Conselhos Prticos para Meditao

Por

Bhikkhu Khantipalo

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Contedo:

 


 

Prefcio

As pginas que seguem, inicialmente, foram escritas para compor as novas sees a serem adicionadas na segunda edio do meu livro introdutrio sobre o Dhamma, O Que o Budismo (What is Buddhism?). No entanto, como muitas pessoas possuem um grande interesse na prtica de meditao mas esto distantes das fontes onde se encontram as tradies vivas, espero que o texto que segue produza benefcios, mesmo estando separado das sees do livro s quais serve de complemento.

Quando pensamos em meditao, nunca demasiado enfatizar a importncia de termos as razes corretas ao adotarmos a sua prtica. Meditao,ou, a melhor traduo de samadhi - concentrao - somente um aspecto da prtica Budista, e deve, para ser bem sucedida, andar de mos dadas com outras prticas tais como a generosidade, nobreza, no violncia, pacincia, contentamento e humildade. Se essas genunas qualidades do Dhamma, inicialmente, no existirem na pessoa, nem se desenvolverem atravs da prtica, ento existe algo de muito errado e somente uma pessoa muito tola tentaria prosseguir. A prtica da concentrao se apia sobre uma slida base de virtude (sila) e no ser bem sucedida se a pessoa no fizer um esforo verdadeiro para seguir os preceitos de maneira rigorosa. Os sinais de "progresso" na concentrao no so vises estranhas, sensaes peculiares ou outras coisas do gnero (embora seja concebvel que elas tambm possam surgir nos casos em que o progresso realizado), mas, particularmente, um crescimento abrangente e harmonioso no caminho do Dhamma. Se algum no possui um mestre, deve estar duplamente vigilante, pois de outra forma, no ter conscincia se alguma das distraes de Mara estiver prestes a ter xito, ou, se na verdade est avanando na prtica do Caminho do Meio.

Este ensaio uma sntese de Buddhism Explained, a segunda edio (revisada e ampliada) do livro anteriormente conhecido como What is Buddhism? publicado por The Social Science Press of Thailand, Phya Thai Road, Chula Soi 2, Bangkok.

Bhikkhu Khantipalo     

 


 

Duas Correntes de Meditao

Duas correntes de meditao Budista, aparentemente distintas, podem ser distinguidas, embora elas sejam vistas como complementares quando a meditao estiver estabelecida.

Pode ser produtivo para algumas pessoas, cujas mentes so muito ativas e que sofrem com a distrao, acompanhar com ateno plena as acrobacias da mente traquinas. Como a mente na verdade uma srie de eventos mentais que surgem e desaparecem com incrvel rapidez, sendo que, cada um desses eventos uma mente completa com os seus fatores mentais de apoio, no incio este tipo de ateno plena na verdade uma mente "plenamente atenta" observando outras "mentes" (que logicamente esto todas dentro do prprio contnuo mental da pessoa). Atravs disso a pessoa desenvolve a habilidade de olhar para a mente e ver para onde ela est indo. Ela foi para o passado, presente ou futuro ? Foi para a materialidade, ou para as sensaes, ou talvez para as percepes, para as atividades volitivas, ou ela foi para a conscincia? Atravs deste mtodo, "Para onde ela foi?, a mente distrada, pouco a pouco, ir se encontrar sob a vigilncia da mente plenamente atenta, at que a ateno plena crie uma base slida para desenvolvimentos adicionais. Importante, embora mundana, a clareza mental ao mesmo tempo necessria e desenvolvida atravs desta prtica, que no entanto deve ser equilibrada pela tranqilidade das absores (jhanas). Quando a mente tiver se acalmado, a pessoa deve comear a praticar a concentrao (jhanas), que ser por seu lado a base para o surgimento do verdadeiro insight. Este mtodo denominado "a sabedoria que conduz tranqilidade".

Outro mtodo, adequado para aquelas pessoas cujas mentes no incio no so to perturbadas, inclui os tradicionais quarenta objetos de meditao (veja o Apndice); e esses envolvem o uso de um objeto esepcifico para a concentrao. Esse objeto pode ser o prprio corpo ou uma parte dele, uma cor ou um desenho, uma palavra ou uma frase, ou a contemplao abstrata e assim por diante. Todos esses mtodos envolvem um tanto de disciplina mental, firme porm gentil, em que cada vez que a mente comear a vagar, ela precisa ser trazida de volta gentilmente (com a ateno plena, lgico), para se concentrar novamente no objeto escolhido.

Algumas pessoas possuem a idia equivocada de que esse tipo de prtica deve necessariamente conduzir tranqilidade, praticamente de imediato. Elas podero se surpreender ao iniciar a prtica, visto que, de fato experimentaro mais problemas do que tinham antes. Isso ocorre, primeiro, porque elas na verdade nunca olharam antes dentro da prpria mente para saber o estado em que ela sempre esteve; e segundo, porque ao disciplinar a mente, como se a pessoa agitasse um lago estagnado com uma vara , ou cutucasse com uma vara um fogo latente sob as cinzas. O elefante selvagem da mente, h muito tempo acostumado a vagar pela floresta dos desejos, no aceita a domesticao de bom grado, ou ser amarrado ao poste da prtica com as correias da ateno plena. No entanto, a diligncia e o zelo iro finalmente assegurar os frutos da tranqilidade.

Todos os quarenta objetos fazem parte do segundo mtodo em que a calma obtida com a prtica ento usada para despertar a sabedoria. Por isso eles so chamados de mtodos da "tranqilidade que conduz sabedoria" e so muito importantes nos tempos atuais de distraes. A sua explicao completa pode ser encontrada no Path of Purification (Visuddhi-magga), embora nem mesmo o grande ensinamento contido nesse livro possa substituir o contato pessoal com um mestre.

 


 

Conselhos Prticos para Meditadores

Mudando do aspecto psicolgico para o prtico, a meditao para pessoas leigas pode ser dividida em duas categorias: aquela que feita de forma intensiva e aquela que praticada em conjunto com os demais afazeres da vida diria. A meditao intensiva tambm de dois tipos: meditao sentada diria e a prtica ocasional em retiros.

Meditao Sentada Diria

Primeiro discutiremos o perodo dirio regular de prtica intensiva que deveria, sempre que possvel, ocorrer todos os dias na mesma hora. A pessoa deve evitar que isto se torne apenas um ritual, encarando a prtica com seriedade e permanecendo intensamente consciente da razo por que medita. As sugestes a seguir tambm podem ajudar.

Quanto s condies fsicas, o lugar para meditar deveria ser bem silencioso. Se tiver um pequeno quarto que possa ser usado para esse propsito, tanto melhor, e de todos os modos melhor meditar s, exceto se outros membros da casa tambm meditarem. Quando esse for o caso a pessoa deve garantir a pureza da sua mente em relao aos outros, pois de outra forma a cobia, a raiva e todo o resto da quadrilha de ladres, com certeza, iro roubar os frutos da meditao.

O silncio pode ser conseguido despertando cedo, antes que os demais despertem; e essa tambm a ocasio em que a mente est clara e o corpo descansado. Portanto, o meditador sincero observa os horrios, pois ele sabe como importante ter horas de sono em quantidade suficiente para despertar renovado.

Aps despertar e lavar-se a pessoa deve sentar-se com roupas limpas e confortveis no local de meditao. A pessoa pode ter um pequeno altar com objetos Budistas, mas isso no essencial. Algumas pessoas consideram benfico comear fazendo oferendas de flores, incenso e velas, refletindo com cuidado enquanto fazem isso. muito comum nos pases Budistas prefaciar a meditao silenciosa com um cntico suave para si mesmo, "Namo tassa bhagavato arahato samma-sambuddhassa," com os Refgios e Preceitos. Se a pessoa conhece as passagens em Pali em homenagem ao Buda, Dhamma e Sangha, elas tambm podem ser usadas nesse momento.

Uma outra prtica preliminar proveitosa uma reflexo, uma recitao discursiva, sobre algumas verdades do Dhamma, tal como o trecho sugerido a seguir:

"Obtendo esta preciosa oportunidade de um nascimento humano, tenho duas responsabilidades no Dhamma: o meu prprio benefcio e o benefcio dos outros. Todos os demais seres, quer sejam humanos ou no humanos, visveis ou invisveis, grandes ou pequenos, prximos ou distantes, todos esses seres eu tratarei com nobreza e desejarei que eles vivam em paz. Que eles possam ser felizesQue eles possam ser felizesQue eles possam ser felizes! Eu os ajudarei quando estiverem sofrendo e compartirei das suas alegrias quando estiverem felizes. Que eu possa tambm desenvolver a incomparvel equanimidade, a mente em perfeito equilbrio que nunca est perturbada!

"Ao me preocupar com o bem estar dos outros, eu no me esquecerei do meu prprio progresso no caminho do Dhamma. Que eu venha a entender, realmente, como, empurrado aqui e ali pelos ventos do kamma, sofri uma infinidade de vidas em todos os planos de existncia! Eu tambm devo voltar a minha mente para o quo curta e passageira esta vida. Que a mente e o corpo esto mudando constantemente, surgindo e desaparecendo momento a momento. Que nem a mente nem o corpo me pertencem, nenhum deles meu. Eu tambm devo voltar a minha mente para tomar em considerao o quanto esta breve vida importunada por problemas. Tendo sido gerado pelo desejo e nascido da ignorncia, preciso compreender que no h como escapar da morte, que o envelhecimento e a enfermidade so acontecimentos naturais da minha condio. Preciso me esforar para entender, por meu prprio benefcio e benefcio de outros, que esta pessoa chamada 'eu' um complexo de mente e materialidade em que nenhuma entidade permanente, tal como uma alma ou eu, pode ser encontrado.

"Que eu possa atravs desta prtica experimentar o insight da impermanncia, sofrimento e no-eu! Que eu possa ser um dos que permanece no Vazio! E tendo entendido essa verdade sublime que eu possa mostrar o caminho para outros!"

Ao sentar para meditar, deve-se tomar cuidado para que o corpo permanea ereto, porm relaxado. No deve haver tenso, mas, tampouco a cabea deve baixar e nem a regio lombar ceder. O corpo deve ser sentido aprumado e equilibrado. Embora a posio com as pernas cruzadas (tal como a postura de ltus) seja a ideal se o meditador estiver sentado sobre um tapete suficientemente macio, uma cadeira pode ser usada por aqueles desabituados com a postura de ltus ou ento incapazes de treinar para sentar nessa posio. Sentar na postura em ltus ou meio ltus ser muito mais fcil se uma almofada mais firme for usada para levantar as ndegas. Dessa forma os joelhos iro tocar o solo e uma firme posio sentada apoiada sobre trs pontos (dois joelhos e as ndegas) ser obtida.

O tempo de meditao deve ser o mesmo todos os dias at que, tendo mais habilidade em concentrar a mente, automaticamente a pessoa ir ter vontade de ampliar a prtica. Um mtodo amplamente usado para medir o perodo de meditao meditar durante o tempo que leva para consumir uma vareta de incenso. Tendo colocado as mos relaxadas sobre o regao em posio para a meditao, os olhos podem ser cerrados ou deixados semi abertos de acordo com o que for mais confortvel.

Os mtodos usados para auxiliar na concentrao da mente so muitos e as duas principais vertentes na meditao clssica foram brevemente comentadas na seo acima. Outros mtodos que podem ajudar incluem a repetio de uma palavra ou frase, qui com o uso de um rosrio. Se a pessoa praticar a ateno plena focada na respirao pode ser que considere bom o uso de uma palavra como "Buddho," ou "Araham" para acalmar a mente. A primeira slaba repetida silenciosamente ao inspirar e a pessoa se concentra na segunda slaba ao expirar. A contagem da respirao tambm (em geral no acima de dez para evitar que a mente vagueie) usada como um auxlio para a concentrao. Mas todos esses auxlios devem ser abandonados quando a concentrao se tornar aprimorada. Quando a meditao se utiliza de apenas uma frase, um rosrio pode ser usado em conjunto, cada repetio marcada por uma conta.

A meditao estar se desenvolvendo bem se a pessoa se der conta de que a mente est cada vez mais absorvida no objeto de meditao escolhido, mas a pessoa no deve deduzir que a meditao intil apenas porque por um perodo longo ou curto no forem experimentadas muito mais do que sonolncia e distraes. Esses obstculos devem ser enfrentados; e se eles surgirem, no ser atravs da irritao ou desespero, mas atravs da observao calma, com ateno plena, que eles podero ser superados. Para obter-se xito, necessrio uma grande persistncia e esforo equilibrado.

O perodo de meditao pode ser encerrado com alguma recitao, cujo objeto normalmente o bem-estar e a distribuio dos mritos para outras pessoas. Uma traduo, ou o original em Pali, do Karaniya Metta Sutta (O Discurso do Amor Bondade) pode ser recitado nesse momento e como no um texto muito longo, pode ser memorizado facilmente. Como os mtodos de recitao podem variar, pode ser til obter-se gravaes feitas por bhikkhus dos trechos que a pessoa queira aprender.

Aproveitando o tema de recitao, muito til conhecer alguns discursos do Buda em algum dos idiomas clssicos do Budismo e de us-los para unificar a mente se houver alguma ocasio em que nenhuma concentrao possa ser obtida. Nessas ocasies o meditador no deve se sentir deprimido mas deve continuar sentado, recitando suavemente para si mesmo. Isso o que os monges Budistas fazem duas vezes por dia como parte do seu desenvolvimento mental e tambm til para estimular uma abordagem mais devocional, necessria, como contrapeso para os indivduos com inclinaes intelectuais. Um outro mtodo proveitoso para a superao da distrao a meditao andando, que pode ser feita em qualquer corredor da casa ou em uma rea isolada no jardim. Uma distncia de vinte ou trinta passos ser suficiente, pois se for mais longa, a mente tender a vagar e se for mais curta, a distrao poder aumentar. A pessoa pode caminhar no rtmo que for natural, com as mos juntas e os braos relaxados na frente do corpo. Ao final da caminhada a pessoa deve fazer a volta na direo horria.[1]

Talvez seja adequado mencionar algumas palavras sobre devoo, pois ela muito importante na prtica de meditao. Ningum que no seja um Budista devoto adotaria a meditao Budista, pela simples razo de que ele no teria os ideais Budistas presentes no seu corao. Tomar com seriedade o Refgio Trplice e a compreenso da Jia Trplice est intimamente ligado com a meditao Budista. Um Budista realmente devoto, que dedica toda sua vida ao Dhamma, no enfrentar dificuldades insuperveis na prtica de meditao. Quaisquer obstculos que ele encontre, ele ir super-los, sustentado pela devoo. Ele est preparado para um caminho longo e difcil, pois ele compreende que ele quem o fez assim. Se ele encontrar o seu caminho bloqueado, a sua meditao no progredindo e ele prprio sem um mestre, ele no vacilar ou hesitar no caminho. Ele pensa, "Eu estou agora experimentando os resultados de aes intencionais (kamma) praticadas por mim no passado". E ele se recorda das ltimas palavras do Buda: "Dessa forma, bhikkhus, eu os encorajo: todas as coisas condicionadas esto sujeitas dissoluo. Esforem-se pelo objetivo com diligncia". Todas as dificuldades so coisas condicionadas e por fim iro mudar; enquanto isso, muito pode ser realizado com ateno plena, energia e devoo.

Se a pessoa no se sentir demasiado cansada aps o trabalho e se houver uma oportunidade noite, um outro perodo de meditao poder ser feito. De qualquer modo, antes de dormir, praticar meditao um hbito sbio, mesmo que sejam apenas alguns minutos, de forma a purificar a mente antes de deitar. A pessoa pode pensar da seguinte forma: "No existe certeza, ao me deitar, que irei despertar". Uma pessoa pode, portanto, estar se deitando para morrer e essa uma boa reflexo para estimular estados mentais hbeis e benficos e banir estados inbeis e prejudiciais. Se a pessoa praticar dessa forma, "deitar-se pronta para morrer", ser uma excelente preparao para o acontecimento real, que ir ocorrer de qualquer forma em algum momento no futuro. Pode at mesmo gerar as condies adequadas para o surgimento do insight que permite pessoa "morrer", soltando-se do apego s coisas que no lhe pertencem, isto , a mente e o corpo. A repetio de uma frase ou palavra do Dhamma tambm pode ser usada at que a pessoa adormea. Dessa forma o dia se inicia e se encerra com a prtica dos ensinamentos Budistas. E alm da dedicao o dia inteiro a eles, o que poderia ser melhor?

Retiros

Com relao segunda diviso da prtica intensiva, isto , quando feita em retiro, muito ir depender das facilidades disponveis para o estudante srio. Existem alguns lugares no Ocidente em que se pode buscar instrues de meditao. A coisa mais importante ter contato direto com um mestre de meditao capaz (livros servem no incio, pois at mesmo um mestre pode, mais tarde, se mostrar deficiente de alguma forma). Aps satisfazer essa condio, uma outra se faz necessria: a pessoa tem que se esforar com diligncia para praticar e realizar os ensinamentos. Se essas duas condies forem satisfeitas, ento essa pessoa ser uma das mais afortunadas entre os seres humanos.

Muitos no tero acesso a um mestre e alguns podem querer tentar um perodo de meditao solitria em alguma parte remota do seu pas. Isso deveria ser tentado apenas se a pessoa j desenvolveu um bom poder de ateno plena. De outra forma, aquilo que se intencionava como estmulo para a meditao pode se transformar num perodo intil e at mesmo acompanhado pela aparente intensificao das contaminaes mentais.

Vida Diria

Quanto ao outro tipo de prtica meditativa que feita na vida diria, embora muito possa ser escrito a respeito, as seguintes breves palavras podem servir como um guia. Primeiro, a pessoa no deve enganar a si mesma com relao concentrao da mente. No faz nenhum sentido enganar a si mesmo ou aos outros de que a vida diria meditao - a no ser claro que algum j possua grandes poderes dde concentrao. Somente uma pessoa muito experiente, com freqncia algum que tenha praticado durante muitos anos observando a disciplina monstica capaz de perceber a vida do dia a dia como meditao; e muito improvvel que tal pessoa contasse para os outros esse fato. Recusando-se a dar ao orgulho uma oportunidade para distorcer a verdadeira situao do seu estado mental, a pessoa deveria ser leal para consigo mesma e admitir as suas prprias limitaes. Isso j seria um grande passo adiante. A pessoa leiga que j se considera um Arahant criou de maneira muito eficaz um bloqueio para o verdadeiro progresso; enquanto que a pessoa honesta tem pelo menos a sabedoria de ser humilde.

Muito pode ser alcanado com a ateno plena, enquanto que sem ela no existe nenhuma esperana de meditao na vida diria. Como eventos comuns podem ser transformados em meditao? Por meio da ateno plena que, para comear, pode ser definida como conscincia daquilo que se est fazendo no presente momento. Inicialmente, necessrio um grande esforo para que uma pessoa mantenha a ateno plena naquilo que supostamente ela estiver fazendo, nem ela deve esperar que essa ateno plena seja sempre agradvel. Para escapar de uma tarefa ou situao tediosa ou que no seja apreciada, tendemos a apelar para mundos de fantasia, esperanas ou ento para memrias, que so respectivamente as fugas delusas para o presente, futuro ou passado. Mas para algum que esteja realmente interessado em conhecer a si mesmo, nenhuma dessas alternativas muito recompensadora, j que elas so compostas de deluso com vrios ingredientes tais como medo, desejo e ignorncia. Enquanto que na prtica estrita de meditao a ateno plena ir seguir todas as perambulaes da mente, na vida diria melhor que a mente retorne constantemente para a tarefa a ser realizada. A pessoa no deve "mandar" a mente para nenhum lugar, nem para um mundo de sonhos nem para o passado, nem para o futuro. O Buda comparou esses perodos de tempo da seguinte forma:

"O passado como um sonho,
o futuro como uma miragem,
enquanto que o presente como as nuvens."

Esse smile pode ser til ao ilustrar a mente que se movimenta rapidamente entre sonhos, miragens e nuvens, todos sem substncia, embora o presente em constante mutao, tal como as nuvens no cu, seja o nico aspecto do tempo que pode ser comparado a coisas de maior realidade. A pessoa tambm pode considerar a meditao como sendo o exerccio de ateno plena que mantm a mente "dentro" deste corpo, isto , sempre focada em alguma das suas facetas. claro que somente os meditadores mais sinceros, que percebem nisso uma vantagem maior do que qualquer prazer oferecido pelo mundo, que provavelmente praticaro dessa forma, j que isso corta no somente o interesse por objetos externos mas tambm o entretenimento com idias agradveis e intrigantes.

De fato, com um trabalho que seja realmente interessante, o caminho da ateno plena o nico meio de transformar o seu dia em algo que vale a pena. Os dias passam e nos aproximam cada vez mais da morte e de um renascimento desconhecido, enquanto que agora que existe a oportunidade de praticar o Dhamma. Ao invs de reagir com averso ou fantasias deludidas em relao ao que no se gosta (ou em outras situaes se entregando cobia), o Caminho da Ateno Plena constitui a Prtica do Caminho do Meio que transcende esses padres arcaicos de reao. No existe necessidade de ser governado pela cobia ou pela raiva, nem de ser dominado pela deluso; mas somente a ateno plena pode mostrar o caminho para super-los.

Trazer a mente constantemente de volta e solt-la dos seus enredos a prtica bsica na vida do dia a dia. sbio, tambm, aproveitar aqueles momentos inesperados que surgem durante um trabalho, enquanto se est aguardando para fazer algo, para encontrar algum, ou esperando um nibus ou trem, ou a qualquer momento em que se esteja sozinho por alguns minutos. Ao invs de pegar um jornal como distrao, o celular ou uma outra pessoa para fofocar, mais produtivo fazer um "retiro interior". Desligando a ateno dos objetos exteriores, coloque a ateno na respirao, ou na repetio de alguma frase do Dhamma, ou numa palavra importante tal como "Buddho" ou "Arahant," fazendo isso at que novamente tenha que dar ateno sua tarefa. Voltar para dentro de si sempre que possvel ser muito benfico, fortalecer a prtica sentada da mesma forma que, por sua vez, fortalecer a habilidade de fazer os retiros interiores.

A ateno plena na respirao particularmente boa como um mtodo de concentrao para uso durante viagens e durante os perodos em que se est esperando impacientemente por um nibus ou trem. Porque ficar agitado ou impaciente? Um pouco de ateno plena na respirao a prtica adequada para esses momentos, j que ela acalma os movimentos exaltados da mente e os movimentos inquietos do corpo. A pessoa no precisa fitar a paisagem sem propsito enquanto viaja! Porque ser um escravo do "domnio do olho" quando um pouco de prtica proveitosa pode tomar o seu lugar? A pessoa no precisa ouvir a conversa ftil dos outros, ento porque ser um escravo do "domnio do ouvido"? No se pode fechar os ouvidos, mas qualquer um pode de certa forma controlar a sua ateno ao praticar a ateno plena na respirao.

a ateno plena, tambm, que auxilia a colocar o foco em contemplaes neutralizadoras. A luxria, por exemplo, rapidamente dissipada com a imagem de um corpo em decomposio. Os olhares concedidos a lindas garotas (ou homens bonitos) parecem ridculos quando se pensa que velhas senhoras e igualmente homens ancios nunca atraem esse tipo de ateno cheia de desejo. Somente quando se v como a cobia incendeia aquele que a ela se entrega que parece valer a pena abandon-la.

Igualmente com a gula, que mesmo de uma forma suave, pode ser demolida ao contemplarmos os processos corporais associados comida. A comida mastigada tem uma aparncia muito menos palatvel do que aquela que, ainda no misturada com a saliva, servida bem apresentada no prato. O vmito exatamente a mesma substncia em processo de mudana, mas no estimula exatamente o desejo. O excremento, mesmo se colocado no mais fino prato de ouro, no ser atrativo - no entanto, esse o remanescente da comida que foi devorada com tanta avidez! Quando houver contemplado a comida nesses trs estgios, a cobia ter desaparecido completamente e a comida ser tomada como se fosse um medicamento para conservar o corpo.

A ateno plena tambm responsvel por tornar-nos suficientemente conscientes num momento de raiva para que dirijamos a mente para outros objetos ou pessoas. a ateno plena que nos adverte sobre uma situao em que a raiva poder surgir, e ela que possibilita que evitemos essa situao e permaneamos com equanimidade, ou com amor bondade (metta) quando as Moradas Divinas estiverem bem desenvolvidas.

Quando a inveja mostra a sua cara feia, a ateno plena proporciona presena de esprito para saber que "a inveja surgiu" e se o esforo para despertar a alegria com a felicidade dos outros falhar, ser a ateno plena que ir ajudar a permanecer com equanimidade, ou se tudo falhar, ajudar a desviar a ateno para outros objetos.

O Buda verdadeiramente disse, "A ateno plena, eu declaro, ajuda em todas as situaes."

As implicaes sociais da meditao deveriam ser bvias pelo que foi dito acima. Aqueles que possuem a deluso peculiar de que o Budismo uma religio de isolamento meditativo, que no oferece nenhum benefcio social para a sociedade, devem compreender que um Budista acredita que a sociedade s pode ser mudada para melhor e com algum grau de permanncia, comeando o trabalho consigo mesmo. Os ideais Budistas de sociedade esto expressos num grande nmero de importantes discursos dirigidos pelo Buda a pessoas leigas e neles o desenvolvimento do individuo sempre enfatizado como um fator necessrio. As vantagens de uma sociedade em que existe um grande nmero de pessoas vivendo em paz consigo mesmas no precisam ser enfatizadas. O desenvolvimento de sabedoria e compaixo em uma pessoa tem o efeito de fermentar toda a 'massa de po' materialista que se encontra sua volta. O chamado Budista, portanto, consiste em primeiro conquistar a paz no prprio corao, quando ento surgir, muito naturalmente, a paz no mundo. Tentar obter a paz pelo caminho contrrio no ser prtico, nem ir produzir uma paz duradoura, pois as razes da cobia, raiva e deluso ainda tero o pulso firme sobre o corao das pessoas. Impraticvel? Apenas para aqueles que no praticam. Aqueles que se dedicam ao cultivo da ateno plena acabam descobrindo por si mesmos como ela ajuda a solucionar os problemas da vida.

Embora muitas viagens a lugares remotos e atrativos sejam agora realizadas com facilidade, o caminho que conduz a Nibbana ainda requer esforo. Mas se o caminho s vezes sombrio tendo como nica luz guia a ateno plena, pelo menos atravs da reflexo saberemos que o objetivo glorioso e de grande valor, no somente para si mesmo mas para os outros tambm.

 


 

As Moradas Divinas e o seu Aperfeioamento
(Brahma-vihara)

O caminho em direo ao objetivo passa pelo que chamamos de Moradas Divinas, onde as emoes profundamente enraizadas so transformadas de inbeis e prejudiciais em hbeis e benficas de acordo com o Dhamma. Como j foi enfatizado acima, o objetivo de uma pessoa, bem como de todos os seres, conquistar condies que produzam a felicidade. Portanto, a pessoa deve agir de tal forma que a felicidade resulte das suas aes. A pessoa deveria, nesse caso, tratar os outros da maneira como ela gostaria de ser tratada, pois cada ser vivo tem muita estima por si mesmo e deseja o seu prprio bem-estar e felicidade. A pessoa no pode esperar ter uma felicidade isolada que surja sem uma causa ou que no surja de si mesma, nem a felicidade pode ser esperada se algum maltrata outros seres, humanos ou no. Todos os seres desejam a vida e temem a morte, sendo isso verdadeiro tanto para ns como para as outras criaturas.

Somente uma pessoa, que conduz a sua vida com dignidade e compaixo constantemente, tem realmente estima por si mesma, pois ela pratica aes que produzem grandes benefcios, grande felicidade. Outras pessoas, embora pensem que tm estima por si mesmas, so na verdade os seus piores inimigos, pois elas fazem para si mesmas aquilo que apenas um inimigo lhes desejaria.

A boa conduta depende de uma mente bem treinada que gradualmente se libertou das garras da cobia, da raiva e da deluso. Ter tanta estima pelo prximo quanto verdadeiramente se tem por si mesmo fcil de falar mas difcil de fazer. um mrito particular dos ensinamentos do Buda sempre indicar como um mtodo deve ser traduzido em experincia, o mtodo neste caso o treinamento da mente nas Moradas Divinas. Quando mencionamos "mente", essa palavra deve ser compreendida no no sentido restrito dos processos intelectuais, mas, particularmente, ela deve incluir o escopo completo da mente-corao, intelecto e emoes.

Existem quatro estados que pertencem s Moradas Divinas: amor bondade, compaixo, alegria altrusta e equanimidade. Esses, e especialmente o primeiro, so objetos de meditao muito populares nos pases Budistas. O que segue uma breve explicao de cada um.

Amor bondade (metta) um amor altrusta estendido a todos. Isto se torna fcil quando as absores (jhanas) so conquistadas e s ento a qualidade do amor bondade se torna uma parte integral do carter da pessoa. Da forma como as coisas normalmente so, as pessoas apenas "amam" aquelas poucas pessoas s quais esto especialmente ligadas por laos de famlia, etc. Esse o tipo de amor com apego sensual, um amor limitado, e aqueles que se encontram fora desse amor ou so ignorados ou no se gosta deles. O amor sensual, portanto, no somente est ligado ao apego (cobia) mas tambm raiva e deluso, de forma que a pessoa que est satisfeita com esse amor paga um alto preo por ele. Um amor sem apego dificilmente pode ser concebido por muitas pessoas, mas esse tipo de amor muito superior ao anterior, no tendo apego ele pode se tornar infinito e no precisa estar confinado a este ou aquele grupo de seres. Como ele pode se tornar infinito, sem deixar ningum de fora, no surge a questo das trs razes inbeis e prejudiciais estarem vinculadas a ele.

O amor bondade pode ser desenvolvido gradualmente a cada dia como parte da prtica de meditao, mas para ser realmente eficaz ele precisa se mostrar na vida diria da pessoa. Ele torna a vida mais fcil transformando as pessoas que antes eram antipticas e odiadas em indiferentes, inicialmente, mas depois, medida que a prtica vai se fortalecendo, em objetos para o surgimento do amor bondade. o remdio do Buda para a enfermidade da raiva e da antipatia. Finalmente, o amor bondade tem dois inimigos: o"prximo", que o apego sensual, com freqncia denominado de "amor" de forma incorreta, enquanto que o inimigo "distante" do seu desenvolvimento a m vontade. No desenvolvimento do amor bondade necessrio tomar cuidado com os dois.

Compaixo (karuna) sensibilizar-se em relao aos sofrimentos de outros seres no mundo. A compaixo supera a indiferena insensvel para com os infortnios dos seres que sofrem, humanos ou no. Da mesma forma, mostra-se na vida diria de uma pesssoa atravs da vontade de sair da sua rotina para proporcionar ajuda aonde for possvel e de auxiliar aqueles que se encontram em aflio. Tem a vantagem de reduzir o prprio egosmo pela compreenso dos sofrimentos dos outros. o remdio do Buda para a crueldade, pois como algum pode causar dano aos outros tendo visto o quanto eles esto sofrendo? A compaixo tambm tem dois inimigos: o "prximo" que a simples pena ou d; enquanto que o inimigo "distante" a crueldade.

Alegria altrusta (mudita) alegrar-se com os outros pelos seus xitos, ganhos e felicidade. A alegria altrusta supera a atitude de rancor em relao aos outros e a inveja que pode surgir ao saber da alegria dos outros. Mostra-se na vida de uma pessoa como uma alegria espontnea no momento exato em que ela toma conhecimento de que outras pessoas obtiveram algum tipo de ganho, material ou imaterial. Tem a vantagem de fazer com que a pessoa seja franca com as demais e elimina a dissimulao. Uma pessoa que desenvolve a alegria altrusta atrai muitos amigos que lhe so devotados e com eles e os demais ela vive em harmonia. o remdio do Buda para a inveja e o cime que podem ser completamente inibidos. Os dois inimigos da alegria altrusta so a simples alegria pessoal ao refletir sobre os prprios ganhos - esse o inimigo "prximo"; enquanto que o "distante" a averso ou o descontentamento.

Equanimidade (upekkha) deve ser desenvolvida para lidarmos com situaes difceis cuja mudana, deveramos admitir, est acima das nossas foras. A equanimidade supera a preocupao e a distrao inteis em relao a assuntos que, ou no dizem respeito pessoa, ou no podem ser mudados por ela. Deve aparecer na vida diria da pessoa como uma habilidade para enfrentar situaes difceis com tranqilidade e paz mental imperturbvel. A vantagem no seu desenvolvimento que simplifica a vida com o desligamento de atividades inteis. o medicamento do Buda para a distrao e a preocupao e os seus inimigos so a pura indiferena, que o inimigo "prximo"; enquanto que a cobia e o seu parceiro ressentimento, que envolvem a pessoa de maneira inbil em tantos assuntos, so os seus inimigos "distantes".

A mente que praticou bem essas quatro virtudes e depois treinou bem o seu uso na vida diria, j conquistou muito.

Trs das perfeies (parami), ou qualidades, praticadas por muitos Budistas que aspiram Iluminao tambm podem ser esboadas a seguir, j que elas tambm possuem uma influncia profunda na prtica da meditao.

 


 

A Pacincia e seu Aperfeioamento
(Khanti-parami)

A pacincia uma excelente qualidade, muito elogiada nas escrituras Budistas. Ela pode ser desenvolvida com facilidade apenas se a inquietao e a raiva j estiverem subjugadas na mente, tal como feito na prtica de meditao. A impacincia, que tem a tendncia de fazer com que a pessoa se apresse muito e por isso perca muitas oportunidades boas, resulta da inabilidade em ficar parado e permitir que as coisas se resolvam por si mesmas - o que algumas vezes pode ocorrer sem que algum tenha que intervir. A pessoa paciente acaba obtendo muitas coisas de graa que no so obtidas pela pessoa empreendedora. Uma delas uma mente tranqila, pois a impacincia agita a mente e traz consigo as conhecidas enfermidades decorrentes da ansiedade do mundo moderno dos negcios. A pacincia tolera em silncio - essa qualidade que faz com que ela seja to valiosa no treinamento mental e particularmente na meditao. No h motivo para esperar a iluminao instantnea depois de cinco minutos de prtica. O caf pode ser instantneo, mas a meditao no e s haver dano ao tentar apress-la. Ao longo dos anos o lixo foi se acumulando, uma pilha enorme de lixo mental, e ento quando algum comea a remov-lo com uma pequena colher de ch, com que rapidez pode-se esperar que ele ir desaparecer? A pacincia a resposta acompanhada pela energia decidida. O meditador paciente realmente obtm resultados duradouros; aquele que busca "mtodos rpidos" ou "iluminao instantnea" est condenado por sua prpria atitude a um grande desapontamento. De fato, em pouco tempo deve ficar claro para qualquer um que investigue o Dhamma, que esses ensinamentos no servem para as pessoas impacientes. Um Budista enxerga a sua vida atual como algo breve, talvez com uma durao de oitenta anos, mais ou menos, e a ltima das inmeras vidas vividas at agora. Tendo isto em mente, ele determina fazer o mximo que possa nesta vida para alcanar a Iluminao. Mas ele no superestima a sua capacidade; ele calmamente e pacientemente segue vivendo o Dhamma no dia a dia. Precipitar-se em direo Iluminao (ou quilo que a pessoa pensa ser), como um touro em uma loja de cristais, ele no ir fazer muito progresso, isto , exceto se a pessoa for de uma natureza excepcional que seja capaz de suportar esse tipo de tratamento e, o mais importante, que seja dedicada a um mestre de meditao bastante habilidoso. Com pacincia a pessoa no ir se magoar, mas ir seguir pelo caminho de maneira cuidadosa, passo a passo. Aprendemos que um Bodisatva est bem consciente disso e que ele cultiva a sua mente com essa perfeio de forma que ele no seja perturbado por nenhuma das ocorrncias desagradveis comuns neste mundo. Ele decide que ser paciente com as condies externas - no se perturbando se o sol estiver demasiado quente ou o clima demasiado frio. Ele no ficar agitado se outros seres atacarem o seu corpo, tal como insetos e mosquitos. Nem ficar perturbado quando as pessoas disserem palavras grosseiras, mentiras ou insultos a seu respeito, quer seja diretamente ou pelas costas. A sua pacincia no se abala nem mesmo quando o seu corpo for submetido ao sofrimento, golpes, paus e pedras, torturas e at mesmo a prpria morte; ele ir suportar tudo isso firmemente, to inabalvel a sua pacincia. Aos monges Budistas se recomenda praticar da mesma forma.

Na tradio Budista a perfeio da pacincia particularmente mais conhecida do que as outras. Isso se deve ao exemplo dado em uma extraordinria Histria de Nascimento (Jataka). A Histria do Nascimento de Khantivadi (O Mestre da Pacincia)[2] deve ser lida com freqncia e ser objeto de profunda e freqente reflexo. Somente uma pessoa excepcionalmente nobre, neste caso Gotama, em uma das suas vidas anteriores, quando ele era chamado de o Mestre da Pacincia, chegou a exortar um monarca enraivecido e bbado que devido sua raiva enciumada vagarosamente esquartejava o seu corpo. O Bodisatva possua esse tipo de nobreza e essa nobreza, tolerncia constante e benevolncia, exigida de todos que tentam alcanar o objetivo da Iluminao.

 


 

A Energia e o seu Aperfeioamento
(Viriya-parami)

Assim como inconcebvel a Iluminao se a pessoa no tiver pacincia, a Iluminao tambm no pode ser alcanada sem esforo. O Dhamma nunca encoraja a doutrina do fatalismo e os verdadeiros Budistas nunca pensam que os eventos sejam rigidamente predeterminados. Esse tipo de fatalismo combatido pela prpria ateno plena e pela prpria energia. Esta perfeio a contrapartida da anterior e equilibrada pela prtica, ambas asseguram que o Budista sincero nem aceitar passivamente aquilo que ele deve combater, nem se precipitar perturbando a si mesmo e aos outros quando ele deveria ter pacincia. Deveria ser mencionado aqui, como aviso, que no mundo Budista podem ser encontrados um grande nmero de "mtodos" que aparentam prometer as riquezas do Dhamma num piscar de olhos. A pessoa ouve comentrios do tipo, "Qual a utilidade de livros e estudo?" Ou mesmo, "O desenvolvimento da concentrao uma perda de tempo! A pessoa deveria apenas praticar vipassana." Esse tipo de abordagem tendenciosa no reflete a sabedoria do Buda, que sempre ensinava a necessidade de um desenvolvimento equilibrado da mente. Livros e o seu estudo so teis para algumas pessoas que desejam obter uma boa base daquilo que o Buda realmente disse, antes de adotar uma prtica mais intensiva. Quanto outra afirmao, nenhum insight verdadeiro (apenas idias deludidas) iro surgir na pessoa cuja mente no experimenta a concentrao. Idias como essas, que usualmente esto baseadas em alguma experincia peculiar dos "mestres" que as originam, so capazes de enganar a muitos, j que o desejo por resultados rpidos, combinado com a antipatia pelo trabalho duro necessrio, so facilmente estimulados. Tem que haver pacincia para aceitar que as condies requeridas para obter sucesso na meditao (tal como descrito aqui) tm que ser satisfeitas e que o nico resultado, se assim no for feito, ser desviar-se do Caminho. O meditador se dedica com firmeza a qualquer tarefa que tenha que desempenhar e ao conclu-la, no se sente cansado mas imediatamente toma um novo objetivo.

Com respeito a isso, interessante que h dois tipos de cansao: aquele relativo exausto fsica e o outro tipo que induzido mentalmente e que envolve os fatores inbeis e prejudiciais da preguia e do torpor. Enquanto que o primeiro obviamente inevitvel, o ltimo ocorre apenas quando a raiz inbil e prejudicial da deluso (ou embotamento) se torna predominante na mente. Isso ocorre quando h uma situao que desagradvel para "mim", no desejada e da qual "eu" quero escapar. As pessoas se queixam que ficam muito mais cansadas ao praticar meditao sentada intensamente do que quando por exemplo se dedicam a uma leitura pesada. Quando o eu se sente ameaado por um evento que poder revel-lo, ento esse eu, enraizado na ignorncia, cria uma densa nvoa de torpor que tem sua origem na deluso. Por outro lado, muitos que tm praticado muita meditao observam que j no precisam dormir tanto quanto antes, enquanto que a energia, quando se torna uma perfeio tal como praticada pelo Bodisatva, totalmente natural e no forada.

Esta perfeio ilustrada pela histria do lder de uma caravana que salvou os mercadores, homens e animais confiados ao seus cuidados, atravs da ao vigorosa. Quando outros teriam se entregado morte, j que a caravana havia tomado um caminho errado no deserto e todos os suprimentos estavam exauridos, o lder forou um deles a que cavasse em busca de gua, que foi encontrada. Dessa forma, em uma vida passada Gotama, como o lder da caravana, fez esforo no somente pela sua prpria vida mas tambm pelo bem estar dos outros. Os monges tambm so chamados de "lderes de caravana" em muitos textos das escrituras em Pali, mostrando que no somente o Buda ou um Bodisatva que capaz de guiar outros. Se conduzirmos o nosso treinamento com energia ento ns tambm teremos energia para o progresso dos outros. Muitas outras histrias como essa podem ser encontradas nos textos Budistas mostrando o quo necessria a energia, da qual nascem a persistncia e a determinao para ver aquilo que verdadeiramente real, Nibbana.

 


 

A Concentrao e o seu Aperfeioamento
(Samadhi-parami)

Tomando em conta os significados dessa palavra em conjunto com outros termos especializados como desenvolvimento da mente (bhavana), absores (jhana), insight (vipassana), unicidade da mente em um s ponto (ekaggata) e exerccio de meditao (kammatthana), poderemos agora examinar o que constitui a concentrao perfeita. O que distingue particularmente a boa prtica Budista, quer seja de um Bodisatva ou no, daquela de um meditador comum, (de qualquer religio), que este ltimo ir muito provavelmente se apegar firmemente aos prazeres que ocorrem nos nveis superiores do reino da esfera sensual, ou aos puros prazeres do reino da matria sutil e, como resultado, ir renascer em um desses estados divinos. Se uma pessoa se deixar aprisionar em um desses destinos, onde os prazeres e alegrias so muitos e os sofrimentos mnimos, ento improvvel que ela venha ser capaz de gerar a energia necessria para o aperfeioamento da sabedoria. Por isso, o bom meditador se torna proficiente nas absores, (de forma que ele possa penetr-las quando quiser e emergir quando quiser), sem no entanto apegar-se a elas. Mas deve-se notar que isso se aplica apenas ao meditador habilidoso que j conquistou as absores. Se algum ainda no alcanou esses nveis, ento a aspirao ardente, no o desapego, ser a atitude correta.

Depois que essas absores tenham sido alcanadas, elas podem ser examinadas como impermanentes, insatisfatrias e desprovidas de um eu ou alma, (aniccam, dukkham, anatta), nesse momento o desapego em relao s absores ir surgir naturalmente e o insight, (vipassana), ser experimentado. As absores, (e os poderes que podem surgir em conexo com elas), so portanto, no mtodo Budista de treinamento, nunca um fim em si mesmas mas so sempre usadas para promover o insight e a sabedoria que surgem quando a mente concentrada toma a tarefa de examinar a mente e o corpo para conhecer de forma completa as suas caractersticas.

Uma histria que exprime o significado desta perfeio a vida de Kuddalamuni. O seu nome significa o sbio do Alvio e ele era assim chamado devido dificuldade que tinha para livrar-se do seu apego ao seu alvio. Em muitas ocasies ao deixar a sua casa com a inteno de meditar na floresta, ele era arrastado de volta pela memria do seu alvio e da sua antiga ocupao de agricultor. Um dia, refletindo acerca da inconstncia com a qual ele se dedicava meditao, ele tomou o seu alvio e girando-o sobre a sua cabea o arremessou nas profundezas do Ganges. Tendo feito isso, ele explodiu com um grande grito de alegria. O raj local, que estava passando por ali com o seu exrcito, enviou um homem para investigar porque aquele agricultor estava to feliz, o sbio replicou relatando a sua experincia. O raj e muitos outros ficaram muito impressionados com a resposta e alguns o seguiram para se dedicar vida meditativa na floresta, depois do que, nos contam, todos faleceram para experimentar a vida no reino da matria sutil. O sbio do alvio que no era outro que Gotama em uma vida passada, exibindo um outro aspecto da perfeio da meditao: a habilidade para treinar outros na meditao aps ele mesmo ter obtido proficincia nela.

Por fim, podemos acrescentar algumas notas resumidas sobre alguns dos perigos da prtica de meditao.

 


 

Perigos na Meditao

Enquanto a quantidade de formas que podem fazer com que um meditador se desvie do caminho so muitas, as mencionadas abaixo merecem ateno especial devido sua ocorrncia frequente. Primeiro, um perigo que nunca demais enfatizar a falta da motivao correta para a prtica de meditao. Ao descrever o Nobre Caminho ctuplo, na sua seo de "sabedoria", imediatamente em seguida ao entendimento (inicialmente) intelectual correto, vem a motivao (ou pensamento) correta, dessa forma enfatizando que as razes emocionais por trs da prtica do Caminho devem ser hbeis: aquelas conectadas com a renncia (ausncia de cobia), amor bondade (ausncia de raiva) e no violncia so mencionadas. Se algum comear a praticar a meditao Budista sem o entendimento correto de dukkha e a sua cessao e sem a motivao correta, ento a meditao estar sujeita a seguir por caminhos completamente errados.

Existem aqueles, por exemplo, que iniciaram a prtica de meditao como forma de obter poderes, para que pudessem facilmente influenciar ou hipnotizar os discpulos. Outros a viram como uma maneira rpida de obter tanto discpulos como riquezas. A fama tambm pode ser um motivo torpe. Tudo isso tomado como motivao para a meditao, pode facilmente conduzir aquele que descuidado enfermidade e s vezes ao desequilbrio mental. No existe nada pior na meditao Budista, onde a prpria experincia pessoal de suma importncia, do que um discpulo cru que se apresenta como um mestre.

Isto obviamente conduz a um outro tipo de perigo - o orgulho, do qual existem vrias formas. Uma delas o orgulho da pessoa que viu manifestaes de luz durante a meditao e supe que esse seja um sinal que antecede a absoro mental. Depois existe o orgulho daquele que toca uma absoro mental apenas por um instante e como resultado assume que se tornou um dos Nobres e isso pode ser um poderoso fator para convencer a si mesmo e at mesmo aos outros. Pessoas comuns que se dedicam meditao devem tomar cuidado com atitudes de exibio de virtudes superiores: "Eu fao o esforo, enquanto que voc" ou, "Eu medito todos os dias, enquanto que voc" O orgulho um grande obstculo a qualquer progresso e na medida que somente um Buda ou Arahant est totalmente livre disso, cada um deveria ter a ateno plena para manter o orgulho sob controle.

Relacionado a isso, existe o perigo para aquela pessoa que sempre est procura do chamado progresso. Ela est segura que est fazendo "progresso" porque na meditao ela v luzes, ouve sons, ou sente sensaes estranhas. Ela se torna cada vez mais fascinada por essas ocorrncias medida que o tempo passa e gradualmente se esquece de que comeou com a aspirao de encontrar o caminho para a Iluminao. A sua "meditao" ento degenera para vises e ocorrncias estranhas, conduzindo-a para as esferas do ocultismo e da magia. No existe maneira mais segura do que esta para um meditador ficar confuso. A despeito de que tais manifestaes possam ser fascinantes, elas devem ser eliminadas com vigor lanando-se mo da ateno plena, nunca permitindo que o pensamento discursivo a seu respeito surja e assim evitando essas distraes.

Entre as "vises" que podem ocorrer, quer sejam internas (produzidas pela prpria mente) ou externas (produzidas por outros seres), alguns meditadores podem ter uma experincia atemorizante, tal como uma viso do prprio corpo reduzido a ossos ou inchado como um cadver em decomposio. Se ocorrer uma experincia dessas, ou outras semelhantes, a pessoa deve arrancar a mente da viso imediatamente, na hiptese de que ela no possua um mestre. Vises atemorizantes que algumas pessoa experimentam podem ser muito teis se utilizadas da forma correta, mas sem a orientao de um mestre elas devem ser evitadas.

Um outro perigo tentar meditar enquanto a pessoa ainda est insegura emocionalmente, desequilibrada ou imatura. Compreender o valor de aes meritrias ou habilidosas pode ser muito til nesses casos. Como o mrito purifica a mente, uma base excelente para o desenvolvimento da mente e, ambos, a facilidade com que as absores so alcanadas e a facilidade com que o insight surge esto at certo ponto na dependncia do mrito. Aes meritrias no so difceis de serem encontradas na vida. Elas so o ncleo da boa vida Budista: donativos e generosidade, seguir os preceitos, ajudar e prestar servios aos outros, reverncia, ouvir o Dhamma de todo corao, fazer com que o entendimento do Dhamma seja correto, todas essas e muitas outras so aes meritrias que trazem a felicidade e maturidade emocional. O Mrito, a pessoa deve se lembrar sempre, abre portas em todos os lugares. Cria possibilidades, gera oportunidades. Ter uma mente que est todo o tempo focada em realizar mrito ter uma mente que poder ser treinada no desenvolvimento das absores e do insight.

Obviamente que tentar praticar a meditao e ao mesmo tempo continuar mantendo os antigos desejos, gostos e desgostos, , no mnimo, dificultar o caminho, se no torn-lo perigoso. A meditao implica em renncia, e nenhuma prtica ter xito a no ser que a pessoa esteja, no mnimo, preparada para fazer esforos para refrear a cobia e a raiva, controlar a luxria e entender quando a deluso estiver obscurecendo o corao. At que ponto a renncia adotada e se isso envolve mudanas externas (tal como tornar-se um monge ou monja), depende muito da pessoa e das suas circunstncias, mas uma coisa certa: a renncia interna, caracterizada pela atitude de desistncia dos eventos mentais inbeis e prejudiciais e da entrega aos prazeres corporais, so absolutamente essenciais.

Com freqncia, conectado aos perigos acima, existe um outro que encontrado quando uma pessoa, repentinamente, tem uma oportunidade para se dedicar a um perodo mais longo de meditao. Ela senta com uma firme resoluo, "Agora irei meditar", e apesar da sua energia nunca ter estado to boa e apesar de ela sentar e sentar, caminhar e caminhar, ainda assim a sua mente continua perturbada e sem paz. Pode muito bem ser que o seu intenso esforo tenha muito a ver com as suas distraes. Alm disso, ela tem que aprender que necessrio meditar conhecendo as limitaes do seu carter. Da mesma forma como um trabalhador conhece os limites da sua fora e toma cuidado para no se exaurir, o mesmo cuidado possui o meditador habilidoso. Atravs da ateno plena a pessoa deve saber quais so os extremos da preguia e do esforo que devem ser evitados.

provocando tenso ou forando a prtica da meditao que muitos estados emocionais perturbados surgem. Exploses repentinas de raiva intensa por questes insignificantes, desejos e luxria intensos, deluses estranhas e fantasias ainda mais peculiares podem ser produzidas pela prtica rdua sem inteligncia.

Com todos esses perigos, o que mais se necessita um mestre para dar conselhos, de forma que essas e outras direes erradas sejam evitadas e a pessoa se mantenha no caminho para Nibbana. Aqueles que no possuem um mestre deveriam prosseguir com o mximo de cautela, assegurando que o desenvolvimento da ateno plena seja realmente muito bom. Se tiverem ateno plena e virem que apesar dos seus esforos, a sua prtica de meditao no est produzindo nenhuma diferena efetiva nas suas vidas em termos de uma maior paz interior, ou externamente em relao aos outros, ento evidente que algo est errado. A meditao pode ser deixada de lado durante algum tempo enquanto se faz um esforo para contactar uma fonte de informao genuna, de preferncia um mestre de meditao, enquanto isso, deve-se atentar para problemas morais no resolvidos, pois at que eles sejam solucionados no permitiro que a mente se desenvolva; e fazer um grande esforo para viver de acordo com os padres Budistas. Quando assuntos to bsicos desse tipo so negligenciados, a pessoa no pode esperar realizar muito progresso na prtica do Caminho do Meio.

 


 

Apndice
40 Exerccios de Meditao
conforme relacionado no Caminho da Purificao (Visuddhimagga)

Se a pessoa no tem um mestre de meditao de quem possa solicitar um objeto de meditao, ento ela ter que contar com o seu prprio conhecimento sobre o seu carter para prescrever uma meditao adequada para si mesma. Existem quarenta exerccios de meditao (kammatthana) registrados pelo eminente mestre Buddhaghosa como sendo adequados para certos tipos de carter. Para efeitos de meditao, ele considera seis tipos de carter: fiis, inteligentes e especulativos (aqueles em que as razes hbeis e benficas da ausncia de cobia, ausncia de raiva e no deluso so dominantes de formas variadas); e cobiosos, raivosos e deludidos (em que as razes inbeis e prejudiciais da cobia, raiva e deluso so dominantes). Existem dois problemas com essa classificao: primeiro, tipos "puros" so raramente encontrados, sendo que a maioria das pessoas so mesclas de dois ou mais tipos - e alm disso uma mescla em constante mutao; e segundo, particularmente difcil julgar a qual classe pertence o carter de uma pessoa j que a sua deluso e o orgulho so capazes de nublar a sua capacidade de julgamento. Esse um assunto aparentemente sem importncia no qual o valor de um mestre de meditao pode ser enxergado com facilidade. No entanto, a pessoa pode aprender muito sobre si mesma, ao estar plenamente atenta no momento em que algum evento inesperado ocorra. Nesse momento a pessoa pode identificar a sua reao e as contaminaes que esto presentes na mente. Julgamentos subseqentes no valem muito j que nesse momento a mente j estar convencida com as suas prprias justificativas e outros tipos de distores acerca do evento original.

Abaixo encontra-se a lista dos quarenta exerccios de meditao com algumas notas sobre a sua prtica, os tipos de carter que se beneficiam e os tipos de contaminaes que so combatidas por cada um. Os exerccios de meditao usados com mais freqncia esto indicados com um asterisco (*).

Dez Kasinas (esferas, lit: totalidades)

1. terra
2. gua
3. fogo
4. ar
5. azul
6. amarelo
7. vermelho
8. branco
9. luz *
10. Espao limitado

5-8 recomendados para a prtica de personalidades enraivecidas devido s suas cores puras e agradveis.

Exceto pelos itens 5-8, nenhuma mcula moral em particular contraposta por estas dez kasinas. Como elas devem ser desenvolvidas atravs do olho, elas no so adequadas para quem tenha a viso dbil (de acordo com Buddhaghosa).

A nica das dez kasinas que parece ser muito praticada atualmente a kasina da luz, que algumas pessoas descobrem surgir com bastante naturalidade ao comear concentrar a mente. Apesar de que as explicaes de Acariya Buddhaghosa no Caminho da Purificao tendem a enfatizar a importncia de se usar recursos externos para a prtica (como fazer a kasina da terra descrito em grande detalhe), sempre que o autor ouviu sobre o seu emprego (na Tailndia), elas foram sempre sob a forma de vises (nimitta) que surgem internamente e so desenvolvidas a partir dessa base. Parece que a contemplao de uma kasina externa desconhecida na Tailndia.

Dez Tipos de Objetos Repulsivos (asubha)

11. O (cadver) inchado contrapondo o deleite com a beleza das propores
12. O lvido ... beleza das complexes
13. O supurado ... odores e perfumes
14. O esquartejado ... totalidade ou solidez
15. O consumido ... corpo bem provido de carnes
16. O disperso ... graa dos membros
17. O picado e disperso ... graa do corpo como um todo
18. O sangrento ... ornamentos e jias
19. O infestado pelos vermes ... posse do corpo
20. O esqueleto ... ter ossos e dentes belos

11-20 recomendados para personalidades cobiosas.

Estas e outras listas semelhantes no Satipatthana Sutta refletem uma poca em que era comum se desfazer dos cadveres em cemitrios a cu aberto. Agora, no entanto, mesmo nos pases Budistas eles so difceis de ser encontrados, sem falar nos pases do Ocidente. Atualmente, na Tailndia, os mestres enfatizam que o prprio corpo deve ser visto dessas formas, como uma viso (nimitta), durante o processo de desenvolvimento da mente. Como essas vises podem ser atemorizantes, a pessoa deve ter a orientao de um mestre hbil para lidar com tais vises, quando ento elas podero ser de grande benefcio. Deve ser enfatizado aqui que no existe nada de mrbido na contemplao de vises como essas, interiores ou exteriores. A decomposio do corpo algo natural, mas normalmente no visto assim porque as pessoas no gostam de admitir isso. Ao invs de encarar a decomposio do corpo e mostr-la abertamente, os cadveres so at mesmo preparados para parecerem atrativos por embalsamadores e maquiadores e quando isso no pode ser feito, eles so arrumados em bonitos caixes com flores resplandecentes, etc. O treinamento Budista faz com que a pessoa olhe diretamente para esses aspectos da vida que normalmente (isto , com cobia) no so considerados "bons", e faz com que a pessoa calmamente os encare em relao sua prpria mente e corpo.

Dez Recordaes (anussati)

21. sobre o Buda *
22. " o Dhamma
23. " a Sangha
24. " virtude (sila) ..... {contrape a contaminao (kilesa) da m conduta (duccarita)}
25. " generosidade ..... {contrape a mesquinhez (macchariya)}
26. " celestiais ..... {contrape a dvida (vicikiccha)}
27. " morte ..... {contrape a preguia}
28. " corpo * ..... {contrape a cobia e a sensualidade (kama-raga)}
29. " respirao * ..... {contrape a deluso, preocupao}
30. " paz ..... {contrape a perturbao}

21-26 recomendado para os tipos de personalidade baseadas na f
27 " " personalidades inteligentes
28 " " personalidades cobiosas
29 " " personalidades deludidas/especulativas
30 " " personalidades inteligentes

Este grupo de dez possui caractersticas mais variadas do que os dois grupos anteriores. Ao praticar as trs primeiras recordaes (21-23) a pessoa recita as listas das qualidades de cada um. Ou, se a mente no ficar concentrada dessa forma, a pessoa escolhe uma qualidade em particular para recit-la silenciosamente e continuamente (tal como "Buddho" ou "Araham"). Rosrios so usados em alguns lugares em conexo com este tipo de prtica. As recordaes sobre virtude e generosidade so particularmente boas de serem cultivadas durante a velhice. A pessoa rev todas as aes meritrias (pua) praticadas ao longo da vida e ao record-las a mente fica tranqila e satisfeita, e tendo esse estado mental no momento da morte ir assegurar um renascimento em condies muito favorveis. A menos que tenha visto algum, a pessoa somente poder refletir sobre seres celestiais (deva) baseado na sua fama. Este tipo de prtica adequada para aquelas pessoas que incrementaram o alcance das suas mentes e dessa forma fizeram contato com outros seres mais sutis. A recordao sobre a morte pode ser feita por personalidades inteligentes j que elas no ficaro atemorizadas pelas possibilidades que este tipo de prtica revela. um grande incentivo praticar agora sabendo que no existe certeza se daqui a um segundo a pessoa ainda estar viva. A recordao vinte oito - sobre o corpo - para personalidades cobiosas, que precisam desenvolver desapego em relao ao corpo. Isto alcanado atravs da anlise do corpo em trinta e duas partes desprovidas de beleza e depois atravs da seleo de uma ou mais dessas partes e o seu exame. No entanto, esta prtica atinge a sua perfeio quando atravs do insight o corpo iluminado e os seus vrios componentes so vistos com clareza e a sua natureza compreendida. A ateno plena na respirao recomendada para acalmar e aclarar a mente e pessoas de quase todos os tipos de temperamento podem pratic-la com benefcio, embora muito cuidado seja necessrio nos nveis mais sutis desse exerccio. A respirao nunca forada mas observada constantemente com ateno plena, sendo que o ponto para a concentrao em geral a ponta do nariz ou narinas. No entanto existem variaes entre mestres distintos. A recordao sobre a paz, diz o grande Acariya, somente beneficia quem j experimentou Nibbana, tal como aqueles que j entraram na correnteza (sotapanna); mas outras pessoas podem obter alguma calma atravs da recordao da tranqilidade. A paz mencionada nesse caso na verdade Nibbana, e como uma pessoa no pode se recordar daquilo que no conheceu, que o caso de uma pessoa mundana (puthujjana), esta uma prtica para os Nobres (ariya).

Quatro Moradas Divinas (Brahma-vihara)

31. amor bondade * ..... {contrape a impureza da raiva, m vontade}
32. compaixo ..... {contrape a indiferena insensvel}
33. alegria altrusta ..... {contrape a inveja}
34. equanimidade ..... {contrape a preocupao}

31 recomendado para personalidades enraivecidas

Quatro Estados sem forma (arupa-bhava)

35. esfera do espao infinito
36. " " conscincia infinita
37. " " nada
38. " " nem percepo, nem no percepo

Estas absores sem forma no podem ser desenvolvidas exceto se as quatro absores da forma j tiverem sido aperfeioadas. Diz-se que este grupo de quatro pode ser explorado com base na quarta absoro (jhana). Como existe a possibilidade de que muito poucas pessoas experimentem isto, seguimos adiante para:

Percepo do aspecto repulsivo da Comida

39. Enquanto isto essencial para o bhikkhu que depende de alimentos esmolados (que algumas vezes so bons outras no), as pessoas leigas tambm podem se beneficiar com esta prtica, que Acariya Buddhaghosa observou ser para personalidades inteligentes, e que est projetada para diminuir e conduzir destruio da cobia e da gula.

Definio dos Quatro Grandes Elementos

40. Eles so a terra (solidez), gua (coeso), fogo (temperatura), e ar (movimento), os quais caracterizam os nossos corpos fsicos. Esses elementos podem ser percebidos atravs de uma anlise baseada no uso da ateno plena. Se diz que esta prtica particularmente aconselhada para as personalidades inteligentes.

Aquelas prticas que no fazem meno a um tipo de personalidade so adequadas para todas. Como todas essas prticas possuem como objetivo o enfraquecimento e por fim a destruio das contaminaes (kilesa), a pessoa pode avaliar o quo importantes elas so consideradas no treinamento Budista. Onde as contaminaes so encontradas, ali a penumbra da ignorncia tem domnio, mas onde elas no so encontradas, ali brilha a sabedoria e compaixo da Iluminao.

 


 

Notas:

1. A tradio de "manter o lado direito em direo" a pessoas e objetos honrados possui uma base psicolgica. [Retorna]

2. Jataka No. 33. [Retorna]

 

 

Revisado: 9 Fevereiro 2013

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