Majjhima Nikaya 129

Balapandita Sutta

Homens Sábios e Homens Tolos

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1. Assim ouvi. Em certa ocasião o Abençoado estava em Savatthi no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika. Lá ele se dirigiu aos monges desta forma: “Bhikkhus” – “Venerável Senhor,” eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:

(O TOLO)

2. “Bhikkhus, existem essas três características de um tolo, sinais de um tolo, atributos de um tolo. Quais três? Aqui, um tolo é aquele que pensa pensamentos prejudiciais, diz palavras prejudiciais e pratica atos prejudiciais. Se um tolo não fosse assim, como poderia o sábio reconhecê-lo desta forma: ‘Esta pessoa é uma tola, uma pessoa falsa’? Pelo fato de um tolo ser aquele que pensa pensamentos prejudiciais, diz palavras prejudiciais e pratica atos prejudiciais, o sábio o reconhece desta forma: ‘Esta pessoa é uma tola, uma pessoa falsa.’

3. “Um tolo sente dor e tristeza aqui e agora de três formas. Se um tolo estiver sentado numa assembléia, numa rua, ou numa praça, e as pessoas ali estiverem discutindo certos assuntos relevantes e pertinentes, então, se o tolo é alguém que mata seres vivos, toma aquilo que não é dado, se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais, diz mentiras e se entrega ao vinho, álcool e outros embriagantes, que causam a negligência, ele pensa: ‘Essas pessoas estão discutindo certos assuntos relevantes e pertinentes; essas coisas podem ser encontradas em mim, eu sou visto engajando-me nessas coisas.’ Esse é o primeiro tipo de dor e tristeza que um tolo sente aqui e agora.

4. “Novamente, quando o acusado de um roubo é preso, um tolo vê os reis aplicando nele diversos tipos de tortura: [1] açoitando com chicotes, golpeando com vara, golpeando com clavas; as mãos são cortadas, os pés são cortados, as mãos e os pés são cortados; as orelhas são cortadas, o nariz é cortado, as orelhas e o nariz são cortados; ele é sujeito ao ‘pote de mingau,’ ao ‘barbeado com a concha polida,’ à ‘boca de Rahu,’ à ‘grinalda ardente,’ à ‘mão ardente,’ às ‘lâminas de capim,’ à ‘túnica de casca de árvore,’ ao ‘antílope,’ aos ‘ganchos de carne,’ às ‘moedas,’ à ‘conserva em desinfetante’ ao ‘pino que gira,’ ao ‘colchão de palha enrolado’; ele é molhado com óleo fervente, atirado para ser devorado pelos cães, empalado vivo em estaca, decapitado com uma espada. Então o tolo pensa assim: ‘Devido a ações prejudiciais como essas, quando o acusado de um roubo é preso, os reis aplicam nele diversos tipos de tortura: eles o açoitam com chicotes ... e o decapitam com uma espada. Essas coisas podem ser encontradas em mim, eu sou visto engajando-me nessas coisas.’ Esse é o segundo tipo de dor e tristeza que um tolo sente aqui e agora.

5. “Novamente, quando um tolo está na sua cadeira, ou na sua cama, ou descansando no chão, então as ações prejudiciais que ele cometeu no passado – as condutas impróprias com o corpo, linguagem e mente – o cobrem, estendem sobre ele e o envelopam. Tal como a sombra de uma grande montanha ao anoitecer cobre, se estende sobre a terra e a envelopa, assim também, quando um tolo está na sua cadeira, ou na sua cama, ou descansando no chão, então as ações prejudiciais que ele cometeu no passado – as condutas impróprias com o corpo, linguagem e mente – o cobrem, se estendem sobre ele e o envelopam. Então o tolo pensa: ‘Eu não fiz o bem, eu não fiz aquilo que é benéfico, eu não fiz de mim mesmo um abrigo contra a aflição. Eu fiz aquilo que é prejudicial, eu fiz aquilo que é cruel, eu fiz aquilo que é mau. Quando falecer, eu irei para o destino daqueles que não fizeram o bem ... que fizeram aquilo que é mau.’ Ele se entristece, fica angustiado e lamenta, ele chora batendo no peito e fica perturbado. Esse é o terceiro tipo de dor e tristeza que um tolo sente aqui e agora.

6. “Um tolo que se entregou à conduta imprópria através do corpo, linguagem e mente, na dissolução do corpo, após a morte, renasce num estado de privação, num destino infeliz, até mesmo no inferno.

(INFERNO)

7. “Se fôssemos falar corretamente de alguma coisa que é: ‘absolutamente indesejada, absolutamente não querida, absolutamente desagradável,’ é do inferno que, falando corretamente, isso deveria ser dito, tanto assim que é difícil encontrar um símile para o sofrimento no inferno.”

Quando isso foi dito, um bhikkhu perguntou ao Abençoado: ‘Mas, venerável senhor, pode um símile ser dado?”

8. “Pode, bhikkhu,” o Abençoado disse. [2] “Bhikkhus, suponham que alguns homens prendessem um acusado de roubo e o apresentassem ao Rei, dizendo: ‘Senhor, aqui está um preso acusado de roubo. Ordene a punição que deseja para ele.’ Então o rei diria: ‘Vão homens, e, pela manhã, atirem nele cem lanças.’ Assim, pela manhã, eles atirariam nele cem lanças. Ao meio dia o rei diria, ‘Homens, como está aquele prisioneiro?’ – ‘Ele ainda está vivo majestade.’ Então o rei diria, ‘Vão homens, e atirem nele mais cem lanças.’ Assim, eles atirariam nele mais cem lanças ao meio dia. Ao anoitecer o rei diria, ‘Homens, como está aquele prisioneiro?’ – ‘Ele ainda está vivo majestade.’ Então o rei diria, ‘Vão homens, e atirem nele mais cem lanças ao anoitecer.’ Assim, ao anoitecer, eles atirariam nele mais cem lanças. Agora o que vocês pensam, bhikkhus: aquele homem, tendo sido atingido por trezentas lanças ao longo do dia, experimentaria dor e tristeza devido a isso?”

“Venerável senhor, mesmo se ele fosse atingido por apenas uma lança ele experimentaria dor e tristeza devido a isso, o que não dizer de trezentas lanças.”

9. Então, tomando uma pequena pedra do tamanho da sua mão, o Abençoado disse aos bhikkhus o seguinte: “O que vocês pensam bhikkhus? O que é maior, esta pequena pedra que tomei, do tamanho da minha mão, ou o Himalaia, o rei das montanhas?”

“Venerável senhor, a pequena pedra que o Abençoado tomou, do tamanho da sua mão, não se compara com o Himalaia, o rei das montanhas; ela não é sequer uma fração, não há comparação.”

“Da mesma forma, bhikkhus, a dor e tristeza que o homem experimentaria por ser atingido por trezentas lanças não se compara com o sofrimento do inferno; elas não são sequer uma fração, não há comparação.

10. “Agora os guardiões do inferno o torturam com os cinco espetos. Eles atravessam a mão com um espeto incandescente, eles atravessam a outra mão com um espeto incandescente, eles atravessam um pé com um espeto incandescente, eles atravessam o outro pé com um espeto incandescente, eles atravessam a barriga com um espeto incandescente. Assim ele sente sensações dolorosas, torturantes e penetrantes. No entanto, ele não morre enquanto aquela ação prejudicial não tiver esgotado o seu resultado.

11. “Em seguida os guardiões do inferno o arremessam ao solo e o aparam com machados. Assim ele sente sensações dolorosas, torturantes e penetrantes. No entanto, ele não morre enquanto aquela ação prejudicial não tiver esgotado o seu resultado.

12. “Em seguida os guardiões do inferno o colocam com os pés para cima e a cabeça para baixo e o aparam com enxós. Assim ele sente sensações dolorosas, torturantes e penetrantes. No entanto, ele não morre enquanto aquela ação prejudicial não tiver esgotado o seu resultado.

13. “Em seguida os guardiões do inferno arreiam-no a uma carruagem e conduzem-no para cá e para lá pelo chão esbraseado, em chamas e ardente. Assim ele sente sensações dolorosas, torturantes e penetrantes. No entanto, ele não morre enquanto aquela ação prejudicial não tiver esgotado o seu resultado.

14. “Em seguida os guardiões do inferno fazem com que ele suba e desça um grande amontoado de carvão em brasa, em chamas e ardente. Assim ele sente sensações dolorosas, torturantes e penetrantes. No entanto, ele não morre enquanto aquela ação prejudicial não tiver esgotado o seu resultado.

15. “Em seguida os guardiões do inferno o mergulham com os pés para cima e a cabeça para baixo num caldeirão com metal fervendo, queimando, em chamas e ardente. Ele é cozido num redemoinho de vapor. E enquanto ele é ali cozido num redemoinho de vapor, ele é movido ora para cima, ora para baixo e ora para o lado. Assim ele sente sensações dolorosas, torturantes e penetrantes. No entanto, ele não morre enquanto aquela ação prejudicial não tiver esgotado o seu resultado.

16. “Em seguida os guardiões do inferno o arremessam no Grande Inferno. Agora quanto ao Grande Inferno, bhikkhus:

Possui quatro cantos e está construído
com quatro portas, uma de cada lado,
cercado por paredes de ferro em todos os lados
e cerrado com um teto de ferro.
O piso também é feito de ferro
e aquecido até que brilhe como o fogo.
A extensão é um total de cem léguas
que está envolta de forma completa.

17. “Bhikkhus, eu poderia descrever o inferno de muitas formas. [3] Tanto assim que é difícil encontrar um símile para o sofrimento no inferno.

(O REINO ANIMAL)

18. “Bhikkhus, há animais que se alimentam de capim. Eles se alimentam cortando o capim fresco ou seco com os dentes. E quais animais se alimentam de capim? Elefantes, cavalos, bois, burros, bodes e gamos, e outros animais semelhantes. Um tolo que antes aqui se deliciava com os sabores e praticou ações prejudiciais, com a dissolução do corpo, após a morte, renasce na companhia de animais que se alimentam de capim.

19. “Há animais que se alimentam de esterco. Eles cheiram o esterco à distância e correm na sua direção, pensando: ‘Podemos comer, podemos comer!’ Tal como os brâmanes que correm para o cheiro de um sacrifício pensando: ‘Podemos comer, podemos comer!’ assim também esses animais que se alimentam de esterco cheiram o esterco à distância e correm na sua direção, pensando: ‘Podemos comer, podemos comer!’ E quais animais se alimentam de esterco? Aves, porcos, cães e chacais, e outros animais semelhantes. Um tolo que antes aqui se deliciava com os sabores e praticou ações prejudiciais, com a dissolução do corpo, após a morte, renasce na companhia de animais que se alimentam de esterco.

20. “Há animais que nascem, envelhecem e morrem na escuridão. E quais animais nascem, envelhecem e morrem na escuridão? Mariposas noturnas, larvas e minhocas, e outros animais semelhantes. Um tolo que antes aqui se deliciava com os sabores e praticou ações prejudiciais, com a dissolução do corpo, após a morte, renasce na companhia de animais que nascem, envelhecem e morrem na escuridão.

21. “Há animais que nascem, envelhecem e morrem na água. E quais animais nascem, envelhecem e morrem na água? Peixes, tartarugas e crocodilos e outros animais semelhantes. Um tolo que antes aqui se deliciava com os sabores e praticou ações prejudiciais, com a dissolução do corpo, após a morte, renasce na companhia de animais que nascem, envelhecem e morrem na água.

22. “Há animais que nascem, envelhecem e morrem na imundície. E quais animais nascem, envelhecem e morrem na imundície? Aqueles animais que nascem, envelhecem e morrem num peixe apodrecido ou num corpo apodrecido ou numa massa de farinha apodrecida ou numa fossa ou num esgoto. Um tolo que antes aqui se deliciava com os sabores e praticou ações prejudiciais, com a dissolução do corpo, após a morte, renasce na companhia de animais que nascem, envelhecem e morrem na imundície.

23. "Bhikkhus, eu poderia descrever o reino animal de muitas formas. Tanto assim que é difícil encontrar um símile para o sofrimento no reino animal.

24. “Suponham que um homem lançasse no oceano uma bóia com um único furo. Um vento do leste a empurraria para o oeste, um vento do oeste a empurraria para o leste. Um vento do norte a empurraria para o sul, um vento do sul a empurraria para o norte. E suponham que houvesse uma tartaruga cega. Ela viria para a superfície uma vez a cada cem anos. Agora o que vocês pensam: aquela tartaruga cega, vindo para a superfície uma vez a cada cem anos, colocaria o seu pescoço naquela bóia com um único furo?”

“Ela poderia, venerável senhor, uma vez ou outra ao final de um longo período.”

“Bhikkhus, a tartaruga cega demoraria menos tempo para colocar o pescoço naquela bóia com um único furo do que um tolo, uma vez na perdição, demoraria para recuperar o estado humano, eu digo. Por que isso? Porque ali não há a prática do Dhamma, não há a prática do que é virtuoso, não se age de forma benéfica, não se realizam méritos. Prevalece o devorar mútuo e o massacre dos mais fracos.

25. “Se, uma vez ou outra, ao final de um longo período, aquele tolo retornar ao estado humano, será numa família inferior que ele irá renascer - uma família de sudras, de cesteiros de bambu, de caçadores, de consertadores de carruagens ou de lixeiros – uma família pobre na qual há pouco para comer e beber e que sobrevive com dificuldades, na qual a comida e roupas são obtidas com dificuldades; e ele será feio, antiestético, deformado, doente crônico - peticego ou com as mãos deformadas ou coxo ou paralítico. Ele não será um daqueles que ganham comida, bebida, roupas e veículos; grinaldas, perfumes e ungüentos; cama, moradia e lamparinas. Ele se dedica à conduta imprópria com o corpo, linguagem e mente. Tendo feito isso, com a dissolução do corpo, após a morte, ele renasce num estado de privação, num destino infeliz, na perdição, até mesmo no inferno.

26. “Bhikkhus, suponham que um jogador infeliz na sua primeira jogada perca o seu filho e esposa e todas as suas posses, e além disso seja ele mesmo escravizado, mas mesmo uma jogada infeliz como essa é insignificante; é uma jogada muito mais infeliz quando um tolo se comporta de forma imprópria através do corpo, linguagem e mente, e tendo agido assim, na dissolução do corpo, após a morte, ele renasce num estado de privação, num destino infeliz, na perdição, até mesmo no inferno. Essa é a completa perfeição do grau dos tolos. [4]

(O SÁBIO)

27. “Bhikkhus, existem esses três atributos de um sábio, sinais de um sábio, atributos de um sábio. Quais três? Aqui um sábio é aquele que pensa pensamentos benéficos, diz palavras benéficas e pratica ações benéficas. Se um sábio não fosse assim, como poderia o sábio reconhecê-lo desta forma: ‘Esta pessoa é uma pessoa sábia, uma pessoa verdadeira’? Pelo fato de um sábio ser aquele que pensa pensamentos benéficos, diz palavras benéficas e pratica ações benéficas, o sábio o reconhece desta forma: ‘Esta pessoa é uma pessoa sábia, uma pessoa verdadeira.’

28. “Um sábio sente prazer e alegria aqui e agora de três formas. Se um sábio estiver sentado numa assembléia, numa rua, ou numa praça, e as pessoas ali estiverem discutindo certos assuntos relevantes e pertinentes, então, se o sábio é alguém que se abstém de matar seres vivos, se abstém de tomar aquilo que não é dado, se abstém de se comportar de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais, se abstém de dizer mentiras e se abstém de se entregar ao vinho, álcool e outros embriagantes, que causam a negligência, ele pensa: ‘Essas pessoas estão discutindo certos assuntos relevantes e pertinentes; essas coisas não são encontradas em mim, e eu não sou visto engajando-me nessas coisas.’ [5] Esse é o primeiro tipo de prazer e alegria que um sábio sente aqui e agora.

29. “Novamente, quando o acusado de um roubo é preso, um sábio vê os reis aplicando nele diversos tipos de tortura ... (igual ao verso 4) ... Então o sábio pensa assim: ‘Devido a ações prejudiciais como essas, quando o acusado de um roubo é preso, os reis aplicam nele diversos tipos de tortura: eles o açoitam com chicotes ... e o decapitam com uma espada. Essas coisas não são encontradas em mim, e eu não sou visto engajando-me nessas coisas.’ Esse é o segundo tipo de prazer e alegria que um sábio sente aqui e agora.

30. “Novamente, quando um sábio está na sua cadeira, ou na sua cama, ou descansando no chão, então, as ações benéficas que ele cometeu no passado – as condutas apropriadas com o corpo, linguagem e mente – o cobrem, se estendem sobre ele e o envelopam. Tal como a sombra de uma grande montanha ao anoitecer cobre, se estende sobre a terra e a envelopa, assim também, quando um sábio está na sua cadeira, ou na sua cama, ou descansando no chão, então as ações benéficas que ele cometeu no passado – as condutas apropriadas com o corpo, linguagem e mente – o cobrem, se estendem sobre ele e o envelopam. Então, o sábio pensa: ‘Eu não fiz aquilo que é prejudicial, eu não fiz aquilo que é cruel, eu não fiz aquilo que é mau. Eu fiz aquilo que é bom, eu fiz aquilo que é benéfico, eu fiz de mim mesmo um abrigo contra a aflição. Quando falecer, eu irei para o destino daqueles que não fizeram aquilo que é prejudicial ... que fizeram de si mesmo um abrigo contra a aflição.’ Ele não se entristece, não fica angustiado e lamenta, ele não chora batendo no peito e não fica perturbado. Esse é o terceiro tipo de prazer e alegria que um sábio sente aqui e agora.

31. “Um sábio que se entregou à conduta apropriada através do corpo, linguagem e mente, na dissolução do corpo, após a morte, renasce num destino feliz, até mesmo no paraíso.

(PARAÍSO)

32. “Se fôssemos falar corretamente de alguma coisa que é: ‘absolutamente desejada, absolutamente querida, absolutamente agradável,’ é do paraíso que, falando corretamente, isso deveria ser dito, tanto assim que é difícil encontrar um símile para a felicidade no paraíso.”

Quando isso foi dito, um bhikkhu perguntou ao Abençoado: ‘Mas, venerável senhor, pode um símile ser dado?”

33. “Pode, bhikkhu,” o Abençoado disse. “Bhikkhus, suponham que um Monarca que Gira a Roda [6] possuísse os sete tesouros e os quatro tipos de poder e devido a isso ele experimentasse prazer e alegria.

34. “Quais são os sete tesouros? Aqui, quando um rei nobre ungido lavou a cabeça no Uposatha do décimo quinto dia [7] e ascendeu até a câmara no topo do palácio para o Uposatha, a Roda Preciosa surge para ele, com mil raios, com a roda, o cubo, completa em todos os aspectos. Ao vê-la o rei nobre ungido pensa: ‘Eu ouvi que quando um rei nobre ungido tiver lavado a cabeça no Uposatha do décimo quinto dia e tiver ascendido até a câmara no topo do palácio para o Uposatha, e ali aparecer a roda preciosa com mil raios, com a roda, o cubo, completa em todos os aspectos, então ele se tornará um Monarca que gira a roda. Eu sou então um Monarca que gira a roda?’

35. “Então, levantando-se do seu assento e depois de arrumar o manto externo sobre o ombro, o rei nobre ungido toma um vaso com água com a mão esquerda, borrifa a roda preciosa com a mão direita e diz: ‘Gire para adiante, boa roda preciosa; triunfe, boa roda preciosa!’ Então a roda gira para adiante na direção leste e o Monarca que gira a roda a segue com o seu exército. Agora em qualquer região que a roda pare, ali o Monarca que gira a roda estabelece residência com o seu exército. E aqueles que antes a ele se opunham na região leste vêm até o Monarca que gira a roda e dizem: ‘Venha, grande rei; bem vindo, grande rei; comande, grande rei; aconselhe, grande rei.’ O Monarca que gira a roda assim diz: ‘Vocês não devem matar seres vivos; vocês não devem tomar aquilo que não for dado; vocês não devem agir de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; vocês não devem dizer mentiras; vocês não devem beber bebidas embriagantes; sejam moderados na alimentação.’ E aqueles que antes a ele se opunham na região leste se tornam seus súditos.

“Então, a roda mergulha no oceano do leste e emerge outra vez. E nisso, ela gira para adiante, na direção sul ... E aqueles que se opunham na região sul se submetem ao Monarca que gira a roda. Então, a roda mergulha no oceano do sul e emerge outra vez. E nisso, ela gira para adiante, na direção oeste ... E aqueles que se opunham na região oeste se submetem ao Monarca que gira a roda. Então, a roda mergulha no oceano do oeste e emerge outra vez. E nisso, ela gira para adiante na direção norte ... E aqueles que se opunham na região norte se submetem ao Monarca que gira a roda.

“Agora, quando a roda preciosa triunfa sobre a terra de oceano a oceano, ela retorna para a capital real e permanece como que presa pelo eixo ao portão do principal palácio do Monarca que gira a roda, como um adorno no portão do palácio principal. Assim é como a roda preciosa aparece para um Monarca que gira a roda.

36. “Então, o elefante precioso aparece para o Monarca que gira a roda, todo branco, com postura sétupla, com poderes supra-humanos, voando através do espaço, o rei dos elefantes chamado ‘Uposatha.’ Ao vê-lo, a mente do Monarca que gira a roda tem confiança nele assim: ‘Seria maravilhoso montar no elefante, se ele se submetesse ao treinamento!’ Então o elefante precioso se submete ao treinamento como um fino elefante puro-sangue bem domesticado há muito tempo. E assim sucede que o Monarca que gira a roda, ao testar o elefante precioso, monta nele pela manhã e depois de atravessar toda a terra até a margem do oceano, retorna à capital real para a refeição matinal. Assim é como o elefante precioso aparece para um Monarca que gira a roda.

37. “Então, o cavalo precioso aparece para o Monarca que gira a roda, todo branco, com a cabeça negra e lustrosa e a crina como a erva munja, com poderes supra-humanos, voando através do espaço, o rei dos cavalos chamado ‘Valahaka’, [‘Nuvem de Tormenta’]. Ao vê-lo, a mente do Monarca que gira a roda tem confiança nele assim: ‘Seria maravilhoso montar no cavalo, se ele se submetesse ao treinamento!’ Então o cavalo precioso se submete ao treinamento tal como um fino cavalo puro-sangue bem domesticado há muito tempo. E assim sucede que o Monarca que gira a roda, ao testar o cavalo precioso, monta nele pela manhã e depois de atravessar toda a terra até a margem do oceano, retorna à capital real para a refeição matinal. Assim é como o cavalo real aparece para um Monarca que gira a roda.

38. “Então, a jóia preciosa aparece para o Monarca que gira a roda. A jóia é um fino berilo da mais pura água, com oito facetas, bem lapidada. Agora, a luminosidade da jóia preciosa se espalha ao redor por uma légua. E assim acontece que quando o Monarca que gira a roda está testando a jóia preciosa, ele coloca em formação o seu exército e instalando a jóia no topo do seu estandarte, ele sai nas trevas e escuridão da noite. Então, todos os [habitantes dos] vilarejos próximos começam o seu trabalho por meio da luz, pensando que é dia. Assim é como a jóia preciosa aparece para um Monarca que gira a roda.

39. “Então, a mulher preciosa aparece para o Monarca que gira a roda, bela, atraente e graciosa, possuindo a complexão da suprema beleza, nem muito alta nem muito baixa, nem muito magra nem muito robusta, nem muito escura nem muito clara, superando a beleza humana, sem alcançar a beleza divina. O toque da mulher preciosa é tal que se iguala a um tufo de paina ou um tufo de algodão. Quando está frio os membros dela estão quentes; quando está quente os membros dela estão frios. Do seu corpo emana o perfume do sândalo e da sua boca o perfume do lótus. Ela se levanta antes do Monarca que gira a roda e se deita depois dele. Ela é ávida por servir, com conduta agradável e com a linguagem doce. Como ela nunca é infiel ao Monarca que gira a roda, sequer em pensamento, como poderia ela sê-lo com o corpo? Assim é como a mulher preciosa aparece para um Monarca que gira a roda.

40. “Então, o tesoureiro precioso aparece para o Monarca que gira a roda. O olho divino nascido do kamma passado se manifesta nele e através deste ele vê depósitos ocultos de tesouros, com e sem proprietários. Ele se aproxima do Monarca que gira a roda e diz: ‘Senhor, fique tranqüilo. Eu tomarei conta dos seus assuntos financeiros.’ E assim acontece quando o Monarca que gira a roda está testando o tesoureiro precioso, ele embarca num navio e saindo pelo rio Ganges, no meio da correnteza ele diz para o tesoureiro precioso: ‘Eu preciso de ouro e lingotes, tesoureiro.’ – ‘Então, senhor, deixe que o barco seja dirigido para uma das margens.’ – ‘Tesoureiro, na verdade é aqui que preciso de ouro e lingotes.’ Então o tesoureiro precioso mergulha ambas as mãos na água e ergue um pote cheio de ouro e lingotes e diz para o Monarca que gira a roda: ‘Isso é o suficiente, senhor? O oferecido é suficiente, o ofertado é suficiente?’ – ‘Isso é suficiente, tesoureiro, o suficiente foi feito, o suficiente foi ofertado.’ Assim é como o tesoureiro precioso aparece para um Monarca que gira a roda.

41. “Então, o conselheiro precioso aparece para o Monarca que gira a roda, sábio, esperto e sagaz, capaz de fazer com que o Monarca que gira a roda promova aquilo que é digno de ser promovido, de descartar aquilo que deve ser descartado, e de estabelecer aquilo que deve ser estabelecido. Ele se aproxima do Monarca que gira a roda e diz: ‘Senhor, fique tranqüilo. Eu o aconselharei.’ Assim é como o conselheiro precioso aparece para um Monarca que gira a roda.

“Esses são os sete tesouros que um Monarca que gira a roda possui.

42. “Quais são os quatro tipos de poder? Primeiro um Monarca que gira a roda é belo, atraente e elegante, possuindo a complexão da beleza suprema, e ele supera todos os outros homens nesse aspecto. Esse é o primeiro tipo de poder que um Monarca que gira a roda possui.

43. “Segundo, um Monarca que gira a roda vive por muito tempo superando todos os outros homens nesse aspecto. Esse é o segundo tipo de poder que um Monarca que gira a roda possui.

44. “Terceiro, um Monarca que gira a roda está livre das enfermidades e aflições, possuindo boa digestão que não é nem muito fria, nem muito quente, ele supera todos os outros homens nesse aspecto. Esse é o terceiro tipo de poder que um Monarca que gira a roda possui.

45. “Quarto, um Monarca que gira a roda é querido e estimado pelos brâmanes e chefes de família. Tal como um pai é querido e estimado pelos seus filhos, assim também um Monarca que gira a roda é querido e estimado pelos brâmanes e chefes de família. Brâmanes e chefes de família também são queridos e estimados pelo Monarca que gira a roda. Tal como os filhos são queridos e estimados pelo seu pai, assim também brâmanes e chefes de família são queridos e estimados pelo Monarca que gira a roda. Certa vez um Monarca que gira a roda estava num parque das delícias com o seu exército completo. Então os brâmanes e chefes de família foram até ele e disseram o seguinte: ‘Senhor, conduza devagar para que possamos vê-lo por mais tempo.’ E assim ele disse para o seu cocheiro: ‘Cocheiro, conduza mais devagar para que eu possa ver os brâmanes e chefes de família por mais tempo.’ Esse é o quarto tipo de poder que um Monarca que gira a roda possui.

“Esses são os quatro tipos de poder que um Monarca que gira a roda possui.”

46. “O que vocês pensam, bhikkhus? Um Monarca que gira a roda experimenta prazer e alegria por possuir esses sete tesouros e esses quatro tipos de poder?”

“Venerável senhor, um Monarca que gira a roda experimentaria prazer e alegria por possuir apenas um tesouro, o que dizer de sete tesouros e quatro tipos de poder.”

47. Então, tomando uma pequena pedra do tamanho da sua mão, o Abençoado disse aos bhikkhus o seguinte: “O que vocês pensam bhikkhus? O que é maior, esta pequena pedra que tomei, do tamanho da minha mão, ou o Himalaia, o rei das montanhas?”

“Venerável senhor, a pequena pedra que o Abençoado tomou, do tamanho da sua mão, não se compara com o Himalaia, o rei das montanhas; ela não é nem mesmo uma fração, não há comparação.”

“Da mesma forma, bhikkhus, o prazer e alegria, que um Monarca que gira a roda experimenta por possuir os sete tesouros e os quatro tipos de poder, não se compara com a felicidade do paraíso; eles não são nem uma fração, não há comparação.”

48. “Se, uma vez ou outra, ao final de um longo período, aquele sábio retornar ao estado humano, é numa família superior que ele irá renascer - uma família khattiya afluente, uma família brâmane afluente, ou uma família de um chefe de família afluente – uma família que é rica, com grande riqueza e posses, com ouro e prata em abundância, com tesouros e mercadorias em abundância, com riqueza e grãos em abundância; e ele será belo, atraente, possuindo beleza e complexão supremas. Ele será um daqueles que ganham comida, bebida, roupas e veículos; grinaldas, perfumes e ungüentos; cama, moradia e lamparinas; ele se comportará de forma apropriada através do corpo, linguagem e mente, e tendo agido assim, na dissolução do corpo, após a morte, ele renascerá num destino feliz, até mesmo no paraíso.

49. “Bhikkhus, suponham que um jogador feliz na sua primeira jogada ganhe uma grande fortuna, mas mesmo uma jogada feliz como essa é insignificante; é uma jogada muito mais feliz quando um sábio se comporta de forma apropriada através do corpo, linguagem e mente, e tendo agido assim, na dissolução do corpo, após a morte, ele renasce num destino feliz, até mesmo no paraíso. Essa é a completa perfeição do grau do sábio. [8]

Isso foi o que disse o Abençoado. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado.

 


 

Notas:

[1] Igual ao MN 13.14. [Retorna]

[2] Este símile é empregado no SN XII.63 para descrever o alimento da consciência (viññanahara). [Retorna]

[3] E ele assim o faz - no MN 130.17-27. [Retorna]

[4] MA: Isto é, o tolo se dedica aos três tipos de conduta imprópria, devido às quais ele renasce no inferno. Eliminando aquele kamma, ao retornar ao estado humano ele renasce numa família inferior. E ao voltar a se dedicar aos três tipos de conduta imprópria, ele outra vez renascerá no inferno. [Retorna]

[5] Embora o texto em Pali não contenha a partícula negativa na, esta parece ser necessária para proporcionar o significado pretendido, e esta aparece nas cláusulas paralelas do verso seguinte. [Retorna]

[6] Veja o MN 91.5. O mito do Monarca que Gira a Roda é tratado de modo mais abrangente no DN 17 e DN 26. [Retorna]

[7] Veja o MN 4 – nota 2. [Retorna]

[8] MA: Isto é, o sábio se dedica aos três tipos de conduta apropriada, devido às quais ele renasce no paraíso. Retornando ao mundo humano, ele renasce numa boa família com riqueza e beleza. Ele se dedica aos três tipos de conduta apropriada e novamente renasce no paraíso. Deve ser observado que a "completa perfeição do grau do sábio" é inteiramente mundana e não leva em conta os estágios mais excelentes ao longo do caminho para a libertação. [Retorna]

 

 

Revisado: 6 Março 2008

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