Ocultao das Trs Caractersticas

Por

Venervel P. A. Payutto

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Embora a impermanncia, dukkha e no-eu sejam caractersticas comuns a todas as coisas e se revelem constantemente, as pessoas em geral no as percebem. Elas ficam obscurecidas. Se uma pessoa no prestar ateno e investigar do modo correto, ela no ir reconhecer os fatores que causam o obscurecimento. Esses fatores incluem:

1. Continuidade (Santati): Oculta a impermanncia
2. Movimento (Iriyapatha): Oculta Dukkha
3. Solidez (Ghana): Oculta no-eu

Ao fracassar em dar cuidadosa ateno ao surgimento e cessao, ao nascimento e decadncia, a pessoa permite que a continuidade obscurea a caracterstica da impermanncia. Todas as coisas que experimentamos continuamente surgem e desaparecem, mas esse surgimento e cessao ocorrem de um modo contnuo e veloz. Essa rpida sucesso engana as pessoas a verem as coisas como se fossem estveis e imutveis. Por exemplo, a nossa imagem, ou de um amigo, aparenta ser a mesma depois de passados alguns instantes, mas na medida em que mais tempo passa, a pessoa se d conta que ocorreu uma mudana. No entanto, na verdade, a mudana ocorre incessantemente, sem qualquer intervalo visvel. Um exemplo dessa distoro quando algum percebe um hlice girando em alta velocidade, que parece ser um disco imvel. Quando a velocidade de rotao diminui possvel ver o hlice com suas vrias lminas girando. De modo semelhante quando algum rapidamente faz um movimento circular com uma tocha com fogo, a impresso de um crculo iluminado. Outro exemplo a luz emitida por uma lmpada, que vista como uma esfera imvel e brilhante, mas que na realidade o resultado de uma corrente eltrica que oscila com rapidez. Quando algum emprega os meios apropriados, prestando cuidadosa ateno ao surgimento e cessao das coisas, ento a impermanncia fica clara.

Do mesmo modo, com a falta de ateno presso contnua, o movimento obscurece a caracterstica de dukkha. As pessoas normalmente precisam de um certo tempo para perceber a instabilidade, que a inabilidade de um objeto de manter ou sustentar a sua forma original devido ao estresse e frico das suas partes componentes. Se no nterim o objeto movido ou modificado, ou o observador separado do objeto, a presso e a tenso no so evidentes. A nossa experincia das coisas em geral acontece no contexto de movimentao e dessa forma dukkha no reconhecido. Tomemos como exemplo o corpo humano. A pessoa no precisa esperar at que o corpo falea; mesmo na vida diria a tenso sempre est presente no corpo, evitando que a pessoa permanea quieta no mesmo lugar numa posio em particular. Se algum precisa ficar numa mesma posio durante muito tempo, quer seja em p, sentado, caminhando ou deitado, a tenso no corpo vai aumentando gradativamente at o ponto da dor e da exausto, tornando-se insuportvel. A pessoa ento precisa se movimentar, ou mudar de postura. Uma vez que a presso (uma conseqncia do sinal de dukkha) cessa no corpo, a sensao de dor tambm cessa. (Quando uma sensao de dor desaparece, em geral surge no seu lugar uma sensao de relaxamento, que chamamos de 'felicidade'. Mas isso simplesmente uma sensao. Na realidade apenas h uma atenuao e ausncia de dukkha - presso). Na vida diria, permanecer durante muito tempo numa nica posio di e a pessoa se apressa em mudar de posio. Normalmente as pessoas se mexem constantemente para evitar a sensao de desconforto. Esquivando-se do desconforto, dukkha, a verdade inerente a todas as condies como conseqncia, ignorada.

De modo semelhante, ao no dividir um objeto nos seus vrios componentes, a caracterstica de no-eu obscurecida pela solidez: algo existindo como um bloco, uma massa, uma unidade amalgamada. Todas as coisas condicionadas so criadas pela unio de elementos componentes. Uma vez que os elementos tenham sido separados, aquela unidade integrada que recebe um nome especfico, no mais existe. Em geral os seres humanos no discernem essa verdade, sendo obscurecidos pela percepo de solidez: o reconhecimento ou denotao de algo como uma entidade consolidada. Isto consistente com o ditado popular na Tailndia: 'A pessoa v o casaco, mas no o tecido; a pessoa v a boneca mas no o plstico.' As pessoas podem ser enganadas pela imagem de um casaco, deixando de notar o tecido com o qual ele foi feito. Na verdade no existe um casaco; somente existem inmeros fios entrelaados de acordo com determinado padro. Se os fios forem soltos o tecido deixa de existir. Do mesmo modo, uma criana que apenas v a boneca est deludida pela imagem; o plstico que a verdadeira substncia da boneca no reconhecido. Se algum discernir a verdade ento haver apenas plstico; nenhuma boneca ser encontrada. Mesmo o plstico tem origem na sucessiva formao de elementos componentes. A percepo de solidez obscurece a caracterstica de no-eu do modo descrito nestes simples exemplos. Se algum separar e analisar os componentes, a natureza do no-eu se torna clara. A pessoa v as coisas como anatta.

 


 

Nota:

Veja tambm o Vipallasa Sutta

Fonte: Extrado do livro The Three Signs traduzido do Tailands para o Ingls por Suriyo Bhikkhu, publicado em Maio 2007.

 

 

Revisado: 17 Abril 2010

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