Majjhima Nikaya 39

Maha-Assapura Sutta

O Grande Discurso em Assapura

Somente para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser impresso para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser re-formatado e distribuído para uso em computadores e redes de computadores
contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuição ou uso.
De outra forma todos os direitos estão reservados.

 


1. Assim ouvi. Em certa ocasião o Abençoado estava em Anga numa cidade chamada Assapura. Lá ele se dirigiu aos monges desta forma: “Bhikkhus”. – “Venerável Senhor,” eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:

2. “’Contemplativos, contemplativos,’ bhikkhus, assim é como as pessoas os percebem. E quando vocês são perguntados, ‘O que vocês são?’, vocês afirmam que são contemplativos. Visto que assim é como vocês são chamados e o que vocês afirmam ser, vocês deveriam treinar da seguinte forma: Nós realizaremos e praticaremos aquelas coisas que fazem de alguém um contemplativo, que fazem de alguém um brâmane, [1] de tal modo que a nossa designação seja verdadeira e a nossa afirmação genuína e de forma que a generosidade daqueles cujos mantos, comida esmolada, moradia e medicamentos nós utilizamos, lhes tragam grandes frutos e benefícios, para que a nossa vida santa não seja em vão, mas frutífera e fértil.’

(Conduta e Modo de Vida)

3. “E o que, bhikkhus, são as coisas que fazem de alguém um contemplativo, que fazem de alguém um brâmane? Bhikkhus, vocês deveriam treinar da seguinte forma: ‘Nós estaremos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões.’ [2] Agora, bhikkhus, vocês poderiam pensar assim: ‘Nós estamos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões. Esse tanto é o bastante, esse tanto foi feito, o objetivo de um contemplativo foi alcançado, não há mais nada que devamos fazer’; e vocês descansarão satisfeitos com esse tanto. Bhikkhus, eu lhes informo, eu lhes declaro: Vocês que buscam o status de um contemplativo, não fiquem aquém do objetivo da contemplação quando há mais a ser feito. [3]

4. “Que mais há para ser feito? Bhikkhus, vocês deveriam treinar da seguinte forma: ‘Nossa conduta corporal será purificada, límpida e visível, impecável e contida, e nós não elogiaremos a nós mesmos e criticaremos os outros por conta dessa conduta corporal purificada.’ Agora, bhikkhus, vocês poderiam pensar assim: ‘Nós estamos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões e a nossa conduta corporal foi purificada. Esse tanto é o bastante, esse tanto foi feito, o objetivo de um contemplativo foi alcançado, não há mais nada que devamos fazer’; e vocês descansarão satisfeitos com esse tanto. Bhikkhus, eu lhes informo, eu lhes declaro: Vocês que buscam o status de um contemplativo, não fiquem aquém do objetivo da contemplação quando há mais a ser feito.

5. “Que mais há para ser feito? Bhikkhus, vocês deveriam treinar da seguinte forma: ‘Nossa conduta verbal será purificada, límpida e visível, impecável e contida, e nós não elogiaremos a nós mesmos e criticaremos os outros por conta dessa conduta verbal purificada.’ Agora, bhikkhus, vocês poderiam pensar assim: ‘Nós estamos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões e a nossa conduta corporal foi purificada e a nossa conduta verbal foi purificada . Esse tanto é o bastante, esse tanto foi feito, o objetivo de um contemplativo foi alcançado, não há mais nada que devamos fazer’; e vocês descansarão satisfeitos com esse tanto. Bhikkhus, eu lhes informo, eu lhes declaro: Vocês que buscam o status de um contemplativo, não fiquem aquém do objetivo da contemplação quando há mais a ser feito.

6. “Que mais há para ser feito? Bhikkhus, vocês deveriam treinar da seguinte forma: ‘Nossa conduta mental será purificada, límpida e visível, impecável e contida, e nós não elogiaremos a nós mesmos e criticaremos os outros por conta dessa conduta mental purificada.’ Agora, bhikkhus, vocês poderiam pensar assim: ‘Nós estamos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões e a nossa conduta corporal foi purificada, a nossa conduta verbal foi purificada e a nossa conduta mental foi purificada . Esse tanto é o bastante...’; e vocês descansarão satisfeitos com esse tanto. Bhikkhus, eu lhes informo, eu lhes declaro: Vocês que buscam o status de um contemplativo, não fiquem aquém do objetivo da contemplação quando há mais a ser feito.

7. “Que mais há para ser feito? Bhikkhus, vocês deveriam treinar da seguinte forma: ‘Nosso modo de vida será purificado, límpido e visível, impecável e contido, e nós não elogiaremos a nós mesmos e criticaremos os outros por conta desse modo de vida purificado.’ Agora, bhikkhus, vocês poderiam pensar assim: ‘Nós estamos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões e a nossa conduta corporal, verbal e mental foram purificadas e o nosso modo de vida foi purificado. Esse tanto é o bastante...’; e vocês descansarão satisfeitos com esse tanto. Bhikkhus, eu lhes informo, eu lhes declaro: Vocês que buscam o status de um contemplativo, não fiquem aquém do objetivo da contemplação quando há mais a ser feito.

(Contenção dos Sentidos)

8. “Que mais há para ser feito? Bhikkhus, vocês deveriam treinar da seguinte forma: ‘Guardaremos as portas dos nossos meios dos sentidos. Ao ver uma forma com o olho, nós não nos agarraremos aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecermos com a faculdade do olho descuidada, seremos tomados pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza. Praticaremos a contenção, protegeremos a faculdade do olho, nos empenharemos na contenção da faculdade do olho. Ao ouvir um som com o ouvido ... Ao cheirar um aroma com o nariz … Ao saborear um sabor com a língua … Ao tocar algo tangível com o corpo … Ao conscientizar um objeto mental com a mente, nós não nos agarraremos aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecermos com a faculdade da mente descuidada, seremos tomados pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza. Praticaremos a contenção, protegeremos a faculdade da mente, nos empenharemos na contenção da faculdade da mente. Agora, bhikkhus, vocês poderiam pensar assim: ‘Nós estamos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões e a nossa conduta corporal, verbal e mental foram purificadas, o nosso modo de vida foi purificado e nós guardamos as portas dos nossos meios dos sentidos. Esse tanto é o bastante ...’; e vocês descansarão satisfeitos com esse tanto. Bhikkhus, eu lhes informo, eu lhes declaro: Vocês que buscam o status de um contemplativo, não fiquem aquém do objetivo da contemplação quando há mais a ser feito.

(Moderação no Comer)

9. “Que mais há para ser feito? Bhikkhus, vocês deveriam treinar da seguinte forma: ‘Seremos moderados no comer. Refletindo de maneira sábia, o alimento não deve ser tomado como forma de diversão ou para embriaguez, tampouco com o objetivo de embelezamento e para ser mais atraente; mas somente com o propósito de manter a resistência e continuidade deste corpo, como forma de dar um fim ao desconforto e para auxiliar a vida santa. Considerando: “Dessa forma darei um fim às antigas sensações (de fome) sem despertar novas sensações (de comida em excesso) e serei saudável e sem culpa e viverei em comodidade.”’ Agora, bhikkhus, vocês poderiam pensar assim: ‘Nós estamos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões e a nossa conduta corporal, verbal e mental foram purificadas, o nosso modo de vida foi purificado, nós guardamos as portas dos nossos meios dos sentidos e somos moderados no comer. Esse tanto é o bastante ...’; e vocês descansarão satisfeitos com esse tanto. Bhikkhus, eu lhes informo, eu lhes declaro: Vocês que buscam o status de um contemplativo, não fiquem aquém do objetivo da contemplação quando há mais a ser feito.

(Vigilância)

10. “Que mais há para ser feito? Bhikkhus, vocês deveriam treinar da seguinte forma: ‘Seremos dedicados à vigilância. Durante o dia, enquanto estivermos caminhando para lá e para cá e sentados, purificaremos a nossa mente dos estados obstrutivos. Na primeira vigília da noite, enquanto estivermos caminhando para lá e para cá e sentados, purificaremos a nossa mente dos estados obstrutivos. Na segunda vigília da noite nos deitaremos para dormir, no nosso lado direito, na postura do leão com um pé sobre o outro, atentos e plenamente conscientes, após anotar na nossa mente o horário para levantar. Após levantar, na terceira vigília da noite, enquanto estivermos caminhando para cá e para lá e sentados, purificaremos a nossa mente dos estados obstrutivos.’ Agora, bhikkhus, vocês poderiam pensar assim: ‘Nós estamos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões e a nossa conduta corporal, verbal e mental foram purificadas, o nosso modo de vida foi purificado, nós guardamos as portas dos nossos meios dos sentidos, somos moderados no comer e somos dedicados à vigilância. Esse tanto é o bastante ...’; e vocês descansarão satisfeitos com esse tanto. Bhikkhus, eu lhes informo, eu lhes declaro: Vocês que buscam o status de um contemplativo, não fiquem aquém do objetivo da contemplação quando há mais a ser feito.

(Atenção Plena e Consciência Plena)

11. “Que mais há para ser feito? Bhikkhus, vocês deveriam treinar da seguinte forma: estaremos possuídos de atenção plena e consciência plena. Agiremos com plena consciência ao ir para a frente e retornar; agiremos com plena consciência ao olhar para frente e desviar o olhar; agiremos com plena consciência ao dobrar e estender os membros; agiremos com plena consciência ao carregar o manto externo, o manto superior, a tigela; agiremos com plena consciência ao comer, beber, mastigar e saborear; agiremos com plena consciência ao urinar e defecar; agiremos com plena consciência ao caminhar, ficar em pé, sentar, dormir, acordar, falar e permanecer em silêncio. Agora, bhikkhus, vocês poderiam pensar assim: ‘Nós estamos possuídos de vergonha de cometer transgressões e temor de cometer transgressões e a nossa conduta corporal, verbal e mental foram purificadas, o nosso modo de vida foi purificado, nós guardamos as portas dos nossos meios dos sentidos, somos moderados no comer, somos dedicados à vigilância e somos possuídos de atenção plena e consciência plena. Esse tanto é o bastante ...’; e vocês descansarão satisfeitos com esse tanto. Bhikkhus, eu lhes informo, eu lhes declaro: Vocês que buscam o status de um contemplativo, não fiquem aquém do objetivo da contemplação quando há mais a ser feito.

(Abandonando os Obstáculos)

12. Que mais há para ser feito? Aqui, bhikkhus, um bhikkhu busca um lugar isolado: na floresta, à sombra de uma árvore, uma montanha, uma ravina, uma caverna em uma encosta, um cemitério, um matagal, um espaço aberto, uma cabana vazia.

13. “Depois de esmolar alimentos, após a refeição, ele senta com as pernas cruzadas, com o corpo ereto colocando a atenção plena à sua frente. Abandonando a cobiça pelo mundo, ele permanece com a mente livre de cobiça; ele purifica a sua mente da cobiça. Abandonando a má vontade, ele permanece com a mente livre de má vontade, com compaixão pelo bem estar de todos os seres vivos; ele purifica a sua mente da má vontade. Abandonando a preguiça e o torpor, ele permanece livre da preguiça e do torpor, perceptivo à luz, atento e plenamente consciente; ele purifica sua mente da preguiça e do torpor. Abandonando a inquietação e a ansiedade, ele permanece calmo com a mente em paz; ele purifica sua mente da inquietação e da ansiedade. Abandonando a dúvida, ele assim permanece tendo superado a dúvida, sem perplexidade em relação a qualidades mentais hábeis; ele purifica a mente da dúvida.

14. “Bhikkhus, "Suponha que um homem, tomando um empréstimo, invista no seu negócio. Os seu negócios vão bem. Ele paga a dívida e sobra algo para sustentar sua esposa. O pensamento lhe ocorreria, ‘Antes, tomei um empréstimo, investi no meu negócio. Agora o meu negócio foi bem. Eu paguei a dívida e sobrou algo para sustentar minha esposa’. Por causa disso ele experimentaria alegria e felicidade. Ou suponha que um homem se enferme – com dores e seriamente doente. Ele não tolera a comida e não há força no seu corpo. Conforme o tempo passa, ele finalmente se recupera dessa enfermidade. Ele tolera a comida e há força no seu corpo. O pensamento lhe ocorreria, ‘Antes, eu estava doente ... Agora estou recuperado daquela doença. Eu tolero a minha comida, há força no meu corpo.’ Por causa disso ele experimentaria alegria e felicidade. Ou suponha que um homem está na prisão. Conforme o tempo passa, ele finalmente é libertado dessa prisão, são e salvo, sem perda de patrimônio. O pensamento lhe ocorreria, ‘Antes, eu estava na prisão. Agora estou livre da prisão, são e salvo, sem perda do meu patrimônio.’ Por causa disso ele experimentaria alegria e felicidade. Ou suponha que um homem é um escravo, sujeito a outros, não sujeito a si mesmo, incapaz de ir aonde queira. Conforme o tempo passa, ele finalmente é libertado daquela escravidão, sujeito a si mesmo, não sujeito a outros, livre, capaz de ir aonde queira. O pensamento lhe ocorreria, ‘Antes, eu era um escravo… Agora estou livre daquela escravidão, sujeito a mim mesmo, não sujeito a outros, livre, capaz de ir aonde queira.’ Por causa disso ele experimentaria alegria e felicidade. Ou suponha que um homem, carregando dinheiro e mercadorias, está viajando por uma estrada numa região desolada. Conforme o tempo passa, ele finalmente emerge daquela região desolada, são e salvo, sem perda de patrimônio. O pensamento lhe ocorreria, ‘Antes, carregando dinheiro e mercadorias, eu estava viajando por uma estrada em uma região desolada. Agora emergi dessa região desolada, são e salvo, sem perda do meu patrimônio.’ Por causa disso ele experimentaria alegria e felicidade. Da mesma forma, quando esses cinco obstáculos não são abandonados por ele, o bhikkhu os considera como uma dívida, uma enfermidade, uma prisão, a escravidão, uma estrada através de uma região desolada. Porém, quando esses cinco obstáculos são abandonados, ele os considera como não ter dívidas, ter boa saúde, estar livre da prisão, estar livre, estar num lugar com segurança. [4]

(Os Quatro Jhanas)

15. “Tendo assim abandonado esses 5 obstáculos, imperfeições da mente que enfraquecem a sabedoria, um bhikkhu, afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. Ele permeia e impregna, cobre e preenche o corpo com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. Não há nada em todo o corpo que não esteja permeado pelo êxtase e felicidade nascidos do afastamento. É como se um banhista habilidoso ou seu aprendiz vertesse pó de banho numa bacia de latão e o misturasse, borrifando com água de tempos em tempos, de forma que essa bola de pó de banho - saturada, carregada de umidade, permeada por dentro e por fora - no entanto não pingasse; assim, o bhikkhu permeia, cobre e preenche o corpo com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento....

16. "E além disso, abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. Ele permeia e impregna, cobre e preenche o corpo com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. Não há nada em todo o corpo que não esteja permeado pelo êxtase e felicidade nascidos da concentração. Como um lago sendo alimentado por uma fonte de água interna, não tendo um fluxo de água do leste, oeste, norte, ou sul, nem os céus periodicamente fornecendo chuvas abundantes, de modo que a fonte de água interna permeia e impregna, cobre e preenche o lago de água fresca, sem que nenhuma parte do lago não esteja permeada pela água fresca; assim também o bhikkhu permeia e impregna, cobre e preenche o corpo com o êxtase e felicidade nascidos da concentração...

17. "E além disso, abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ Ele permeia e impregna, cobre e preenche o corpo com a felicidade despojada do êxtase, de forma que não exista nada em todo o corpo que não esteja permeado com a felicidade despojada do êxtase. Como num lago que tenha flores de lótus azuis, brancas ou vermelhas, podem existir algumas flores de lótus azuis, brancas, ou vermelhas que, nascidas e tendo crescido na água, permanecem imersas na água e florescem sem sair de dentro da água, de forma que elas permanecem permeadas e impregnadas, cobertas e preenchidas com água fresca da raiz até a ponta, e nada dessas flores de lótus azuis, brancas ou vermelhas permanece sem estar permeado pela água fresca; assim também o bhikkhu permeia e impregna, cobre e preenche o corpo com a felicidade despojada de êxtase....

18. "E além disso, com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas. Ele permanece permeando o corpo com a mente pura e luminosa, de forma que não exista nada em todo o corpo que não esteja permeado pela mente pura e luminosa. Como se um homem estivesse enrolado da cabeça aos pés com um tecido branco de forma que não houvesse nenhuma parte do corpo que não estivesse coberta pelo tecido branco; assim também o bhikkhu permanece permeando o corpo com a mente pura e luminosa. Não há nada no corpo que não esteja permeado por essa mente pura e luminosa."

(Os Três Conhecimentos Verdadeiros)

19. "Com a sua mente dessa forma concentrada, purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexível, maleável, estável e atingindo a imperturbabilidade, ele a dirige para o conhecimento da recordação de vidas passadas. Ele se recorda das suas muitas vidas passadas, isto é, um nascimento, dois nascimentos, três nascimentos, quatro, cinco, dez, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta, cem, mil, cem mil, muitos éons de contração, muitos éons de expansão, muitos éons de contração e expansão, ‘Lá eu tinha tal nome, pertencia a tal clã, tinha tal aparência. Assim era o meu alimento, assim era a minha experiência de prazer e dor, assim foi o fim da minha vida. Falecendo daquele estado, eu ressurgi ali. Ali eu também tinha tal nome, pertencia a tal clã, tinha tal aparência. Assim era o meu alimento, assim era a minha experiência de prazer e dor, assim foi o fim da minha vida. Falecendo daquele estado, eu ressurgi aqui.’ Assim ele se recorda das suas muitas vidas passadas nos seus modos e detalhes. Tal como se um homem fosse do seu vilarejo a um outro vilarejo e desse vilarejo a mais um outro vilarejo e, então, desse vilarejo de volta ao vilarejo onde ele mora. O pensamento lhe ocorreria, ‘Eu fui do meu vilarejo para aquele vilarejo ali. Ali eu fiquei em pé de tal forma, sentei de tal forma, falei de tal forma e permaneci em silêncio de tal forma. Daquele vilarejo eu fui para o outro vilarejo lá e lá eu fiquei em pé de tal forma, sentei de tal forma, falei de tal forma e permaneci em silêncio de tal forma. Desse vilarejo eu voltei para casa.’ Da mesma forma - com a sua mente assim concentrada, purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexível, maleável, estável e atingindo a imperturbabilidade – o bhikkhu a dirige e a inclina para o conhecimento da recordação de vidas passadas Ele se recorda das suas muitas vidas passadas...nos seus modos e detalhes.

20. "Com a sua mente dessa forma concentrada, purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexível, maleável, estável e atingindo a imperturbabilidade, ele a dirige para o conhecimento do falecimento e ressurgimento dos seres. Por meio do olho divino, que é purificado e sobrepuja o humano, ele vê seres falecendo e renascendo, inferiores e superiores, bonitos e feios, afortunados e desafortunados. Ele compreende como os seres prosseguem de acordo com as suas ações desta forma: ‘Esses seres – dotados de má conduta com o corpo, linguagem e mente, que insultam os nobres, com o entendimento incorreto e realizando ações sob a influência do entendimento incorreto – com a dissolução do corpo, após a morte, renasceram num estado de privação, num destino infeliz, nos reinos inferiores, até mesmo no inferno. Porém estes seres - dotados de boa conduta com o corpo, linguagem e mente, que não insultam os nobres, com o entendimento correto e realizando ações sob a influência do entendimento correto – com a dissolução do corpo, após a morte, renasceram num bom destino, no paraíso.’ Dessa forma - por meio do olho divino, que é purificado e sobrepuja o humano, ele vê seres falecendo e renascendo, inferiores e superiores, bonitos e feios e ele compreende como os seres continuam de acordo com as suas ações. Tal como se houvessem duas casas com portas e um homem com boa visão parado entre elas visse as pessoas entrando nas casas e saindo, indo e vindo. Da mesma forma - com a sua mente assim concentrada, purificada e luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexível, maleável, estável e atingindo a imperturbabilidade – o bhikkhu a dirige para o conhecimento do falecimento e ressurgimento dos seres. Por meio do olho divino, que é purificado e sobrepuja o humano, ele vê seres falecendo e renascendo, inferiores e superiores, bonitos e feios, afortunados e desafortunados.... de acordo com as suas ações.

21. "Com a sua mente dessa forma concentrada, purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexível, maleável, estável e atingindo a imperturbabilidade, ele a dirige para o conhecimento do fim das impurezas mentais. Ele compreende como na verdade é que: ‘Isto é sofrimento ... Esta é a origem do sofrimento ... Esta é a cessação do sofrimento ... Este é o caminho que conduz à cessação do sofrimento ... Essas são as impurezas mentais ... Esta é a origem das impurezas ... Esta é a cessação das impurezas ... Este é o caminho que conduz à cessação das impurezas.’ Ao conhecer e ver a sua mente está livre da impureza da sensualidade, da impureza de ser/existir, da impureza da ignorância. Quando ela está libertada surge o conhecimento, ‘Libertada.’ Ele compreende que ‘O nascimento foi destruído, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.’ Tal como se houvesse uma lagoa num vale em uma montanha - clara, límpida e cristalina – em que um homem com boa visão, em pé na margem, pudesse ver conchas, cascalho e seixos e também cardumes de peixes nadando e descansando, isso lhe ocorreria, ‘Esta lagoa tem a água clara, límpida e cristalina. Ali estão aquelas conchas, cascalho e seixos e também aqueles cardumes de peixes nadando e descansando.’ Da mesma forma - com a sua mente assim concentrada, purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexível, maleável, estável e atingindo a imperturbabilidade – o bhikkhu a dirige e a inclina para o conhecimento do fim das impurezas mentais. Ele compreende como na verdade é que: ‘Isto é sofrimento ... Esta é a origem do sofrimento ... Esta é a cessação do sofrimento ... Este é o caminho que conduz à cessação do sofrimento ... Essas são impurezas mentais ... Esta é a origem das impurezas ... Esta é a cessação das impurezas ... Este é o caminho que conduz à cessação das impurezas.’ Ao conhecer e ver, a sua mente está livre da impureza do desejo sensual, da impureza de ser/existir, da impureza da ignorância. Quando ela está libertada surge o conhecimento, ‘Libertada.’ Ele compreende que ‘O nascimento foi destruído, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.’

(O Arahant)

22. “Bhikkhus, um bhikkhu como esse é chamado um contemplativo, um brâmane, aquele que foi lavado, aquele que alcançou o conhecimento, um sábio santo, um nobre, um arahant.[5]

23. “E como um bhikkhu é um contemplativo? Ele acalmou os estados ruins e prejudiciais que contaminam, causam a renovação dos seres, causam problemas, amadurecem no sofrimento e conduzem a um futuro nascimento, envelhecimento e morte. Assim é como um bhikkhu é um contemplativo.

24. “E como um bhikkhu é um brâmane? Ele expulsou os estados ruins e prejudiciais que contaminam, causam a renovação dos seres, causam problemas, amadurecem no sofrimento e conduzem a um futuro nascimento, envelhecimento e morte. Assim é como um bhikkhu é um brâmane.

25. “E como um bhikkhu é aquele que foi lavado?[6] Ele purificou os estados ruins e prejudiciais que contaminam, causam a renovação dos seres, causam problemas, amadurecem no sofrimento e conduzem a um futuro nascimento, envelhecimento e morte. Assim é como um bhikkhu é aquele que foi lavado.

26. “E como um bhikkhu é aquele que alcançou o conhecimento? Ele compreendeu os estados ruins e prejudiciais que contaminam, causam a renovação dos seres, causam problemas, amadurecem no sofrimento e conduzem a um futuro nascimento, envelhecimento e morte. Assim é como um bhikkhu é aquele que alcançou o conhecimento.

27. “E como um bhikkhu é um sábio santo?[7] Os estados ruins e prejudiciais que contaminam, causam a renovação dos seres, causam problemas, amadurecem no sofrimento e conduzem a um futuro nascimento, envelhecimento e morte fluíram para longe dele. Assim é como um bhikkhu é um sábio santo.

28. “E como um bhikkhu é um nobre? Os estados ruins e prejudiciais que contaminam, causam a renovação dos seres, causam problemas, amadurecem no sofrimento e conduzem a um futuro nascimento, envelhecimento e morte estão muito distantes dele. Assim é como um bhikkhu é um nobre.

29. “E como um bhikkhu é um arahant? Os estados ruins e prejudiciais que contaminam, causam a renovação dos seres, causam problemas, amadurecem no sofrimento e conduzem a um futuro nascimento, envelhecimento e morte estão muito distantes dele. Assim é como um bhikkhu é um arahant.”

Isso foi o que disse o Abençoado. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado.

 


 

Notas:

[1] “Brâmane” deve ser compreendido com o sentido explicado no verso 24. [Retorna]

[2] Essas emoções gêmeas são chamadas "as guardiãs do mundo” porque estão associadas com todas as ações hábeis ou benéficas. Essas emoções têm como base o conhecimento da lei de causa e efeito, ao invés do mero sentimento de culpa. Hiri equivale à vergonha de cometer transgressões ou o auto-respeito, aquilo que nos refreia de cometer atos que colocariam em risco o respeito que temos por nós mesmos; ottappa equivale ao temor de cometer transgressões que produzam resultados de kamma desfavoráveis ou o temor da crítica e da punição imposta por outros. [Retorna]

[3] MA menciona o SN 45:35-36: “O que, bhikkhus, é a contemplação (samanna)? O Nobre Caminho Óctuplo...- isso é chamado contemplação. E o que, bhikkhus, é o objetivo da contemplação (samannattho)? A destruição do desejo, raiva e delusão – isso é chamado o objetivo da contemplação.” [Retorna]

[4] MA proporciona um relato detalhado de cada um dos cinco símiles. [Retorna]

[5] Cada uma das explicações a seguir envolve um trocadilho que não pode ser reproduzido no Português, exemplo: um bhikkhu é um contemplativo (samana) porque ele acalmou (samita) os estados ruins e prejudiciais; um brâmane porque ele expulsou (bahita) os estados ruins, etc. [Retorna]

[6] O termo “lavado” (nhataka) se refere a um brâmane que ao final do seu período como discípulo de um mestre, toma um banho cerimonial marcando o fim do seu treinamento. [Retorna]

[7] A palavra em Pali sotthiya significa um brâmane perito nos Vedas, versado no conhecimento sagrado. [Retorna]

 

 

Revisado: 16 Abril 2013

Copyright © 2000 - 2017, Acesso ao Insight - Michael Beisert: editor, Flávio Maia: designer.