Um Monge pode exercer a Medicina?

Por

Ajaan Brahmavamso

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Um mal-entendido recorrente entre alguns Budistas leigos que um monge pode exercer a profisso de mdico para os leigos. Alguns monges desenvolvem habilidades em fito terapia e outras terapias tradicionais, mas sob quais circunstncias, se que existe alguma, eles esto autorizados pelas suas regras a exercerem a medicina?

O Buda disse certa vez: "Qualquer um, bhikkhus, que cuide de mim, ele deveria cuidar dos enfermos" e esse enunciado bem conhecido tem sido muitas vezes usado para justificar que um monge se comporte como mdico. No entanto, o enunciado usado fora de contexto, como em breve ficar claro. O trecho completo, encontrado na seo do Vinaya Pitaka chamada Mahavagga, no captulo 8, versculo 26, diz respeito histria do Buda que encontrou um companheiro monge que estava sofrendo com disenteria. Com a ajuda do Venervel Ananda, o Buda limpou e acalmou o monge doente. Pouco depois, o Buda se dirigiu Sangha:

"Bhikkhus, vocs no tm uma me nem um pai que possam cuid-los. Se vocs, bhikkhus, no cuidarem uns dos outros, ento quem poder cuid-los? Qualquer um, bhikkhus, que cuide de mim, ele deveria cuidar dos enfermos."

A passagem completa deixa bem claro que quando o Buda disse: "Qualquer um que cuide de mim, ele deveria cuidar dos enfermos", o significado era para os monges cuidarem dos seus companheiros monges que estivessem doentes. Ele no estava se referindo aos monges se comportarem como mdicos para os leigos.

Na verdade, o Buda disse vrias vezes que dar atendimento mdico para os leigos , para um monge, um modo de vida incorreto (miccha-ajiva) diretamente contrrio ao quinto fator do Nobre Caminho ctuplo e uma ao aviltante (tiracchana-vijja). Por exemplo, no Brahmajala Sutta, o Buda disse:

1.27. Enquanto alguns brmanes e contemplativos, vivendo de alimentos dados em boa f, mantm a si mesmos atravs de um modo de vida incorreto (miccha-ajiva), atravs de artes aviltantes (tiracchana-vijja) como: prometer presentes para divindades em troca de favores; cumprir essas promessas; demonologia; ensinar feitios que protegem as casas; induzir virilidade e impotncia; consagrar terrenos para construo; dar colutrios cerimoniais e banhos cerimoniais; oferecer fogueiras de sacrifcio; preparar emticos, purgativos, expectorantes, diurticos, curas para dor de cabea; preparar leo para os ouvidos, gotas para os olhos, leo para tratamento atravs do nariz, colrio e antdotos; curar cataratas, praticar cirurgia, praticar como pediatra, prescrever medicamentos e tratamentos para curar efeitos colaterais - o contemplativo Gotama se abstm do modo de vida incorreto, atravs de artes aviltantes como essas."

Portanto, o Buda condenou de modo claro qualquer monge que tenha como parte da sua vida, a prtica de medicina para os leigos.

A tradio transmitida a todos os monges Budistas Theravada est descrita no Samantapasadika, o grande comentrio do Vinaya Pitaka compilado por Buddhaghosa no Sri Lanka, no sculo 5 EC. Esse texto oficial define que um monge pode prescrever e fornecer medicamentos para os seus companheiros monsticos (monges e monjas), para os seus pais ou para aqueles que cuidam dos seus pais, e qualquer leigo que esteja no monastrio, se preparando para ser ordenado como monge ou que esteja apenas ajudando os monges. Alm disso, um monge pode prescrever, mas no comprar medicamentos, para seus irmos e irms, tias e tios, avs e para quaisquer viajantes, bandidos, pessoas feridas no campo de batalha e aquelas sem parentes que venham ao monastrio numa situao de emergncia. Se um monge prescrever ou fornecer medicamentos alm daquilo que permitido, ele comete uma transgresso das suas regras (uma transgresso dukkata). Alm disso, se ele prescreve ou fornece medicamentos para um leigo recebendo em troca uma recompensa material, ele incorre em outra transgresso das suas regras, aquela de "corrupo das famlias" (kuladusaka). Isso o que est indicado no Samantapasadika, o comentrio ao Vinaya, obedecido em todos os pases Budistas Theravada.

Esta resposta dos textos oficiais questo "Um Monge pode exercer a Medicina?" mostra um equilbrio sbio que reconhece o dever de um monge para com os seus pais, suas responsabilidades para com os monges e leigos que com ele convivem no seu monastrio, e a compaixo para com todos aqueles que venham ao monastrio numa situao de emergncia. Essa regra impede que em qualquer circunstncia um monge receba qualquer recompensa material por tais servios. Alm disso, lembra que o papel de um monge Budista para com os leigos no agir como um mdico para o corpo, mas agir como um sbio gentil, um mdico para a mente.

 


 

Fonte: BSWA Newsletter, February 1998.

 

 

Revisado: 6 Setembro 2014

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