Introduo ao Dhammapada

por

Bhikkhu Bodhi

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Desde tempos remotos at os dias de hoje, o Dhammapada tem sido considerado como a expresso mais sucinta dos ensinamentos do Buda encontrados no Cnone Pali e o principal testamento espiritual do Budismo antigo. Nos pases que seguem a escola Theravada do Budismo, como o Sri Lanka, Birmnia e Tailndia, a influncia do Dhammapada est em todos os lugares. uma fonte fecunda para sermes e discusses, um guia para resolver os incontveis problemas da vida do dia a dia, uma cartilha para a instruo de novios nos monastrios. Mesmo dos contemplativos experientes, retirados para uma ermida na floresta ou para uma caverna na montanha para uma vida de meditao, pode-se esperar que contem com uma cpia do livro entre suas poucas posses materiais. No entanto, a admirao que o Dhammapada suscitou no se limitou aos seguidores declarados do Budismo. Onde quer que ele tenha se tornado conhecido, sua seriedade moral, compreenso realista da vida humana, sabedoria aforstica e a mensagem inspiradora de um caminho para a liberdade do sofrimento, fizeram com que ele ganhasse a devoo e venerao daqueles sensveis para o bem e para a verdade.

O expositor dos versos que compem o Dhammapada o sbio indiano chamado de Buda, um ttulo honorfico que significa "o Iluminado" ou "o Desperto". A histria deste venervel personagem tem sido muitas vezes coberta de adornos literrios e de mescla com lendas, mas o histrico essencial de sua vida simples e claro. Ele nasceu no sculo VI a.C., filho de um rei dirigente sobre um pequeno estado nos contrafortes do Himalaia, onde atualmente o Nepal. O nome que lhe deram foi Siddhattha e o nome de sua famlia, Gotama (em snscrito: Siddhartha Gautama). Crescido no luxo, preparado por seu pai para ser o herdeiro do trono, em sua juventude ele passou por um encontro profundamente perturbador com os sofrimentos da vida, e como resultado ele perdeu todo o interesse nos prazeres e privilgios de governar. Uma noite, em seu vigsimo nono ano, ele fugiu da cidade real e entrou na floresta para viver como um asceta, decidido a encontrar uma forma para a libertao do sofrimento. Durante seis anos ele experimentou com diferentes sistemas de meditao e se submeteu a severas austeridades, mas descobriu que essas prticas no o aproximavam nem um pouco de seu objetivo. Finalmente, em seu trigsimo quinto ano, enquanto estava sentado em profunda meditao sob uma rvore em Gaya, ele alcanou a Suprema Iluminao e se tornou, no sentido mais correto do ttulo, o Buda, o Iluminado. Posteriormente, por 45 anos, ele viajou por todo o norte da ndia, proclamando as verdades que havia descoberto e fundando uma ordem de monges e monjas para darem continuidade sua mensagem. Na idade dos oitenta, depois de uma longa e frutuosa vida, ele faleceu pacificamente na pequena cidade de Kusinara, rodeado por um grande nmero de discpulos.

Para seus seguidores, o Buda no nem um deus, uma encarnao divina, ou um profeta com uma mensagem da revelao divina, mas um ser humano que por seu prprio esforo e inteligncia atingiu a mais alta realizao espiritual de que o homem capaz - a sabedoria perfeita, a completa iluminao, a completa purificao da mente. Sua funo em relao humanidade a de um professor - um professor do mundo que, por compaixo, aponta para os outros o caminho para Nibbana (em snscrito: Nirvana), a libertao final do sofrimento. Seu ensinamento, conhecido como o Dhamma, oferece um conjunto de instrues explicando a verdadeira natureza da existncia e mostrando o caminho que conduz libertao. Livre de todos os dogmas e das reivindicaes inescrutveis de autoridade, o Dhamma fundado solidamente sobre a prpria clara compreenso que o Buda teve da realidade, e leva a pessoa que o pratica a esse mesmo entendimento - o conhecimento que arranca as razes do sofrimento.

O ttulo "Dhammapada", que os antigos compiladores das escrituras budistas atriburam a essa antologia significa pores, aspectos, partes ou versos do Dhamma. Foi dado esse ttulo ao trabalho porque, em seus 26 captulos, ele abrange os mltiplos aspectos dos ensinamentos do Buda, oferecendo uma variedade de pontos de vista a partir dos quais se pode ter um vislumbre de seu cerne. Considerando que os discursos mais longos do Buda contidos nas sees em prosa do Cnone normalmente procedem metodicamente, desdobrando-se de acordo com a estrutura sequencial da doutrina, o Dhammapada no tem esse arranjo to sistemtico. O trabalho simplesmente uma coleo de versos inspiradores ou pedaggicos sobre os fundamentos do Dhamma, para ser usado como base para o benefcio espiritual pessoal e para a instruo. Em qualquer captulo vrios versos sucessivos podem ter sido falados pelo Buda em uma nica ocasio e, assim, iro apresentar entre si um desenvolvimento significativo ou um conjunto de variaes sobre um tema. Mas, em geral, a lgica por trs do agrupamento dos versos em um captulo apenas estarem relacionados a um tema em comum. Os ttulos dos 26 captulos, assim, funcionam como uma espcie de rubrica para classificar os diversos pronunciamentos poticos do Mestre, e a razo por trs da incluso de qualquer verso em um captulo particular a meno do assunto indicado no ttulo do captulo. Em alguns casos (Captulos 4 e 23), esse pode ser um smbolo metafrico em vez de um ponto da doutrina. Tambm parece no haver um planejamento intencional na ordem dos captulos, embora em certos pontos uma sutil linha de desenvolvimento possa ser discernida.

Os ensinamentos do Buda, vistos em sua totalidade, se interligam em um nico e perfeitamente coerente sistema de pensamento e prtica que ganha a sua unidade no seu objetivo final, a realizao da libertao do sofrimento. Mas os ensinamentos inevitavelmente emergem da condio humana como a sua matriz e ponto de partida, e, portanto, devem ser expressados de uma tal forma que possa alcanar os seres humanos que esto em diferentes nveis de desenvolvimento espiritual, com seus mais diversos problemas, objetivos, preocupaes e com as suas mais variadas capacidades de entendimento. Ento, assim como a gua, embora seja uma em essncia, assuma formas diferentes de acordo com os recipientes em que ela despejada, da mesma forma o Dhamma da libertao assume diferentes formas em resposta s necessidades dos seres a serem ensinados. Essa diversidade, j bastante evidente nos discursos em prosa, torna-se ainda mais evidente no meio dos versos altamente condensados, espontneos e intuitivos utilizados no Dhammapada. O efeito de libertao mais intensificado pode resultar das aparentes inconsistncias que podem deixar confusos os desavisados. Por exemplo, em muitos versos, o Buda elogia certas prticas pois estas conduzem a um nascimento celestial, mas em outros ele desencoraja os discpulos de aspirarem aos parasos e exalta aqueles que no se deleitam com os prazeres celestiais (Dhp 187, Dhp 417).

Muitas vezes ele prescreve aes meritrias, mas em outros lugares ele exalta aquele que foi para alm do mrito e demrito (Dhp 39, Dhp 412). Sem uma compreenso da estrutura subjacente do Dhamma, tais declaraes vistas lado a lado vo parecer incompatveis e podem at levar a um julgamento precipitado de que o ensinamento se auto-contradiz.

A chave para resolver essas aparentes discrepncias o reconhecimento de que o Dhamma assume sua formulao para as necessidades das diversas pessoas para quem ele discursado, bem como para a diversidade de necessidades que possam coexistir mesmo em um nico indivduo. Para dar sentido aos vrios enunciados encontrados no Dhammapada, vamos sugerir um esquema de quatro nveis para ser usado na determinao da inteno por trs de qualquer verso particular encontrado no trabalho e, assim, entender seu lugar correto na viso sistemtica total do Dhamma. Este esquema de quatro nveis se desenvolve a partir de uma antiga mxima de interpretao que sustenta que os ensinamentos do Buda so projetados para atender a trs objetivos principais: bem-estar humano no aqui e agora, um renascimento favorvel na prxima vida, e a realizao da felicidade ltima. Chega-se aos quatro nveis separando o objetivo ltimo em duas etapas: caminho e fruto.

(I) O primeiro nvel a preocupao com o estabelecimento do bem-estar e felicidade na esfera imediatamente visvel das relaes humanas concretas. O objetivo desse nvel mostrar ao homem o caminho para viver em paz consigo mesmo e com seus semelhantes, para cumprir suas responsabilidades familiares e sociais, e para conter a mgoa, conflito e violncia que infectam as relaes humanas e trazem um sofrimento to imenso para o indivduo, para a sociedade, e para o mundo como um todo. As orientaes adequadas para este nvel so muito parecidas com as prescries ticas bsicas propostas pela maioria das grandes religies do mundo, mas no ensinamento Budista elas esto livres de amarras testas e esto baseadas em dois fundamentos diretamente verificveis: a preocupao com a prpria integridade da pessoa e felicidade no longo prazo, e a preocupao com o bem-estar daqueles que podem ser afetados pelas aes da pessoa (Dhp 129-132). O conselho mais geral do Dhammapada evitar todo mal, cultivar o bem e purificar a prpria mente (Dhp 183). Mas para dissipar quaisquer dvidas que o discpulo possa ter do que ele deve evitar e do que ele deve cultivar, outros versos fornecem diretrizes mais especficas. Deve-se evitar a irritabilidade na ao, palavra e pensamento e treinar o autocontrole (Dhp 231-234). Deve-se aderir aos cinco preceitos, o cdigo moral fundamental do Budismo, que ensina a abstinncia de destruir a vida, de roubar, de ter um comportamento sexual imprprio, de mentir e de consumir embriagantes; algum que transgride essas cinco regras de treinamento "arranca sua prpria raiz mesmo nesse mundo"(Dhp 246-247). O discpulo deve tratar todos os seres com bondade e compaixo, viver honestamente e corretamente, controlar seus desejos sensuais, falar a verdade e viver uma vida moderada e justa, cumprir diligentemente os seus deveres, tais como o ajudar os pais, sua famlia e aos contemplativos e brmanes que dependem dos leigos para o seu sustento (Dhp 332-333).

Um grande nmero de versos relativos a este primeiro nvel esto preocupados com a resoluo de conflitos e de hostilidades. Discusses devem ser evitadas pela pacincia e perdo, j que responder com dio ao dio somente mantm o ciclo de vingana e retaliao. A verdadeira conquista do dio alcanada pelo no-dio, pela tolerncia, pelo amor (Dhp 4-6). No se deve responder linguagem grosseira, mas manter o silncio (Dhp 134). No se deve ceder raiva, mas control-la tal como um cocheiro controla uma carruagem (Dhp 222). Em vez de manter a ateno nos defeitos dos outros, o discpulo exortado a examinar seus prprios defeitos, e fazer um esforo contnuo para remover suas impurezas, assim como um ourives purifica a prata (Dhp 50, Dhp 239). Mesmo que ele tenha cometido o mal no passado, no h necessidade de abatimento ou desespero; porque os hbitos do homem podem ser radicalmente alterados, e algum que abandona o mal pelo bem, ilumina este mundo tal como a lua liberta das nuvens (Dhp 173).

As qualidades genunas que distinguem um homem de virtude so a generosidade, honestidade, pacincia e compaixo (Dhp 223). Ao desenvolver e dominar essas qualidades dentro de si mesmo, um homem vive em harmonia com sua prpria conscincia e em paz com seus semelhantes. O aroma da virtude, o Buda declara, mais doce que o perfume de todas as flores e perfumes (Dhp 55-56). O homem bom, tal como as montanhas do Himalaia, brilha de longe, e onde quer que v, amado e respeitado (Dhp 303-304).

(II) No seu segundo nvel de ensinamento, o Dhammapada mostra que a moralidade no esgota sua importncia na contribuio para a felicidade humana aqui e agora, mas que ela tambm exerce uma influncia muito mais crtica na moldagem do destino pessoal. Esse nvel comea com o reconhecimento de que, por reflexo, a situao humana requer um contexto mais satisfatrio para a tica do que meros apelos altrustas podem proporcionar. Por um lado o nosso senso inato de justia moral exige que a bondade seja recompensada com a felicidade e o mal com o sofrimento, por outro lado nossa experincia tpica nos mostra pessoas virtuosas cercadas de dificuldades e aflies e pessoas completamente ms vivendo nas ondas da prosperidade. (Dhp 119-120). A intuio moral nos diz que se houver qualquer valor de longo prazo para a retido, o desequilbrio dever ser corrigido de alguma forma. A situao atual no produz uma soluo evidente, mas o ensinamento do Buda revela o fator necessrio para defender nosso grito por justia moral em uma lei universal e impessoal que reina sobre toda a existncia senciente. Essa a lei de kamma (em snscrito: karma), da ao e seu fruto, o que garante que a ao com contedo moral no desaparece no nada, mas que, no seu devido tempo encontra a devida retribuio: o bem com a felicidade, o mal com o sofrimento.

No entendimento popular, kamma , por vezes, identificado com destino, mas isso um completo equvoco, totalmente inaplicvel doutrina budista. kamma significa ao intencional, ao que surge da inteno, que pode se manifestar exteriormente atravs de aes corporais ou da linguagem, ou permanecer internamente como pensamentos, desejos e emoes no expressados. O Buda distingue kamma em dois tipos ticos principais: kamma prejudicial, a ao enraizada em estados mentais de cobia, raiva e deluso, e kamma benfico, a ao enraizada em estados mentais de generosidade ou desapego, benevolncia e sabedoria. As aes intencionais que uma pessoa realiza no decorrer de sua vida podem desaparecer da memria sem deixar vestgios, mas uma vez realizadas elas deixam impresses sutis sobre a mente, sementes com potencial para se frutificarem no futuro quando encontrarem condies favorveis ao seu amadurecimento.

O campo objetivo no qual as sementes de kamma amadurecem o processo de renascimentos chamado samsara. Nos ensinamentos do Buda, a vida no vista como uma ocorrncia isolada, que comea espontaneamente com o nascimento e termina na aniquilao completa na morte. Em vez disso, cada existncia vista como parte de uma srie de existncias individualizadas que no tem um comeo discernvel no tempo e que continuar enquanto o desejo por ser/existir estiver intacto. O renascimento pode ocorrer em vrios mundos. No existem apenas os conhecidos mundos dos seres humanos e animais, mas acima deles encontramos os mundos celestiais de maior felicidade, beleza e poder, e abaixo deles os mundos infernais de extremo sofrimento.

O Buda indica o kamma, nossas aes intencionais, como a causa para o renascimento nesses vrios mundos. Em seu papel principal, o kamma determina a esfera em que ocorre o renascimento, as aes benficas trazendo renascimento em mundos superiores, e as aes prejudiciais renascimento em mundos inferiores. Depois de produzir o renascimento, o kamma continua a operar, regendo os dons e as particularidades do indivduo dentro da sua dada forma de existncia. Assim, no mundo humano, acmulos anteriores de kamma saudvel resultaro em vida longa, sade, beleza, riqueza e sucesso; acmulos de kamma prejudiciais resultaro em vida curta, doena, pobreza, feiura, e fracasso.

Por consequncia, o segundo nvel de ensinamento encontrado no Dhammapada o corolrio imediato e prtico do reconhecimento da lei de kamma, exposto para mostrar aos seres humanos, que naturalmente desejam a felicidade e liberdade do sofrimento, os meios eficazes para alcanarem seus objetivos. O contedo deste ensinamento em si no difere do apresentado no primeiro nvel; o mesmo conjunto de preceitos ticos para se abster do mal e para cultivar o bem. A diferena est na perspectiva a partir da qual os preceitos so colocados e o objetivo pelo qual eles so tomados. Os princpios de moralidade so mostrados agora em suas mais amplas conexes csmicas, como se fosse vinculado a uma lei invisvel, mas abrangente, que une toda a vida e reina sobre os ciclos repetidos de nascimento e morte. A observncia da moralidade justificada, apesar das suas dificuldades e fracassos aparentes, pelo fato de que ela est em harmonia com essa lei, que atravs da eficcia do kamma, nossas aes intencionais se tornam o principal determinante do nosso destino tanto nesta vida como nos futuros estados de vir a ser. Seguir a lei tica leva para cima - para o desenvolvimento interior, para renascimentos superiores e experincias mais ricas de felicidade e alegria. Violar a lei, agir sob o domnio do egosmo e do dio, leva para baixo - para a deteriorao interior, ao sofrimento e ao renascimento nos estados de privao. Este tema j anunciado no par de versos que abre o Dhammapada, e reaparece em diversas formulaes ao longo do texto (ver por exemplo, Dhp 15-18, Dhp 117-122, Dhp 127, Dhp 132-133, Captulo 22).

(III) O conselho da tica baseado no desejo por renascimentos superiores e felicidade em vidas futuras no o ensinamento final do Buda, e portanto, no pode fornecer o sistema final de treinamento pessoal recomendado no Dhammapada. Em sua prpria esfera de aplicao, ele perfeitamente vlido como um ensino preparatrio ou provisrio para aqueles cujas faculdades espirituais ainda no esto amadurecidas, mas que ainda exigem mais amadurecimento ao longo de uma sucesso de vidas. Uma investigao mais profunda, entretanto, revela que todos os estados de existncia no samsara, mesmo os mais elevados parasos celestiais, carecem de valor genuno; pois todos so inerentemente impermanentes, sem qualquer substncia duradoura, e, assim, para aqueles que neles se agarram, h condies potenciais para o sofrimento. O discpulo de faculdades maduras, suficientemente preparado por experincias prvias para a profunda exposio do Dhamma pelo Buda, no almeja nem mesmo o renascimento entre os devas. Tendo compreendido a inadequao intrnseca de todas as coisas condicionadas, sua principal aspirao somente pela libertao do ciclo constante de nascimentos. Esse o objetivo ltimo para o qual aponta o Buda, como a meta imediata para aqueles de faculdades desenvolvidas e tambm como o ideal de longo prazo para aqueles que necessitam de maior desenvolvimento: Nibbana, o Imortal, o estado incondicionado onde no h mais nascimento, envelhecimento e morte, e no h mais sofrimento.

O terceiro nvel de ensinamento encontrado no Dhammapada estabelece o referencial terico e a disciplina prtica que surge da aspirao libertao final. O referencial terico fornecido pelo ensinamento das Quatro Nobres Verdades (Dhp 190-192, Dhp 273), que o Buda j exps no seu primeiro discurso e sobre o qual ele colocou tanta nfase em seus vrios discursos que todas as escolas do budismo se apropriaram dele como seu fundamento comum. Todas as quatro verdades giram em torno do fato do sofrimento (dukkha), entendido no como as simples dores e tristezas experimentadas, mas como a insatisfao generalizada de tudo aquilo que condicionado (Dhp 202-203). A primeira verdade detalha as vrias formas de sofrimento - nascimento, envelhecimento, enfermidade e morte, a unio com aquilo que desprazeroso, a separao daquilo que prazeroso, o sofrimento por no se obter o que se deseja. E culmina na declarao de que todos os fenmenos constituintes do corpo e da mente "os agregados da existncia" (khandha), sendo impermanentes e por no terem uma substncia duradoura, so intrinsecamente sofrimento. A segunda verdade aponta que a causa do sofrimento o desejo (tanha), o desejo pelos prazeres sensuais e pela existncia que nos leva atravs do ciclo de renascimentos, trazendo em seu rastro tristeza, angstia e desespero (Dhp 212-216, Captulo 24). A terceira verdade declara que o desaparecimento e cessao sem deixar vestgios do desejo resulta na libertao do sofrimento, e a quarta prescreve os meios para obter a libertao, o Nobre Caminho ctuplo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ao correta, modo de vida correto, esforo correto, ateno plena correta, e concentrao correta (Captulo 20).

Se, neste terceiro nvel, o nfase da doutrina desloca-se dos princpios de kamma e renascimento para as Quatro Nobres Verdades, uma mudana de nfase correspondente tambm ocorre na esfera prtica. A nfase no recai mais sobre a observao da moralidade bsica e do cultivo de atitudes benficas como forma de se obter renascimentos superiores. Em vez disso, recai sobre o desenvolvimento integral do Nobre Caminho ctuplo como meio para desenraizar o desejo que alimenta o processo de renascimento em si. Para fins prticos os oito elementos do caminho esto organizados em trs grupos principais que revelam mais claramente a estrutura de desenvolvimento do treinamento: grupo da virtude (incluindo a linguagem correta, ao correta e modo de vida correto), grupo da concentrao (incluindo o esforo correto, ateno plena correta e concentrao correta), e grupo da sabedoria (incluindo o entendimento correto e pensamento correto). Pelo treinamento da virtude, as formas mais grosseiras de impurezas mentais, aquelas que surgem como aes e palavras prejudiciais, so refreadas e mantidas sob controle. Pelo treinamento da concentrao a mente se torna calma, pura e unificada, livre das correntezas de pensamentos que distraem. Pelo treinamento da sabedoria o feixe de ateno concentrada dirigido sobre os fatores constituintes da mente e do corpo para investigar e contemplar suas caractersticas mais evidentes. Esta sabedoria, gradualmente amadurecida, atinge seu pice no entendimento que traz a completa purificao e libertao da mente.

Em princpio, a prtica do caminho em todas os trs nveis possvel para as pessoas em qualquer posio social. O Buda ensinou aos leigos bem como aos monges, e muitos dos seus discpulos leigos atingiram estgios elevados de realizao. Contudo, a dedicao para o desenvolvimento do caminho produz mais frutos para aqueles que renunciaram a todas as outras preocupaes a fim de se dedicarem inteiramente ao treinamento espiritual, para viverem a "vida santa" (brahmacariya). Para a conduta a ser completamente purificada, para a contemplao sustentada e sabedoria penetrante se desdobrar sem impedimentos, a adoo de um estilo diferente de vida torna-se imperativa, um estilo de vida que minimize as distraes e estmulos para o desejo e organize todas as atividades em torno do objetivo de libertao. Assim o Buda estabeleceu a Sangha, a ordem de monges e monjas, como o campo especial para aqueles que esto prontos para dedicarem suas vidas prtica de seu caminho, e no Dhammapada o chamado para a vida monstica ressoa por toda parte.

A entrada na vida monstica um ato de renncia radical. O judicioso, que viu a transitoriedade e a misria ocultas na vida mundana, rompe as amarras dos vnculos familiares e sociais, abandona sua casa e prazeres mundanos, e se torna algum que abandonou a vida em famlia (Dhp 83, Dhp 87-89, Dhp 91). Retirados para lugares quietos e isolados, eles buscam a companhia de instrutores sbios, e guiado pelas regras do treinamento monstico, dedicam suas energias para uma vida de meditao. Contentes com os mais simples requisitos materiais, moderados no comer, com os sentidos controlados, eles estimulam a sua energia, permanecem em constante ateno plena e aquietam as agitadas ondas dos pensamentos (Dhp 185 , Dhp 375). Com a mente clara e acalmada, eles aprendem a contemplar o surgimento e desaparecimento de todas as formaes e experimentar assim "um prazer que transcende todas os prazeres humanos", uma alegria e felicidade que antecipa a felicidade do Imortal (Dhp 373-374). A vida de contemplao meditativa atinge seu pice com o desenvolvimento do insight, (vipassana), e o Dhammapada enuncia as caractersticas a serem discernidas atravs da sabedoria: que todas as coisas condicionadas so impermanentes, que todos so sofrimento, que no h um "eu", ou uma entidade egoica que realmente exista, que possa ser encontrado em qualquer coisa (Dhp 277-279). Quando estas verdades so penetradas pela experincia direta, o desejo, a ignorncia e os grilhes mentais relacionados que mantm o aprisionamento so destrudos, e o discpulo avana atravs de nveis sucessivos de realizao at a realizao completa de Nibbana.

(IV) O quarto nvel de ensinamento no Dhammapada no fornece nenhuma nova revelao da doutrina ou da prtica, mas uma aclamao e exaltao daqueles que alcanaram o objetivo. No Cnone Pali os estgios de realizao definidos ao longo do caminho para Nibbana so quatro. No primeiro, chamado de "entrar na correnteza" (sotapatti), o discpulo conquista seu primeiro vislumbre do "Imortal" e entra de forma irreversivelmente no caminho para a libertao, destinado a alcanar o objetivo em no mximo sete renascimentos. Essa realizao por si s, o Dhammapada declara, superior ao domnio sobre todos os mundos (Dhp 178). Aps entrar na correnteza seguem-se dois outros estgios que enfraquecem e erradicam ainda mais impurezas e tornam o objetivo cada vez mais prximo. Um deles chamado de estgio do "que retorna uma vez" (sakadagami), quando o discpulo ir retornar ao mundo humano, no mximo uma vez; o outro o estgio do "que no retorna" (anagami), quando ele nunca mais voltar existncia humana, mas vai renascer em um plano celestial, destinado a realizar l a libertao final. O quarto e ltimo estgio o do arahant, o perfeito, o sbio plenamente realizado que completou o desenvolvimento do caminho, erradicou todas as impurezas e se libertou do aprisionamento do ciclo de renascimentos. Esse o personagem ideal do Budismo antigo e o supremo heri do Dhammapada. Exaltado no Captulo 7 no seu prprio nome, e no Captulo 26 sob o nome de brahmana, "homem santo", o arahant serve como um exemplo vivo da verdade do Dhamma. No seu ltimo corpo, perfeitamente em paz, ele o modelo inspirador que mostra em sua prpria pessoa que possvel libertar-se das impurezas da cobia, raiva e deluso, superar o sofrimento e realizar Nibbana nesta prpria vida.

O ideal do arahant atinge sua perfeita exemplificao no Buda, o promulgador e mestre de todo o ensinamento. Foi o Buda que, sem qualquer ajuda ou orientao, redescobriu o antigo caminho de libertao e o ensinou a inmeros outros. Seu surgimento no mundo oferece a preciosa oportunidade de ouvir e praticar o Dhamma excelente (Dhp 182, Dhp 194). Ele mostra e oferece refgio (Dhp 190-192), o Mestre Supremo que no depende de nada alm de sua prpria sabedoria autodesenvolvida. (Dhp 353). Nascido como homem, o Buda sempre permanece essencialmente humano, mas sua realizao da perfeita iluminao o eleva a um nvel que transcende o dos humanos comuns. Todos os nossos conceitos familiares e modos de conhecimento falham para descrever sua natureza: no deixa marcas, de alcance ilimitado, livre de tudo mundano, o conquistador de tudo, o conhecedor de tudo, no contaminado pelo mundo (Dhp 179, Dhp 180, Dhp 353).

Sempre a brilhar no esplendor de sua sabedoria, o Buda por si mesmo, confirma a convico Budista na perfectibilidade humana e consuma a imagem do homem perfeito do Dhammapada, o Arahant.

Os quatro nveis de ensinamento que acabamos de discutir nos do a chave para separar os diversos pronunciamentos do Dhammapada sobre a doutrina budista e para discernir a inteno por trs dos conselhos prticos. Entrelaado com os versos especficos para estes quatro nveis de ensinamento principais, h por todo o texto um grande nmero de versos no vinculados a um nvel especfico, mas que so aplicveis a todos os nveis. Juntos, eles nos delineiam a viso de mundo bsica do Budismo antigo. A caracterstica mais marcante dessa viso de mundo a nfase no processo ao invs da permanncia, como marca caracterstica da realidade. O universo est em fluxo, um rio vasto de incessante vir a ser que arrasta tudo em seu caminho; partculas de poeira e montanhas, devas, homens e animais, sistemas mundiais aps inumerveis sistemas mundiais - todos so engolidos por essa torrente irreprimvel. No h um criador deste processo, no h divindade providencial que, nos bastidores, direciona todas as coisas para uma finalidade importante e gloriosa. O cosmos no tem um comeo, e em seu movimento de perodo em perodo regido apenas pela lei impessoal e implacvel do surgimento, mudana, e desaparecimento.

No entanto, o foco do Dhammapada no est no cosmos exterior, mas no mundo humano, sobre o homem com seus desejos e sofrimentos, sobre sua imensa complexidade, sobre o seu esforo e movimento em direo transcendncia. O ponto de partida a condio humana tal como , e a dualidade inevitvel da vida humana fundamental para o quadro que emerge, as dicotomias que provocam e desafiam o homem em cada reviravolta. Buscando a felicidade, temendo a dor, perda e morte, o homem caminha sobre o delicado equilbrio entre o bem e o mal, pureza e impureza, progresso e declnio. Suas aes esto encadeadas entre essas antpodas morais, e como ele no pode evadir da necessidade de escolher, ele tem que arcar com a responsabilidade total por suas decises. A liberdade moral do homem uma razo tanto para temor como jbilo, porque, por meio de suas escolhas, ele determina seu prprio destino individual, no s atravs de uma vida, mas atravs das numerosas vidas que se seguiro na roda do samsara. Se escolhe erroneamente, poder se afundar at as profundezas da degradao, se escolhe corretamente, poder at mesmo se fazer digno da homenagem dos devas. Os caminhos para todos os destinos se ramificam a partir do presente, a partir do inevitvel momento imediato de escolha consciente e da ao subsequente.

O reconhecimento da dualidade se estende alm dos limites da existncia condicionada para incluir os polos antitticos do condicionado e incondicionado, samsara e Nibbana, "essa margem" e "a outra margem". O Buda aparece no mundo como o Grande Libertador que mostra ao homem o caminho para se libertar dessa margem e alcanar a outra margem, onde a nica e verdadeira segurana pode ser encontrada. Mas tudo que ele pode fazer indicar o caminho; o trabalho de segui-lo est nas mos do discpulo. O Dhammapada vrias vezes anuncia esse desafio da liberdade humana: o homem o criador e senhor de si mesmo, o protetor ou destruidor de si mesmo, o salvador de si mesmo (Dhp 160, Dhp 165, Dhp 380). Em ltima anlise ele deve escolher entre o caminho que conduz de volta ao mundo, para o ciclo do vir a ser, e o caminho que conduz para fora do mundo, para Nibbana. E, embora este ltimo caminho seja extremamente difcil e exigente, a voz do Buda traz palavras de garantia, confirmando que isso pode ser feito, que se encontra dentro do poder do homem superar todas as barreiras e triunfar at mesmo sobre a morte em si.

O papel central na concretizao de progressos em todas as esferas, declara o Dhammapada, desempenhado pela mente. Em contraste com a Bblia, que comea com a explicao da criao do mundo por Deus, o Dhammapada comea com uma afirmao inequvoca de que a mente a precursora de tudo o que somos, a criadora de nosso carter, a criadora do nosso destino. Toda a disciplina do Buda, desde a moralidade bsica at os nveis mais elevados de meditao, dependem do treinamento da mente. Uma mente mal direcionada traz dano maior do que qualquer inimigo, uma mente bem direcionada traz um benefcio maior do que qualquer outro parente ou amigo (Dhp 42, Dhp 43). A mente indisciplinada, instvel, difcil de subjugar, mas pela ateno plena, esforo e incansvel autodisciplina, uma pessoa pode dominar suas tendncias errantes, escapar das torrentes das paixes e encontrar "uma ilha que nenhum dilvio pode inundar" (Dhp 25). Aquele que vence a si mesmo, o vitorioso sobre a prpria mente, alcana uma conquista que nunca poder ser desfeita, uma vitria maior do que a dos mais poderosos guerreiros (Dhp 103-105).

O que necessrio mais urgentemente para treinar e subjugar a mente uma qualidade chamada diligncia (appamada). Diligncia combina a autoconscincia crtica e energia perseverante em um processo de manter a mente sob constante observao para detectar e expulsar os impulsos contaminantes sempre que eles buscam uma oportunidade de emergirem. Em um mundo onde o homem no tem salvador alm de si mesmo, e onde os meios para sua libertao residem na purificao mental, a diligncia se torna o fator crucial para assegurar que o aspirante se mantm no caminho correto de treinamento, sem se desviar devido aos encantos sedutores dos prazeres dos sentidos ou s influncias estagnantes da preguia e complacncia. Diligncia, o Buda declara, o caminho para o Imortal; negligncia, o caminho para a morte. Os sbios que entendem essa distino permanecem em diligncia e experimentam Nibbana, "a libertao incomparvel dos grilhes" (Dhp 21-23).

Como um grande clssico religioso e o principal testamento do Budismo antigo, o Dhammapada no pode ter seu verdadeiro valor medido atravs de uma nica leitura, mesmo que ela seja feita com cuidado e reverncia. Ele produz suas riquezas somente atravs do estudo repetido, reflexo sustentada e, mais importante, atravs da aplicao de seus princpios na vida diria. Por esta razo pode-se sugerir ao leitor em busca de orientao espiritual que o Dhammapada seja usado como um manual para a contemplao. Aps sua leitura inicial, ele faria bem em ler vrios versos ou at mesmo um captulo inteiro a cada dia, devagar e com cuidado, saboreando as palavras. Ele deve refletir sobre o significado de cada verso profundamente e completamente, investigar sua relevncia para sua vida, e aplic-lo como um guia de conduta. Se isso for feito repetidamente, com pacincia e perseverana, certo que o Dhammapada ir conferir em sua vida um novo significado e senso de propsito. Infundindo-o com esperana e inspirao, pouco a pouco ele vai lev-lo a descobrir uma liberdade e felicidade muito maior do que qualquer coisa do mundo pode proporcionar.

 

 

Revisado: 12 Novembro 2011

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