Cometendo Erros

Por

Ajaan Brahmavamso

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Nesta vida que vivemos muitas vezes nos esquecemos que no grande coisa cometer erros. No Budismo no h nenhum problema em cometer erros. Est tudo bem em ser imperfeito. No maravilhoso? Isso significa que temos a liberdade de sermos humanos, em vez de pensar que somos maravilhosos e geniais e que nunca cometemos erros. horrvel, no mesmo? Pensamos que no temos permisso para cometer erros, porm na verdade cometemos erros e por isso tentamos escond-los e encobri-los. Assim, nossa casa no um lugar de paz, tranquilidade e conforto. claro que a maioria das pessoas que so cticas diriam: "Bem, se voc permitir que as pessoas cometam erros, como que elas vo aprender? Elas vo continuar a cometer ainda mais erros". Mas no assim como realmente funciona. Para ilustrar este ponto, quando eu era adolescente, meu pai me disse que ele nunca iria me expulsar ou fechar a porta da sua casa, no importa o que eu fizesse, eu sempre seria recebido, mesmo se eu tivesse feito os piores erros. Quando ouvi isso, entendi como uma expresso de amor, de aceitao. Ele me inspirou e eu o respeitava tanto que no queria machuc-lo, eu no queria trazer-lhe problemas, e assim me esforcei ainda mais para ser digno do lar que ele me oferecia.

Agora, se pudssemos tentar isso com as pessoas com quem vivemos, veramos que isso lhes daria a liberdade e o espao para descontrarem e ficarem em paz, e isso tira toda a tenso. Dessa descontrao, surge o respeito e o cuidado para com a outra pessoa. Ento, eu desafio vocs a tentarem esse experimento e permitirem que as pessoas cometam erros - digam para o seu companheiro, seus pais, ou seus filhos: "A porta do meu corao vai estar sempre aberta para voc, no importa o que voc faa." Diga isso para si mesmo tambm: "A porta do meu corao estar sempre aberta para mim." Permita-se cometer erros tambm. Voc capaz de pensar em todos os erros que cometeu na semana passada? Voc pode larg-los, voc ainda ser capaz de ser um amigo para si mesmo. somente quando nos permitimos cometer erros que podemos finalmente estar vontade.

Isso o que queremos dizer com compaixo, com metta, com amor. Tem que ser incondicional. Se voc ama as pessoas porque elas fazem o que voc gosta, ou porque elas sempre satisfazem as suas expectativas, ento claro que esse amor no vale muito. como um amor negocivel: "Eu amo voc, se voc me der algo em troca."

Quando me tornei um monge pensava que os monges tinham que ser perfeitos. Eu pensava que eles nunca deveriam cometer erros, que ao sentarem em meditao, eles sempre deveriam sentar eretos. Mas quem tem estado na meditao das 4:30 da manh, especialmente depois de ter trabalhado pesado no dia anterior, sabe que pode estar bastante cansado, pode ficar cado, pode at cabecear. Mas est tudo bem. Est tudo bem em cometer erros. Vocs conseguem sentir como tudo fica fcil, como toda a tenso e o estresse desaparecem quando nos permitimos cometer erros?

O problema que temos a tendncia de amplificar os erros e esquecer os xitos, o que cria um pesado fardo de culpa. Ento, em vez disso, podemos dar ateno para os nossos xitos, as coisas boas que fizemos na nossa vida; podemos cham-los de nossa natureza interior de Buda. Se dermos ateno a isso, isso cresce enquanto que se dermos ateno para os erros, eles crescem. Se permanecemos com algum pensamento na mente, qualquer tipo de pensamento, ele cresce cada vez mais, no mesmo? Ento damos a volta nos nossos coraes e permanecemos com o positivo em ns mesmos, a pureza, a bondade, a fonte desse amor incondicional - aquilo que quer ajudar, sacrificar at mesmo nosso prprio conforto pelo bem de um outro ser. Esta uma maneira que podemos olhar para o nosso interior, o nosso corao. Perdoando nossas falhas, permanecemos com a nossa nobreza, a nossa pureza, a nossa bondade. Podemos fazer o mesmo com as outras pessoas, podemos permanecer com a sua bondade e v-la crescer.

Isto o que chamamos de kamma - aes, a maneira que pensamos sobre a vida, a forma que falamos sobre a vida, o que fazemos com a vida. E realmente cabe a ns fazer, no cabe a algum ser sobrenatural l em cima dizer se seremos felizes ou no. Nossa felicidade est completamente nas nossas mos, em nosso poder. Isto o que queremos dizer com kamma. como fazer um bolo: kamma define quais ingredientes temos, aquilo que temos para trabalhar. Assim, uma pessoa com kamma ruim, talvez como resultado de suas aes passadas, no tem muitos ingredientes. Talvez ela s tenha um pouco de farinha velha, uma ou duas uvas passas, se tanto, e um pouco de manteiga ranosa, e - qual outro ingrediente para fazer um bolo? - um pouco de acar ... e isso tudo que ela tem para trabalhar. Uma outra pessoa pode ter um kamma muito bom, todos os ingredientes que algum possa desejar: farinha de trigo integral, acar mascavo e todos os tipos de frutas secas e nozes. Mas, quanto ao bolo que afinal feito ... Mesmo com ingredientes muito pobres, algumas pessoas conseguem fazer um bolo timo. Elas misturam tudo, colocam no forno - delicioso! Como elas fazem isso? E outras pessoas podem ter tudo, mas o bolo que elas fazem fica horrvel.

Assim, kamma define os ingredientes, o que temos para trabalhar, mas no define o que fazer com isso. Ento, se uma pessoa sbia, no importa o que ela tenha para trabalhar. Ela ainda pode fazer um bolo delicioso - desde que saiba como.

Claro que a primeira coisa a saber que a pior maneira de fazer um bom bolo reclamar o tempo todo sobre os ingredientes que temos. s vezes, no monastrio, se falta algum ingrediente as pessoas que esto cozinhando procuram na despensa e apenas usam o que encontram. Elas tm que ser bastante versteis e algumas vezes surgem alguns bolos muito estranhos, mas todos so deliciosos, porque as pessoas aprenderam a arte de usar o que tm e fazer o melhor disso.

Ento, qual a direo de kamma? O que estamos realmente fazendo? para ser rico ou para ser poderoso? No. Esta meditao, este Budismo, a direo que estamos indo, para a iluminao. Ns estamos usando os ingredientes que temos para realizar a iluminao. Mas o que realmente significa a iluminao? A iluminao significa que no resta nenhuma raiva no corao. No h nenhum desejo pessoal ou deluses restando no corao.

Numa certa poca havia um professor russo chamado Gurdjief que tinha uma comunidade na Frana. Na comunidade, havia um membro absolutamente detestvel. Ele sempre irritava as pessoas e criava dificuldades. Assim, quando a comunidade se reunia, eles pediam que Gurdjief o mandasse embora, para se livrar do companheiro, porque ele estava sempre criando polmicas e fazendo as pessoas se sentirem infelizes. Mas Gurdjief nunca concordava. No entanto, mais tarde, depois que ele havia morrido, eles descobriram que Gurdjief havia pago o sujeito para que ficasse! Todos os demais tinham que pagar pelo alojamento e alimentao. Mas Gurdjief de fato pagava aquela pessoa para permanecer - para ensinar uma lio para as demais pessoas. Se voc s pode ser feliz vivendo com as pessoas das quais gosta, a sua felicidade no vale muito, porque voc no est sendo testado. como um copo com gua barrenta, que parece lmpida quando no est sendo agitada, no ? Mas logo que agitada, a lama vem do fundo e se mistura com a gua. bom agitar o seu copo s para ver o que realmente tem ali dentro. Assim Gurdjief costumava pagar essa pessoa para agitar todo mundo para que todos pudessem ver o que tinham.

Um bom indicador sobre em que p estamos na vida espiritual ver o quo bem nos damos com outras pessoas - especialmente as mais difceis. Voc capaz de ficar em paz quando algum lhe est aborrecendo? Voc capaz de abrir mo da raiva e da irritao por uma pessoa, um lugar, ou consigo mesmo? Eventualmente temos que fazer isso, caso contrrio, nunca realizaremos a iluminao, nunca ficaremos em paz.

Imaginem como seria dizer: "No vou mais ficar irritado, no vou mais lutar ou rejeitar uma pessoa, ou os seus hbitos. Se no puder fazer nada respeito, vou aprender a coexistir pacificamente com o que no gosto. Vou aprender a aceitar pacificamente a dor, em vez de sempre virar a cabea para longe da dor em busca do prazer." Imaginem isso!

s vezes as pessoas pensam que se algum no fica com raiva, ento ele tender a ser um vegetal, pois permite que os outros passem por cima, ele ser apenas algum que fica a sentado e que no faz nada. Mas pergunte a si mesmo: "O que voc sente depois de ter ficado com raiva? Voc se sente vigoroso, muito energtico?" Ns ficamos desgastados quando estamos com raiva; a raiva devora tanto da energia do nosso corao. Mesmo quando estamos irritados ou negativos com relao a alguma pessoa ou algum lugar, isso consome energia. Ento, se no quisermos nos sentir to cansados e deprimidos, podemos tentar, como um experimento, no ficarmos irritados. Vejam como se sentem muito mais despertos e vibrantes. Ento, podemos enviar essa energia para cuidar dos outros, e para cuidar de ns mesmos tambm. Est no nosso poder fazer isso. Se quisermos realmente entrar no caminho rpido para a iluminao, tentemos nos livrar da irritao e da raiva.

Mas como nos livramos? Bem, primeiro de tudo, necessrio querer se livrar. Pois muitos de ns no queremos nos livrar da nossa raiva e irritao - por alguma razo obscura, ns gostamos disso. H uma pequena histria maravilhosa sobre dois monges que viveram juntos por muitos anos em um monastrio, eles eram grandes amigos. Ento, eles morreram com um intervalo de poucos meses entre um e outro. Um deles renasceu no paraso, o outro renasceu como um besouro numa pilha de estrume. Aquele que renasceu no paraso estava numa tima situao, desfrutando de todos os prazeres celestiais. Ento ele comeou a pensar sobre o seu amigo: "Eu me pergunto onde estar o meu velho amigo?" Assim, ele examinou todos os mundos paradisacos mas no conseguiu encontrar nem um trao de seu amigo. Ento ele examinou o mundo dos seres humanos, mas l tambm ele no pode encontrar qualquer trao de seu amigo, ento ele examinou o mundo dos animais e depois dos insetos. Finalmente ele o encontrou, renascido como um besouro numa pilha de estrume ... Uau! Ele pensou: "Vou ajudar o meu amigo. Vou at aquela pilha de estrume e o trarei para o mundo celestial para que ele tambm possa desfrutar dos prazeres celestiais e da felicidade de viver neste mundo maravilhoso".

Assim ele foi at a pilha de estrume e chamou o seu amigo. E o pequeno besouro se contorceu para fora e disse: "Quem voc?" - "Eu sou seu amigo. Ns costumvamos ser monges juntos em uma vida passada, e eu vim para lev-lo para o mundo paradisaco onde a vida maravilhosa e bem-aventurada." Mas o besouro disse: "V embora, desaparea!" - "Mas eu sou o seu amigo, e eu vivo no mundo paradisaco", e ele descreveu o mundo paradisaco. Mas o besouro disse: "No, obrigado, eu estou muito feliz aqui na minha pilha de estrume. Por favor, v embora". Ento, o ser celestial pensou: "Bem, se eu pudesse apenas agarr-lo e lev-lo para o mundo paradisaco, ele poderia ver por si mesmo." Assim, ele agarrou o besouro e comeou a pux-lo, e por mais que ele puxasse, mais firme o besouro se agarrava sua pilha de estrume.

Vocs entenderam o moral da histria? Quantos de ns estamos apegados nossa pilha de estrume? Quando algum tenta nos tirar, nos contorcemos de volta para a pilha porque estamos acostumados, ns gostamos daquilo. s vezes, estamos realmente apegados aos nossos velhos hbitos, nossa raiva e nossos desejos. s vezes queremos sentir raiva.

Ento da prxima vez que sentirem raiva, parem e observem. Basta ter um s momento de ateno plena para ver a sensao. Decida e lembre-se: "Da prxima vez que estiver com raiva vou sentir isso, em vez de tentar ser esperto e encontrar alguma forma de ferir a outra pessoa." Apenas observe a sensao. Assim que percebermos a sensao da raiva no nosso corao - no na cabea - ento vamos querer abandon-la, porque di, dolorosa, sofrimento.

Se apenas as pessoas pudessem ser mais despertas, mais conscientes - perceber aquilo que sentem, em vez de pensar sobre isso, no haveria mais nenhum problema. Elas iriam abandonar a raiva muito rapidamente, porque a raiva quente, ela queima. Mas tendemos a ver este mundo com a cabea e no com o corao. Ns pensamos, mas muito raramente sentimos, experimentamos. A meditao permite que entremos novamente em contato com o nosso corao: saindo do pensamento e das reclamaes, de onde comea toda a raiva e desejo.

Quando partimos do corao, podemos sentir por ns mesmos, podemos estar em paz com ns mesmos, podemos cuidar de ns mesmos. Quando parto do corao, consigo tambm apreciar os coraes de outras pessoas. Assim como podemos amar nossos inimigos, quando apreciamos os seus coraes, vendo alguma coisa ali para ser amada, e respeitada.

As pessoas ficam com raiva porque elas esto sofrendo, elas no esto vontade. Mas, se nos sentimos felizes, nunca sentiremos raiva de algum, apenas quando estamos deprimidos, cansados, frustrados, com dificuldades, quando sentimos algo enfermo nos nossos coraes, assim que sentimos raiva das outras pessoas. Ento, quando algum est com raiva de mim, eu sinto compaixo e bondade por essa pessoa, porque percebo que ela est sofrendo.

A primeira vez que fui visitar algum que supostamente era iluminado, eu pensei: "Caramba! Melhor eu me certificar que vou meditar antes de entrar num raio de dez quilmetros de onde ele est, porque evidente que ele ser capaz de ler a minha mente, e isso seria to constrangedor!" Mas uma pessoa iluminada no vai ser cruel e lhe machucar. Uma pessoa iluminada vai aceit-lo e coloc-lo vontade. Esse um sentimento maravilhoso, no mesmo: simplesmente aceitar a si mesmo. Podemos simplesmente descontrair, sem raiva e sem irritao. H essa grande compreenso, essa grande iluminao, que tudo est bem. Quanta dor no seria removida das vidas dos seres humanos, quanta liberdade seria dada para que as pessoas participem no mundo, sirvam a este mundo, amem este mundo, quando finalmente elas se dessem conta que tudo est bem. Elas no tm que gastar tanto tempo fazendo com que tudo esteja bem, mudando, sempre com medo de cometer erros. Quando estamos vontade com ns mesmos nos sentimos vontade com as outras pessoas, no importa quem elas sejam.

 


 

Fonte: Forest Sangha Newsletter, Janeiro 1997.

 

 

Revisado: 14 Dezembro 2013

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