Tolerncia e Diversidade

Por

Bhikkhu Bodhi

Somente para distribuio gratuita.
Este trabalho pode ser impresso para distribuio gratuita.
Este trabalho pode ser re-formatado e distribudo para uso em computadores e redes de computadores
contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuio ou uso.
De outra forma todos os direitos esto reservados.

 


 

Na atualidade, todas as principais religies do mundo tm que responder a um duplo desafio. De um lado est o desafio da secularizao, uma tendncia que varreu o mundo, demolindo as cidadelas mais antigas daquilo que sagrado e convertendo todas as iniciativas do homem em direo ao Alm num gesto intil, comovente mas desprovido de sentido. De outro lado est o encontro das grandes religies. medida que as naes e culturas mais remotas se fundem numa nica comunidade global, os representantes da busca pela espiritualidade humana acabaram sendo reunidos num foro de uma intimidade sem precedentes, um encontro to prximo que no deixa espao para recuo. Assim, cada uma das principais religies enfrenta, sua vez e ao mesmo tempo, no anfiteatro da opinio pblica mundial, todas as demais religies da terra, bem como o vasto nmero de pessoas que reagem com desdm, ou com um bocejo indiferente, a todos aqueles que reivindicam possuir a Grande Resposta.

Nesta situao, qualquer religio que queira emergir como algo mais do que uma relquia da adolescncia da humanidade tem que ter a capacidade de lidar, de forma convincente e concreta, com os dois lados do desafio. De um lado ela tem que conter a crescente onda de secularizao, mantendo viva a intuio de que nenhum nvel de controle tecnolgico sobre a natureza, nemhum grau de habilidade em satisfazer as necessidades mundanas da humanidade poder trazer paz para o esprito humano ou poder saciar a sede por uma verdade e valores que transcendam as fronteiras da contingncia. Por outro lado, cada religio tem que encontrar alguma forma de desembaraar as afirmaes conflituosas que todas religies fazem, de entender o nosso lugar no esquema mais amplo das coisas e de possuir a chave para a nossa salvao. Enquanto permanece firme nos seus princpios mais fundamentais, uma religio tem que ser capaz de tratar as diferenas significativas entre a sua prpria doutrina e aquela dos outros credos, de uma forma tal que seja ao mesmo tempo, honesta e no entanto humilde, perspicaz mas sem se impor.

Neste breve ensaio eu gostaria de delinear uma resposta adequada Budista para o segundo desafio. Visto que o Budismo sempre declarou oferecer um "caminho do meio" para a soluo dos dilemas intelectuais e ticos da vida espiritual, podemos descobrir que a chave para a nossa problemtica atual tambm se encontra em descobrir a resposta que melhor exemplifique o caminho do meio. Como tem sido observado com freqncia, o caminho do meio no um compromisso entre os extremos mas um caminho que se eleva acima deles, evitando as armadilhas s quais cada um deles conduz. Portanto, ao buscar a abordagem Budista adequada ao problema da diversidade de credos, podemos comear apontando os extremos que o caminho do meio deve evitar.

O primeiro extremo um recuo ao fundamentalismo, a proclamao agressiva daquilo que a pessoa cr combinada com o proselitismo fervoroso para com aqueles que ainda se encontram fora do crculo dos correligionrios. Enquanto que essa reposta ao desafio da diversidade tem assumido propores alarmantes nas congregaes de fiis das grandes religies monotestas, Cristianismo e Islamismo, no o tipo de resposta em relao qual o Budismo possua uma afinidade imediata, pois as diretrizes ticas do Dhamma tendem naturalmente a estimular uma atitude de tolerncia benevolente em relao a outras religies e aos seus seguidores. Embora no possa haver uma garantia contra o surgimento de uma militncia ligada ao fundamentalismo dentro das prprias fileiras do Budismo, os ensinamentos do Buda no oferecem nenhuma purificao, nem mesmo a mais remota, para tal desenvolvimento malgno.

Para os Budistas a alternativa mais tentadora o segundo extremo: Este extremo, que alcana a tolerncia ao custo da integridade, pode ser chamado de a tese do espiritualismo universal: a opinio de que todas as grandes religies no seu ncleo sustentam essencialmente a mesma verdade, apenas vestidas de distintas formas de expresso. Tal tese no poderia, claro, ser mantida em relao aos credos formais das principais religies, que diferem tanto que seria necessrio um esforo tenaz de contoro de palavras para lograr um acordo. Ao invs disso, chega-se posio universalista por um caminho indireto. Os seus defensores argumentam que precisamos distinguir entre a face externa de uma religio - as suas crenas explcitas e prticas exotricas - e o seu ncleo interno de realizao experimental. Baseado nesta distino, eles ento insistem que por detrs das significativas diferenas externas entre as grandes religies, na sua essncia com relao experincia espiritual da qual elas emergem e o objetivo ltimo ao qual elas conduzem descobriremos que elas so substancialmente idnticas. Portanto as principais religies diferem apenas na medida em que so meios distintos, expedientes diferentes para a mesma experincia libertadora, que pode ser indiscriminadamente designada como "iluminao", ou "redeno", ou "realizao divina", j que esses diferentes termos simplesmente designam diferentes aspectos do mesmo objetivo. Como diz o famoso provrbio: os caminhos que conduzem ao topo da montanha so muitos, mas o lugar no topo um s. Sob esse ponto de vista, o Dhamma do Buda somente uma outra variao da "filosofia perene" subjacente a todas as expresses maduras de busca espiritual do homem. O Dhamma pode se destacar por sua elegante simplicidade, claridade e objetividade; mas uma revelao nica e exclusiva da verdade ele no contm.

primeira vista, a adoo de tal idia parece ser um passo indispensvel na direo da tolerncia religiosa, e a insistncia em que as diferenas doutrinrias no so apenas verbais mas reais e importantes pode dar a impresso de beirar a intolerncia. Dessa forma aqueles que adotam o Budismo como uma reao contra a estreiteza doutrinria das religies monotestas podem encontrar nessa idia - to suave e amoldvel - uma bem vinda trgua tpica insistncia dessas religies de terem acesso privilegiado verdade. No entanto, um estudo imparcial dos discursos do Buda mostra de forma muito clara que a tese universalista no conta com o endosso do prprio Abenoado. Ao contrrio, o Buda repetidamente proclama que o caminho para o objetivo supremo da vida santa conhecido apenas atravs dos seus prprios ensinamentos e portanto a realizao desse objetivo - a completa libertao do sofrimento - somente pode ser alcanada atravs da sua prpria revelao. A mais conhecida instncia desta afirmao foi na vspera do seu Parinibbana: que somente no seu ensinamento so encontrados os quatro tipos de pessoas iluminadas e que as outras seitas so desprovidas de verdadeiros ascetas, aqueles que alcanaram os planos de libertao.

A restrio do Buda de que a emancipao final apenas faa parte da sua revelao no resulta de um dogmatismo estreito ou da falta de boa vontade, mas est apoiada sobre uma determinao absolutamente precisa da natureza do objetivo final e do mtodo que precisa ser implementado para alcan-lo. Esse objetivo no nem a vida eterna num paraso, nem a concepo nebulosa de um estado de iluminao espiritual, mas o elemento de Nibbana, a libertao sem deixar nenhum resduo do ciclo de repetidos nascimentos e mortes. Esse objetivo realizado com a completa destruio das impurezas mentais - desejo, raiva e deluso - at o seu nvel mais sutil de latncia. A erradicao das impurezas somente pode ser alcanada atravs do insight da verdadeira natureza dos fenmenos, o que significa que alcanar Nibbana depende do insight, atravs da experincia direta, de todos os fenmenos condicionados, internos e externos, marcados com as "trs caractersticas da existncia": impermanentes, insatisfatrios e no-eu. O que o Buda sustenta, como fundamento para a sua declarao de que os seus ensinamentos oferecem a nica maneira de obter a libertao final do sofrimento, que o conhecimento da verdadeira natureza dos fenmenos, com toda exatido e integridade, s pode ser alcanado atravs dos seus ensinamentos. Assim porque, em teoria, os princpios que definem esse conhecimento so exclusivos dos seus ensinamentos e contraditrios em aspectos vitais em relao s doutrinas bsicas de outras crenas; e porque na prtica, somente os seus ensinamentos revelam, na sua perfeio e pureza, o mtodo para gerar esse entendimento libertador como um elemento da experincia pessoal imediata. Esse mtodo o Nobre Caminho ctuplo que, como um mtodo de treinamento espiritual integrado, no pode ser encontrado fora da revelao de um Iluminado.

Surpreendentemente, essa postura exclusivista do Budismo em relao possibilidade de obter a emancipao final nunca engendrou uma poltica de intolerncia por parte dos Budistas em relao aos devotos de outras religies. Ao contrrio, durante a sua longa histria, o Budismo tem demonstrado profunda tolerncia e uma cordial boa vontade em relao s muitas religies com as quais esteve em contato. Essa tolerncia tem sido mantida simultaneamente com a profunda convico de que a doutrina do Buda oferece o nico e insupervel caminho para a libertao dos problemas inerentes da existncia condicionada. Para o Budismo, a tolerncia religiosa no alcanada reduzindo todas as religies a um denominador comum, nem explicando as formidveis diferenas nas idias e prticas como acidentes do desenvolvimento histrico. Do ponto de vista Budista, fazer com que a tolerncia seja contingente para encobrir discrepncias no seria um exerccio de verdadeira tolerncia; pois tal abordagem s "tolera" diferenas atravs da diluio delas, de forma to completa que j no fazem qualquer diferena. A verdadeira tolerncia religiosa envolve a capacidade de admitir diferenas reais e fundamentais, mesmo que profundas e irreconciliveis, e apesar disso, respeitar os direitos daqueles que seguem uma religio diferente da sua prpria (ou nenhuma religio) e continuar a agir assim sem ressentimento, desvantagens ou restries.

A tolerncia Budista brota do reconhecimento de que o carter e as necessidades espirituais dos seres humanos so demasiadamente diversos para serem abrangidos por uma doutrina em particular, e que portanto essas necessidades iro naturalmente encontrar uma forma de expresso em uma ampla variedade de formas religiosas. Os sistemas no Budistas no sero capazes de conduzir os seus devotos ao objetivo final do Dhamma do Buda, mas isto, de todos modos nunca foi a proposta original delas. Para o Budismo, a aceitao da idia de um ciclo de renascimentos, sem um princpio definido, significa que seria completamente irreal esperar que mais que um pequeno nmero de pessoas fossem atradas para um caminho espiritual direcionado para a completa libertao. A maioria esmagadora, mesmo aqueles que buscam a emancipao das desgraas mundanas, ter como objetivo assegurar um meio de existncia favorvel dentro do ciclo, ao mesmo tempo que confundem isso com o objetivo ltimo da busca religiosa.

Na medida em que uma religio proponha princpios ticos slidos e possa promover o desenvolvimento de qualidades benficas tais como o amor, a generosidade, o desapego e a compaixo, ela ir merecer nesses aspectos a aprovao dos Budistas. Esses princpios defendidos por outros sistemas religiosos tambm conduzem ao renascimento nos reinos de bem aventurana - os parasos celestiais e as moradas divinas. O Budismo no reivindica de nenhuma forma deter acesso nico a esses reinos, mas sustenta que os caminhos que conduzem a eles foram articulados, com distintos graus de clareza, em muitas das grandes tradies espirituais da humanidade. Ao mesmo tempo que o Budista ir discordar da estrutura de crenas de outras religies, na medida em que elas se desviem do Dhamma do Buda, ele as respeitar na medida em que elas imponham virtudes e padres de conduta que promovam o desenvolvimento espiritual e a integrao harmoniosa dos seres humanos entre si e com o mundo.

 

 

Revisado: 16 Abril 2005

Copyright © 2000 - 2021, Acesso ao Insight - Michael Beisert: editor, Flavio Maia: designer.