A Essncia do Budismo

por

Nyanatiloka Thera

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Farei uma breve exposio da essncia genuna do ensinamento do Buda tal como ainda encontramos nas escrituras budistas trazidas at ns na lngua pali. [1]

Dentre os ouvintes, muitos no so budistas, o que torna o conhecimento do ensinamento original do Buda algo quase desconhecido. No preciso dizer que, para tais pessoas, no possvel adquirir um criterioso e completo entendimento de um tema to amplo e profundo dentro do espao de tempo limitado de minha fala. Ainda assim alguns de vocs talvez possam assimilar certas idias que paream importantes; e estas talvez se revelem um estmulo para futuras investigaes neste imenso e profundo universo de pensamento. Mesmo que estas palavras no tenham outro efeito alm da remoo de pelo menos alguns dos muitos preconceitos e falsas idias sobre a doutrina do Buda, isto j seria uma grande recompensa.

No parece irnico que tal doutrina religiosa a mais sbria de todas seja ainda considerada por muitos ocidentais como uma forma de idolatria ou misticismo? O filsofo alemo Friedrich Nietzsche, vrios anos atrs, entendeu e enfatizou a absoluta sobriedade e clareza do Budismo quando afirmou:

"O Budismo cem vezes mais realista que o Cristianismo. herdeiro da tradio de dispor os problemas com frieza e objetividade. Veio vida aps centenas de anos de desenvolvimento filosfico. A noo de Deus afastada logo de incio. Orao algo fora de questo. O mesmo vale para o ascetismo. No h imperativo categrico. Nenhuma coero, nem mesmo dentro da comunidade monstica. Portanto, no obriga a lutar contra aqueles de f diferente. um ensinamento que se volta vigorosamente contra o sentimento de vingana, animosidade e ressentimento." [2]

Antes de dar incio exposio do ensinamento do Buda devemos nos familiarizar, ainda que brevemente, com a personalidade do Buda. O termo Buda significa literalmente O Iluminado. Tal nome foi adquirido pelo sbio indiano Gotama quando de sua iluminao aos ps da rvore figueira-dos-pagodes em Bodhgaya na ndia. Ele nasceu como filho de um rei indiano nas fronteiras do atual Nepal, por volta de 600 anos antes de Cristo. Aos 29 anos, ele renunciou a vida mundana e trocou sua carreira de prncipe pela de mendigo sem casa. Aps seis anos de intenso esforo ele finalmente alcanou seu objetivo: libertao do ciclo de renascimentos ou Samsara. O Buda descreve este tempo em suas prprias palavras como segue:

"Bhikkhus, antes de ter alcanado a plena iluminao, sendo eu mesmo sujeito ao nascimento, decadncia, doena, morte, tristeza e impureza eu tambm buscava o que sujeito ao nascimento, decadncia, doena, morte, tristeza e impureza. E assim bhikkhus, aps algum tempo, enquanto ainda jovem, um moo de cabelos pretos, no primor da juventude, tendo recentemente ingressado na vida adulta, contra os desejos de me e pai que choravam e se lamentavam, eu cortei o cabelo e barba e, vestido com o manto amarelo, sai da vida de casa para a vida sem lar. Assim consagrado vida sem lar, eu me esforava em busca do bem mais elevado, o incomparvel caminho para a suprema paz." [3]

Num primeiro momento o futuro Buda aprendeu com dois grandes yogis que haviam alcanado nveis elevados de mente e poderes psquicos. Mas nenhum deles o satisfez, pois seus ensinamentos no conduziam paz infinita e libertao da mente. Ento ele os abandonou aps ter realizado seus ensinamentos completamente. Depois disso, ele encontrou cinco ascetas, que praticavam as formas mais severas de mortificao e tortura da carne esperanosos de conseguir por este caminho a libertao. O futuro Buda tornou-se um deles. Ele sujeitou-se com mxima perseverana aos extremos do jejum e da auto-mortificao at que ficasse parecido com um esqueleto. Completamente exausto, ele sucumbiu, ruiu. Assim, ele veio a entender que a mortificao do corpo v e intil, e nunca ir conduzir paz do corao e libertao. Desse momento em diante ele desistiu do jejum e das mortificaes, enxergando refgio no desenvolvimento mental e moral. Com uma mente calma e serena, ele comeou a investigar a verdadeira natureza da existncia.

Para onde quer que ele voltasse os olhos, via apenas uma realidade: a lei do sofrimento, a insatisfatoriedade de todas as formas de existncia. Ele compreendeu que o destino dos seres no o resultado de acaso cego, nem depende da ao arbitrria de um criador imaginrio, mas que nosso destino deve ser traado de volta at as nossas aes ou kamma. Ele observou o doente e o leproso, e viu em sua misria e sofrimento apenas o resultado de aes, ou kamma, feitas em vidas anteriores. Ele observou o cego e o aleijado e viu em sua debilidade e desamparo apenas a colheita dolorosa das sementes plantadas por eles em outras vidas. Ele observou o rico e o pobre, o feliz e o infeliz; e para onde quer que voltasse os olhos viu esta lei de retribuio, a lei moral da causa e efeito, o Dhamma.

Este Dhamma, ou lei moral universal descoberto pelo Buda, pode ser resumido nas Quatro Nobres Verdades: as verdades acerca do domnio universal do sofrimento, sua origem, extino e o caminho que leva a sua extino.

(I) A primeira verdade, sobre a universalidade do sofrimento, afirma, de modo breve que todas as formas de existncia so necessariamente sujeitas ao sofrimento.

(II) A segunda verdade, sobre a origem do sofrimento, afirma que todo sofrimento est enraizado no desejo egosta e na ignorncia, em tanha e avijja. A causa dessa aparente injustia se explica afirmando que nada no mundo pode vir a existir sem razo ou causa; no somente nossas tendncias latentes, mas nosso destino inteiro, todo aoite e todo pesar, resultam de causas que devemos buscar parcialmente nessa vida, parte em estados anteriores de existncia. A segunda verdade ensina alm disso que a vida futura, com seu quinho de aoite e pesar, deve resultar das sementes plantadas nesta e em vidas anteriores.

(III) A terceira verdade, ou verdade acerca da extino do sofrimento, mostra como, mediante a extino do desejo e ignorncia, todo sofrimento ir desaparecer e a libertao deste Samsara ser alcanada.

(IV) A quarta verdade mostra o caminho pelo meio do qual este objetivo atingido. Trata-se do Nobre Caminho ctuplo, ou seja, entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ao correta, modo de vida correto, esforo correto, ateno plena correta e concentrao correta.

A partir dessas Quatro Nobres Verdades iremos esclarecer alguns pontos essenciais para uma compreenso geral do Dhamma. Ao fazer isso, estaremos ao mesmo tempo refutando um grande nmero de preconceitos largamente espalhados quanto ao ensinamento do Buda.

Antes disso, porm, vamos esboar o Nobre Caminho ctuplo, pois este o caminho de retido e sabedoria que constitui a essncia da prtica budista o modo de vida e pensamento a ser adotado por qualquer seguidor verdadeiro do Buda.

(1) O primeiro estgio do Caminho ctuplo, como mencionado antes, o entendimento correto, isto , entendimento da verdadeira natureza da existncia, bem como das lei morais que a governam. Em outras palavras, o entendimento correto do Dhamma, ou seja, das Quatro Nobres Verdades.

(2) O segundo estgio do Caminho ctuplo o pensamento correto, isto , um puro estado da mente, livre de desejo sensual, m vontade e crueldade; em outras palavras, pensamentos de auto-renncia, bondade e misericrdia.

(3) O terceiro estgio linguagem correta. Consiste em palavras que no so falsas, rspidas, nem escandalosas ou frvolas, ou seja, palavras verdadeiras, pacificadoras e sbias.

(4) O quarto estgio a ao correta, ou seja, abster-se de intencionalmente matar ou ferir seres vivos, abster-se de tomar desonestamente a propriedade de outros, abster-se de cometer adultrio.

(5) O quinto estgio o modo de vida correto, isto , um meio de vida tal que no traga prejuzo e sofrimento para outros seres.

(6) O sexto estgio o esforo correto. Trata-se do esforo qudruplo que fazemos para superar e evitar novas ms aes do corpo, linguagem e mente; e o esforo feito para desenvolver novas aes de retido, sabedoria e paz interior e de cultiv-las at a perfeio.

(7) O stimo estgio a ateno plena correta, ou vigilncia da mente. Trata-se da sempre pronta clareza mental, operando em relao a qualquer coisa que estejamos fazendo, falando e pensando; e de manter em nossa mente as realidades da existncia, a saber, impermanncia, insatisfatoriedade e fenomenalidade [4] - no-eu, (anicca, dukkha, anatta), de todas as formas de existncia.

(8) O oitavo estgio a concentrao correta. Este tipo de concentrao se dirige a um objeto moralmente saudvel e sempre est ligada com pensamento, esforo e ateno plena corretas.

Portanto, o Caminho ctuplo um caminho de virtude (sila), de treinamento mental (samadhi) e de sabedoria (paa).

A Virtude nesse sentido indicada pela linguagem correta, ao correta e modo de vida correto. O Treinamento mental indicado pelo esforo correto, ateno plena correta e concentrao correta. A sabedoria indicada pelo entendimento correto e pensamento correto.

Assim, este libertador Caminho ctuplo um caminho de cultura interior, de progresso interior. Apenas pela adorao externa, cerimnias e preces egostas nunca se far qualquer progresso real no caminho da retido e insight. O Buda diz: Seja sua prpria ilha de refgio, seja seu prprio abrigo, no busque por nenhuma outra proteo! Deixe que a verdade seja sua ilha de refgio, que a verdade seja seu abrigo, no busque por nenhuma outra proteo!. Para que se tenha eficcia real, para assegurar um progresso interior absoluto, todos os nossos esforos devem se basear em nosso prprio entendimento e insight. Todo progresso interior absoluto est enraizado no entendimento correto, sem entendimento correto no h a realizao da perfeio e a inabalvel paz de Nibbana.

A crena na eficcia moral do mero ritual ou cerimnia (silabbata-paramasa) constitui, de acordo com o ensinamento do Buda um poderoso obstculo ao progresso interior. Algum que toma refgio em prticas meramente externas est no caminho errado. Pois, para que se consiga progresso interior real, todos os nossos esforos devem necessariamente se basear em nosso prprio entendimento e insight. Qualquer progresso real se enraza no entendimento correto, sem este no h realizao da paz e santidade inabalveis. Alm do mais, esta crena cega em prticas meramente externas a causa de muita misria e infelicidade no mundo. Conduz a uma estagnao mental, ao fanatismo e intolerncia, auto-exaltao e desprezo pelos outros, contendas, discrdias, guerra, disputas e derramamento de sangue, como a histria da Idade Mdia d suficiente testemunho. Uma tal crena embota e enfraquece a capacidade de pensar, sufoca no ser humano qualquer emoo elevada, transformando-o num escravo mental e favorecendo o crescimento de todos os tipos de hipocrisia.

O Buda se expressou de modo claro e positivo quanto a este ponto. Ele disse: o homem imerso na iluso nunca ir se purificar pelo mero estudo de livros sagrados ou sacrifcios a Deus, jejuns, dormir no cho, viglias difceis e cansativas ou repetio de oraes. Tampouco presentes dados a sacerdotes, autoflagelaes, execuo de ritos e cerimnias podem purificar aquele que cheio de desejo. No pelo consumo de carne ou peixe que o homem se torna impuro, e sim pela embriaguez, obstinao, fanatismo, engodo, inveja, auto-exaltao, desprezo pelos outros e ms intenes so estas coisas que tornam o homem impuro.

Existem dois extremos: inclinao para os prazeres sensuais e inclinao para a mortificao do corpo. Tais extremos foram rejeitados pelo Perfeito, que descobriu o Caminho do Meio, que produz viso e conhecimento, que conduz paz, penetrao libertao e iluminao. Este Nobre Caminho ctuplo que conduz ao fim do sofrimento, a saber, entendimento correto, pensamento correto, fala correta, meio de vida correto, esforo correto, plena ateno correta e concentrao da mente correta. [5]

Uma vez que o Buda ensina que todo progresso genuno no caminho da virtude necessariamente dependente de nossa prpria compreenso e insight, todo dogmatismo excludo do ensinamento do Buda. O Buda rejeita a f cega em autoridades, algo completamente oposto ao esprito do ensinamento. No Kalama Sutta o Buda diz:

"No sigam meramente por ouvir dizer ou por tradio, pelo que foi trazido a vocs de tempos antigos, por rumores, por mero raciocnio e dedues lgicas, aparncias externas, por opinies e especulaes estimadas, por meras possibilidades, e no acreditem somente porque eu sou seu mestre. Mas, quando por vocs mesmos, tiverem visto uma coisa como algo mau e que conduz ao sofrimento e prejuzo, ento devem rejeitar isto. E quando perceberem que uma coisa boa e inofensiva, e conduz a bnos e bem-estar, ento vocs devem praticar tal coisa." [6]

O Buda compara algum que apenas acredita ou repete o que outros descobriram com um cego. Aquele que deseja fazer progresso no caminho da libertao deve experimentar e entender a verdade por si mesmo. Sem o prprio entendimento, progresso algum possvel.

O ensinamento do Buda , talvez, a nica religio que no exige crena em uma tradio, ou em certos eventos histricos. Apela somente para o entendimento de cada um. Onde quer que existam seres capazes de pensar, l as verdades proclamadas pelo Buda podero ser entendidas e realizadas, independente de raa, pas, nacionalidade ou classe social. Estas verdades so universais, no esto ligadas a um pas ou poca em particular. E em qualquer um, mesmo no mais humilde, jaz latente a capacidade para ver e realizar estas verdades, e alcanar a mais alta Perfeio. Quem quer que viva uma vida nobre, sente j um gosto da verdade e, em maior ou menor grau, trilha o Nobre Caminho ctuplo da Paz que todos os nobres e santos trilharam, esto trilhando e trilharo no futuro. As leis universais da moralidade sustentam o bem sem variaes em todos os lugares e tempos, independente de algum se dizer budista, hindu, cristo ou muulmano, ou qualquer outro nome que seja.

a condio interna de uma pessoa e suas aes que contam, no um simples nome. O verdadeiro discpulo do Buda se coloca distante de todo dogmatismo. Ele um livre pensador no mais elevado sentido do termo. No segue dogmas positivos nem negativos, pois ele sabe: ambos no passam de meras opinies, vises, enraizadas na cegueira e no auto-engano. O Buda disse acerca de si mesmo: O Perfeito livre de qualquer teoria, pois o Perfeito viu: assim a forma, assim ela surge, assim ela se vai; assim a sensao, assim ela surge, assim ela se vai; assim a percepo, assim ela surge, assim ela se vai; assim so as formaes mentais, assim elas surgem, assim elas se vo; assim a conscincia, assim ela surge, assim ela se vai.

I. Esta importante verdade da fenomenalidade e vazio de toda existncia pode e deve ser entendida por qualquer pessoa, por seus prprios esforos.

De acordo com o ensinamento do Buda a existncia individual nada mais do que um processo de fenmenos fsicos e mentais, um processo que acontece desde tempos imemoriais, muito antes deste nascimento aparente, e que vai continuar depois da morte por um perodo de tempo imemorial. No que segue veremos que os cinco khandas mencionados acima, os grupos da existncia, no constituem nenhuma entidade real, ou ego atta, e que nenhuma entidade-ego existe separada deles, portanto, a crena em uma entidade-ego uma iluso.

Aquilo que chamamos de nosso corpo fsico , na verdade, um nome para uma combinao multifacetada de partes componentes que na realidade no constituem uma entidade ou personalidade. Isto claro para todos, sem necessidade de mais argumentos. Todos sabem que o corpo muda momento a momento, que velhas clulas esto continuamente morrendo e outras nascendo; em sntese, que o corpo, ser completamente outro corpo depois de alguns anos, que nada permanecer da carne, sangue e ossos, etc. Conseqentemente o corpo do beb no o corpo do menino e o do jovem no o corpo do velho de cabelos grisalhos. Logo, o corpo no um algo que persiste, mas antes um processo contnuo de surgimento e perecimento, consistindo de um perptuo perecer e surgir de novas clulas. Aquilo que chamamos de nossa vida mental, por seu turno, um processo contnuo de mudanas de sentimentos, percepes, formaes mentais e estados de conscincia. Neste momento um sentimento agradvel surge, no seguinte, um doloroso; neste momento um estado de conscincia, noutro um novo estado de conscincia. Aquilo que chamamos de ser, indivduo, uma pessoa, no possui por si mesmo, como tal, nenhuma realidade independente. Em sentido absoluto (paramattha) nenhum indivduo ou pessoa est l para ser encontrado, tudo que h a perptua mudana na combinao dos estados fsicos, sentimentos, volies e estados de conscincia.

O que chamamos de carruagem no tem existncia separada e independente do eixo, rodas, cabos, etc. O que chamamos casa apenas um nome conveniente para pedras, madeira e ferros, dispostos de uma certa maneira, de modo a cercar uma poro de espao, mas uma entidade casa como tal, separada, no existe.

Precisamente do mesmo modo, o que chamamos de ser, indivduo, pessoa, ou de eu ou ele, etc., apenas a combinao mutante de fenmenos fsicos e mentais que no tem existncia real, em si mesmo.

As palavras eu, voc, ele, etc., so apenas termos teis em nossa fala corrente (vohara) ou convencional que no designam realidades (paramattha-dhamma). Os fenmenos mentais e fsicos no constituem uma entidade-ego, nem tampouco existe algo fora desses fenmenos que possa ser chamado de entidade-ego, eu ou alma, que seja possuidor ou dono do corpo. Assim, quando as escrituras budistas falam de pessoas, ou mesmo do renascimento de pessoas, fala-se nesses termos para facilitar o entendimento, no devemos tomar estas afirmaes no sentido de uma verdade ltima. O assim chamado ser ou eu em sentido absoluto no nada alm de um processo em perptua mudana. Portanto, falar do sofrimento de uma pessoa, em sentido absoluto incorreto. Pois no se trata de uma pessoa, mas sim de um processo fsico-mental sujeito a transitoriedade e sofrimento.

Em sentido absoluto temos apenas processos sem fim, incontveis ondas de vida no oceano sempre mutvel dos estados mentais, sentimentos, percepes, volies e estados de conscincia. Dentro destes fenmenos nada h de persistente, nem mesmo pela curta durao de dois momentos consecutivos.

Tais fenmenos possuem uma durao momentnea. Eles morrem a cada momento, e a cada momento novos fenmenos nascem; um morrer e nascer sem fim, um incessante movimento das ondas. Tudo est em perptuo fluxo; panta rhei - todas as coisas esto fluindo disse o filsofo grego Herclito. As velhas formas caem em pedaos, novas nascem. Um sentimento desaparece, outro vem em seu lugar. Um estado de conscincia existe nesse momento, um outro no momento seguinte. Tudo se encontra numa perptua mudana de fenmenos mentais e materiais. Desse modo, um momento segue o outro, um dia segue o outro, os anos se seguem uns aos outros, uma vida segue a outra. E assim este incessante processo de mutao prossegue por milhares de anos, mesmo por aeons. Um oceano eterno de sentimentos, percepes, volies e estados de conscincia que surgem e perecem, tal a existncia, tal o Samsara, o mundo do surgir e perecer, do crescimento e da decadncia, um mundo de tristeza, misria, lamentao e desespero.

Sem um verdadeiro insight dessa fenomenalidade, ou ausncia de eu (egolessness) ou impessoalidade (anatta) de toda existncia, ser impossvel entender apropriadamente as Quatro Nobres Verdades.

II. Em conexo com isso, voltemos para a segunda nobre verdade, a origem do sofrimento enraizada no desejo egosta e na ignorncia (tanha e avijja). De modo a compreender melhor esta verdade, ser preciso falar de uma doutrina freqentemente incompreendida e mal interpretada. Trata-se da doutrina budista do renascimento (vejam captulo II). Com relao a este ensinamento, o Budismo freqentemente acusado de ser contraditrio. Se diz que o Budismo, por um lado nega a existncia da alma e por outro ensina a transmigrao da alma. Nada pode ser mais equivocado do que isso, pois o Budismo no ensina transmigrao nenhuma. A doutrina budista do renascimento que em realidade a mesma lei da causalidade estendida aos domnios moral e mental nada tem a ver com a doutrina bramanista da reencarnao ou transmigrao. Existe uma diferena fundamental entre estas doutrinas.

De acordo com o ensinamento bramanista, existe uma alma independente do corpo que, aps a morte, deixa o envelope fsico e vai para um novo corpo, de modo semelhante a algum que joga fora uma roupa velha e veste uma nova. Completamente diferente, entretanto, a doutrina budista do renascimento. O Budismo no reconhece nesse mundo nenhuma existncia de mente separada da matria. Todos os fenmenos mentais so condicionados pelos meios dos sentidos e no podem existir sem eles. De acordo com o Budismo, mente sem matria uma impossibilidade. E como vimos, os fenmenos mentais, assim como os corpreos, so sujeitos a mudana e nenhum elemento persistente, ou entidade-ego ou alma est l para ser descoberto. Logo, onde no h entidade imutvel ou alma, no se pode falar em transmigrao.

Ento como possvel renascimento sem algo que renasa, sem um ego ou alma? Aqui devo mencionar que mesmo a palavra renascimento, neste contexto, no , de fato, correta, mas usada como um mero recurso didtico. O que o Buda ensina , corretamente falando, a lei de causa e efeito operando no domnio moral. Pois, assim como tudo no mundo fsico acontece de acordo com leis, como o surgimento de qualquer estado fsico depende de um estado precedente como causa, assim esta vida fsico-mental presente depende de causas anteriores ao seu nascimento. Desta forma, segundo o Budismo, o presente processo vital o resultado do desejo pela vida num nascimento prvio, e o desejo pela vida neste nascimento a causa da continuidade do processo vital depois da morte.

Mas, como no h nada que persiste de um momento de conscincia para outro, tambm no h elemento contnuo a existir neste processo vital sempre mutante que passe de uma vida para a outra.

Nada transmigra deste momento para o prximo, nem desta vida para uma prxima. Este processo de ser continuamente produzido e produzir pode ser comparado a ondas no oceano. No caso da onda, no h a menor quantidade de gua que viaje de fato pela superfcie do oceano. A estrutura de onda que parece correr pela superfcie da gua, embora crie a aparncia de uma mesma massa de gua, de fato nada mais alm do contnuo surgir e desaparecer de novas massas d'gua. Este surgir e perecer produzido pela transmisso de fora gerada originalmente pelo vento. De modo similar, o Buda no ensina que existe uma entidade-ego ou alma que percorre o oceano do renascimento, mas que na realidade o que temos somente uma vida-onda que, conforme sua natureza e atividades, aparece aqui como homem, ali como mulher e alhures como um ser invisvel.

III. Existe um outro ensinamento do Buda que freqentemente d origem a srios equvocos. o ensinamento de Nibbana, ou extino do sofrimento. Esta terceira nobre verdade aponta que, atravs da cessao de todo desejo egosta e toda ignorncia, necessariamente todo sofrimento tem um fim, se extingue e novos nascimentos no tero lugar. Pois se a semente destruda, no pode brotar novamente. Se o desejo egosta que faz com que nos agarremos convulsivamente vida destrudo, aps a morte no ocorrer um novo momento, a continuao deste processo de existncia, o que se chama de renascimento. Onde no h nascimento, no h morte. Onde no h surgir, no h perecer. Onde no existe vida, no pode haver sofrimento. Agora, devido extino do desejo egosta, todos os fenmenos correlatos tais como presuno, busca de uma identidade, cobia, raiva, dio, crueldade tambm se extinguem. Esta liberdade do apego egosta significa o mais elevado estado de abnegao, sabedoria e santidade.

Uma vez que, depois da morte do Santo, do Arahat, o processo fsico-mental no mais continua, comum interpretar tal evento equivocadamente como significando a aniquilao de um eu, de um ser real, e por isso se diz que o objetivo seria simplesmente a aniquilao. Deve-se protestar enfaticamente contra tal afirmao equivocada. Como possvel falar da aniquilao de um eu, alma, ego, onde tal coisa no se encontra? Vimos que na realidade no existe nenhuma entidade-ego ou alma, portanto, tambm nenhuma transmigrao desta coisa para um novo tero.

O novo processo corpreo que comea no tero da me sem dvida a continuao de um prvio processo corpreo, mas somente um resultado ou efeito, causado pelo desejo egosta e apego pela vida do indivduo moribundo. Deste modo, aquele que sustenta que a no-produo de um novo processo vital idntico aniquilao de um eu deveria dizer tambm que absteno de intercurso sexual o mesmo que aniquilao de uma criana o que , claro, absurdo.

Aqui, uma vez mais, devemos enfatizar que sem uma percepo clara da fenomenalidade ou ausncia de ego (egolessness, anatta) de toda existncia, ser impossvel obter uma real compreenso do ensinamento do Buda, especialmente aquele sobre renascimento e Nibbana. Este ensinamento de anatta de fato a nica doutrina caracteristicamente budista com a qual todo ensinamento se sustenta ou desaba.

Outra crtica muito ouvida contra o Budismo a de que ele seria um ensinamento melanclico e pessimista. Pelo que foi dito at aqui, tal crtica se revela sem fundamento. Afinal, como foi visto, o Buda no apenas mostra e explica o fato da misria, ele tambm apresenta um caminho para que achemos total liberao dela. A partir disto, podemos dizer que o ensinamento do Buda o mais ousado otimismo proclamado no mundo.

Em verdade, o Budismo um ensinamento que assegura esperana, conforto e felicidade, mesmo para o menos afortunado. um ensinamento que oferece, mesmo para o mais vil dos criminosos prospectos de perfeio e paz finais. Nada disso com base em f cega, preces, ascetismo, cerimnias superficiais, ritos e rituais, mas sim por seguir de modo cuidadoso e perseverante o Nobre Caminho ctuplo para purificao interior, pureza e emancipao do corao que consiste de entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ao correta, modo de vida correto, ateno plena correta e concentrao e paz da mente correta.

 


 

Notas:

[1] Conferncia transmitida pelo rdio em Colombo, 1933. [Retorna]

[2] O Anticristo. Pargrafo 20, excertos. [Retorna]

[3] MN 26.13 - Seguindo a traduo do autor. [Retorna]

[4] Esclarecedor aqui o uso de fenomenalidade (phenomenality em ingls) como traduo para anatta. A palavra fenmeno vem do grego e significa aquilo que percebido, aquilo que observado como um dado da experincia. O filsofo Immanuel Kant introduz este sentido de fenmeno e ope a fenmenos o que ele chama de nmeno ou coisa-em-si (Ding an sich). Neste sentido fenomenalidade parece uma boa escolha para anatta, afinal a idia de anata de que no h nada por trs daquilo que aparece como sendo uma pessoa, ou seja, uma alma oculta. No somos um ser mas sim um parecer. Uma epistemologia que no postula entidades absolutas e imutveis por trs dos fenmenos ou aparncias chamada de fenomenista, termo que freqentemente associado por estudiosos diversos ao Budismo. (nota do tradutor) [Retorna]

[5] SN LVI.11 - Seguindo a traduo do autor. [Retorna]

[6] AN III.65 - Seguindo a traduo do autor. [Retorna]

 

 

Revisado: 2 Junho 2012

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