A Integridade da Vacuidade

Por

Ajaan Thanissaro

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Apesar da sutileza dos seus ensinamentos, o Buda tinha um teste simples para medir a sabedoria. Voc sbio, ele dizia, quando consegue fazer coisas que no gosta de fazer, mas que sabe iro resultar em felicidade, e de evitar fazer coisas que voc gosta de fazer, mas que sabe iro resultar em dor e prejuzo.

Ele deduziu esse padro de sabedoria do seu insight sobre a radical importncia da ao intencional em moldar a nossa experincia de felicidade e tristeza, prazer e dor. Dada a importncia das aes que, no entanto, so com freqncia mal direcionadas, a sabedoria tem de ser ttica, estratgica, ao fomentar aes que sejam realmente benficas. Tem de ser mais astuta que as preferncias mopes, para produzir uma felicidade duradoura.

Porque o Buda observou todos os aspectos da experincia, do grosseiro ao sutil, em relao s aes intencionais e os seus resultados, o seu padro ttico para a sabedoria tambm se aplica a todos os nveis, da sabedoria simples da generosidade at a sabedoria da vacuidade e da perfeita iluminao. A sabedoria em todos os nveis sbia, porque ela funciona. Ela influencia aquilo que voc faz e a felicidade resultante. E para que funcione, ela requer integridade: a disposio para olhar com honestidade para os resultados das suas aes, admitir quando voc tiver causado dano e mudar o seu modo de agir para no repetir o mesmo erro outra vez.

O que impressiona em relao a esse padro de sabedoria a sua objetividade e praticidade. Isso pode ser uma surpresa, pois a maioria das pessoas no pensa na sabedoria Budista como bom senso e descomplicao. Ao invs, a frase Sabedoria Budista invoca ensinamentos mais abstratos e paradoxais que desafiam o bom senso sendo a vacuidade o principal exemplo. A vacuidade, nos disseram, significa que nada possui existncia inerente. Em outras palavras, num nvel bsico, as coisas no so aquilo que por conveno tomamos por coisas. Elas so processos que de forma nenhuma esto separadas de outros processos dos quais elas dependem. Essa uma idia filosfica sofisticada que fascina o filosofante, mas que no oferece um apoio muito claro para ajud-lo a levantar mais cedo para meditar numa manh fria e tampouco para convenc-lo a abandonar um vcio destrutivo.

Por exemplo, se voc alcolatra, no porque voc sente que o lcool tem algum tipo de existncia inerente. porque, de acordo com os seus clculos, o prazer imediato derivado do lcool tem mais peso que o dano a longo prazo que ele causa na sua vida. Esse um princpio geral: o apego a um vcio no um problema metafsico. Ele um problema ttico. Temos apego s coisas e s nossas aes, no devido ao que pensamos que elas sejam, mas devido ao que acreditamos que elas possam fazer pela nossa felicidade. Se prosseguirmos superestimando o prazer e subestimando a dor que elas causam, continuaremos apegados a elas independentemente do que, em ltima anlise, acreditamos que elas sejam.

Como o problema ttico, a soluo tem de ser ttica tambm. A cura para o vcio e para o apego encontra-se na reeducao do seu pensamento e das suas intenes atravs do desenvolvimento da noo do poder das suas aes e da possvel felicidade que voc poder alcanar. Isso significa aprender a ser mais honesto e sensvel para com as suas aes e as suas conseqncias, e ao mesmo tempo permitir-se imaginar e dominar rotas alternativas para uma felicidade mais completa, com menos desvantagens. Idias metafsicas podem algumas vezes participar da equao, mas elas, no mximo, desempenham um papel secundrio. Muitas vezes so irrelevantes. Mesmo se voc visse o lcool e o seu prazer como desprovidos de existncia inerente, ainda assim voc buscaria esse prazer enquanto o visse valendo mais que o dano causado. Algumas vezes, as idias metafsicas da vacuidade podem na verdade ser prejudiciais. Se voc comear a focar em como o dano causado pela bebida e as pessoas prejudicadas pelo seu vcio so vazios de existncia inerente, voc poder desenvolver uma justificativa racional para continuar a beber. Portanto, o ensinamento da vacuidade metafsica no parece que passaria no teste do prprio Buda para a sabedoria.

A ironia que a idia da vacuidade como ausncia de existncia inerente tem muito pouco a ver com aquilo que o prprio Buda falou sobre a vacuidade. Os seus ensinamentos sobre a vacuidade tal qual relatado nos textos Budistas mais antigos, o Cnone em Pali tratam diretamente das aes e dos seus resultados, com as questes do prazer e da dor. Para compreender e experimentar a vacuidade, conforme esses ensinamentos, no requer sofisticao filosfica, mas a integridade pessoal disposta a admitir as reais motivaes que se encontram por detrs das suas aes e os reais benefcios e danos que elas causam. Por essas razes, essa verso da vacuidade mais relevante no desenvolvimento do tipo de sabedoria que passaria no teste do Buda, baseado no bom senso, para medir o quo sbio voc .

Os ensinamentos do Buda, sobre a vacuidade - apresentados em dois discursos mais longos e vrios outros menores definem-na de trs modos distintos: como um mtodo de meditao, como um atributo dos sentidos e dos seus objetos e como um estado de concentrao. Embora essas formas de vacuidade difiram nas suas definies, em ltima instncia elas convergem para o mesmo caminho da libertao do sofrimento. Para ver como isso acontece, precisaremos examinar os trs significados da vacuidade um a um. Ao fazer isso, iremos descobrir que cada um aplica o teste de sabedoria do Buda, baseado no bom senso em relao s aes sutis da mente. Mas para compreender como esse teste se aplica nesse nvel sutil, primeiro precisamos ver como ele se aplica a aes num nvel mais bvio. Nesse sentido, no h melhor introduo que o conselho do Buda para o seu filho Rahula, sobre como cultivar a sabedoria ao realizar as atividades rotineiras do dia a dia.

Observando as Aes Dirias

O Buda disse para o seu filho Rahula, que tinha sete anos na poca, para usar os seus pensamentos, palavras e aes como se fossem um espelho. Em outras palavras, da mesma forma que voc usa um espelho para verificar se o seu rosto est limpo, Rahula deveria usar as suas aes como um meio para descobrir se ainda havia algo impuro na sua mente. Antes de agir, ele deveria tentar antecipar os resultados da ao. Se ele visse que ela seria prejudicial para ele mesmo ou para os outros, ele no deveria dar seguimento ao. Se ele no antecipasse nenhum dano, ele poderia seguir adiante com a ao. Se, enquanto estivesse praticando a ao, ele percebesse que ela estaria causando um dano inesperado, ele deveria parar o que estava fazendo. Se ele no visse nenhum dano, ele poderia seguir adiante com a ao.

Se, depois de ter praticado a ao, ele visse algum dano que tivesse sido causado, ele deveria consultar algum companheiro na vida santa para entender melhor o que ele havia feito e como evitar fazer aquilo novamente e depois determinar-se a no mais repetir o mesmo erro. Em outras palavras, ele no deveria se sentir apreensivo ou envergonhado de revelar os seus erros para pessoas que ele respeitava, pois, se ele comeasse a esconder deles os seus erros, em pouco tempo ele passaria a escond-los de si mesmo. Se, por outro lado, ele no visse nenhum dano resultando da ao, ele deveria se alegrar com o seu progresso na prtica e continuar com o seu treinamento.

O nome correto para esse tipo de reflexo no auto-purificao. purificao da ao. Voc desvia os julgamentos de bom e mau da sua noo de eu, onde eles podem at-lo com a presuno e a culpa. Ao invs disso, voc foca diretamente nas aes em si mesmas, onde os julgamentos permitiro que voc aprenda com os seus erros e encontre uma alegria saudvel naquilo que voc fez corretamente.

Continuando a refletir dessa forma, servir vrios propsitos. Primeiro e mais importante de tudo, obriga-o a ser honesto com relao s suas intenes e com relao aos efeitos das suas aes. A honestidade neste caso um princpio simples: voc no acrescenta nenhum tipo de racionalizao a posteriori para encobrir aquilo que voc na verdade fez e tampouco tenta subtrair da verdade atravs da recusa em aceitar os fatos. Porque voc est empregando essa honestidade em reas onde a reao normal sentir-se envergonhado ou com medo da verdade, trata-se de mais do que um simples registro dos fatos. Requer tambm integridade moral. por isso que o Buda enfatizava a virtude como pr-condio para a sabedoria e declarou que o princpio de virtude mais elevado o preceito contra a mentira. Se voc no adquirir o hbito de admitir as verdades desconfortveis, a verdade como um todo evadir-se-.

O segundo propsito dessa reflexo enfatizar o poder das suas aes. Voc v que as suas aes representam a diferena entre o prazer e a dor. Terceiro, voc exercita a prtica de aprender com os seus erros sem sentir vergonha ou remorso. Quarto, voc compreende que quanto mais honesto voc for na avaliao das suas aes, mais poder voc ter para mudar o seu modo de agir numa direo positiva. E por fim, voc desenvolve boa vontade e compaixo, considerando que voc decidir agir apenas com base em intenes que no causem dano a ningum e focar continuamente no desenvolvimento da habilidade de ser inofensivo como a sua principal prioridade.

Todas essas lies so necessrias para desenvolver o tipo de sabedoria avaliadas no teste do Buda para a sabedoria; e, no fim das contas, elas esto diretamente relacionadas com o primeiro significado da vacuidade, como um mtodo de meditao. Na verdade, esse tipo de vacuidade toma simplesmente as instrues que Rahula recebeu para observar as suas aes dirias e as amplia para a ao da percepo da mente.

A Vacuidade como um Mtodo de Meditao

A vacuidade como um mtodo de meditao o mais bsico dos trs tipos de vacuidade. No contexto deste mtodo, a vacuidade significa vazio de perturbaes ou para colocar isso em outras palavras, vazio de sofrimento. Voc traz a mente para a concentrao e depois examina esse estado de concentrao para detectar a presena ou ausncia de perturbaes sutis, ou sofrimento, ainda presentes naquele estado. Ao encontrar uma perturbao, voc a segue at a percepo o rtulo mental ou ato de identificao na qual a concentrao est baseada. Ento, voc abandona aquela percepo por uma outra mais refinada, uma que conduza a um estado de concentrao com menos perturbao presente.

No discurso em que explica este significado de vacuidade (MN 121), o Buda ilustra a sua explicao com um smile. Ele e Ananda esto num palcio abandonado que agora um silencioso monastrio. O Buda diz para Ananda observar e apreciar que o monastrio est vazio das perturbaes que continha quando era usado como palcio as perturbaes causadas pelo ouro e prata, elefantes e cavalos, assemblias de mulheres e homens. A nica perturbao restante aquela causada pela presena dos bhikkhus meditando em conjunto.

Tomando esse smile, o Buda deu incio descrio da vacuidade como um mtodo de meditao. (O smile reforado pelo fato de que a palavra em Pali para monastrio ou residncia vihara tambm significa atitude ou mtodo). Ele descreve um bhikkhu meditando na floresta que est simplesmente notando para si mesmo que ele agora est na floresta. O bhikkhu permite que a sua mente se concentre e desfrute dessa percepo, floresta. Ele ento retrocede mentalmente, observando e avaliando que esse modo de percepo est vazio das perturbaes que acompanham as percepes da vida no vilarejo que ele deixou para trs. As nicas perturbaes restantes so aquelas associadas percepo, floresta por exemplo, quaisquer reaes emocionais em relao aos perigos que a floresta possa conter. Como referido pelo Buda, o bhikkhu v com preciso quais perturbaes no esto presentes nesse modo de percepo; quanto s perturbaes que restam, ele as v com preciso, Isto est presente. Em outras palavras, ele no adiciona e no elimina nada do que ali est. Assim como ele entra na vacuidade meditativa que pura e no distorcida.

Depois, notando as perturbaes presentes no ato de focar na floresta, o bhikkhu abandona essa percepo e a substitui por uma percepo mais refinada, uma com menos potencial de despertar perturbaes. Ele escolhe o elemento terra, expelindo da sua mente todos os detalhes das colinas e ravinas da terra, simplesmente tomando nota da sua qualidade terral. Ele repete o processo aplicado na percepo da floresta estabelecendo-se na percepo da terra, desfrutando plenamente dela e depois retrocedendo para observar que as perturbaes associadas com a floresta desapareceram, enquanto que as nicas perturbaes presentes so aquelas associadas unicidade da mente baseada na percepo, terra.

Ele depois repete o mesmo processo com percepes ainda mais refinadas, estabelecendo-se nos jhanas imateriais ou absores meditativas: espao infinito, conscincia infinita, nada, nem percepo, nem no percepo, e a concentrao desprovida de objeto.

Por fim, vendo que mesmo essa concentrao desprovida de objeto fabricada e fruto da vontade, ele abandona o seu desejo de continuar fabricando mentalmente alguma coisa. Desse modo ele libertado das impurezas mentais desejo sensual, ser/existir, idias e ignorncia que poderiam fermentar num contnuo vir a ser. Ele observa que essa libertao ainda contm as perturbaes associadas ao funcionamento das seis bases sensuais, mas que est vazia de todas as impurezas, de todo o potencial de mais sofrimento. Isto, conclui o Buda, a entrada na vacuidade pura e no distorcida, que suprema e insupervel. a vacuidade na qual ele mesmo permanece e que, durante todo o tempo, nunca foi nem nunca ser superada.

Em cada ponto dessa descrio, a vacuidade significa uma coisa: vazio de perturbao ou sofrimento. O meditador ensinado a observar a ausncia de perturbao como uma realizao positiva e de ver qualquer perturbao criada pela mente, no importando quo sutil ela seja, como um problema para ser solucionado.

Quando voc compreender a perturbao como uma forma sutil de dano, voc ver as conexes entre esta descrio da vacuidade e as instrues do Buda para Rahula. Ao invs de tomar os seus estados meditativos como uma avaliao da sua identidade ou do seu valor prprio por ter desenvolvido um eu que mais puro, mais expansivo, mais em harmonia com o fundamento da existncia o bhikkhu encara aquilo simplesmente como aes e suas conseqncias. E os princpios que aqui se aplicam, no nvel meditativo, so os mesmos que se aplicam aos conselhos do Buda para Rahula com relao ao em geral.

Aqui, a ao a percepo que suporta o seu estado de concentrao meditativa. Voc se estabelece nesse estado ao repetir a ao de percepo continuamente at que esteja perfeitamente familiarizado com ela. Assim como Rahula descobriu as conseqncias das suas aes ao observar o dano bvio causado para si mesmo e para os outros, aqui voc descobre as conseqncias da concentrao naquela percepo, ao ver quanta perturbao surge da ao mental. Ao perceber a perturbao, voc pode mudar a sua ao mental, movendo a sua concentrao para uma percepo mais refinada, at que por fim voc pode parar por completo a fabricao de estados mentais.

No ncleo dessa prtica meditativa encontram-se dois princpios importantes derivados das instrues para Rahula. O primeiro a honestidade: a habilidade para se libertar do embelezamento ou negao que, sem adicionar nenhuma interpretao perturbao presente no momento, tampouco tenta negar o que est ali presente. Uma parte integral dessa honestidade a habilidade de ver as coisas simplesmente como ao e resultado, sem lhes adicionar a presuno Eu sou.

O segundo princpio a compaixo o desejo de dar um fim ao sofrimento - considerando que voc continuar tentando abandonar as causas do sofrimento e das perturbaes sempre que voc as encontrar. Os efeitos dessa compaixo se estendem no s at voc, mas at os outros tambm. Quando voc no se sobrecarrega com o sofrimento, menos provvel que voc seja um fardo para os outros; voc tambm estar em melhor posio para ajud-los a carregar os seus fardos quando for necessrio. Dessa forma, os princpios de integridade e compaixo esto na base at mesmo das expresses mais sutis da sabedoria que conduz libertao.

Esse processo de desenvolvimento do vazio das perturbaes no necessariamente isento de problemas e direto. Ele requer a fora de vontade necessria para abrir mo de todos os apegos. Porque um passo essencial para conhecer a percepo meditativa como uma ao aprender a se estabelecer nela, desfrutar dela em outras palavras, apreci-la por inteiro, at o extremo do apego. Esse um dos papis da tranqilidade na meditao. Se voc no aprender a desfrutar da meditao o suficiente para mant-la com regularidade, voc no se familiarizar com ela. Se voc no tiver familiaridade, o insight dos seus efeitos no ir surgir.

No entanto, a menos que voc j tenha praticado usando as instrues para o Rahula, para superar os apegos mais grosseiros, ento, mesmo que voc experimente o insight das perturbaes causadas pelo seu apego concentrao, faltar integridade ao seu insight. Como voc no teve nenhuma prtica em relao aos apegos mais bvios, voc no ser capaz de se libertar dos apegos mais sutis de uma forma confivel. Voc primeiro precisa desenvolver o hbito de observar as suas aes e as suas conseqncias, acreditando com firmeza, com base na experincia, no valor de abster-se do mal ainda que sutil. S ento voc ter a habilidade necessria para desenvolver a vacuidade como um mtodo de meditao de um modo puro e no distorcido, que ir conduzi-lo por todo o caminho at o objetivo almejado.

A Vacuidade como um Atributo dos Sentidos e dos seus Objetos

A vacuidade como um atributo, quando usado como um ponto de partida para a prtica, conduz a um processo similar mas por uma rota diferente. Enquanto a vacuidade, como um mtodo de meditao, foca nas questes de perturbaes e sofrimento, a vacuidade como um atributo foca nas questes de eu e no-eu. E enquanto a vacuidade, como um mtodo de meditao, comea com a tranqilidade, a vacuidade como um atributo comea com o insight.

O Buda descreveu este tipo de vacuidade num discurso breve (SN XXXV.85). Novamente, Ananda o interlocutor, abrindo o discurso com uma pergunta: De que modo o mundo est vazio? O Buda responde que cada um dos seis sentidos e os seus objetos esto vazios de um eu ou algo que pertena a um eu.

O discurso no oferece explicaes adicionais, mas discursos afins mostram que esse insight pode ser colocado em prtica de duas formas. A primeira refletir sobre o que o Buda falou sobre o eu e como as idias de um eu podem ser compreendidas como formas de elaborao mental. A segunda, que discutiremos na seo seguinte, desenvolver a percepo de que todas as coisas esto vazias de um eu como base para um estado de concentrao refinada. No entanto, como veremos, ambas as abordagens acabam no final conduzindo de volta ao uso da primeira forma de vacuidade como um mtodo de meditao para completar o caminho para a iluminao.

Quando falava sobre o eu, o Buda se recusava a dizer se este existe ou no, mas dava uma detalhada descrio de como a mente desenvolve a idia de um eu como uma estratgia apoiada sobre o desejo. Na busca pela felicidade, ns repetidamente agimos de um modo que o Buda chamava de fabricao de um eu e fabricao do meu como formas de tentar exercer controle sobre o prazer e a dor. Como a fabricao de um eu e a fabricao de um meu so aes, elas se encaixam dentro do alcance das instrues do Buda para Rahula. Sempre que agirmos dessa maneira, deveremos verificar se isso conduz aflio; se assim for, ento deveremos abandon-las.

Essa uma lio que, num nvel mais bvio, aprendemos quando ainda criana. Se voc disser que seu um doce que pertence sua irm, voc ir se meter numa briga. Se ela for maior que voc, melhor voc no dizer que o doce seu. medida que crescemos, muito da nossa educao prtica est situada no descobrimento de onde benfico criar um senso do eu em torno de algo e onde no .

Se voc aprender a encarar a sua fabricao de um eu e fabricao do meu, sob a perspectiva das instrues para Rahula, voc ir em grande parte refinar esse aspecto da sua educao e ao mesmo tempo se ver forado a ser mais honesto, sbio e compassivo, vendo onde um eu um passivo e onde ele um ativo. Num nvel mais grosseiro, voc ir descobrir que enquanto h muitas reas nas quais o eu e meu conduzem apenas a conflitos inteis, h muitas outras nas quais eles podem ser benficos. A noo de eu que faz com que voc seja generoso e ntegro nas suas aes um eu que vale a pena ser fabricado, digno de ser dominado como uma tcnica. Assim tambm a noo de eu que pode assumir a responsabilidade pelas suas aes e que est disposta a sacrificar um pequeno prazer no presente por uma felicidade maior no futuro. Esse tipo de eu,com a prtica, ir afast-lo da aflio e conduzi-lo a nveis crescentes de felicidade. Esse o eu que em algum momento o levar a praticar a meditao, pois voc v os benefcios a longo prazo, que provm do treinamento do seu poder de ateno plena, concentrao e sabedoria.

No entanto, enquanto a meditao refina a sua sensibilidade, voc comea a notar os nveis sutis de aflio e perturbao que a fabricao de um eu e a fabricao do meu so capazes de criar na mente. Eles podem fazer com que voc se apegue a um estado de tranqilidade, de tal modo que voc ressinta quaisquer intruses na minha tranqilidade. Eles podem fazer com que voc se apegue aos seus insights, de tal modo que voc desenvolva orgulho pelos meus insights. Isso pode ser um obstculo para o progresso, pois a noo de eu e meu podem impedi-lo de ver o sofrimento sutil sobre o qual esto baseadas a tranqilidade e o insight. No entanto, se voc se tivesse treinado nas instrues para Rahula, voc valorizaria as vantagens de aprender a ver at mesmo a tranqilidade e insight como vazios de qualquer coisa que pertena ao eu. Essa a essncia do segundo tipo de vacuidade. Quando voc remove os rtulos de eu ou meu at mesmo dos seus prprios insights e estados mentais, como voc os v? Simplesmente como ocorrncias de sofrimento surgindo e desaparecendo perturbaes surgindo e desaparecendo sem adicionar ou eliminar nada. medida que voc prosseguir com essa forma de percepo, voc estar adotando o primeiro tipo de vacuidade, como um mtodo de meditao.

A Vacuidade como um Estado de Concentrao

O terceiro tipo de vacuidade ensinada pelo Buda como um estado de concentrao em essncia uma outra forma de empregar o insight da vacuidade como um atributo dos sentidos e dos seus objetos como um meio para alcanar a libertao. Um discurso (MN 43) descreve isso da seguinte forma: um bhikkhu senta para meditar num local tranqilo e de forma intencional percebe os seis sentidos e os seus objetos como vazios de um eu ou daquilo que pertena a um eu. Enquanto ele se dedica a essa percepo, isso no traz a mente diretamente para a libertao, mas para o jhana imaterial da base do nada, que acompanhado por forte equanimidade.

Um outro discurso (MN 106) desenvolve ainda mais esse tema, observando que o bhikkhu desfruta da equanimidade. Se ele permanecer s desfrutando dela, a sua meditao no ir adiante. Mas se ele aprender a ver aquela equanimidade como uma ao fabricada, produto da vontade ele poder identificar o sofrimento sutil que isso implica. Se ele puder observar esse sofrimento em si mesmo, surgindo e cessando, sem adicionar ou eliminar nenhuma outra percepo, ele estar novamente adotando a vacuidade como um mtodo de meditao. Abandonando as causas de sofrimento onde quer que elas sejam encontradas na concentrao, ele por fim alcanar a forma mais elevada de vacuidade, livre de todas as fabricaes mentais.

A Sabedoria da Vacuidade

Portanto, os dois ltimos tipos de vacuidade por fim acabam conduzindo de volta ao primeiro, a vacuidade como um mtodo de meditao o que significa que os trs tipos de vacuidade acabam no final das contas conduzindo ao mesmo destino. Quer o tipo de vacuidade seja interpretado com o significado de vazio de perturbaes, (sofrimento), ou vazio de um eu, quer estimule o insight atravs da tranqilidade ou a tranqilidade atravs do insight, todos eles culminam numa prtica que preenche as tarefas apropriadas a cada uma das quatro nobres verdades: compreender o sofrimento, abandonar as suas causas, realizar a cessao e desenvolver o caminho para essa cessao. O cumprimento dessas tarefas conduz libertao.

O que distinto neste processo o modo como ele evolui dos princpios da ao-purificao que o Buda ensinou para Rahula, aplicando esses princpios a cada passo da prtica do mais elementar ao mais refinado. Como disse o Buda para Rahula, esses princpios so o nico meio possvel atravs do qual a purificao pode ser alcanada. Embora a maioria das explicaes deste enunciado definam a purificao como pureza de virtude, a explicao do Buda sobre a vacuidade, como um mtodo de meditao, mostra que a purificao neste caso tambm significa a pureza da mente e a pureza da sabedoria. Todos os aspectos do treinamento so purificados ao v-los como aes e suas conseqncias. Isso ajuda a desenvolver a integridade que est disposta a reconhecer as aes inbeis e a boa vontade madura que permanece objetivando conseqncias que impliquem cada vez menos em dano, perturbao e sofrimento.

nisso que este tipo de vacuidade difere da definio metafsica de vacuidade como sendo a ausncia de existncia inerente. Enquanto a perspectiva metafsica da vacuidade no necessariamente envolve integridade - visto que uma tentativa de descrever a realidade ltima da natureza das coisas e no de julgar aes esta abordagem da vacuidade requer um julgamento honesto das suas aes mentais e dos seus resultados. A integridade dessa maneira parte essencial dessa habilidade.

Desse modo, os nveis mais elevados de discernimento e sabedoria evoluem no do tipo de conhecimento fomentado pelos debates e pela anlise lgica, nem do tipo fomentado pela pura ateno ou a mera notao, mas do conhecimento fomentado pela integridade, desprovido de presuno, unido compaixo e boa vontade.

A razo disso to bvia que com freqncia passa despercebido: se voc quer dar um fim ao sofrimento, precisa da compaixo para ver que esse um objetivo que vale a pena e da integridade para reconhecer o sofrimento que voc causou no passado desnecessariamente e por negligncia. A ignorncia, que faz surgir o sofrimento, ocorre no porque voc no tem conhecimentos suficientes ou no sofisticado filosoficamente o suficiente para entender o verdadeiro significado da vacuidade. Ela provm da sua recusa em admitir que o que voc est claramente fazendo, diante dos seus prprios olhos, est causando sofrimento. por isso que a iluminao destri a presuno: ela o desperta completamente da cegueira deliberada que o manteve por todo o tempo cmplice dum comportamento inbil. Essa uma experincia purificadora. A nica coisa honesta a ser feita em resposta a essa experincia abrir-se para a libertao. Essa a vacuidade que superior e insupervel.

Ao formular o caminho para essa vacuidade sobre os mesmos princpios que suportam os nveis mais elementares da ao-purificao, o Buda conseguiu evitar a criao de dicotomias artificiais entre a realidade convencional e a realidade ltima, na prtica. Por essa razo, esta abordagem para a sabedoria ltima ajuda tambm a validar os nveis mais elementares. Quando voc entender, que a compreenso no distorcida da vacuidade depende de habilidades que so desenvolvidas com a adoo de uma atitude responsvel, honesta e gentil em relao a todas as suas aes, mais provvel que voc trar essa atitude para tudo aquilo que voc fizer grosseiro ou sutil. Voc dar mais importncia a todas as suas aes e s suas conseqncias, voc dar mais importncia sua noo de integridade, pois voc compreende que essas coisas esto diretamente relacionadas com as habilidades que conduzem completa libertao. Voc no pode desenvolver uma atitude descartvel em relao s suas aes e respectivas conseqncias, pois voc estar jogando fora a sua oportunidade para uma felicidade verdadeira e incondicional. As habilidades que voc precisa para se convencer a meditar numa manh escura e fria, ou para resistir a um trago numa tarde preguiosa, so as mesmas que no final das contas iro assegurar a realizao no distorcida da paz mais elevada.

Assim como os ensinamentos do Buda sobre a vacuidade nos encorajam a exercitar a sabedoria em tudo aquilo que fizermos.

 

 

Revisado: 2 Junho 2007

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