Contemple o Corpo, Liberte a Mente

Um ensinamento desafiador para abrir mo do apego ao corpo

Por

Ajaan Suwat Suvaco

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Quando as mentes dos meditadores, atravs da ateno plena e da sabedoria, alcanam a genuna felicidade do Dhamma vendo claramente as quatro nobres verdades, nenhum deles - nem um que seja - voltar a procurar a felicidade no mundo ou nas coisas materiais. Isso ocorre porque a felicidade do Dhamma duradoura: slida, perfeita e genuinamente pura. Se compararmos com a felicidade do Dhamma veremos que na felicidade mundana no h nem mesmo um mnimo de felicidade real. A felicidade mundana no oferece nada alm de sofrimento, nada alm de desvantagens. Ento, por que pensamos ser a felicidade? Porque ardemos com a dor e buscamos a felicidade e os prazeres mundanos para aliviar a dor, que ento desaparece por um tempo, mas depois novamente volta.

Por exemplo, o Buda disse que o nascimento sofrimento, mas em geral as pessoas consideram como algo feliz. No vemos o sofrimento e a dor envolvidos. Contudo, uma vez que a mente tenha alcanado a felicidade do Dhamma, podemos ver que o nascimento realmente sofrimento, assim como disse o Buda. A razo pela qual mesmo procurando cuidar de ns mesmos no encontramos a paz, porque as coisas que surgem nos perturbam. Sentamos e sentimos algum prazer e tranquilidade estando sentados, mas depois de um tempo, sentimos desconforto. Dizemos que agradvel deitar, mas isso verdade apenas bem no comeo. Depois de deitados por um certo tempo, comea a ficar desagradvel. Assim temos que ficar mudando as posturas para sentir conforto. Procuramos isso ou aquilo, mas assim que ganhamos um pouco de prazer, o sofrimento e a dor surgem no seu rastro. Se temos uma famlia e um lar para vivermos juntos agradavelmente, desfrutamos apenas de pequenos prazeres que nos enganam e iludem, enquanto h centenas e milhares de coisas desagradveis. A felicidade e o prazer que vm das coisas externas, das coisas materiais, nunca so suficientes. Seguem se desgastando, desgastando, e desgastando a ns mesmos, sem nenhum propsito. por isso que aqueles que alcanam o Dhamma no retornam a este mundo to cheio de tristezas e perturbaes.

Por isso quero que vocs se esforcem para meditar, contemplando de acordo com o Dhamma. Mesmo que algum ainda no esteja convencido do Dhamma, pelo menos aceite os ensinamentos do Buda como parmetro para a meditao. Por exemplo, quando o Buda ensina sobre as trs caractersticas: impermanncia, sofrimento e no-eu, devemos treinar nossas mentes para estar em sintonia com esse ensinamento. Faa a tentativa. Por exemplo, o Buda explica que esse nosso corpo est repleto de todo tipo de coisas impuras. Podemos no concordar, mas pelo menos podemos tentar ver o que acontece quando observamos as coisas de acordo com esse ensinamento. O Buda ensina que o corpo no puro. Atthi imasmim kaye - neste corpo existe: cabelos na cabea, que no so puros; plos no corpo, que no so puros; unhas, que no so puras. No tenha pressa em rejeitar os ensinamentos do Buda. Observe se essas coisas so realmente impuras ou no. Quando a mente foca nessas coisas cada vez com mais estabilidade, comeando a se sentir calma e relaxada, a verdade gradualmente surge com mais clareza. A convico no Dhamma, na prtica, ir surgir. A energia surgir ao querermos ver mais. Conforme a ateno se intensifica, a mente se torna mais luminosa e tranquila. Esse o caminho de prtica. Lembre-se desse princpio simples: pratique meditao observando seu corpo, observando sua mente.

Use a ateno plena para acompanhar o corpo em si mesmo, de modo a conhec-lo de acordo com a verdade. Se no olhar para o corpo, olhe para a mente em si mesma. Ao observarmos os movimentos do corpo e da mente, os prazeres e as dores que surgem com tanta frequncia, desenvolveremos a ateno e a habilidade. Aprendemos a lidar com as coisas de acordo com os ensinamentos do Buda. Ganharemos a sabedoria que v e conhece a verdade. Veremos as coisas cada vez com mais clareza. Quando as coisas so vistas com mais clareza, a mente desenvolve mais fora e calma. Vemos o corpo como estressante e impuro, mas temos que cuidar da mente, cientes que o estresse e a impureza dizem respeito ao corpo, no mente.

O corpo sempre tem estado impuro. Vivemos com isso todo esse tempo, ento no h necessidade de ter medo de ver essas coisas, no h necessidade de rejeit-las. Devemos contemplar o corpo de modo a dar origem a um sentimento de desencantamento. Quando abrir mo do corpo, faa-o de uma maneira criteriosa. No abra mo de modo que a deluso e o entendimento incorreto subjuguem a mente. No fique enojado com o corpo ao ponto que a mente fique inquieta e agitada e deixe de meditar. Esse tipo de averso no correta. Quando olhar para aquilo que no gostamos, como a impermanncia, o sofrimento e a falta de atratividade do corpo, lembre-se que isso faz parte das Nobres Verdades. O Buda disse que essas so observaes muito benficas.

Contemplar a falta de atratividade do corpo muito benfico porque serve a um propsito importante. Se vemos o corpo adequadamente dessa maneira, isso ajuda a mente a se acalmar com um sentimento de desencantamento. Sendo isso que vai curar nossas deluses e os entendimentos incorretos. Por isso que na ordenao de um monge, o primeiro passo ensinar-lhe cinco temas de meditao - kesa, cabelo da cabea; loma, plos do corpo; nakha, unhas; danta, dentes; taco, pele - como forma de desenvolver sabedoria e conhecimento da verdade.

Portanto tome esses objetos e continue contemplando-os, independentemente da mente estar calma ou no. Sempre que tiver tempo livre, contemple-os. Voc pode contempl-los mesmo enquanto trabalha. Contemple-os at os seus mnimos detalhes de modo que d origem a uma sensao de calma e tranquilidade.

parecido com realizar um trabalho fsico. Recebemos salrio por cada hora trabalhada. Quanto mais horas trabalhamos, maior o nosso salrio. Mas se ficarmos gananciosos e continuarmos trabalhando sem descanso, o corpo se desgasta, a mente fica fraca e no conseguimos mais trabalhar. Ento temos que descansar e nos alimentar para recuperar a energia do corpo e da mente. Mesmo que no sejamos pagos pelo tempo que descansamos, estamos dispostos a assumir essa perda para que o corpo e a mente ganhem fora, para que possamos lidar com o trabalho depois do descanso.

parecido com a meditao: se continuamos contemplando e investigando, no demorar muito para que a mente fique inquieta e agitada. Ento temos que tranquilizar a mente para evitar a inquietao e agitao. Com inquietao no haver paz. A mente ir ficar toda enrolada com o cansao da meditao. Ento, contemplamos por algum tempo at que possamos sentir que a mente quer parar e descansar; em seguida, focamos novamente na respirao ou em algum outro objeto que sirva como um ponto de calma para a mente. Gradualmente abandonamos a contemplao, gradualmente deixamos a mente se acalmar, de modo a ganhar energia da sensao de prazer e tranquilidade que surge desse estado. No nos preocupamos com quanto tempo ficamos nesse estgio. Mesmo que a mente no parea estar adquirindo nenhum conhecimento, no nos preocupamos com isso. como quando estamos descansando do trabalho fsico: mesmo que no tenhamos nenhum trabalho durante a hora do descanso, estamos dispostos a recuperar a energia - neste caso, a energia da mente.

Por essa razo que os nobres discpulos praticam constantemente a concentrao, constantemente conduzem a mente para se acalmar. Depois de contemplarem at o ponto em que a mente fica cansada, fazem com que a mente se acalme. Depois de calma o suficiente, retornam para a contemplao. Assim como devemos praticar. Se praticarmos dessa maneira, a mente ganhar energia e fora, vendo as coisas como na verdade so ganhar sabedoria at o ponto final de todo sofrimento e estresse. A pergunta feita outro dia - como praticar quando voltamos para casa - foi uma boa pergunta. A resposta : continue cuidando da sua mente da maneira descrita aqui. Pratique exercitar sua ateno plena e sabedoria.

Phra Ajaan Suwat Suvaco (19192001) foi um abade na Tradio das Florestas da Tailndia. Na dcada de 1980, mudou-se para a Califrnia, onde mais tarde fundou o Metta Forest Monastery.

 

 

Revisado: 20 Dezembro 2018

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