O Caminho para a Paz

Por

Ajaan Chah

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Sila, samadhi e paa so os nomes dados aos diferentes aspectos da prtica. Praticar sila, samadhi e paa, significa que praticamos com ns mesmos. Sila correto existe aqui, samadhi correto existe aqui. Por que? Porque nosso corpo est bem aqui! Temos mos, temos pernas, bem aqui. Aqui onde praticamos sila. fcil descrever a lista de tipos de comportamento errados encontrados nos livros, mas o importante compreender que o potencial para todos est dentro de cada um. O corpo e a linguagem esto conosco aqui e agora. Praticamos a virtude, o que significa tomar cuidado para evitar as aes inbeis de matar, roubar e m conduta sexual. Por exemplo, no passado podemos ter matado animais ou insetos, ou talvez no tenhamos tomado muito cuidado com a linguagem: linguagem mentirosa significa mentir ou exagerar a verdade; linguagem grosseira significa que estamos constantemente sendo abusivos ou rudes com os outros - "idiota", "escria", e assim por diante; linguagem frvola significa tagarelice sem objetivo, falar de modo estpido sem propsito ou substncia. Nos entregamos a tudo isso - sem restrio! Em suma, manter sila significa vigiar a si mesmo, vigiando as aes e a linguagem.

Ento, quem ser o vigilante? Quem assumir a responsabilidade pelas aes? Quem "aquele que sabe" antes de mentir, ofender ou dizer algo frvolo? Contemple isso: quem quer que seja "aquele que sabe" ele quem deve assumir a responsabilidade por sila. Traga essa ateno para vigiar suas aes e linguagem. Esse conhecimento, essa ateno, o que usamos para vigiar a prtica. Para manter sila usamos aquela parte da mente que direciona as aes e que nos leva a praticar o bem ou o mal. Pegamos o vilo e o transformamos num xerife. Agarre a mente rebelde e discipline-a assumindo a responsabilidade por todas as aes e palavras. Olhe para isso e contemple isso. O Buda nos ensinou a sermos cautelosos com as nossas aes. Quem o cauteloso?

A prtica envolve o estabelecimento de sati, ateno plena, "naquele que sabe". "Aquele que sabe" aquela inteno mental que anteriormente nos motivou a matar seres vivos, roubar a propriedade de outras pessoas, fazer sexo ilcito, mentir, difamar, dizer coisas tolas e frvolas e engajar-se em todos os tipos de comportamento desenfreado. "Aquele que sabe" nos leva a falar. Est dentro da mente. Foque a ateno plena (sati) - mantendo-a sempre na memria - nesse "que sabe". Deixe o saber cuidar da sua prtica. Use sati, ou ateno plena, para manter a mente lembrando o momento presente e mantenha a compostura mental desse modo. Faa a mente cuidar de si mesma. Faa bem feito.

Se a mente for realmente capaz de cuidar de si mesma, no ser to difcil vigiar a linguagem e as aes, pois estas so supervisionadas pela mente. Em outras palavras, manter sila - cuidar das nossas aes e linguagem - no uma coisa to difcil. Mantemos a ateno em todos os momentos e em todas as posturas, seja em p, caminhando, sentado ou deitado. Antes de realizar qualquer ao, falar, ou se envolver em conversas, estabelecemos primeiro a ateno plena. Devemos ter sati, estar com ateno plena, antes de fazer qualquer coisa. Praticamos assim at sermos fluentes. Praticamos dessa forma para que possamos estar a par com o que estiver acontecendo na mente, at o ponto em que a ateno plena se torna sem esforo e estamos atentos antes de agir, atentos antes de falar. assim que estabelecemos a ateno plena no corao. com "aquele que sabe" que cuidamos de ns mesmos. Cuidando da linguagem e das aes, estas se tornam graciosas e agradveis aos olhos e ouvidos, enquanto permanecemos confortveis e vontade com essa conteno. Se praticarmos a ateno plena e a conteno at que isso se torne algo confortvel e natural, a mente se tornar firme e resoluta na prtica de sila e na prtica da conteno. Consistentemente iremos prestar ateno prtica e, assim, alcanaremos a concentrao. A caracterstica de estar inabalvel na prtica da ateno plena e da conteno chamada samadhi. A mente estar firmemente concentrada nesta prtica de sila e conteno. Estar firmemente concentrada na prtica de sila significa que h uniformidade e consistncia na prtica da ateno plena e da conteno. Estas so as caractersticas dos fatores externos na prtica de samadhi. No entanto, tambm tem um lado interno mais profundo.

Uma vez que a inteno na mente para a prtica, bem como sila e samadhi, estiverem firmemente estabelecidos, seremos capazes de investigar e refletir sobre o que benfico e prejudicial - perguntando a ns mesmos: "Isto est certo?" ... "Isso est errado?" enquanto experimentamos diferentes objetos mentais. Quando a mente faz contato com diferentes vises, sons, aromas, sabores, sensaes tteis ou idias, "aquele que sabe" surgir e estabelecer a conscincia de gosto ou no gosto, felicidade ou sofrimento, e os diferentes tipos de objetos mentais que experimentamos. Veremos com clareza e veremos muitas coisas diferentes. Se estivermos atentos, veremos os diferentes objetos que surgem na mente e a reao que ocorre ao experiment-los. "Aquele que sabe" ir automaticamente tom-los como objetos de contemplao. Uma vez que a mente esteja vigilante e a ateno plena esteja firmemente estabelecida, notaremos todas as reaes expressas atravs do corpo, da linguagem, ou da mente, na medida em que os objetos mentais forem experimentados. Paa o aspecto da mente que identifica e seleciona o bom do ruim, o certo do errado, dentre todos os objetos mentais que fazem parte do campo da conscincia. Isto paa em seus estgios iniciais que amadurece como resultado da prtica.

Isso significa que comeamos a nos apegar ao que bom ou saudvel. Tememos quaisquer defeitos ou falhas na mente - ansiosos que possam prejudicar nosso samadhi. Ao mesmo tempo, comeamos a ser diligentes e trabalhar duro, bem como amar e alimentar a prtica. Continuamos praticando assim tanto quanto possvel, at que possamos chegar ao ponto em que estaremos constantemente julgando e criticando todos aqueles que encontramos, onde quer que formos. Estaremos constantemente reagindo com atrao ou averso ao mundo ao nosso redor, tornando-nos cheios de todos os tipos de incerteza e continuamente nos apegando a vises do modo correto e incorreto de praticar. como se estivssemos obcecados com a prtica. Mas no precisamos nos preocupar com isso ainda - nesse ponto melhor praticar muito do que pouco. Praticamos muito e nos dedicamos a cuidar do corpo, da linguagem e da mente. Nunca faremos demasiado. A prtica da ateno plena e da conteno com o corpo, a linguagem, e a mente, e a distino consistente entre o certo e o errado o que mantemos como objeto na mente. Nos tornamos concentrados dessa maneira e, estando conectados firmes e inabalveis a esse modo de prtica, significa que a mente realmente se torna sila, samadhi e paa - as caractersticas da prtica descritas nos ensinamentos.

medida que continuamos a desenvolver e manter a prtica, essas diferentes caractersticas e qualidades so aperfeioadas juntas na mente. No entanto, praticar sila, samadhi e paa neste nvel ainda no suficiente para produzir os fatores de jhana - a prtica ainda muito grosseira. Ainda assim, a mente j est bastante refinada - no lado refinado do grosseiro! Para uma pessoa comum, no iluminada, que no tenha cuidado da mente ou praticado muita ateno plena e meditao, somente esse tanto j algo bastante refinado. Neste nvel, podemos sentir uma sensao de satisfao ao sermos capazes de praticar em toda a dimenso completa da nossa habilidade. Isso algo que veremos por ns mesmos; algo que deve ser experimentado pela mente do prprio praticante.

Sendo assim, significa que o praticante j est no caminho, ou seja, praticando sila, samadhi e paa. Estes devem ser praticados em conjunto, pois se algum deles estiver faltando, a prtica no se desenvolver corretamente. Quanto mais sila melhora, mais firme se torna a mente. Quanto mais firme for a mente, mais confiante se torna paa e assim por diante ... cada parte da prtica apoiando e aprimorando todas as outras. Conforme aprofundamos e refinamos a prtica, sila, samadhi e paa iro amadurecer juntos no mesmo ponto - so refinados a partir da mesma matria-prima. Em outras palavras, o Caminho tem um comeo grosseiro, mas, como resultado do treinamento e refinamento da mente atravs da meditao e da reflexo, torna-se cada vez mais sutil. medida que a mente se torna mais refinada, a prtica da ateno plena torna-se mais concentrada, concentrando-se em uma rea cada vez mais limitada. A prtica realmente se torna mais fcil medida que a mente se volta mais e mais para se concentrar em si mesma. No cometemos mais grandes erros. Agora, quando a mente for afetada por um assunto especfico, surgiro dvidas - por exemplo, se agir ou falar de um certo modo ser certo ou errado - simplesmente continuamos a conter a proliferao mental e, intensificando o esforo na prtica, continuamos dirigindo a ateno cada vez mais fundo dentro da mente. A prtica de samadhi se tornar progressivamente mais firme e mais concentrada. A prtica de paa aprimorada para que possamos ver as coisas com mais clareza e com maior facilidade.

O resultado final que somos claramente capazes de ver a mente e seus objetos, sem ter que fazer qualquer distino entre a mente, o corpo ou a linguagem. Conforme continuamos dirigindo a ateno para dentro e a refletir sobre o Dhamma, a faculdade da sabedoria gradualmente amadurece, e eventualmente ficamos contemplando a mente e os objetos mentais - o que significa que comeamos a sentir o corpo como imaterial. Atravs do insight, no estaremos mais tateando ou incertos na compreenso do corpo e do modo como ele . A mente experimenta as caractersticas fsicas do corpo como objetos imateriais que entram em contato com a mente. Em ltima anlise, estamos contemplando apenas a mente e os objetos mentais - aqueles objetos que entram em contato com a conscincia. Agora, examinando a verdadeira natureza da mente, podemos observar que, em seu estado natural, no h preocupaes ou problemas que prevalecem. como um pedao de pano ou uma bandeira amarrada ao final de um poste. Enquanto estiver por conta prpria e sem perturbaes, nada acontecer.

No seu estado natural no existe na mente amor ou dio, nem a busca em culpar outras pessoas. A mente independente, existindo em um estado de pureza que verdadeiramente claro, radiante e imaculado. Em seu estado puro, a mente pacfica, sem felicidade ou sofrimento - na verdade, sem experimentar qualquer tipo de sensao (vedana). Esse o verdadeiro estado da mente. Portanto, o propsito da prtica a busca interior, procurando e investigando at alcanar a mente original. A mente original tambm conhecida como a mente pura. A mente pura a mente sem apegos, sem ser afetada por objetos mentais. Em outras palavras, a mente no persegue os diferentes tipos de objetos mentais agradveis ou desagradveis. Em vez disso, a mente est em um estado de contnua viglia e conhecimento - completamente consciente de tudo o que est sendo experimentado. Quando a mente est nesse estado nenhum objeto mental agradvel ou desagradvel que seja experimentado ser capaz de perturb-la. A mente no "se torna" nada. Em outras palavras, nada pode abal-la. A mente se conhece como pura. Desenvolveu a sua prpria independncia verdadeira; alcanou seu estado original. Como ser capaz de fazer com que esse estado original surja? Atravs da faculdade da ateno plena, refletindo e vendo que todas as coisas so meras condies surgindo da influncia dos elementos, sem que nenhum indivduo as esteja controlando. Assim como ocorre com a felicidade e o sofrimento que experimentamos. Quando esses estados mentais surgem, eles so apenas "felicidade" e "sofrimento". No h dono da felicidade. A mente no a proprietria do sofrimento - os estados mentais no pertencem mente. Veja por voc mesmo. Na realidade, esses no so assuntos da mente, so separados e distintos. Felicidade apenas o estado de felicidade; o sofrimento apenas o estado de sofrimento. Somos meramente os conhecedores desses estados. No passado, porque as razes da cobia, da raiva e da deluso existiam na mente, sempre que o mais trivial objeto mental, agradvel ou desagradvel, fosse notado, a mente reagiria imediatamente - ns o tomaramos experimentando a felicidade ou o sofrimento. Continuamente estaramos nos entregando a estados de felicidade ou sofrimento. Assim como ocorre enquanto a mente no se conhece - enquanto no for clara e iluminada. A mente que no est livre influenciada por quaisquer objetos mentais que experimenta. Em outras palavras, no tem refgio, incapaz de verdadeiramente depender de si mesma. Recebemos uma impresso mental agradvel e ficamos de bom humor. A mente esquece de si mesma.

Em contraste, a mente original est alm do bem e do mal. Essa a natureza original da mente. Se nos sentimos felizes por experimentar um objeto mental agradvel, isso uma deluso. Se nos sentimos infelizes por experimentar um objeto mental desagradvel, isso uma deluso. Objetos mentais desagradveis fazem com que sofremos e os agradveis nos fazem felizes - esse o mundo. Objetos mentais vm com o mundo. Objetos mentais so o mundo, dando origem felicidade e sofrimento, bem e mal, e tudo o que est sujeito impermanncia e incerteza. Quando algum se separa da mente original, tudo se torna incerto - apenas h o nascimento e a morte sem fim, a incerteza e a apreenso, o sofrimento e a dificuldade, sem nenhuma forma de deter ou cessar esse ciclo, o ciclo interminvel de renascimentos.

Samadhi significa uma mente firmemente concentrada, e quanto mais praticamos, mais firme a mente se torna. Quanto mais firmemente a mente est concentrada, mais resoluta na prtica ela se torna. Quanto mais voc contemplar, mais confiante ficar. A mente se torna verdadeiramente estvel - a ponto de no poder ser influenciada por nada. Estamos absolutamente confiantes de que nenhum nico objeto mental tem o poder de nos abalar. Objetos mentais so objetos mentais; a mente a mente. A mente experimenta estados mentais bons e ruins, felicidade e sofrimento, porque deludida pelos objetos mentais. Se no for deludida pelos objetos mentais, no h sofrimento. A mente no-deludida no pode ser abalada. Simplesmente falando, esse estado que surgiu a prpria mente. Se contemplamos de acordo com a verdade o modo como as coisas so, podemos ver que existe apenas um caminho sendo nosso dever segui-lo. Se nos apegamos felicidade, estaremos fora do caminho - porque se apegar felicidade causar sofrimento. Se nos apegamos tristeza, pode ser a causa para o surgimento do sofrimento. Entendemos isso - j estamos com a ateno plena e com o entendimento correto - mas, ao mesmo tempo, ainda no somos capazes de abandonar completamente os nossos apegos.

Ento, qual a maneira correta de praticar? Temos que adotar o caminho do meio, o que significa acompanhar os vrios estados mentais de felicidade e sofrimento, enquanto que ao mesmo tempo mantendo-os distncia.

Essa a maneira correta de praticar - mantemos a ateno plena e a plena conscincia, mesmo se ainda no formos capazes de abrir mo. Esse o caminho correto, pois sempre que a mente se apega a estados de felicidade ou sofrimento, a conscincia desse apego est sempre presente. Isso significa que quando a mente se apega a estados de felicidade, no elogiamos nem damos valor a isso, e sempre que a mente se apega a estados de sofrimento, no criticamos. Desta forma podemos realmente observar a mente tal como ela . A felicidade no correta, o sofrimento no correto. H o entendimento de que nenhum desses estados o caminho correto. Podemos ser incapazes de abandon-los, mas podemos estar com a ateno plena e a plena conscincia. Com a ateno plena estabelecida, no atribumos indevido valor felicidade ou ao sofrimento. No damos importncia a nenhuma dessas duas direes que a mente pode tomar, sem restar qualquer dvida. Sabemos que seguir qualquer um desses caminhos no o caminho de prtica correto, ento, em todos os momentos, consideramos o meio-termo da equanimidade como o objeto da mente. Quando praticamos at o ponto no qual a mente vai alm da felicidade e do sofrimento, a equanimidade necessariamente surge como o caminho a seguir. Devemos gradualmente segui-la, pouco a pouco - o corao sabendo o caminho para alm das contaminaes, mas, sem estarmos prontos para finalmente transcend-las.

Sempre que a felicidade surge e a mente se apega, temos que contemplar essa felicidade, e sempre que a mente se apega ao sofrimento, temos que contemplar esse sofrimento. Eventualmente, a mente alcanar um estgio no qual estar plenamente consciente da felicidade e do sofrimento. Nesse ponto ser capaz de deixar de lado a felicidade e o sofrimento, o prazer e a dor, e deixar de lado tudo o que o mundo e assim nos tornamos o "conhecedor dos mundos". Uma vez que a mente - "aquele que sabe" - possa abrir mo, poder se estabelecer nesse ponto.

nesse ponto que a prtica se torna realmente interessante. Onde quer que haja apego na mente, continuamos insistindo naquele ponto, sem desistir. Se h apego felicidade, continuamos insistindo, no deixando a mente ser levada por esse estado. Se a mente se apega ao sofrimento, nos agarramos a isso, realmente grudamos e contemplamos imediatamente. Mesmo que a mente esteja presa em um estado mental insalubre, sabemos que prejudicial e que a mente no negligente. como pisar em espinhos: claro que no procuramos pisar em espinhos, tentamos evit-los, mas mesmo assim s vezes pisamos em um. Mesmo que saibamos disso, somos incapazes de evitar pisar naqueles 'espinhos'. A mente ainda segue vrios estados de felicidade e sofrimento, mas no se entrega completamente. Sustentamos um esforo contnuo para destruir qualquer apego na mente - para destruir e eliminar tudo aquilo que o mundo da mente.

Algumas pessoas querem pacificar a mente mas no sabem o que realmente a verdadeira paz. No conhecem a mente pacfica! Existem dois tipos de paz - a paz que vem atravs de samadhi e a paz que vem atravs de paa. A mente que est em paz atravs de samadhi ainda est deludida. A paz que vem atravs da prtica de samadhi depende da mente estar separada dos objetos mentais. Quando no est experimentando nenhum objeto mental, ento h calma e consequentemente a pessoa se apega felicidade que vem com essa calma. No entanto, sempre que h impacto atravs dos sentidos, a mente cede imediatamente. Tem medo dos objetos mentais. Tem medo da felicidade e do sofrimento; tem medo de elogios e crticas; medo de formas, sons, aromas e gostos.

Quem experimenta a paz apenas atravs de samadhi tem medo de tudo e no quer se envolver com ningum ou nenhuma coisa. As pessoas que praticam samadhi desse modo apenas querem ficar isoladas em uma caverna em algum lugar, onde possam experimentar a felicidade de samadhi sem ter que sair. Onde quer que haja um lugar pacfico, elas se esgueiram e se escondem. Esse tipo de samadhi envolve muito sofrimento - as pessoas acham difcil deixar esse estado e conviver com outras pessoas. Elas no querem ver formas ou ouvir sons, no querem experimentar nada! Elas tm que viver em algum lugar calmo e especialmente reservado, onde ningum venha e perturbe com conversas. Necessitam um ambiente realmente pacfico.

Esse tipo de paz no produz os resultados esperados. O Buda no ensinou a praticar samadhi com deluso. Se algum pratica assim, ento pare. Se a mente alcanou a tranquilidade, use-a como base para a contemplao. Contemple a paz da concentrao em si e use-a para conectar a mente e refletir sobre os diferentes objetos mentais que a mente experimenta. Contemple as trs caractersticas de anicca (impermanncia), dukkha (sofrimento) e anatta (no-eu). Reflita sobre o mundo todo. Quando tiver contemplado suficientemente, est tudo bem em restabelecer a calma de samadhi. Pode reentrar em samadhi atravs da meditao sentada e depois, com calma restabelecida, continuar com a contemplao. medida que ganhamos conhecimento, usamos para combater as contaminaes, para treinar a mente.

A paz que surge atravs de paa distinta, porque quando a mente se retira do estado de tranquilidade, a presena de paa afasta o medo das formas, sons, aromas, sabores, sensaes tteis e idias. Significa que, logo que ocorra o contato sensorial, a mente imediatamente tem conscincia do objeto mental. Assim que houver um contato num dos meios dos sentidos, o deixamos de lado - a ateno plena apurada o suficiente para imediatamente abrir mo. Essa a paz que surge atravs de paa.

Quando praticamos com a mente dessa maneira, a mente se torna consideravelmente mais refinada do que quando apenas desenvolvemos samadhi. A mente se torna muito poderosa e no tenta mais fugir. Com tal energia nos tornamos destemidos. No passado tnhamos medo de experimentar qualquer coisa, mas agora conhecemos os objetos mentais tal como so e assim no h mais medo. Conhecemos nossa prpria fora mental e no temos medo. Quando vemos algo, contemplamos. Quando ouvimos um som, contemplamos. Nos tornamos proficientes na contemplao dos objetos mentais. Seja o que for, podemos abrir mo de tudo. Vemos claramente a felicidade e abrimos mo. Vemos claramente o sofrimento e abrimos mo. Onde quer sejam vistos, naquele exato momento abrimos mo. Todos os objetos mentais perdem seu valor e no so mais capazes de nos influenciar. Quando essas caractersticas surgem na mente do praticante, apropriado mudar o nome da prtica para vipassana: conhecimento claro de acordo com a verdade. disso que se trata - conhecimento de acordo com a verdade sobre como as coisas so. Esta a paz no mais alto nvel, a paz de vipassana.

Desenvolver samadhi para que possamos simplesmente ficar sentados e cultivar o apego por estados mentais felizes no o verdadeiro propsito da prtica. Devemos evitar isso. O Buda disse que devemos lutar essa guerra, no apenas nos escondermos em uma trincheira tentando evitar as balas do inimigo. Quando hora de lutar, realmente temos que sair com armas em punho. Eventualmente temos que sair dessa trincheira. No podemos ficar ali dormindo quando a hora de lutar. Assim a prtica. No podemos permitir que a mente apenas se esconda, encolhendo-se nas sombras.

Descrevi um esboo da prtica. Voc, como todos praticantes, deve evitar ser pego em dvidas. No duvide do caminho da prtica. Quando h felicidade, observe a felicidade. Quando houver sofrimento, observe o sofrimento. Tendo estabelecido a ateno plena, faa o esforo para destruir ambos. Abra a mo, jogue-os de lado. Conhea o objeto da mente e continue abrindo mo. Se quiser fazer meditao sentada ou andando, isso no importa. Se continuar pensando, no importa. O importante manter a ateno plena, momento a momento. Se estiver realmente aprisionado proliferao mental, junte tudo isso e o considere como um todo, rompendo-o desde o incio, dizendo: "Todos esses meus pensamentos, idias e fantasias so simplesmente proliferao mental e nada mais. tudo anicca, dukkha e anatta. Nada disso seguro de modo algum."

 

 

Revisado: 20 Dezembro 2018

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