Ignorncia

Por

Ajaan Thanissaro

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Avijja, a palavra em Pali para ignorncia, o oposto de vijja, que quer dizer no s conhecimento como tambm habilidade como as habilidades de um mdico ou treinador de animais. Assim, quando o Buddha tem como foco a ignorncia que causa estresse e sofrimento, dizendo que as pessoas sofrem por no saberem as quatro nobres verdades, ele no est simplesmente dizendo que lhes falta informao ou conhecimento direto de tais verdades. Ele est dizendo tambm que lhes falta habilidade em lidar com estas. Elas sofrem por no saberem o que esto fazendo.

As quatro verdades so (1) estresse ou sofrimento que abrange desde a tenso mais sutil at a agonia mais evidente, (2) a causa do estresse ou sofrimento, (3) a cessao do estresse ou sofrimento; e (4) o caminho que leva cessao do estresse ou sofrimento. Quando o Buda ensinou pela primeira vez tais verdades, ele tambm ensinou que seu completo Despertar veio de conhec-las em trs nveis: identific-las, conhecer a habilidade apropriada a cada uma delas, e saber finalmente que ele havia completamente adquirido tais habilidades.

O estresse ou sofrimento foi identificado por ele com exemplos - tais como o nascimento, envelhecimento, doena e morte; lamento, angstia e desespero resumindo-o como os cinco agregados do apego: apego forma fsica, s sensaes agradveis, desagradveis e nem agradveis nem desagradveis; percepo; s construes mentais; e conscincia sensria. A causa do sofrimento foi identificada por ele como trs tipos de desejo: desejo por sensualidade, desejo por assumir uma identidade em um mundo de experincias e desejo pela destruio de uma identidade e seu mundo de experincias. A cessao do sofrimento foi por ele identificada como renncia e libertao destes trs tipos de desejo. E o caminho para a cessao do sofrimento foi por ele identificada como concentrao correta acompanhada por sete fatores de suporte: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ao correta, meio de vida correto, esforo correto e plena ateno correta.

Estas quatro verdades no so simplesmente fatos sobre o estresse ou sofrimento. So categorias para o enquadramento da nossa experincia de forma que possamos diagnosticar e curar o problema do sofrimento. Por exemplo, em vez de olhar para a experincia sob a perspectiva de um eu ou de um outro, ou sob a perspectiva do que nos agrada ou no, olhamos para ela para ver onde h sofrimento, o que o causa e como dar fim a esta causa. Uma vez dividido o territrio da experincia desta forma, compreendemos que cada uma destas categorias uma atividade. A palavra sofrimento pode ser um substantivo, mas a experincia do sofrimento moldada por nossas intenes. algo que fazemos. O mesmo valendo para as outras verdades tambm. Vendo isto, podemos trabalhar o aperfeioamento da habilidade apropriada para cada atividade. A habilidade relacionada ao sofrimento compreender o ponto em que no h mais cobia, averso ou deluso ao realizar tais atividades. Para aperfeioar tal habilidade, tambm temos que abandonar a causa do sofrimento, compreender a sua cessao e desenvolver o caminho para a sua cessao.

Cada uma destas habilidades apia as demais. Por exemplo, quando estados de concentrao surgem na mente, no s observamos o seu surgimento e desaparecimento. A concentrao parte do caminho, logo a habilidade apropriada tentar desenvolv-la: entender o que vai faz-la tornar-se mais estvel, mais slida e mais sutil. Ao fazer isso, desenvolvemos os outros fatores do caminho tambm, at que a ao de se concentrar seja algo como simplesmente ser: ser a ateno luminosa, ser o estar presente, ser nada, ser um com a vacuidade.

A partir de tal perspectiva, comeamos a compreender nveis de sofrimento nunca notados antes. Ao abandonar os desejos que causam os nveis mais grosseiros, nos tornamos sensveis aos mais sutis, podendo ento abandon-los tambm. Vemos mais e mais claramente por que temos sofrido: por no fazer a conexo entre os desejos que nos trazem prazer e o sofrimento que nos perturbava, sem detectar o sofrimento nas atividades que desfrutvamos. Por fim, quando abandonamos as causas para outras formas de sofrimento, comeamos a ver que o ser na nossa concentrao contm tambm muitos nveis de ao mais nveis de sofrimento. ento que podemos abandonar qualquer desejo por tais atividades, e o completo Despertar ocorre.

O caminho para este Despertar necessariamente gradual, tanto porque a sensibilidade necessria requer tempo para se desenvolver, como porque esse caminho envolve o desenvolvimento de habilidades que so abandonadas somente quando elas j tenham desempenhado o seu trabalho. Se abandonarmos o desejo pela concentrao antes de desenvolv-la, nunca traremos a nossa mente para uma posio onde ela possa genuna e completamente abrir mo das formas mais sutis de ao.

No entanto, na medida em que as habilidades convergem, o Despertar que elas nutrem sbito. A imagem que o Buda emprega aquela da geologia do litoral indiano: um declive gradual, seguido de uma sbita queda. Aps esta sbita queda, no sobra trao do sofrimento mental. ento quando sabemos que nos tornamos um mestre nas nossas habilidades. E quando realmente compreendemos as quatro nobres verdades.

O desejo, por exemplo, algo que experimentamos diariamente, mas at que o abandonemos completamente, no o compreendemos realmente. Podemos experimentar o sofrimento por anos sem fim, mas no vamos realmente saber o que o sofrimento at que o tenhamos compreendido ao ponto em que a cobia, a averso e a deluso tenham desaparecido. E mesmo que as quatro habilidades, conforme as desenvolvemos, tragam um sentido ampliado de ateno plena e conforto, no saberemos realmente por que so to importantes at que tenhamos tido a experincia de onde a completa maestria dessas habilidades pode nos levar.

Pois at mesmo o completo entendimento das quatro nobres verdades no um fim em si mesmo. Trata-se de um meio para algo muito maior: Nirvana encontrado no fim do sofrimento, mas muito mais do que isto. a liberao total de todos os limitantes de tempo ou espao, existncia ou no-existncia alm de toda atividade, at mesmo da atividade da cessao do sofrimento. Como uma vez disse o Buda, o conhecimento que ele adquiriu no Despertar era comparvel a todas as folhas de uma floresta, e o conhecimento que ele compartilhou sobre as quatro nobre verdades era comparvel a um punhado de folhas. Ele se restringiu a ensinar este punhado pois era o suficiente para levar seus discpulos a seus prprios entendimentos de toda a floresta. Se ele fosse discutir outros aspectos de seu Despertar, isto no teria propsito e at mesmo atrapalharia.

Desta forma, embora o completo conhecimento das quatro nobres verdades para usar uma outra analogia s o barco atravs do rio, precisamos focar a completa ateno nesse barco enquanto fazemos a travessia. Esse conhecimento no s nos leva ao completo Despertar, mas tambm nos ajuda a julgar qualquer realizao ao longo do caminho. Isso feito de duas formas. Primeiro, proporcionando-nos um marco para julgar estas realizaes: h ainda algum sofrimento na mente? Algum sequer? Caso positivo, no se trata do Despertar genuno. Em segundo lugar, as habilidades que desenvolvemos nos sensibilizam para todas as aes do simplesmente ser, que assegura que os nveis mais sutis de sofrimento no escaparo da nossa ateno. Sem esta sensibilidade, poderamos tomar um estado de concentrao infinitamente luminoso por algo mais do que isso. Mas quando realmente sabemos o que estamos fazendo, reconheceremos o estar livre do fazer quando finalmente o encontrarmos. E quando experimentarmos essa liberdade, saberemos algo mais: que o maior presente que podemos dar aos outros ensin-los as habilidades [necessrias] para que eles a encontrem por si mesmos.

 


 

Nota: Traduzido do Ingls por Gabriel Laera.

 

 

Revisado: 11 Abril 2009

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