O Potencial das Sensações Prazerosas

Por

Bhikkhu Analayo

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O Ascetismo do Buda

O relato da busca pela iluminação pelo próprio Buda oferece indicações claras sobre o pensamento original Budista em relação às sensações prazerosas. Particularmente esse é o caso das práticas ascéticas descritas no Mahasaccaka Sutta (MN36) e seus paralelos. Três modalidades de ascetismo são relevantes no progresso do Buda para o despertar na sua última vida:

- controle mental à força,
- controle da respiração,
- jejum.

Na primeira modalidade o Buda descreve "E se eu, com os dentes cerrados e pressionando a minha língua contra o céu da boca, abatesse, forçasse e subjugasse minha mente com a minha mente." Aparentemente essa seria uma tentativa de alcançar a libertação da mente com base na força.

Quando isso não teve os resultados esperados, ele tentou várias formas para controlar a respiração. Quando isso também não foi bem sucedido, ele reduziu drasticamente a ingestão de alimentos.

O resultado final de todas essas práticas ascéticas foi que o corpo atingiu uma condição de extrema emaciação e fraqueza, deixando claro que, embora tivesse levado o ascetismo aos seus extremos, o objetivo final da libertação não fora alcançado. O Buda então se perguntou se poderia haver outro caminho para o despertar.

O Prazer Não Deve ser Temido

O Mahasaccaka Sutta relata que nessa altura o Bodisatva lembrou de uma experiência do primeiro jhana, na sua infância que fez com que ele pensasse o seguinte:

"Por que temo esse prazer que não tem nada que ver com a sensualidade, nem com qualidades mentais prejudiciais?"

O modo de pensar que pode ter como resultado temer o prazer também aparece no Bodhirajakumara Sutta (MN85) no qual o Buda diz:

“Príncipe, antes da minha iluminação, quando eu ainda era apenas um Bodisatva não iluminado, eu também pensava assim: ‘O prazer não é obtido através do prazer; o prazer deve ser obtido através da dor.’

Esse sutta prossegue com um relato completo do ascetismo praticado pelo Buda culminando com o entendimento crucial que não é necessário temer o prazer, contanto que este não esteja conectado com os sentidos.

Diferenciando os Tipos de Prazer

A necessidade de diferenciar o prazer sensual do não sensual demonstra que nem tudo prazeroso, por princípio, precisa ser rejeitado por ser inevitavelmente uma obstrução.

Esse importante esclarecimento pode ser ainda mais examinado no Culavedalla Sutta (MN 44). Nesse sutta a arahant Dhammadinna oferece a seguinte explicação:

"Amigo Visakha, a tendência subjacente do desejo sensual deve ser abandonada em relação à sensação prazerosa ... (no entanto) Amigo Visakha, a tendência subjacente do desejo sensual não precisa ser abandonada em relação a toda sensação prazerosa."

De modo a não deixar dúvidas, a bhikkhuni Dhammadinna na sequência explica que com o primeiro jhana o desejo sensual é abandonado (sendo que esse abandono é na verdade a pré-condição para alcançar o primeiro jhana). Portanto a tendência subjacente do desejo sensual não dá suporte às sensações prazerosas que surgem na experiência do primeiro jhana.

Isso parece refletir o insight do próprio Buda quando da recordação da sua experiência do primeiro jhana quando criança. As sensações prazerosas que surgem nessa experiência não precisam ser temidas, precisamente porque não estimulam a tendência para o desejo sensual.

A Gradual Purificação do Prazer

O mesmo insight crucial está presente na concepção Budista do caminho para a iluminação. Um bom exemplo é o relato do caminho gradual encontrado no Kandaraka Sutta (MN 51).

Um dos tipos de prazer descritos nesse discurso surge devido ao comportamento hábil e benéfico resultando num prazer que é "imaculado", anavajja-sukha. Este se manifesta como resultado da manutenção de uma conduta ética.

Outro exemplo é encontrado na contenção das faculdades dos sentidos, descrita no Kandaraka Sutta desta forma (tomando o caso da visão como exemplo):

“Ao ver uma forma com o olho, ele não se agarra aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecer com a faculdade do olho descuidada, ele será tomado pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza, ele pratica a contenção, ele protege a faculdade do olho, ele se empenha na contenção da faculdade do olho."

Esse tipo de contenção das faculdades dos sentidos não requer simplesmente evitar experiências visuais (ou aquelas dos outros sentidos). A tarefa na verdade é evitar que alguém seja tomado por aquilo que vê. A pessoa evita agarrar-se ao que é experimentado com um viés tingido pela subjetividade, e ela não permite que a mente siga proliferando baseada no input inicial proporcionado por aquele viés.

O termo acima interpretado como "sinal" é nimitta. O nimitta é um ingrediente indispensável para o funcionamento da percepção, sañña. Portanto, a tarefa de contenção das faculdades dos sentidos não pode ser simplesmente evitar todos nimittas. O resultado seria que a pessoa se tornaria disfuncional.

Na verdade o Indriyabhaavana Sutta (MN 152) critica de forma explícita a idéía que desenvolver os sentidos requer simplesmente evitar ver ou ouvir. O argumento sendo, que se esse fosse o caso, então os cegos e surdos deveriam ser considerados como praticantes realizados.

Ao invés disso, a apreensão de um tipo mas específico de nimitta é que está em jogo, isto é, o tipo de "sinal" que estimula a cobiça ou a raiva. Tal como mencionado no Mahavedalla Sutta (MN 43):

"A cobiça é fazedora dos sinais, a raiva é fazedora dos sinais, a delusão é fazedora dos sinais. No bhikkhu em que as impurezas foram destruídas, elas foram abandonadas."

Mesmo muito antes de realizar o estado de arahant, por não se agarrar ao tipo de nimitta relacionado com as impurezas, a mente pode pelo menos temporariamente emergir dessa situação sendo possível manter um equilíbrio interno e uniforme, que pelo menos até certo ponto se equipara à libertação interior experimentada pelos arahants.

Isso pode ser alcançado particularmente através do desenvolvimento da atenção plena, sati. Qualquer coisa vista pode ser recebida com atenção plena simplesmente como aquilo que é visto. A presença dessa receptividade apoiada na atenção plena evita a tendência da mente de proliferar com base em avaliações tendenciosas.

Como resultado dessa atenção plena bem estabelecida, uma forma sutil de prazer surge. Esse prazer de fato é "imaculado", em particular não é maculado ou comprometido pelo impacto das impurezas tingindo a experiência com viés e proliferação.

Por sua vez, esse prazer imaculado contribui como fundamento para as formas mais profundas de prazer que podem ser alcançados através dos jhanas, que são descritos na sequência da contenção dos meios dos sentidos nos relatos padronizados do caminho gradual. Esse foi precisamente o tipo de prazer que o Bodisatva lembrou depois de se dar conta que o ascetismo não produziria frutos. Esse prazer de fato não precisa ser temido.

Implicações Práticas

Do ponto de vista da prática, as indicações que foram colhidas em relação à experiência de prazer colocam em perspectiva a tendência de pensar que, enquanto nossa prática for realmente árdua e exigente, ela deve estar nos levando adiante no caminho para a libertação. Isso não é necessariamente correto. O esforço e a dedicação de fato são sem dúvida requisitos importantes para o progresso na prática de meditação, mas essas qualidades serão mais eficazes quando acompanhadas de um atitude que não seja demasiado ambiciosa ou focada num objetivo.

O oposto que seria o comodismo em simplesmente desfrutar do prazer também não é comendável. O prazer precisa ser do tipo hábil/benéfico para ser capaz de gerar o crescimento pessoal e melhoria.

Na prática a questão que então se coloca é: O tipo de prazer que estou experimentando conduz ao desapego e libertação? Ou ao invés conduz a mais apego e dukkha?

A Perspectiva da Psicologia Cognitiva

O progressivo refinamento do prazer no Kandaraka Sutta mostra que o uso inteligente da busca pelo prazer, inato nos seres humanos, pode ser aproveitado no progresso para a libertação. A significância dessa indicação pode ser explorada ainda mais com o auxílio da recente pesquisa na psicologia cognitiva.

Durante o Simpósio sobre vedana no BCBS, Judson Brewer chamou a atenção para o mecanismo neural básico adquirido durante a evolução das espécies, que é responsável em assegurar que um certo suprimento de alimento será buscado e potenciais fontes de perigo serão evitadas.

Na cultura moderna atual, esses mesmos mecanismos podem conduzir a comportamentos viciantes de vários tipos. As sensações prazerosas experimentadas ao usar certas drogas ou adotar certos tipos de comportamento viciantes conduzem à formação de hábitos correspondentes. Cada situação de indulgência desperta a sensação de prazer e assim reforça o hábito. Como consequência um ciclo vicioso difícil de ser rompido.

No entanto o mesmo mecanismo de aprendizado com base em recompensas também pode ser usado de outros modos. O reforço positivo pode ser conseguido através do cultivo intencional da mente, em particular se for feito em conformidade com as passagens dos discursos mencionadas acima.

Atenção Plena no Momento Presente

Uma ferramenta particularmente relevante nesse caso é o cultivo da atenção plena. A contemplação das sensações como um elemento de satipatthana oferece uma ferramenta útil para reconhecer o tom hedônico do momento presente e assim compreender o grau em que isso afeta as subsequentes reações e avaliações mentais.

Além disso, e no contexto presente talvez ainda mais importante, o cultivo da atenção plena pode em si mesmo tornar-se uma fonte de prazer.

Um tipo de prazer sutil pode ser experimentado, simplesmente com a atenção plena estabelecida no momento presente. Esse prazer se manifesta porque a mente não está debilitada, por assim dizer, pelo envolvimento na reação e proliferação em relação ao que está sendo experimentado.

O prazer sutil ao estar no momento presente pode ser desperto em qualquer situação. O que é necessário é num momento dirigir-se ao interior, sem importar o que esteja acontecendo, permanecendo ciente do momento presente tal como é.

Atenção Plena na Respiração

A prática da atenção plena na respiração oferece um bom exemplo do tipo de prazer que pode ser cultivado através da atenção plena estabelecida no momento presente. Visto que em geral a experiência da respiração desperta sensações neutras, a tendência da mente é ficar entediada e buscar algo diferente que seja mais prazeroso do que a branda experiência da respiração.

No entanto, ao cultivar conscientemente o prazer sutil ao estar no momento presente, o princípio do aprendizado baseado na recompensa pode ser aplicado diretamente à prática da meditação. A mente pode ser ensinada que permanecer com a experiência da respiração é recompensador.

Esse essencial aspecto da prática é de fato reconhecido no esquema de dezesseis passos da atenção plena na respiração descritos no Anapanasati Sutta (MN 118) bem como nos discursos do Anapana Samyutta (SN 54.1–20). Depois dos quatro primeiros passos compreendendo a respiração longa, respiração curta, toda respiração, acalmando a respiração, os dois passos seguintes são:

“Ele treina assim: ‘eu inspiro experienciando êxtase’; ele treina assim: ‘eu expiro experienciando êxtase.'"

"Ele treina assim: ‘eu inspiro experienciando a felicidade’; ele treina assim: ‘eu expiro experienciando a felicidade.’"

Uma vez que o êxtase e a felicidade surgem, a mente naturalmente tende a permanecer com a respiração ao invés de buscar algo que seja mais interessante. A descrição neste caso não precisa ser vista como limitada aos jhanas, mas pode ser considerada como relevante de modo geral. Isso está de acordo com a importância dada em outros discursos ao potencial dos tipos de prazer hábil e benéfico, bem como as descobertas da psicologia cognitiva sobre o aprendizado baseado em recompensas.

Dessa forma a tendência das sensações prazerosas atraírem a mente pode ser usada de maneira inteligente de modo a promover a calma e o auto-controle mental e contrapor a tendência à distração. É possível ser assim tão fácil.

 

 

Revisado: 18 Julho 2018

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