A Prtica como um Processo

Por

Ajaan Pasanno

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Um assunto que poderia ser levantado para discusso diz respeito s realizaes ou progresso na prtica. algo com que todos ns nos preocupamos: falamos sobre isso e acabamos envolvidos nisso de vrios modos. Essa a atitude que temos em relao ao nosso progresso na prtica. Estamos avanando? No estamos retrocedendo? Estamos piorando na prtica, ou ...? Como medimos a nossa prtica?

Gastamos um bom tempo medindo a nossa prtica nos comparando com outras pessoas. Vocs sabem: eles esto mais avanados do que ns estamos? Estamos menos avanados? Ficamos dando voltas com essa idia de tentar medir o progresso ou crescimento na prtica. algo que precisamos investigar e vigiar porque podemos cair em extremos e acabar enredados tentando decidir o que o progresso; e depois ir para um outro extremo ao dizer que na verdade no deveramos pensar em termos de progresso e que ns no deveramos sequer nos preocupar em considerar o que o progresso.

Essa foi uma das coisas que me dei conta quando viajei pelos Estados Unidos, ao ler um artigo sobre a prtica Budista, descobri que cada vez h menos nfase na iluminao. As pessoas no querem mais falar sobre a iluminao porque atemorizante pensar na prtica levando em conta a iluminao; porque isso parece to distante e remoto, significando que as pessoas esto tomando um padro mais mundano para decidir o que a prtica deveria ser. Eu penso que muito disso est relacionado com os extremos que adotamos ao tentar medir o progresso ou ao evitar med-lo. Da a confuso sobre o que a prtica e como nos relacionarmos com ela; ou o que devemos considerar ser crescimento e amadurecimento na prtica. Ento, eu gostaria de oferecer algumas reflexes sobre o que o Buda deu como padres de crescimento no Dhamma, crescimento na prtica e maturidade na prtica.

H um conjunto de quatro dhammas dos quais no se fala muito. Eles so chamados os quatro dhammas que conduzem ao crescimento e maturidade. O primeiro estar em contato com uma pessoa sbia, sappurisa sasevana o simples contato com algum que seja sbio. O segundo ouvir o Dhamma, ouvir os ensinamentos, sadhamma savanaa. O terceiro a reflexo com sabedoria, a sbia considerao, yoniso manasikaara. E por ltimo, Dhammanupata patipattaa, praticar o Dhamma de acordo com o Dhamma. Esse o padro de referncia para avaliar o crescimento.

Uma das coisas que fazemos tender a medir o progresso em relao s nossas experincias. Temos algum tipo de experincia e pensamos Isto ... e depois avaliamos isso e dizemos, Isso quer dizer que de alguma forma estou progredindo. E depois temos algum outro tipo de experincia e dizemos, Bem, isso deve significar que estou regredindo. Ns no olhamos para as coisas como um processo. Tendemos a isolar os incidentes, isolar as experincias; e depois medi-las, avali-las, e ficar felizes ou tristes por causa delas. Os ensinamentos do Buda esto mais relacionados com os processos. Como nos envolvemos no processo de amadurecimento? Como entramos no processo de crescimento e progresso na nossa prtica, ao invs de nos agarrarmos a alguma experincia ou mesmo de tentarmos criar alguma experincia, de modo que possamos dizer, Ah, certo, definitivamente devo estar progredindo, devo estar crescendo.

necessrio interessar-se por esse processo. algo cclico, algo que no acontece numa progresso linear. Como podemos observar, em relao a ter contato com uma pessoa sbia, ouvir o Dhamma, reflexo com sabedoria, praticar o Dhamma de acordo com o Dhamma, essas so coisas que giram uma em torno da outra o tempo todo. No estamos tomando uma progresso linear e indo do ponto A ao ponto B. um processo que est em operao o tempo todo no nvel externo e no nvel interno, porque a pessoa sbia que deveramos ter contato tambm a pessoa sbia que est dentro de ns.

No nvel externo precisamos contar com professores, com pessoas que dem o exemplo, assim precisamos buscar um professor, buscar algum que seja um bom exemplo. E mesmo se estivermos vivendo num monastrio, praticando em conjunto, ns tambm buscamos o professor, buscamos as pessoas que servem como exemplo. Nesse aspecto o apoio mtuo muito importante. No signfica que se voc estiver no comeo da fila voc um professor ou voc chamado de uma pessoa sbia. Para cada um de ns, nossa responsabilidade dar o exemplo para os outros, e, medida que vivemos em comunidade, tentar apoiar uns aos outros na prtica. Assim, buscar um ao outro buscar aqueles que nos podem encorajar e que nos podem orientar.

Do mesmo modo em relao a ouvir os ensinamentos, se for sob a forma de um discurso formal ou ouvindo fitas, ou cds, ou lendo livros, qualquer que seja a forma pela qual recebamos, reflitamos e contemplemos os ensinamentos, ela favorecer o crescimento. A nossa prtica nutrida atravs do contato com ensinamentos que sejam retos e de acordo com a verdade, sadhamma sevan. Sadhamma o bom Dhamma' que estivermos ouvindo, os bons ensinamentos ensinamentos que esto de acordo com a Verdade. Investigando, ouvindo, escutando: escutar o Dhamma uma das condies para o surgimento do entendimento correto. Se no ouvirmos os ensinamentos ou no tivermos contato com os ensinamentos que so retos e ntegros, difcil que o entendimento correto surja. S se voc for um Buda perfeitamente iluminado ou um paccekabuddha, seno, ser difcil. Precisamos ouvir, precisamos prestar ateno, precisamos ter contato com os ensinamentos. E se no estivermos ouvindo, no prestarmos ateno, ento, claro, mesmo se os ensinamentos estiverem sendo dados, eles no sero absorvidos, no encontraro o seu lugar no corao. Portanto, abram os ouvidos para os ensinamentos.

Reflexo com sabedoria usar a capacidade de investigao para reconhecer de modo claro como que as coisas funcionam. Como empregamos o nosso processo de pensamento? Isso algo que ns temos: definitivamente temos habilidade para pensar. Algumas vezes a qualidade yoniso - considerar cuidadosamente, refletir com habilidade - no to exercida quanto deveria. Lembro de um artigo que li (algum escreveu um livro a respeito disso; o ttulo do livro est baseado no artigo): numa pequena cidade, foi reportado um incndio no andar superior de uma casa. A fumaa estava saindo pelas janelas e foram chamados os bombeiros. Eles foram at a casa, arrombaram a porta, subiram as escadas e descobriram que a cama estava pegando fogo, soltando fumaa e que havia algum deitado na cama. Assim eles salvaram aquela pessoa e apagaram o incndio. Depois do fogo ter sido apagado e o perigo terminado, eles perguntaram para a pessoa que estava na cama como o fogo havia comeado. E a pessoa disse, Eu no sei, j estava queimando quando deitei. Que uma clara falta de yoniso! Ns damos risada disso mas, quantas vezes ns mesmos no fizemos coisas realmente imbecis? E o tipo de sofrimento em que nos metemos, a confuso e o caos que criamos nas nossas vidas, deveriam fazer soar todos os tipos de alarme! Mas ns os ignoramos e seguimos em frente e metemos a nossa cabea nessa parede de sofrimento. Portanto, com yoniso, considerao cuidadosa, podemos olhar para o que que est criando o sofrimento. Essa a nossa diretriz para a prtica.

O Buda, de um modo bastante brilhante, empregou o sofrimento como a base dos seus ensinamentos. O que est criando sofrimento? Qual o meio para escapar do sofrimento? Qual a causa do sofrimento? Ns precisamos ter habilidade para refletir e considerar.

Existem vrios e distintos modos para investigar isso: investigar a experincia do sofrimento; como ele causado; de onde ele vem; em torno do que ele gira. Podemos tambm refletir simplesmente sobre a natureza da nossa experincia, quais coisas so prazerosas, quais so sofrimento. Qual o meio de escapar das duas? Porque a nossa tendncia natural ir em busca do prazeroso e tentar evitar aquilo que causa sofrimento. Mas talvez essa no seja a sada. Precisamos ter habilidade para algumas vezes refletir e contemplar as coisas que nos do prazer: elas podem proporcionar um prazer passageiro, mas intrinsicamente elas nos levam a mais sofrimento. Algumas coisas que so sofrimento no so necessariamente s sofrimento; pode haver algo benfico nelas. Assim, precisamos ter a capacidade para investigar as nossas experincias tambm. Algumas coisas que tambm parecem prazerosas so de fato prazerosas e devem ser cultivadas.

Embora o Buda tenha usado o sofrimento como a base ou fundamento dos seus ensinamentos, tambm hbil reconhecer que o caminho que seguimos, o caminho da prtica, conduz a algo que considerado felicidade e prazeroso: o prazer ou bem-estar de manter os nossos preceitos; o prazer ou bem-estar da conteno; o prazer ou bem-estar da boa vontade e compaixo; o prazer ou bem-estar da mente em paz. Essas so coisas que precisamos cultivar, desenvolver. Precisamos entender o seu uso, ou funo, e como fazer para que elas cresam. Mas tambm temos de reconhecer a cobia pelos prazeres dos sentidos que conduz a frustraes e assim a mais sofrimento. Do mesmo modo, o sofrimento visto de duas formas: o sofrimento que conduz a mais sofrimento e o sofrimento que conduz ao fim do sofrimento. Podemos observar, quando estamos sofrendo com alguma averso ou raiva, que isso desagradvel no momento presente e conduz a mais sofrimento.

Enquanto que com algo como o sofrimento de ter que agentar alguma coisa, o sofrimento do treinamento, por exemplo, o sofrimento de ter que ficar sentado quieto e observar a respirao: h um elemento de sofrimento nisso, porm h tambm algo que conduz a uma sensao de bem-estar, estabilidade, tranqilidade. Ento importante ser capaz de investigar, de considerar cuidadosamente as nossas experincias. A nossa tendncia, como eu disse, sempre considerar tudo como branco ou preto: Isso prazeroso, eu quero isso. - Isso sofrimento, quero sair fora disso, quero evitar isso. Enquanto que se olharmos para as coisas como um processo, veremos que h uma causa para que alguma outra coisa surja. Ns estaremos, deste modo, vendo as coisas sob uma outra pespectiva, nos relacionando com elas de uma forma diferente. Assim, a nossa considerao, a nossa reflexo, ser um suporte para o nosso crescimento na prtica. Temos que considerar: qual a sada? Qual o caminho para a paz? Qual a direo para a liberdade, para a libertao?

Com relao prtica do Dhamma de acordo com o Dhamma, h uma histria na tradio Crist. Durante a construo da grande catedral em Chartres, havia muita excitao pelo grande monumento que estava sendo construdo. claro que demoraram vrias geraes para terminar a construo e praticamente toda a Europa tomou conhecimento da grande catedral que estava sendo construda. Numa ocasio, um peregrino italiano chegou em Chartres para prestar as suas homenagens e ver a catedral em construo. Chegando no final da tarde, entrando na cidade e olhando sua volta, ele viu pessoas empacotando coisas e fazendo isso e aquilo, fazendo limpeza, e ele tambm viu um homem todo coberto com lascas de madeira e lhe perguntou, O que voc est fazendo aqui? - Eu sou um carpinteiro, estou fazendo portas e janelas. Eu sou reponsvel por todo servio de marcenaria aqui. Ento ele viu uma outra pessoa, toda suja e desleixada, coberta com poeira e novamente perguntou, O que voc est fazendo aqui? - Eu fao o trabalho em pedra, esculpindo as pedras para a construo. E depois ele viu uma outra pessoa, coberta com vrias cores e brilhando com pequenas lascas de vidro e perguntou, O que voc est fazendo aqui? - Eu trabalho com o vidro, estou fazendo esses vitrais. Depois ele viu uma velhinha que estava fazendo limpeza e varrendo ao final do dia e perguntou, O que voc est fazendo aqui? Ela pra e olha para cima, olha ao redor e para a catedral com um olhar de venerao e diz Eu estou aqui ajudando a construir essa grande catedral para a glria de Deus. Essa uma perspectiva diferente. Esse o sentido de ver o que a prtica, ver o que significa quando dizem, praticar o Dhamma de acordo com o Dhamma. Voc tem de ter uma viso de para o que voc est indo, uma viso da razo pela qual voc est praticando. Voc tem de ter a viso de qual o propsito. E isso o que constitui a nossa prtica. A prtica que estamos realizando o que est indo nessa direo.

Se ns no tivermos uma viso daquilo que estamos fazendo, uma noo clara daquilo para o que estamos indo, e se tentarmos alar as nossas mentes nessa direo, ficaremos presos nos nossos pequenos dramas do eu praticando o Dhamma e as minhas dificuldades e o meu sofrimento em vista disso. Ou acabaremos como simpticos mongezinhos Vinaya, que obedecem todas as regras e assumem que esse o caminho, ou tentando fazer a nossa meditao afundar ... essas coisas fazem parte do caminho. Precisamos aprender como manter os preceitos, precisamos aprender como agir com conteno de acordo com uma disciplina, sila. Mas tambm temos de ver qual o propsito, em que direo estamos indo, como com a construo da catedral: aprisionados nas suas tarefas especficas, eles no entenderam o principal e deixaram de desfrutar da alegria da catedral sua volta. Assim, na nossa prtica tambm, ns temos de ter uma noo do que a nossa prtica, o que estamos fazendo, para compreend-la com clareza. Mas a, qual a direo que estamos seguindo? Temos de estar sempre levantando a cabea nessa direo.

Nosso sila para alar a mente para alm da tendncia do descontrole, para que ela se estabelea no sentido de desejar fazer a coisa certa, que est de acordo com a verdade. E a meditao no s habilidade de manter a mente na respirao. ser capaz de desenvolver uma ateno plena e uma claridade que seja capaz de permanecer com o objeto de meditao, mas que possa tambm ver qual a sua natureza. Porque a mente se curva s nossas prprias sensaes, percepes e pensamentos? Porque seguimos tomando isso como eu? Se no tivermos essa noo de erguer a mente para alm da simples ateno plena ou de um estado de concentrao, ficaremos atolados e no experimentaremos a libertao da mente, no experimentaremos a cessao do sofrimento. O mesmo com relao aos ensinamentos do Buda ou os ensinamentos sobre a sabedoria: eles no so s para serem memorizados ou copiados nos nossos livros de anotaes e consultados quando ns precisamos deles. Eles so para serem interiorizados e reconhecidos. Para que eles servem? Eles servem para cortar as nossas deluses, para cortar os nossos apegos. Ento temos de mant-los sempre presentes.

Um modo de ver a nossa prtica do Dhamma seguir na direo de um objetivo: tem de ir na direo de alguma coisa. Outro aspecto disso, penso eu, colocar os pequenos dhammas nos grandes dhammas. Quero dizer, sermos ordenados. Dhammaanupatipadaa: anu so as pequenas coisas que vo na direo dos grandes dhammas. Portanto, a nossa prtica uma prtica progressiva, um processo. Temos de aprender como ajuntar as coisas. E tambm como regressar. Algumas vezes temos dificuldades na prtica, algumas vezes surgem dvidas. Temos de aprender como regressar ao princpio. Aprender como comear de novo. Ir ao princpio e fazer aquilo que o bsico e depois evoluir a partir disso para que a nossa prtica seja um tipo de crescimento constante. Nosso progresso ento acontece por conta prpria. Ns tambm temos que nutr-lo, tomar conta do processo. Isso o que precisamos aprender: como prestar ateno na prtica e como desenvolver a nossa prtica. A nossa maturidade vem disso. H uma tendncia de criar algum tipo de experincia e depois agarrar-se a essa experincia tentar ter uma experincia mais clara do Isso que o Dhamma, Isso o que a prtica, ou Isso o que a paz. Penso que isso um grande obstculo que sempre enfrentamos. Temos de aprender a dar ateno ao processo que envolve o cuidar das coisas que suportam o Dhamma a ele cresce a partir disso.

Isso o que Ajahn Chah enfatizava constantemente com relao prtica. Ns o procurvamos e perguntvamos todo tipo de coisas, D-nos um mtodo, diga o caminho. E ele freqentemente nos dizia, no s espremer alguma experincia da mente. como plantar uma rvore: voc no a planta na terra e depois fora o seu crescimento. Voc tem de preparar o solo, colocar a semente na terra, fertilizar a terra, tem de aguar a planta, cuidar dela ... e depois a rvore cresce por si mesma. E a rvore ir crescer de acordo com a sua prpria natureza, e dar os frutos de acordo com a sua prpria natureza. No nossa tarefa tentar estabelecer ou forar para que a rvore cresa mais rpido, ou que d frutos de um jeito especial de acordo com o que pensamos. Aprender como cuidar da mente semelhante ao aprendizado de como cuidar de uma rvore.

Ofereo estas palavras para a sua reflexo.

 

 

Revisado: 9 Agosto 2008

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