Simplifique

Por

Ajaan Pasanno

Somente para distribuio gratuita.
Este trabalho pode ser impresso para distribuio gratuita.
Este trabalho pode ser re-formatado e distribudo para uso em computadores e redes de computadores
contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuio ou uso.
De outra forma todos os direitos esto reservados.

 


 

Considerando o Dhamma, olhando de um ngulo, muito complicado, bastante complexo, h muito por saber, muito para entender, muita informao a ser digerida. Visto de um outro ponto de vista bastante direto s uma questo de segui-lo, de pratic-lo. H um certo elemento, particularmente notvel no temperamento Ocidental, que nos faz acreditar que quanto mais informao temos, mais saberemos sobre alguma coisa, e por conseguinte, quanto mais informao tivermos melhor seremos na prtica do Dhamma. Isto na realidade no verdade.

Muita importncia deve ser dada pacincia, ser capaz de ser paciente com as prprias experincias, observando a si mesmo, observando o mundo em volta de si e aprendendo a confiar no observador, aquele que observa atentamente, a habilidade da mente humana de prestar ateno em si mesma. Quando falamos de libertao ou iluminao, na verdade trata-se apenas de prestar ateno, para o que a ateno est direcionada. Logo, um aprendizado observar a si mesmo, as prprias experincias, reconhecer a qualidade da mente.

O Buda deu grande nfase qualidade do sofrimento, da insatisfao. As Quatro Nobres Verdades tomam por base a observao dessa qualidade da insatisfao. algo a ser conhecido. um dever para consigo mesmo entender a insatisfao. Da, voc pode partir para alguma outra coisa. O problema como nos relacionamos com o mundo nossa volta. Pela forma com que nos relacionamos uns com os outros, tendemos a criar ou experimentar insatisfao. Ento, nos prendemos a isso, nos apegamos a isso, julgamos isso, tentamos evitar isso, criamos cenrios incrveis ao redor disso, procuramos algum para culpar por isso, ou sentimos pena de ns mesmos. Assim, criamos toda uma gama de reaes em torno da insatisfao. Mas o que o Buda disse que tudo o que se tem a fazer apenas conhecer, voc s tem que conhecer a insatisfao.

A qualidade do conhecer deve ser direcionada, focalizada na nossa experincia e a aprendemos a reconhecer que este conhecer um ponto de equilbrio, no querer, no afirmar ou rejeitar, no desejar ou no desejar, o equilbrio das faculdades da mente. Experienciamos o mundo com o corpo e a mente, e estas so as ferramentas que temos. Damos voltas entre as faculdades sensoriais do corpo e as faculdades da mente, a habilidade de criar e experimentar tons emocionais de felicidade ou sofrimento, a habilidade de se lembrar e conceituar, dar rtulos s coisas, a percepo, a habilidade de agir de forma volitiva, iniciar processos de pensamento e estar consciente do mundo ao nosso redor. Estas so as ferramentas que temos.

A prtica do Dhamma aprender a qualidade do conhecer, conhecer o mundo nossa volta, tanto o mundo material do corpo fsico como as seis esferas dos sentidos da mente, as faculdades da mente. Conhecer apenas, no reagir s proliferaes que criamos em torno disso, e permanecer com o conhecer to somente. Assim, esta prtica portanto a de conhecer. Parece difcil porque as coisas mais simples so as mais difceis de se manter.

Por conseguinte precisamos desenvolver certas ferramentas, certas qualidades. O Dhamma nos oferece um arcabouo terico que pode parecer complicado mas facilita esse conhecer. Ele requer que voltemos ao corao humano que capaz de conhecer, capaz da paz, capaz de criar o inferno ao redor de ns mesmos e tambm de criar mundos celestiais. Temos de ver este ponto de claridade e quietude dentro de ns mesmos de forma a pararmos de criar mundos ao nosso redor. Uma vez Ajaan Chah e um grupo de seus discpulos foi visitar um discpulo famoso de Ajaan Mun, Luan Por Khau. Ajaan Sumedho estava neste grupo. Eles ouviram um ensinamento do Dhamma e quando estavam saindo, Ajaan Sumedho, sendo o mais novo do grupo teve de ser o ltimo a sair da sala. No momento em que estava saindo Luan Por Khau levantou-se rapidamente e veio at ele apontando para o seu corao e disse, est tudo aqui, tudo aqui. Toda a palestra, as explicaes, tudo volta ao corao, temos de ver isto com clareza e prestar ateno mente, ao corao.

Esta a razo do Buda ter nos ensinado as Quatro Nobres Verdades tal como estas esto no corao, na mente que nos motiva. Todos os seres sencientes preferem a felicidade ao sofrimento. Ento somos motivados a tentar a libertao do sofrimento. Com freqncia, no entanto, nossas tentativas so superficiais e mal orientadas, sendo apenas alvios temporrios para o sofrimento. Adiamos lidar com o sofrimento para um futuro distante, ou um futuro imediato. O Buda disse que a forma que se deve lidar entendendo as causas pois somente podemos compreender algo quando entendemos a sua causa. O Buda apontou que com freqncia o nosso desentendimento da verdade, ou realidade, ocorre por avijja, ou falta de conhecimento.

O termo avijja frequentemente traduzido como ignorncia mas na realidade falta de verdadeiro conhecimento. Atravs desta falta de verdadeiro conhecimento, diferentes tipos de desejo so criados: o desejo de buscar a gratificao sensual, o desejo por afirmar o eu, o desejo por vir-a-ser, o desejo pela auto-negao, pela aniquilao, pela rejeio da experincia; no querer experimentar coisas tambm um desejo. Ento este agarrar e repelir, esse apego pela experincia a causa real de nosso sofrimento. Portanto o abandono do desejo que realiza a cessao do sofrimento.

Ns no abandonamos o sofrimento mas tentamos afastar a causa imediata deste e tentamos buscar algo mais satisfatrio. Isto no lidar com as causas reais, que tm de ser vistas como na verdade so e abandonadas. Abrir mo algo que tem que ser sentido, sentido de forma consciente. Abrir mo do apego nos nossos coraes s reaes emocionais s experincias, aos relacionamentos e aos julgamentos, de como as coisas deveriam ou no deveriam ser. Esse abandono de todas estas coisas, abrir mo de tudo isso, resumido em um breve ensinamento dado pelo Buda - Todos os dhammas no devem ser objetos de apego. Esse o cerne de seu ensinamento tudo deve ser abandonado, soltado.

A natureza do desejo acumular, agarrar, apegar-se s coisas, prender-se. Temos de estabelecer na nossa prtica a ateno para essa tendncia e tentar ir contra essa inclinao, abrindo mo de tudo. Quando voc realmente enxergar o sofrimento voc ir querer deix-lo ir. Quanto mais claramente voc v o sofrimento, mais voc intencionar deix-lo. De certa forma similar ao mtodo de capturar macacos. Um pequeno buraco feito em um coco; deve ser apenas grande o suficiente para que o macaco possa passar a mo. Um pedao de fruta colocada dentro do coco. Ento quando um macaco vem, bastante curioso, ele coloca a sua mo dentro do coco e ao encontrar a fruta a agarra. Mas ele fica preso visto que o buraco muito pequeno para a mo fechada, mas ele no solta da fruta. O desejo pela gratificao mais forte do que o reconhecimento do sofrimento que se seguir quando o caador o pegar pela nuca. Se o macaco fosse capaz de realmente ver o sofrimento, seria fcil abrir mo da fruta e fugir.

Ns fazemos a mesma coisa. O sofrimento est presente todo o tempo mas no o abandonamos porque no o vemos com clareza suficiente. Assim que ns o vemos, deveramos abandon-lo. Mas no reconhecemos o sofrimento e o carregamos por a conosco, a averso, a m-vontade, a raiva, e por perodos longos de tempo minutos, horas, dias, semanas, meses, anos pois podemos justific-lo de alguma forma. Somos tambm capazes de sofrer tremendamente por coisas que percebemos poderiam nos dar prazer, e que em certo nvel podem at ser prazerosas, mas o sofrimento lhes inerente. O claro reconhecimento do sofrimento desta forma relacionado habilidade de abrirmos mo. E a habilidade de abrir mo claramente relacionada ao grau de ateno e plena conscincia, a estabilidade do conhecer. Ento voltamos novamente para esta qualidade de conhecer, do estabelecimento da ateno plena e da plena conscincia.

Este o propsito deste caminho, todo o propsito de nossa prtica facilitar esta qualidade de clareza. No se trata de plena ateno e plena conscincia passivas, h um sentido ou responsabilidade moral nisso, um sentido de pacincia e determinao, a habilidade de fazer o esforo. Nosso caminho trata de desenvolver a virtude, ou sila, ver claramente e tomar a responsabilidade em um sentido moral pelas nossas aes e pela fala. E precisamos desenvolver na nossa prtica a qualidade da renncia e a qualidade da sabedoria questionar, investigar e refletir.

Nosso treinamento, no nvel do treinamento mental, um treinamento na realizao do esforo para reconhecer os meios para cultivar aquilo que benfico e deixar de lado aquilo que prejudicial. o desenvolvimento da estabilidade da mente, a concentrao, firmeza da mente. Essa firmeza que tem que ser desenvolvida uma estabilidade emocional, no sentido do corao e mente e no no sentido da mente analtica. a habilidade de no ser levado por nossas preferncias habituais, o querer e o no-querer, e de estabelecer um equilbrio. Concentrao s vezes tem o sentido de se ter um foco, de excluso. A excluso, obscurecimento da mente, no nos leva a uma mente realmente estvel e tranqila. Deve haver uma abertura, no reagindo aos gostos e desgostos, uma habilidade de observar, permanecer apenas com o conhecer. Portanto a firmeza se relaciona habilidade de reconhecimento, habilidade de observar, sem um sentido de foco num modo excludente.

Logo, precisamos desenvolver as qualidades da investigao. E o Buda deu os parmetros, as fronteiras da investigao, o que investigar e as ferramentas para se investigar a experincia. A estrutura das Quatro Nobres Verdades, os cinco khandas ou agregados do ser, as seis esferas dos sentidos, so ferramentas para delinear a nossa experincia. Nos permitem reconhecer os padres da nossa mente, os padres da nossa experincia.

Portanto, quando sentamos em meditao muito importante ter uma estrutura, um modelo que nos guie na investigao da nossa experincia. Se apenas sentarmos e observarmos nossa inspirao e expirao, sem demora a mente comea a vaguear e se prende em alguma coisa ou outra, ou ento se chateia e colapsa em si mesma e estaremos sentados num estado de torpor. Quando a mente est em samadhi est pronta para a tarefa, a tarefa de um meditador, que de investigar a prpria experincia, o que o motiva, o que causa a proliferao na mente, o que que cria sofrimento, o que cria um ponto de equilibrio na mente.

Estas so questes que precisam ser investigadas quando estamos engajados na meditao. Algumas vezes sentamos e esperamos por uma iluminao que baixe sobre ns e nos liberte de toda a confuso mas no assim que a mente funciona. A mente deve ser empregada para ver e investigar os problemas que esto presentes nas experincias, de forma a entender a mente e a si mesmo mais claramente, assim que algum desenvolve a prtica para encorajar a ateno plena, retornando respirao. A inspirao e a expirao, usadas para aclarar os movimentos da mente. Usando como referncia a respirao entrando e saindo para ver para onde a mente se move, iluminar os movimentos da mente. Esta observao cuidadosa dentro dos parmetros do objeto de meditao aclara, faz com que o meditador entenda a natureza da mente.

A quietude mental no obtida bloqueando as coisas ou forando a mente para um ponto de imobilidade. Quando mais voc fora a mente, mais tensa esta se torna. O que necessrio a aplicao da mente utilizando-se as ferramentas que nos foram definidas pelo Buda. Com a aplicao do esforo a prtica se amplia e se percebe que lacunas no entendimento so preenchidas e as dvidas e desentendimentos superados. Assim este aspecto da sabedoria no apenas um conhecimento passivo ou um tanto de informao obtida de um livro ou de um professor. A sabedoria obtida atravs da aplicao da prpria mente, investigando a prpria mente com honestidade. Com freqncia as nossas mentes criam distraes para si mesmas, criando histrias ao redor de ns mesmos. A no ser que voc veja a mente como ela , voc continuar aceitando estas histrias, toda esta proliferao. Ento temos que desenvolver um claro entendimento de modo que possamos abrir mo, abandonar as criaes e proliferaes da mente, deixar que tudo isto cesse.

Conforme nos tornamos mais e mais familiarizados com o conhecer, somos capazes de encontrar uma qualidade de desprendimento, um ponto de quietude como parte desse conhecer. H um belo smile que Ajaan Chah utilizava para descrever as proliferaes da mente. Ele as comparava com as rodas de um carro-de-boi pois estas criam sulcos profundos que parecem no ter fim. As rodas no so to grandes, mas os sulcos so muito longos. O propsito de nosso treinamento e nossa prtica parar esse carro-de-boi, permitir que ele descanse. E esse o ponto para o qual nossa prtica deveria estar seguindo, na direo de um ponto de descanso.

 


 

Fonte:
Palestra do Dhamma dada no Wat Pa Nanachat em 18 de Novembro de 1995. Publicado na Forest Path em comemorao ao 25 vassa do Wat Pa Nanachat, em 1999.

Traduzido do ingls por Gabriel Laera.

 

 

Revisado: 3 Outubro 2009

Copyright © 2000 - 2021, Acesso ao Insight - Michael Beisert: editor, Flavio Maia: designer.