplo a respirao, em primeiro lugar a mente tem que ter atingido um certo grau de estabilidade e calma. Se a mente ainda no estiver suficientemente calma ser muito difcil tentar iniciar a meditao andando concentrando-se na respirao pois a respirao um objeto de ateno muito sutil. Neste caso, melhor comear com um objeto de meditao mais grosseiro, como as sensaes que surgem nos ps.

Existem muitos objetos de meditao que podem ser bem transferidos da postura sentada para a postura caminhando, como por exemplo, as Quatro Moradas Divinas: o amor bondade, compaixo, alegria altrusta e equanimidade. Ao caminhar para c e para l, desenvolva o pensamento expansivo com base no amor bondade: "Que todos os seres sejam felizes, que todos os seres estejam em paz, que todos os seres estejam livres de todo o sofrimento". Use a postura caminhando como um complemento para a postura sentada; desenvolva a meditao com o mesmo objeto, mas numa postura e situao diferentes.

"Procurando por Buddho" - Escolhendo um Mantra

Se ao praticar a meditao andando perceber que est ficando sonolento, ento, ao invs de acalmar a mente pode ser necessrio ativ-la usando um mantra, de modo que se torne mais focada e desperta. Use um mantra como por exemplo a palavra Buddho, repetindo a palavra mentalmente. Se a mente ainda vagueia, ento passe a repetir Buddho com mais rapidez, e tambm caminhe com mais rapidez para c e para l. Enquanto caminha, repita Bud-dho, Bud-dho, Bud-dho. Dessa forma, a mente pode se tornar bastante focada muito rapidamente.

Quando Tan Ajaan Mun, o famoso mestre da tradio das florestas, estava entre as tribos das montanhas no norte da Tailndia, elas no conheciam nada sobre meditao ou monges meditadores. No entanto, as pessoas dessa regio eram muito curiosas. Quando elas o viram caminhando para c a para l no seu caminho de meditao, elas fizeram uma fila para acompanh-lo. Quando ele chegou no fim do caminho e se virou, todo o vilarejo ali estava!

Elas o viram caminhando para c e para l com os olhos baixos e tinham assumido que ele estava procurando por algo. Elas perguntaram: "O que voc est procurando, venervel senhor? Ns podemos ajud-lo a encontrar." Ele habilmente respondeu: "Estou procurando Buddho, o Buda no corao. Vocs podem me ajudar a encontr-lo, andando para c e para l nos seus prprios caminhos de meditao, em busca do Buda". E com esta instruo simples e bonita muitos desses moradores comearam a meditar, e Tan Ajaan Mun disse que obtiveram resultados maravilhosos.

Contemplaes: Investigando Como as Coisas So

A investigao dos Fenmenos (dhammavicaya) um dos fatores da Iluminao. Esse tipo de contemplao sobre os ensinamentos e as leis da natureza pode ser feita ao caminhar para c e para l. Isso no significa que a pessoa simplesmente pensa ou especula sobre qualquer coisa. Pelo contrrio, uma constante reflexo e contemplao sobre a Verdade (Dhamma).

Investigando a Mudana (anicca). Por exemplo, a impermanncia pode ser contemplada observando o processo de mudana e notando que todas as coisas esto sujeitas mudana. Desenvolvemos a percepo do surgimento e desaparecimento das experincias. "Vida" um processo contnuo de surgimento e desaparecimento, e toda a experincia condicionada est sujeita a isso. Contemplando essa Verdade, vemos as caractersticas da existncia. Vemos que todas as coisas esto sujeitas mudana. Todas as coisas no so satisfatrias. Todas as coisas so no-eu. Pode-se investigar essas caractersticas da natureza praticando a meditao andando.

Ao longo da histria do Budismo, muitos monges e monjas realizaram o insight, a sabedoria, e a iluminao, enquanto praticavam a meditao andando, por meio da investigao da Verdade. Na tradio das florestas cada aspecto da nossa vida tratado como uma oportunidade para a meditao. Meditao no ocorre s quando estamos sentados nas nossas almofadas de meditao. Todos os processos da vida so oportunidades para que possamos investigar a realidade. Ns nos esforamos para conhecer as coisas como elas so, que as coisas surgem e desaparecem - para compreender a realidade como ela realmente .

Recordando a nossa Generosidade e Virtude.

O Buda enfatizou continuamente a importncia da generosidade (It. 26) e da virtude (SN XLV.7). Durante a prtica da meditao andando podemos desenvolver a recordao da nossa prpria virtude ou generosidade. Ao caminhar para c e para l pergunte a si mesmo: "Hoje, quais foram as aes bondosas que pratiquei?"

Tan Ajaan Gunhah foi um professor de meditao com o qual pratiquei. Muitas vezes ele costumava comentar que uma das razes porque os meditadores no conseguem ficar tranqilos por no terem praticado suficiente bondade durante o dia. A bondade uma almofada para a tranqilidade, uma base para a paz. Se fizemos atos de bondade durante o dia - tendo dito uma palavra gentil, feito uma boa ao, tendo sido generoso ou compassivo - ento a mente vai sentir felicidade e xtase. Esses atos de bondade e a felicidade que naturalmente trazem torna-se o fator condicional para a concentrao e a paz. O poder da bondade e da generosidade leva felicidade, uma felicidade benfica que constitui a base para a concentrao e a sabedoria.

A recordao de boas aes um bom tema de meditao quando a mente est inquieta, agitada, irritada, ou frustrada. Quando a mente no est em paz, ento, recorde as suas aes bondosas passadas. A idia no tentar fabricar o ego, mas na verdade uma celebrao da bondade e daquilo que benfico. Atos de bondade, virtude e generosidade, trazem felicidade para a mente, e a felicidade um fator de iluminao.

Recordar Atos de Generosidade. Refletir sobre os benefcios da generosidade. Lembrar da prpria virtude. Contemplar a pureza da no-violncia, a pureza da honestidade, a pureza do decoro nas relaes sexuais, a pureza da veracidade, a pureza de no-confuso mental evitando bebidas alcolicas. Todas essas lembranas podem servir como objetos na meditao andando.

Relembrando a Natureza do Corpo.

Podemos meditar sobre a morte e o morrer, ou sobre a natureza no-bela do corpo, as contemplaes asubha. Podemos visualizar dividindo o corpo em partes, assim como um estudante de medicina que disseca um corpo. Ns "descascamos" a pele e "vemos" o que est embaixo - as camadas de msculos, os tendes, os ossos, os rgos. Podemos remover mentalmente cada um dos rgos do corpo de modo que possa ser investigado e compreendido. De que feito o corpo? Quais so os seus componentes? Isso sou eu? Isso permanente? digno de ser chamado um eu?

O corpo apenas um aspecto da natureza, como uma rvore ou uma nuvem - no diferente. O problema fundamental o apego ao corpo; o apego da mente idia de que este corpo meu corpo, o deleite com o meu corpo, o deleite com os corpos de outras pessoas. Esse sou eu. Isso o eu. Eu sou o dono disso.

Podemos questionar esse apego ao corpo atravs da contemplao e da investigao. Tomemos como objeto os ossos deste corpo. Ns visualizamos um osso durante a meditao andando, vendo-o embranquecer, se decompondo e voltando para o elemento terra. O osso clcio e absorvido pelo corpo atravs do consumo de matria vegetal e animal, sua origem da terra. Os elementos qumicos se unem para formar o osso, e, finalmente, aquele osso ir voltar para a terra. Clcio apenas retorna para o clcio; no h uma qualidade de meu clcio ou clcio de outra pessoa. A terra s vai voltar para a terra, o elemento retorna sua forma natural. Isso no o eu, no meu, no digno de ser chamado de eu. Ns meditamos sobre a decomposio de um osso e retornamos os seus elementos de volta para a terra. Ns o restabelecemos novamente e o decompomos de novo, e ns continuamos com esse processo de forma contnua at que surja o insight claro.

Se voc estiver meditando sobre o corpo dessa forma e ainda no decomps completamente o objeto de meditao nos quatro elementos (terra, ar, fogo e gua) e, em seguida o reconstituiu, o trabalho da meditao ainda no est terminado. O exerccio mental ainda no est completo, o trabalho no foi feito. Mantenha-se nisso. Continue andando. Caminhe para c a para l e investigue at que seja capaz de estabelecer a percepo na mente de ver asubha no subha - ver o no-belo, o no-delicioso, e o no-atraente no que se presume ser belo, delicioso e atraente. Ns decompomos esse corpo retornando-o de volta aos seus elementos naturais, a fim de v-lo como ele realmente .

O treinamento da mente para investigar a natureza conduz sabedoria. Ao repetir esses exerccios de decompor o corpo nos seus quatro elementos - terra, ar, fogo e gua - a mente v e compreende que isso no o eu, no meu. A mente v que os quatro elementos que constituem este corpo so apenas aspectos da natureza. a mente que se apega idia de que o corpo o eu. Assim, ns questionamos esse apego; no aceitamos isso cegamente, porque esse apego que causa todo nosso sofrimento.

Outras contemplaes.

Outro objeto de meditao que o Buda recomendou foi refletir sobre a paz, a natureza da paz (Vsm 197). Outro considerar as qualidades da iluminao. Alternativamente, pode-se caminhar para c a para l refletindo sobre as qualidades do Buda, as qualidades do Dhamma, ou as qualidades da Sangha. Ou pode-se recordar dos seres celestiais, Devas, e as qualidades necessrias para se tornar um ser celestial (Vsm III.105).

Algumas Palavras de Cautela sobre as Contemplaes.

H muitos objetos de meditao no repertrio Budista. O objeto de meditao deve ser escolhido com cuidado. Selecione um objeto de meditao que estimula a mente quando a mente precisar de estmulo, ou pacifique a mente quando a mente precisar ser acalmada. Mas algumas palavras de cautela so necessrias ao usar esses contemplaes na meditao andando para que a mente no divague e v para o pensamento especulativo. Isso muito fcil de acontecer. Por isso temos que estar muito atentos e notar no incio, no meio e no final do caminho: "Estou realmente com o meu objeto de meditao ou estou pensando em alguma outra coisa?" Se voc estiver praticando a meditao andando por quatro horas, mas s h ateno plena e plena conscincia por um minuto durante essas quatro horas, voc ento s ter meditado por um minuto.

Lembre-se que no importa quanta meditao fazemos, a qualidade da meditao que conta. Se enquanto estiver caminhando a mente estiver vagando em outro lugar, ento no estaremos meditando. No estaremos meditando no sentido que o Buda usou a palavra meditao - bhavana ou desenvolvimento mental. a qualidade da mente e no a quantidade de meditao que importa.

Concluso

Nesta palestra sobre a meditao andando, espero ter-lhes dado algo que vai ampliar o seu repertrio de tcnicas de meditao. A meditao andando algo que pode ser usada na nossa vida diria, quando estamos ativos bem como quando praticamos a meditao formal. A meditao andando pode ser um outro meio para o desenvolvimento da mente. A meditao andando ocupa a mente. Se algum tem problemas com sonolncia, no fique apenas ali sentado cabeceando; levante-se e coloque a mente para trabalhar. Isso kammatthana - o trabalho fundamental da mente.

Na tradio das florestas sempre que um mestre de meditao visita um monastrio, um dos primeiros lugares aonde vai so os caminhos de meditao dos monges, para ver a quantidade de pegadas. Se esses caminhos de meditao estiverem bem usados, ento, isso considerado um sinal de um bom monastrio.

Que o caminho de meditao de vocs tambm possa ficar bem usado.

 


 

Este texto foi adaptado de palestras do Dhamma no Dhammaloka Buddhist Centre em 31 Julho 1992 e no Bodhinyana Monastery em 22 Janeiro 2002.

 

 

Revisado: 29 Novembro 2014

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