Maha-satipatthana Sutta DN 22

Por

Ajaan Thanissaro

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A palavra "satipatthana" o nome de um mtodo de meditao que tem como objetivo estabelecer sati, ou ateno plena. O termo sati est relacionado com o verbo sarati, recordar-se ou manter na mente. Sati algumas vezes traduzido como ateno sem reao, livre de uma agenda, simplesmente estar presente com o que quer que surja, mas a frmula de satipatthana no d suporte a essa traduo. A ateno sem reao na verdade um aspecto da equanimidade, uma qualidade fomentada no processo de satipatthana. A atividade de satipatthana, no entanto, definitivamente tem uma agenda que a motiva: o desejo pela iluminao, que classificado no como uma causa do sofrimento, mas como parte do caminho que lhe d fim (veja o SN 51.15). O papel da ateno plena manter a mente estabelecida no momento presente de um modo que a mantenha no caminho. Fazendo uma analogia, a iluminao como uma montanha no horizonte, o destino para o qual voc est dirigindo um carro. A ateno plena aquilo que faz com que a ateno permanea focada na estrada para a montanha ao invs de permitir que foque apenas em vislumbres da montanha, ou seja distrada por outros caminhos que se desviam da estrada.

Sendo um termo composto, satipatthana pode ser desmembrado de duas formas, sati-patthana, fundamento da ateno plena; ou sati-upatthana, estabelecimento da ateno plena. Os estudiosos debatem sobre qual a interpretao mais apropriada, mas na prtica ambas proporcionam bom material para reflexo.

A primeira interpretao foca nos objetos da prtica de meditao, os pontos focais que proporcionam um fundamento para a ateno plena. No total h quatro objetos: o corpo como corpo; as sensaes como sensaes; a mente como mente; os objetos mentais como objetos mentais. O como neste caso crucial. No caso do corpo, por exemplo, significa encarar o corpo em si mesmo ao invs de v-lo sob a perspectiva da sua funo no contexto do mundo (pois nesse caso o mundo seria o fundamento). Abandonando toda preocupao sobre como a beleza, agilidade ou fora do corpo se encaixam no mundo, o meditador simplesmente permanece com a experincia direta da respirao, dos movimentos do corpo, das suas posturas, das suas propriedades elementares e da sua inevitvel decadncia. Um princpio semelhante se aplica aos demais fundamentos.

A segunda interpretao de satipatthana sati-upatthana foca no processo da prtica meditativa, o modo como um fundamento estabelecido. Este sutta proporciona trs estgios nesse processo, aplicados a cada fundamento. O primeiro estgio da prtica de satipatthana, do modo aplicado ao corpo o seguinte:

"Um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo, ardente, plenamente consciente e com ateno plena, tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo."

"Permanece contemplando" se refere ao elemento da concentrao na prtica, o meditador mantendo-se com o fundamento em meio s correntes conflitantes das experincias. Ardente significa o esforo que feito na prtica, para abandonar os estados mentais inbeis e para desenvolver os estados mentais hbeis no seu lugar, ao mesmo tempo em que h o discernimento da diferena entre os dois. Plena conscincia significa estar totalmente ciente daquilo que est acontecendo no presente. Ateno plena, da forma como foi mencionada acima significa ser capaz de manter o fundamento continuamente na mente. Todas essas qualidades operam em conjunto, elas conduzem a mente para um estado de slida concentrao. Embora com freqncia seja dito que a prtica de satipatthana distinta da prtica de jhana, um nmero de suttas como por exemplo o MN 125 e o AN VIII.63 igualam a finalizao bem sucedida do primeiro estgio de satipatthana com a realizao do primeiro nvel de jhana. Este ponto confirmado em muito suttas - entre eles o MN 118 descrevendo como a prtica de satipatthana conduz realizao dos fatores da iluminao, que coincidem com os fatores de jhana.

O segundo estgio da prtica de satipatthana o seguinte:

"Ele permanece contemplando fenmenos que surgem no corpo, ou ele permanece contemplando fenmenos que desaparecem no corpo, ou ele permanece contemplando ambos, fenmenos que surgem e fenmenos que desaparecem no corpo."

Os fenmenos que surgem e desaparecem abrangem eventos direta ou indiretamente relacionados com o fundamento escolhido. Diretamente significa mudanas no prprio fundamento. Por exemplo, ao focar no corpo, o meditador poder observar o surgimento e o desaparecimento de sensaes no corpo provenientes da respirao. Indiretamente neste caso significa eventos em qualquer um dos outros trs fundamentos na medida em que se relacionam ao corpo. Por exemplo, o meditador poder observar o surgimento e desaparecimento de sensaes de prazer ou estados de irritao mental relacionados com eventos no corpo. Ou o meditador poder notar lapsos de ateno plena ao estar focando no corpo.

Em cada um desses casos se o surgimento e o desaparecimento forem eventos neutros como por exemplo os agregados, o meditador orientado para apenas ter conscincia disso como eventos, permitindo que eles sigam o seu curso natural de modo a observar quais fatores os acompanham e que conduzem ao seu vir e ir. No entanto, quando as qualidades mentais hbeis ou inbeis como por exemplo os fatores da iluminao ou os obstculos surgem e desaparecem, o meditador encorajado a fomentar os fatores que fortalecem os jhanas e eliminar os fatores que os enfraquecem. Isso significa estar ativamente envolvido em maximizar as qualidades mentais hbeis e minimizar as inbeis. Dessa forma o meditador desenvolve o insight do processo de origem e cessao assumindo um papel ativo e perceptivo no processo, da mesma forma como passamos a entender mais de ovos usando-os na culinria, obtendo experincia dos xitos e fracassos ao tentar pratos cada vez mais sofisticados.

Na medida em que esse processo conduza a estados cada vez mais refinados de concentrao, isso faz com que o meditador se torne cada vez mais sensvel ao fato que quanto mais grosseiras forem as suas participaes no processo mental de surgimento e desaparecimento, mais grosseiro ser o nvel de sofrimento resultante. Isso conduz o meditador a abandonar nveis cada vez mais refinados de participao na medida em que ele seja capaz de detect-los, conduzindo ao terceiro e ltimo estgio na prtica de satipatthana:

"Ou ento, a ateno plena de que existe um corpo se estabelece somente na medida necessria para o conhecimento e para a continuidade da ateno plena. E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana."

Este estgio corresponde a um modo de percepo que o Buda descreve no MN 121 como a entrada no vazio:

"Assim, ele considera como vazio aquilo que no est ali, mas com relao quilo que permanece ali ele compreende da seguinte forma: 'Isto est presente.'"

Esse o equilbrio culminante no qual o caminho da prtica se abre para um estado de no fabricao e disso para o fruto da iluminao e libertao.

primeira vista os quatro fundamentos para a prtica de satipatthana parecem ser quatro diferentes exerccios de meditao, mas o MN 118 deixa claro que todos eles podem estar centrados numa nica prtica: manter a mente na respirao. Quando a mente est com a respirao, todos os quatro fundamentos esto exatamente ali. A diferena est simplesmente na sutileza do foco do meditador. como aprender a tocar piano. Na medida em que a prtica melhora, voc tambm fica mais sensvel e capaz de ouvir nveis cada vez mais sutis na melodia. Isso possibilita que voc toque com mais habilidade ainda. Do mesmo modo, na medida em que um meditador se torna mais hbil em permanecer com a respirao, a prtica de satipatthana proporciona mais sensibilidade para expor nveis cada vez mais sutis de envolvimento no momento presente at que nada mais reste interferindo no caminho da completa libertao.

 

 

Revisado: 11 Abril 2009

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