Samyutta Nikaya XXXV.116

Lokantagamana Sutta

O Fim do Mundo

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“Bhikkhus, eu digo que o fim do mundo não pode ser conhecido, visto ou alcançado viajando. No entanto, bhikkhus, eu também digo que sem alcançar o fim do mundo não há como realizar o fim do sofrimento.” [1]

Tendo dito isso, o Abençoado se levantou do seu assento e foi para a sua moradia. Então, pouco tempo depois do Abençoado haver partido, os bhikkhus consideraram: “Agora, amigos, o Abençoado levantou-se do seu assento e foi para a sua moradia depois de expor um resumo sem explicar o seu significado em detalhe. Agora, quem irá explicar o significado em detalhe?” Então eles consideraram: “O venerável Ananda é elogiado pelo Mestre e estimado pelos seus sábios companheiros da vida santa. Ele é capaz de explicar o significado em detalhe. E se fôssemos até ele e pedíssemos a explicação do significado disso.”

Então,os bhikkhus foram até o venerável Ananda e o cumprimentaram. Quando a conversa cortês e amigável havia terminado, eles sentaram a um lado e contaram o que havia acontecido, adicionando: "Que o venerável Ananda nos explique isso."

[O Venerável Ananda respondeu:] “Amigos, é como se um homem que precisa de madeira, procurasse madeira, perambulasse em busca de madeira, pensasse que a madeira deveria ser procurada entre os galhos e as folhas de uma grande árvore que possui madeira, depois de haver passado por cima da sua raiz e tronco. O mesmo ocorre com vocês, veneráveis senhores, que pensam que eu deva ser perguntado sobre o significado disso, depois de terem passado pelo Abençoado, estando cara a cara com o Mestre. Pois, conhecer, o Abençoado conhece; ver, ele vê; ele é visão, ele é conhecimento, ele é o Dhamma, ele é o sagrado; ele é o que diz, o que proclama, o que elucida o significado, o que provê o imortal, o senhor do Dhamma, o Tathagata. Aquele foi o momento em que vocês deveriam ter perguntado ao Abençoado o significado. O que ele dissesse vocês deveriam se lembrar.”

“Certamente, amigo Ananda, conhecer, o Abençoado conhece; ver, ele vê; ele é visão … o Tathagata. Aquele foi o momento em que deveríamos ter perguntado ao Abençoado o significado. O que ele nos dissesse nós deveríamos nos lembrar. No entanto, o venerável Ananda é elogiado pelo Mestre e estimado pelos seus sábios companheiros da vida santa. O venerável Ananda é capaz de expor o significado, em detalhe, desse resumo dito pelo Abençoado. Que o venerável Ananda possa expor isso, sem que isso seja um problema.”

“Então, amigos, ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer." - "Sim, amigo," os bhikkhus responderam. O venerável Ananda disse o seguinte:

“Amigos, quando o Abençoado se levantou do seu assento e foi para a sua moradia depois de expor um resumo sem explicar o seu significado em detalhe, isto é: ‘Bhikkhus, eu digo que o fim do mundo não pode ser conhecido, visto ou alcançado viajando. No entanto, bhikkhus, eu também digo que sem alcançar o fim do mundo não há como realizar o fim do sofrimento,’ eu entendo que o significado em detalhe é o seguinte: Aquilo no mundo através do qual alguém percebe o mundo, concebe o mundo – isso é chamado de mundo na Disciplina dos Nobres. E o que, amigos, é aquilo no mundo através do qual alguém percebe o mundo, concebe o mundo? O olho é aquilo no mundo através do qual alguém percebe o mundo, concebe o mundo. [2] O ouvido ... O nariz ... A língua ... O corpo ... A mente é aquilo no mundo através do qual alguém percebe o mundo, concebe o mundo. Aquilo no mundo através do qual alguém percebe o mundo, concebe o mundo – isso é chamado de mundo na Disciplina dos Nobres.

“Amigos, quando o Abençoado se levantou do seu assento e foi para a sua moradia depois de expor um resumo sem explicar o seu significado em detalhe, isto é: ‘Bhikkhus, eu digo que o fim do mundo não pode ser conhecido, visto ou alcançado viajando. No entanto, bhikkhus, eu também digo que sem alcançar o fim do mundo não há como realizar o fim do sofrimento,’ é assim como eu entendo o significado em detalhe. Agora, amigos, se vocês quiserem, podem ir até o Abençoado perguntar-lhe qual o significado disso. Exatamente aquilo que o Abençoado explicar é o que vocês deverão se lembrar.”

Então, os bhikkhus, tendo se alegrado e se deliciado com as palavras do venerável Ananda, levantaram-se dos seus assentos e foram até o Abençoado. Após homenageá-lo, eles sentaram a um lado e relataram ao Abençoado aquilo que havia ocorrido depois que ele havia partido, adicionando o seguinte: “Então, venerável senhor, fomos até o venerável Ananda e perguntamos a ele sobre o significado. O venerável Ananda nos explicou o significado com estes termos, afirmações e frases.”

“Ananda é sábio, bhikkhus, Ananda possui muita sabedoria. Se vocês me tivessem perguntado o significado, eu teria explicado do mesmo modo que Ananda explicou. Esse é o significado e é assim como vocês deverão se lembrar.”

 

 


 

Notas:

[1] Veja também o SN II.26. [Retorna]

[2] Com relação às seis bases dos sentidos como “o mundo” sob a perspectiva da desintegração, veja o SN XXXV.82. Neste caso as bases são chamadas de mundo porque elas são as condições para que alguém possa perceber e conceber o mundo. Podemos conjecturar que as cinco bases físicas têm proeminência na fabricação da percepção do mundo, sendo que a base da mente tem um papel de destaque na concepção do mundo. Essa distinção não é, no entanto, feita no texto. As seis bases dos sentidos são ao mesmo tempo parte do mundo (“aquilo no mundo”) e o meio para a manifestação do mundo (“aquilo através do qual”). O fim do mundo, que tem que ser alcançado para dar um fim ao sofrimento, é Nibbana, que dentre outras coisas recebe a descrição de cessação das seis bases dos sentidos. [Retorna]

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Revisado: 4 Dezembro 2004

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