Digha Nikaya 29

Pasadika Sutta

O Discurso Encantador

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1. Assim ouvi. Em certa ocasião, o Abençoado estava entre os Sakyas, no prédio da escola, no manguezal pertencente à família Vedhanna. Agora, naquela ocasião o Nigantha Nataputta havia acabado de falecer em Pava. Com a sua morte os Niganthas se dividiram, partiram ao meio; envolvidos em rixas e brigas, mergulhados em discussões, apunhalando uns aos outros usando as palavras como adagas: “Você não compreende este Dhamma e Disciplina. Eu compreendo este Dhamma e Disciplina. Como poderia você compreender este Dhamma e Disciplina? O seu jeito está errado. O meu jeito está certo. Eu sou consistente. Você é inconsistente. O que deveria ter sido dito primeiro, você disse por último. O que deveria ter sido dito por último, você disse primeiro. Aquilo que você pensou com tanto cuidado foi virado de pernas para o ar. A sua doutrina foi refutada, foi provado que você está errado. Vá e aprenda melhor, ou desembarace-se se puder!” Parecia que não havia nada além de um massacre entre os discípulos de Nigantha Nataputta. E os seus discípulos leigos vestidos de branco estavam desgostosos, consternados e desapontados com os discípulos de Nigantha Nataputta. Eles se sentiam do mesmo modo em relação ao Dhamma e Disciplina dele, que havia sido mal proclamado e mal exposto, que não conduzia à emancipação, não conduzia à paz, exposto por alguém que não era perfeitamente iluminado, e agora eles estavam com o santuário quebrado, sem um refúgio. [1]

2. Então, o noviço Cunda, que havia passado o retiro das chuvas em Pava, foi até o venerável Ananda que estava em Samagama e depois de cumprimentá-lo sentou a um lado e contou o que estava acontecendo. O venerável Ananda então disse para o noviço Cunda: “Amigo Cunda, essas são notícias que devem ser relatadas ao Abençoado. Venha, vamos até o Abençoado para contar-lhe isso.” - “Sim, venerável senhor,” o noviço Cunda respondeu.

3. Então, o venerável Ananda e o noviço Cunda foram juntos até o Abençoado e contaram o que estava acontecendo. Ele disse: “Cunda, esse é o caso de uma doutrina e disciplina que são mal proclamadas, expostas de modo não edificante e ineficazes na tranqüilização das paixões porque o seu proclamador não era perfeitamente iluminado.

4. “Em sendo esse o caso, Cunda, um discípulo vivendo de acordo com essa doutrina não será capaz de manter uma conduta apropriada, nem segui-la, mas desviar-se dela. Alguém poderá lhe dizer: ‘Amigo, isso é o que você recebeu, essa é a sua oportunidade.[2] O seu mestre não é perfeitamente iluminado, a sua doutrina e disciplina são mal proclamadas, expostas de modo não edificante e ineficazes na tranqüilização das paixões. Você não será capaz de viver de acordo com essa doutrina mas desviar-se dela.’ Nesse caso, Cunda, o mestre deve ser censurado, a doutrina deve ser censurada, mas o pupilo é elogiável. E se alguém dissesse para aquele pupilo: ‘Venha agora, venerável senhor, pratique de acordo com a doutrina e disciplina proclamadas e transmitidas pelo seu mestre’ – então, aquele que deu o encorajamento, a coisa encorajada e aquele que seguiu essa prática, irão todos obter muito demérito. Por que? Porque a doutrina e disciplina são mal proclamadas, expostas de modo não edificante e ineficazes na tranqüilização das paixões.

5. “Mas aqui, Cunda, há um mestre que não é perfeitamente iluminado, a sua doutrina e disciplina são mal proclamadas, expostas de modo não edificante e ineficazes na tranqüilização das paixões, e um discípulo vive de acordo com aquela doutrina e disciplina, age de acordo com elas. Alguém poderá lhe dizer: ‘Amigo, isso que você recebeu não é bom, a sua oportunidade é ruim, o seu mestre não é perfeitamente iluminado, a sua doutrina e disciplina são mal proclamadas, expostas de modo não edificante e ineficazes na tranqüilização das paixões, no entanto você continua vivendo de acordo com ela.’ Nesse caso, o mestre, a doutrina e o discípulo são todos censuráveis. E se alguém dissesse: ‘Muito bem, venerável senhor, seguindo essa prática você será bem sucedido,’ aquele que dá o encorajamento, a coisa encorajada e aquele que ao ouvir esse encorajamento, faz um esforço ainda maior, irão todos obter muito demérito. Por que? Porque a doutrina e disciplina são mal proclamadas, expostas de modo não edificante e ineficazes na tranqüilização das paixões.

6. “Mas aqui há um mestre que é perfeitamente iluminado: a sua doutrina e disciplina são bem proclamadas, expostas de modo edificante e eficazes na tranquilização das paixões porque o seu proclamador é perfeitamente iluminado, porém um discípulo não vive de acordo com essa doutrina e disciplina mas desvia-se dela. Nesse caso, alguém poderá lhe dizer: ‘Amigo, você fracassou, você perdeu a sua oportunidade. O seu mestre é perfeitamente iluminado, sua doutrina e disciplina são bem proclamadas, expostas de modo edificante e eficazes na tranquilização das paixões, mas você não a seguiu, você se desviou dela.’ Nesse caso, o mestre e a doutrina são elogiáveis, mas o pupilo é censurável. E se alguém dissesse: ‘Muito bem, venerável senhor, você deve seguir o ensinamento proclamado pelo seu mestre,’ então, aquele que dá o encorajamento, a coisa encorajada e aquele que praticar dessa forma, irão todos obter muito mérito. Por que? Porque a doutrina e disciplina são bem proclamadas, expostas de modo edificante e eficazes na tranquilização das paixões.

7. “Mas aqui, Cunda, há um mestre que é perfeitamente iluminado: a sua doutrina e disciplina são bem proclamadas, expostas de modo edificante e eficazes na tranquilização das paixões porque o seu proclamador é perfeitamente iluminado, e um discípulo a adotou, segue-a, praticando-a do modo apropriado e se dedicando a ela. Alguém poderá lhe dizer: ‘Amigo, isso que você recebeu é bom, essa é a sua oportunidade, o seu mestre é perfeitamente iluminado: a sua doutrina e disciplina são bem proclamadas, expostas de modo edificante e eficazes na tranquilização das paixões porque o seu proclamador é perfeitamente iluminado, e você está mantendo a doutrina e disciplina do seu mestre.’ Nesse caso, o mestre e a doutrina são elogiáveis, e o pupilo também é elogiável. E se alguém dissesse para aquele pupilo: ‘Muito bem, venerável senhor, seguindo essa prática você será bem sucedido,’ aquele que dá o encorajamento, a coisa encorajada e aquele que ao ouvir esse encorajamento, faz um esforço ainda maior, irão todos obter muito mérito. Por que? Porque assim é quando a doutrina e disciplina são bem proclamadas, expostas de modo edificante e eficazes na tranquilização das paixões, porque o seu proclamador é um mestre perfeitamente iluminado.

8. “Mas agora, Cunda, suponha que um Mestre tenha surgido no mundo, um arahant perfeitamente iluminado, e que a sua doutrina e disciplina sejam bem proclamadas, expostas de modo edificante e eficazes na tranquilização das paixões. Mas os seus discípulos não tenham obtido a proficiência naquele verdadeiro Dhamma, para eles a completa pureza da vida santa ainda não se tornou clara e evidente de acordo com o seu desdobramento lógico e ainda não se firmou entre eles, estando ainda no processo de serem bem proclamadas entre os humanos por ocasião do falecimento do Mestre. Em vista disso, Cunda, a morte do Mestre seria algo muito triste para os seus discípulos. Por que? Eles pensariam: ‘Nosso Mestre surgiu no mundo em nosso benefício, mas nós não obtivemos proficiência no verdadeiro Dhamma, que ainda estava no processo de ser bem proclamado entre os humanos, e agora o nosso Mestre faleceu!’ Em vista disso, a morte do Mestre seria algo muito triste para os seus discípulos.

9. “Mas suponha que um Mestre tenha surgido no mundo, um arahant perfeitamente iluminado, e que a sua doutrina e disciplina sejam bem proclamadas, expostas de modo edificante e eficazes na tranquilização das paixões, e os seus discípulos tenham obtido proficiência no verdadeiro Dhamma, que para eles a completa pureza da vida santa tenha se tornado clara e evidente de acordo com o seu desdobramento lógico e tenha se firmado entre eles, estando ao mesmo tempo bem proclamado entre os humanos por ocasião do falecimento do Mestre. Em vista disso, a morte do Mestre não seria algo muito triste para os seus discípulos. Por que? Ele pensariam: ‘Nosso Mestre surgiu no mundo em nosso benefício, e nós obtivemos proficiência no verdadeiro Dhamma, estando ao mesmo tempo bem proclamado entre os humanos, e agora o nosso Mestre faleceu!’ Em vista disso, a morte do Mestre não seria algo muito triste para os seus discípulos.

10. “Mas, Cunda, se a vida santa é assim circunstanciada e não há um mestre que é sênior, ancião, ordenado faz tempo, maduro e veterano, então nesse caso, a vida santa será imperfeita. Mas se existe um mestre assim, então nesse caso a vida santa poderá ser aperfeiçoada.

11. “Se, por um lado, houver um mestre que é sênior, mas se não houver entre os bhikkhus, discípulos seniores que sejam experientes, treinados, hábeis, que realizaram a paz e se libertaram do cativeiro,[3] que são capazes de proclamar o verdadeiro Dhamma, capazes de refutar através do verdadeiro Dhamma quaisquer doutrinas opostas que possam surgir, e ao fazer isso dar uma exposição do Dhamma bem fundamentada, então, a vida santa não estará aperfeiçoada.

12. “Se por outro lado, houver um mestre que é sênior e discípulos seniores, mas não houver bhikkhus intermediários com essas qualidades, ... ou [apesar da presença destes] não houver bhikkhus júniores com essas qualidades, ... não houver bhikkhunis seniores, ... não houver bhikkhunis intermediárias ou júniores, ... não houver discípulos leigos vestidos de branco, ... celibatários ou não, ... não houver discípulas leigas vestidas de branco, ... celibatárias ou não, ou se o ensinamento não prosperar e florescer, não se espalhar, não for bem conhecido, não for proclamado por todas partes, ... ou [mesmo se essas condições forem satisfeitas] não tiver obtido o primeiro lugar no apoio popular, então a vida santa não estará aperfeiçoada.

13. “Se, no entanto, todas essas condições forem satisfeitas, então a vida santa estará aperfeiçoada.

14. “Mas, Cunda, eu agora surgi no mundo, um arahant perfeitamente iluminado, o Dhamma é bem proclamado, ... os meus discípulos são proficientes no verdadeiro Dhamma, ... a completa pureza da vida santa se tornou clara e evidente de acordo com o seu desdobramento lógico ... Mas agora sou um mestre envelhecido, ancião, que seguiu a vida santa há muito tempo, e a minha vida está chegando ao fim.

15. “No entanto, entre os bhikkhus há mestres seniores que são experientes, treinados, hábeis, que realizaram a paz e se libertaram do cativeiro, que são capazes de proclamar o verdadeiro Dhamma, capazes de refutar através do verdadeiro Dhamma quaisquer doutrinas opostas que possam surgir, e ao fazer isso dar uma exposição do Dhamma bem fundamentada. E há bhikkhus intermediários que são disciplinados e experientes, há noviços que são disciplinados e experientes, há bhikkhunis seniores, intermediárias e júniores que são disciplinadas e experientes, há discípulos leigos vestidos de branco, celibatários ou não, há discípulas leigas vestidas de branco, celibatários ou não, e a vida santa que eu proclamo prospera e floresce, está espalhada, é bem conhecida, proclamada por todas partes, bem proclamada entre os humanos.

16. “Entre todos os mestres que agora existem no mundo, Cunda, eu não vejo nenhum que tenha alcançado uma posição de fama e a quantidade de discípulos que eu alcancei. De todas as ordens e grupos no mundo, eu não vejo nenhuma tão famosa e com tão boa companhia como a minha Sangha de bhikkhus. Se alguém fosse se referir a alguma vida santa como sendo perfeitamente bem sucedida e perfeita, onde não falta nada e não há nada supérfluo, bem proclamada na perfeição da sua pureza, é esta vida santa que eles estariam descrevendo. Era Uddaka Ramaputta [4] que costumava dizer: ‘Ele vê, mas não enxerga.’ O que seria isso, que vendo, alguém não enxerga? É possível ver a lâmina de uma navalha afiada, mas não enxergar o seu fio. Isso é o que ele queria dizer com: ‘Ele vê, mas não enxerga.’ Ele se referia a uma coisa vulgar, mundana, ignóbil, sem nenhum significado para a vida santa, uma mera navalha.

“Mas se alguém fosse usar essa expressão de modo apropriado: ‘Ele vê, mas não enxerga,’ seria da seguinte forma. Aquilo que ele vê é um modo de vida santo que é completamente bem sucedido e perfeito, onde não falta nada e não há nada supérfluo, bem proclamado na perfeição da sua pureza. Se ele deduzisse alguma coisa disso, pensando: ‘Desta forma ela será mais pura,’ ele não enxergaria isso. E se ele fosse adicionar alguma coisa, pensando: ‘Desta forma ela será mais completa,’ ele não enxergaria isso. Esse é o significado do ditado: ‘Ele vê, mas não enxerga.’ Portanto, Cunda, se alguém for se referir a algum modo de vida santo como sendo completamente bem sucedido e perfeito, ... é esta vida santa que eles estariam descrevendo.

17. “Portanto, Cunda, todos vocês para quem eu ensinei essas verdades, que realizei por mim mesmo através do conhecimento direto, devem se reunir e recitá-las, colocando o significado lado a lado e o fraseado lado a lado, sem dissensões, de modo que esta vida santa possa continuar e se manter durante muito tempo pelo bem-estar e felicidade de muitos, com compaixão pelo mundo, pelo bem, pelo bem-estar e felicidade de devas e humanos.[5] E quais são as coisas que vocês devem recitar juntos? Elas são: os quatro fundamentos da atenção plena; os quatro esforços corretos; as quatro bases para o poder; as cinco faculdades dominantes; os cinco poderes; os sete fatores da Iluminação; o Nobre Caminho Óctuplo. Essas são as coisas que vocês devem recitar juntos.

18. “E assim vocês devem praticar, reunidos em harmonia e sem dissensões. Se um companheiro cita o Dhamma na assembléia e se você pensar que ele entendeu mal o significado ou o fraseado é equivocado, você não deve nem aplaudir e nem rejeitar, mas dizer para ele: ‘Amigo, se você quer dizer assim ou assado, você deveria colocá-lo desta ou daquela forma: qual é o mais apropriado?’ ou: ‘Se você diz assim ou assado, você quer dizer isto ou aquilo: qual é o mais apropriado?’ Se ele responder: ‘Este significado é expressado melhor assim do que assado’, ou : ‘O significado deste fraseado é isto ao invés daquilo,’ então, as palavras dele não devem ser nem rejeitadas e nem depreciadas, mas você deve explicar a ele com cuidado o significado correto e o fraseado correto.

19. “Novamente, Cunda, se um companheiro na vida santa cita o Dhamma na assembléia e se você pensar que ele entendeu mal o significado embora o fraseado seja correto, você não deve nem aplaudir e nem rejeitar, mas dizer para ele: ‘Amigo, essas palavras podem significar isto ou aquilo: qual significado é o mais apropriado?’ E se ele responder: ‘Elas significam isto,’ então as palavras dele não devem ser nem rejeitadas e nem depreciadas, mas você deve explicar a ele com cuidado o significado correto.

20. “E de modo semelhante, se você pensar que o significado é correto mas o fraseado é equivocado, ... você deve explicar a ele com cuidado o significado correto e o fraseado correto.

21. “Mas, Cunda, se você pensar que o significado está correto e o fraseado está correto, ... você deve dizer: “Muito bem![6] E você deve aplaudi-lo e cumprimentá-lo dizendo: ‘Nós somos afortunados, nós somos abençoados por tê-lo encontrado, amigo, um companheiro na vida santa que é tão bem versado em ambos, no significado e no fraseado!’

22. “Cunda, eu não ensino o Dhamma para coibir as contaminações que surgem apenas nesta vida. Eu não ensino o Dhamma somente para a destruição delas nas vidas futuras, mas para coibi-las nesta vida, bem como para a sua destruição nas vidas futuras. Por conseguinte, Cunda, que o manto que eu o autorizei a usar seja usado apenas para protegê-lo do frio, protegê-lo do calor, protegê-lo do contato com moscas, mosquitos, vento, sol e criaturas rastejantes, e para ocultar as partes íntimas. Que a comida esmolada que eu o autorizei a pedir seja suficiente apenas para manter a resistência e continuidade do corpo, como forma de dar um fim ao desconforto e para auxiliar a vida santa, considerando: ‘Dessa forma darei um fim às antigas sensações (de fome) sem despertar novas sensações (de comida em excesso) e serei saudável e sem culpa e viverei em comodidade.’ Que a moradia que eu o autorizei a ter seja somente para proteção do frio, para proteção do calor, para proteção do contato com moscas, mosquitos, vento, sol e criaturas rastejantes e somente com o propósito de evitar os perigos do clima e para desfrutar do isolamento. Que os medicamentos que eu o autorizei a tomar sejam somente para proteção contra sensações aflitivas que já surgiram e para se beneficiar da boa saúde.

23. “Pode ser, Cunda, que os errantes de outras seitas digam: ‘Os contemplativos que seguem o Sakya têm o vício de uma vida dedicada ao prazer.’ Em sendo assim, eles devem ser perguntados: ‘Que tipo de vida dedicada ao prazer, amigo? Pois esse tipo de vida pode assumir muitas formas.’ Há, Cunda, quatro tipos de vida dedicadas ao prazer que são baixas, vulgares, grosseiras, ignóbeis e que não trazem benefício, não conduzem ao desencantamento, desapego, cessação, paz, conhecimento direto, iluminação e Nibbana. Quais são elas? Primeiro, uma pessoa tola sente prazer e gozo em matar seres vivos. Segundo, alguém sente prazer e gozo em tomar aquilo que não é dado. Terceiro, alguém sente prazer e gozo em dizer mentiras. Quarto, alguém se entrega à paixão e gozo dos prazeres dos cinco sentidos. Esses são os quatro tipos de vida dedicadas ao prazer que são baixas, vulgares, ... não conduzem ao desencantamento, ... iluminação e Nibbana.

24. “E pode ser que os errantes de outras seitas digam: ‘Os discípulos do Sakya são dados a esses quatro tipos de busca do prazer?’ A resposta deve ser: ‘Não!’ pois eles não estariam falando a seu respeito da forma correta, eles o estariam caluniando com afirmações falsas e mentirosas.

“Cunda, há esses quatro tipos de vida dedicadas ao prazer que por inteiro conduzem ao desencantamento, desapego, cessação, paz, conhecimento direto, iluminação e Nibbana. Quais são elas? Primeiro, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. Abandonando o êxtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas.

“Esses são os quatro tipos de vida dedicadas ao prazer que por inteiro conduzem ao desencantamento, desapego, cessação, paz, conhecimento direto, iluminação e Nibbana. Portanto se os errantes de outras seitas dissessem que os discípulos do Sakya são dados a esses quatro tipos de busca do prazer, a resposta deve ser: ‘Sim,’ pois eles estariam falando a seu respeito da forma correta, eles não o estariam caluniando com afirmações falsas e mentirosas.

25. “Então esses errantes poderão perguntar: ‘Muito bem , então, aqueles dados a esses quatro tipos de busca do prazer – quantos frutos, quantos benefícios eles podem esperar obter?’ E você deveria responder: ‘Eles podem esperar obter quatro frutos, quatro benefícios. Quais são eles? O primeiro é quando um bhikkhu com a completa destruição de três grilhões entra na correnteza, não mais destinado aos mundos inferiores, com o destino fixo, ele tem a iluminação como destino; o segundo é quando um bhikkhu com a completa destruição de três grilhões e com a atenuação da cobiça, raiva e delusão, se torna um daqueles que retorna uma vez, e tendo retornado uma vez mais a este mundo, dará um fim ao sofrimento; o terceiro é quando um bhikkhu com a completa destruição dos cinco primeiros grilhões, renasce espontaneamente nas Moradas Puras e lá irá realizar o parinibbana sem nunca mais retornar daquele mundo. O quarto é quando um bhikkhu com a completa destruição das impurezas, permanece num estado livre de impurezas com a libertação da mente e a libertação através da sabedoria, tendo conhecido e manifestado isso para si mesmo no aqui e agora. Esses são os quatro frutos e quatro benefícios obtidos por aquele que é dado a esses quatro tipos de busca do prazer.’

26. “Então, esses errantes poderão dizer: ‘As doutrinas dos discípulos do Sakya não estão bem fundamentadas.’ A resposta deveria ser: ‘Amigos, o Abençoado que sabe e vê proclamou e ensinou para os seus discípulos princípios que não devem ser transgredidos enquanto durar a vida. Tal qual um pilar com um ferrolho ou um pilar de ferro com uma base profunda, bem plantado e inabalável, inabaláveis são essas doutrinas que ele ensinou. E qualquer bhikkhu que é um Arahant, cujas impurezas foram destruídas, que viveu a vida santa, fez o que devia ser feito, depôs o fardo, alcançou o verdadeiro objetivo, destruiu os grilhões da existência e está completamente libertado através do conhecimento supremo, é incapaz de fazer nove coisas: (1) Ele é incapaz de tirar a vida de um ser vivo de modo deliberado; (2) ele é incapaz de tomar aquilo que não for dado para constituir um roubo (3) ele é incapaz de manter relações sexuais; (4) ele é incapaz de contar uma mentira deliberada; (5) ele é incapaz de armazenar coisas para o gozo dos sentidos como fazia na vida em família; (6) ele é incapaz de agir de modo incorreto devido ao desejo; (7) ele é incapaz de agir de modo incorreto devido à raiva; (8) ele é incapaz de agir de modo incorreto devido à delusão; (9) ele é incapaz de agir de modo incorreto devido ao medo. Essas são as nove coisas que um Arahant, cujas impurezas foram destruídas ...”

27. “Ou esses errantes poderão dizer: ‘Com relação ao passado, o contemplativo Gotama demonstra conhecimento e insight ilimitados, mas não com relação ao futuro, com relação ao que será e como será.’ Seria supor que o conhecimento e o insight referente a uma coisa são produzidos pelo conhecimento e insight em relação a algo diferente, como imaginam os tolos. Com relação ao passado, o Tathagata tem conhecimento das vidas passadas. Ele é capaz de se recordar o quanto queira do passado. Quanto ao futuro, este conhecimento, que tem origem na iluminação surge nele: ‘Este é o último nascimento, não haverá mais ser/existir.’

28. “Se ‘passado’ se refere ao que não é fato, a fábulas, ao que não traz benefício, o Tathagata não responde. Se ‘passado’ se refere ao que é fato, não é fábula, mas que não traz benefício, o Tathagata não responde. Mas se ‘passado’ se refere ao que é fato, não é fábula, e que traz benefício, então, o Tathagata sabe o momento mais apropriado para responder. O mesmo se aplica ao futuro e ao presente. Portanto, Cunda, o Tathagata é chamado aquele que declara o tempo, o fato, o benefício, o Dhamma e a Disciplina. É por isso que ele é chamado Tathagata.

29. “Cunda, tudo aquilo no mundo, com os seus devas, maras e brahmas, esta população com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e o povo, que é visto, ouvido, sentido, conscientizado, buscado, procurado, ponderado pela mente: o Tathagata despertou completamente para tudo isso. Por isso ele é chamado o Tathagata. Desde a noite em que o Tathagata despertou completamente para a insuperável perfeita iluminação até a noite na qual ele realize o parinibbana, tudo aquilo que o Tathagata disse, falou, explicou é assim (tatha) e não de outra forma. Por isso ele é chamado o Tathagata. Neste mundo, com os seus deuses, maras e brahmas, esta população com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e o povo, o Tathagata é o Conquistador, o Não-conquistado, Omnisciente, Todo Poderoso. Por isso ele é chamado o Tathagata.

30. “Ou esses errantes poderão dizer: ‘O Tathagata existe após a morte: somente isso é verdadeiro, todo o restante é falso.’ A resposta deveria ser: ‘Amigo, isso não foi declarado pelo Abençoado.’ ... ‘O Tathagata não existe após a morte?’ .. ‘O Tathagata tanto existe como não existe após a morte?’ ... ‘O Tathagata nem existe, nem não existe após a morte?’ A resposta deveria ser: ‘Amigo, isso não foi declarado pelo Abençoado.”

31. “Então, eles poderão dizer: ‘Porque o contemplativo Gotama não declarou isso?’ A resposta deveria ser: ‘Amigos, Porque não traz beneficio, não pertence aos fundamentos da vida santa, não conduz ao desencantamento, ao desapego, à cessação, à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, a Nibbana. É por isso que o Abençoado não declarou isso.’

32. “Ou eles poderão dizer: ‘Muito bem, amigo, então o que declarou o contemplativo Gotama?’ A resposta deveria ser: ‘Isto é sofrimento’ – ele declarou. ‘Esta é a origem do sofrimento’ – ele declarou. ‘Esta é a cessação do sofrimento’ – ele declarou. ‘Este é o caminho que conduz à cessação do sofrimento’ – ele declarou.”

33. “Então, eles poderão dizer: ‘Por que o contemplativo Gotama declarou isso?’ A resposta deveria ser: ‘Amigos, Porque isso traz beneficio, pertence aos fundamentos da vida santa, conduz ao desencantamento, ao desapego, à cessação, à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, a Nibbana. É por isso que o Abençoado declarou isso.’

34. “Cunda, aquelas especulações sobre o começo das coisas eu lhe expliquei como devem ser expostas, devo agora explicar-lhe como elas não devem ser expostas? [7] E da mesma forma com relação ao futuro? Quais são as especulações com relação ao passado ...? Há contemplativos e Brâmanes que dizem e acreditam que: ‘O eu e o mundo são eternos: somente isso é verdadeiro, todo o restante é falso’ ‘O eu e o mundo não são eternos.’ ... ‘O eu e o mundo são tanto, eternos como não eternos.’ ... ‘O eu e o mundo não são nem eternos e nem não eternos.’ ‘O eu e o mundo são criados por si mesmos.’ ... ‘Eles são criados por outrem.’ ... ‘Eles são tanto, criados por si mesmos como por outrem.’ ... ‘Eles não são nem criados por si mesmos e nem por outrem, mas têm origem fortuita.’ E da mesma forma com relação ao prazer e a dor.

35.-36. “Agora, Cunda, eu vou até esses contemplativos e Brâmanes que têm essas idéias e ao serem perguntados eles confirmam que essas são as suas idéias, eu não aceito as suas afirmações. Por que não? Porque, Cunda, diferentes seres têm opiniões diferentes com relação a esses assuntos. Nem considero essas teorias em pé de igualdade com a minha, quanto menos superior. Eu sou superior em relação a eles no que diz respeito à exposição suprema. Quanto às especulações sobre o começo das coisas que eu lhe expliquei como devem ser expostas, por que deveria eu agora explicar-lhe como elas não devem ser expostas?

37. “E em relação aos especuladores sobre o futuro? Há alguns contemplativos e Brâmanes que dizem: ‘Após a morte o eu é material e intacto’; ‘... imaterial’; ‘... ‘tanto material como imaterial’; ‘ ... nem material e nem imaterial’; ‘O eu é perceptivo após a morte’; ‘ ... não perceptivo’; ‘ ... tanto’; ‘ ... nenhum dos dois’; ‘O eu é aniquilado, destruído, não existe depois da morte: somente isso é verdadeiro, todo o restante é falso.’

38,-39. “Agora, Cunda, eu vou até esses contemplativos e Brâmanes que têm essas idéias e ao serem perguntados eles confirmam que essas são as suas idéias, eu não aceito as suas afirmações. Por que não? Porque, Cunda, diferentes seres têm opiniões diferentes em relação a esses assuntos. Nem considero essas teorias em pé de igualdade com a minha, quanto menos superior. Eu sou superior com relação a eles no que diz respeito à exposição suprema. Quanto às especulações sobre o futuro que eu lhe expliquei como devem ser expostas, por que deveria eu agora explicar-lhe como elas não devem ser expostas?

40. “E, Cunda, para a destruição de todas essas idéias em relação ao passado e o futuro, para transcendê-las, eu ensinei e estabeleci os quatro fundamentos da atenção plena. Quais quatro? Aqui, Cunda, um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo, ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. Ele permanece contemplando as sensações como sensações, ... mente como mente, ... ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais, ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. É assim, Cunda, que eu ensinei e estabeleci os quatro fundamentos da atenção plena para a destruição de todas essas idéias em relação ao passado e o futuro, para transcendê-las.”

41. Durante todo esse tempo o Venerável Upavana [8] estava em pé atrás do Abençoado, ventilando-o. Então, ele disse ao Abençoado: "É admirável, venerável senhor, é maravilhoso! Venerável senhor, esta exposição do Dhamma é encantadora – muito encantadora! Venerável senhor, qual é o nome deste discurso do Dhamma?” “Quanto a isso, Upavana, você poderá se lembrar deste discurso do Dhamma como ‘O Discurso Encantador.’”

Isso foi o que disse o Abençoado. O Venerável Upavana ficou satisfeito e contente com as palavras do Abençoado.

 


 

Notas:

[1] A abertura deste sutta é a mesma do MN 104 onde também existe a preocupação sobre como preservar a harmonia na Sangha depois da morte do Buda. [Retorna]

[2] DA explica que a ‘oportunidade’ neste caso é o nascimento humano. [Retorna]

[3] Yogakkhema: o estado de Arahant. É interessante observar que na terminologia do Cânone, yoga em geral tem a característica negativa de ‘cativeiro’, sendo um sinônimo para as impurezas, asavas. A sua conotação religiosa positiva foi sendo desenvolvida gradualmente tanto dentro como fora do Budismo. Veja o DN 33.1.11 (32). [Retorna]

[4] O segundo mestre de Gotama. Veja o MN 26 e MN 36. [Retorna]

[5] Este convite à ‘recitação’ pode ter inspirado os suttas DN 33, DN 34. [Retorna]

[6] Sadhu. Veja também o MN 103 no qual o Buda recomenda o método para dirimir dúvidas sobre o significado e fraseado do Dhamma.[Retorna]

[7] Estas são algumas das especulações tratadas no DN 1. [Retorna]

[8] Conforme o DN 16.5.4.[Retorna]

 

 

Revisado: 18 Novembro 2006

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