Introdução ao Samyutta Nikaya

Por

Bhikkhu Bodhi

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O Samyutta Nikaya (SN) é a terceira grande coleção de discursos do Buda que faz parte do Sutta Pitaka do Cânone em Pali, a compilação dos textos autorizados como a Palavra do Buda pela escola Theravada de Budismo. No Sutta Pitaka o SN vem depois do Digha Nikaya e do Majjhima Nikaya e precede o Anguttara Nikaya. Como os demais Nikayas em Pali, o SN possui correspondentes nas coleções canônicas das primeiras escolas de Budismo e uma dessas versões foi preservada no Tipitaka em Chinês onde é conhecido como Tsa-a-han-ching. Esta versão foi traduzida para o Sânscrito com o título de Samyuktagama e as evidências indicam ter este pertencido à escola Sarvastivada. Portanto, apesar do Samyutta Nikaya ter o seu lugar dentro do Cânone Theravada, não deveríamos nos esquecer que ele faz parte de um conjunto de textos denominados Nikayas na tradição em Pali, que predomina no sul da Ásia, e Agamas na tradição Budista do norte da Ásia – e se situam na origem de toda a herança literária Budista. Foi com base nesses textos que as primeiras escolas do Budismo estabeleceram os seus sistemas de doutrina e prática, e mais uma vez, foi para esses textos que as escolas posteriores de Budismo apelaram ao formular as suas novas visões do caminho Budista.

Como fonte da doutrina Budista o SN é particularmente rico, pois nesta coleção são precisamente os sistemas de classificação doutrinários que servem como base principal para classificar os discursos do Buda. A palavra samyutta significa literalmente “jungir,” yutta, possuindo a mesma raiz etimológica que a palavra “jugo” em Português e, sam, um prefixo que significa “juntos.” Esse prefixo também aparece nos próprios suttas com o significado doutrinário de “agrilhoado” ou “atado”. Com esse sentido é um particípio passado relacionado ao termo técnico samyojana, “grilhão,” sendo que há dez grilhões que atam os seres vivos ao samsara, o ciclo de renascimentos. Mas a palavra samyutta também é usada num sentido mais comum significando simplesmente coisas que estão juntas ou “unidas”, como quando é dito, “Suponham, amigos, um boi negro e um boi branco que estão unidos por um único arreio ou canga” (SN XXV.232). E esse é o significado relevante para esta coleção de textos. Estes são suttas, (discursos), atribuídos ao Buda ou a discípulos eminentes, que estão unidos ou conectados. E aquilo que os conecta, o “arreio ou canga”, (damena va yottena va), são os tópicos que dão os títulos a cada capítulo individual, os samyuttas, nos quais os suttas estão agrupados.

As Linhas Mestras do Samyutta Nikaya

Apesar das dimensões imensas desta obra, o plano de acordo com o qual ela foi construída é bastante simples e objetivo. O SN que foi preservado na tradição em Pali consta de cinco principais Vaggas, partes ou “livros.” Esses cinco volumes contêm cinqüenta e seis samyuttas ou capítulos, cada um se baseando num tema comum. Os samyuttas mais longos por seu turno estão divididos em sub-capítulos, também chamados vaggas, enquanto os samyuttas menores pode-se dizer que consistem de um vagga só idêntico ao próprio samyutta. [1] Cada vagga, idealmente, contém dez suttas, embora na realidade o número de suttas em cada vagga possa variar de cinco até sessenta. Portanto, encontramos que a palavra vagga, literalmente “grupo”, é usada para designar tanto as cinco principais partes da coleção completa (com letra maiúscula, Vagga), como também os sub-capítulos dentro de cada samyutta, (com letra minúscula, vagga).

Os dois principais samyuttas, o Khandhasamyutta (22) e o Salayatanasamyutta (35), são tão extensos que empregam uma unidade divisória adicional para simplificar a organização, o paññasaka ou “conjunto de cinqüenta.” Esse número é apenas uma aproximação, visto que os conjuntos em geral contêm um pouco mais que cinqüenta suttas; deveras, o quarto conjunto do Salayatanasamyutta contém noventa e três suttas, entre eles um vagga com sessenta! A maioria desses suttas, no entanto, são extremamente breves, abordando alguns poucos temas com variações.

Os cinco Vaggas ou “livros” principais do SN estão construídos de acordo com princípios distintos. O primeiro livro, o Sagathavagga, é único por ter sido compilado com base no gênero literário. Como o nome do Vagga indica, todos os suttas nesta coleção contêm gathas ou versos, embora nem todos os suttas do SN que contêm versos façam parte deste Vagga. Em muitos suttas desse Vagga a prosa é reduzida a um mero suporte para os versos, e no primeiro samyutta até mesmo isso desaparece de modo que o sutta se transforma num simples intercâmbio de versos, presumivelmente entre o Buda e um interlocutor. Os outros quatro Vaggas principais contêm importantes samyuttas que tratam dos principais temas doutrinários das primeiras escolas do Budismo, seguidos por samyuttas menores que abrangem uma variedade de tópicos. Cada uma das Partes II, III e IV inicia com um capítulo extenso dedicado a um tema de suprema importância: respectivamente, a cadeia de causação (isto é, origem dependente no SN 12), os cinco agregados (22), e as seis bases internas e bases externas (35). Cada um desses Vaggas recebe o nome do seu primeiro samyutta e também inclui outros samyuttas que lidam com outros tópicos importantes, porém secundários em relação ao tópico principal: na Parte II, os elementos (14); na Parte III, idéias filosóficas (24); e na Parte IV, sensações (36). Os demais samyuttas, em cada uma dessas coleções, em geral são menores e com uma temática mais leve, embora mesmo nesses possamos encontrar textos profundos e poderosos. Na Parte V todos os temas abordados são de grande importância, isto é, os vários grupos dos fatores de treinamento que no período pós-canônico foram chamados de os trinta e sete requisitos ou “asas” para a iluminação, (sattatimsa bodhipakkhiya dhamma). Este Vagga conclui com um samyutta que trata do insight original em volta do qual revolve todo o Dhamma, as Quatro Nobres Verdades. Daí ele ser chamado de Mahavagga, o Grande Livro, embora em algum momento ele possa ter sido chamado também de Maggavagga, o Livro do Caminho, (aliás, a versão em Sânscrito traduzida para o Chinês leva esse nome).

A organização do SN, da Parte II até a V, pode ser vista como aproximadamente correspondente ao padrão estabelecido pelas Quatro Nobres Verdades. O Nidanavagga, que foca na origem dependente, revela a gênese causal do sofrimento, sendo assim uma amplificação da segunda nobre verdade. O Khandhavagga e o Salayatanavagga destacam a primeira nobre verdade, a verdade do sofrimento; pois no seu sentido mais profundo esta verdade abrange todos os elementos da existência compreendidos pelos cinco agregados e as seis bases internas e seis bases externas (veja o SN LVI.13, 14). O Asankhatasamyutta (43), que vem ao final do Salayatanavagga, discute o incondicionado, um outro termo para a terceira nobre verdade, Nibbana, a cessação do sofrimento. Por fim, o Mahavagga, trata do caminho da prática, revela o caminho para a cessação do sofrimento e por conseguinte, a quarta nobre verdade. Se seguirmos o Samyuktagama Chinês o paralelismo é ainda mais óbvio pois, esta versão coloca o Khandhavagga no início, depois o Salayatanavagga que é seguido pelo Nidanavagga, dessa forma criando um paralelo com a primeira e a segunda verdade na sua seqüência apropriada. Mas esta versão coloca o Asankhatasamyutta no final do Mahavagga, talvez para mostrar a realização do incondicionado como o fruto da concretização da prática.

O Samyutta Nikaya e o Samyuktagama

Os comentários em Pali, e até mesmo o texto canônico Cullavagga, relatam os eventos do Primeiro Concílio Budista dando a impressão de que os seus participantes, os bhikkhus sêniores, organizaram o Sutta Pitaka num formato que na sua essência é aquele que vemos hoje, mesmo no que diz respeito à precisa seqüência dos textos. Isso é extremamente improvável e é improvável também que o concílio tenha estabelecido uma revisão final e permanente dos Nikayas. A evidência contrária é simplesmente enorme. Ela inclui a presença no cânone de suttas que só poderiam ter surgido depois do Primeiro Concílio (ex: MN 84, 108, 124); indícios de um trabalho de edição dos textos dos próprios suttas; e, um fator de peso, as diferenças no conteúdo e organização entre os Nikayas em Pali e os Agamas preservados no Tipitaka em Chinês. É muito mais provável que o que ocorreu no Primeiro Concílio foi a elaboração de um esquema abrangente para a classificação dos suttas (preservados apenas na memória dos monges) e a nomeação de um comitê editorial (talvez vários) para revisar o material disponível e colocá-lo num formato que contribuísse para facilitar a memorização e a transmissão oral. Possivelmente também, o comitê editorial, ao compilar uma coleção de textos autorizados, teria considerado cuidadosamente o propósito ao qual as coleções deveriam servir e então, teria formulado as diretrizes para a sua classificação de modo que satisfizesse esses propósitos. Este é um ponto ao qual retornarei mais abaixo. A distribuição dos textos entre grupos de recitadores, (bhanakas), encarregados da tarefa de preservá-los e transmití-los para a posteridade, ajudaria a explicar as diferenças entre as distintas revisões, bem como a ocorrência dos mesmos suttas em diferentes Nikayas.

A comparação do SN em Pali com o Samyuktagama em Chinês é particularmente instrutiva e revela uma correspondência extraordinária entre os seus conteúdos organizados de uma forma distinta. Eu já fiz uma alusão acima a algumas diferenças de organização, mas é esclarecedor examiná-las mais detalhadamente. A versão em Chinês contém nove Vaggas principais. O primeiro é o Khandhavagga, (em Pali é o III), o segundo é o Salayatanavagga, (em Pali, o IV), o terceiro o Nidanavagga, (em Pali, o II), que também contém o Saccasamyutta (56) e o Vedanasamyutta (36), desviando-se significativamente do SN nessas alocações. Depois segue o quarto chamado Savakavagga, sem uma contraparte na versão em Pali mas que inclui entre outros os Sariputta- (28), Moggallana- (40), Lakkhana- (19), Anuruddha- (52), e Cittasamyuttas (41). O quinto, cujo título em Pali seria Maggavagga, corresponde ao SN Mahavagga (em Pali é o V também), mas os samyuttas, ali, estão organizados numa seqüência que segue mais de perto a seqüência canônica que constitui os trinta e sete requisitos ou “asas” para a iluminação: Satipatthana (47), Indriya (48), Bala (50), Bojjhanga (46), e Magga (45); esta parte também inclui os Anapanasati- (54) e Sotapattisamyuttas (55), enquanto uma série de capítulos ao final inclui um Jhanasamyutta (53) e um Asankhatasamyutta (43). O sexto Vagga do Samyuktagama não tem um paralelo em Pali, mas contém o Opammasamyutta (20) e uma coleção de suttas sobre pessoas enfermas que reúne textos distribuídos ao longo de vários capítulos do SN. Então, como sétimo livro vem o Sagathavagga (em Pali, o I), com doze samyuttas – onze da versão em Pali, mas numa ordem distinta e com a adição do Bhikkhusamyutta (21), que na coleção em Pali contém apenas suttas em versos. Por fim, vem um Buddha- ou Tathagatavagga, que inclui os Kassapa- (16) e Gamanisamyuttas (42), e um Assasamyutta, “Discursos Agrupados sobre Cavalos.” Este último capítulo inclui suttas que no Cânone em Pali são encontrados no Anguttara Nikaya.

O Papel dos Quatro Nikayas

A opinião acadêmica predominante, fomentada pelos próprios textos, afirma que a principal base para distinguir os quatro Nikayas é o tamanho dos suttas. Assim os suttas mais extensos estão contidos no Digha Nikaya, aqueles com extensão média no Majjhima Nikaya e os discursos mais curtos estão distribuídos entre o Samyutta e o Anguttara Nikaya, sendo que o primeiro classifica os suttas por tema e o último pelo número de itens abordados na exposição. No entanto, num importante estudo pioneiro, a erudita em Pali, Joy Manné, questionou a premissa de que só o tamanho explica as diferenças entre os Nikayas. Ao comparar cuidadosamente os suttas do DN com aqueles do MN, Manné concluiu que as duas coleções têm a intenção de atender dois propósitos distintos dentro da revelação do Buda. Na opinião dela, o DN estaria primordialmente voltado para o propósito de propaganda, para atrair conversos para a nova religião e dessa forma estaria destinado principalmente para não Budistas que possuem uma inclinação favorável em relação ao Budismo; o MN, em comparação, estaria direcionado para o interior da comunidade Budista e o seu propósito seria exaltar o Mestre (tanto como uma pessoa real, bem como um arquétipo) e de integrar os monges na comunidade e na prática. Manné também propõe que “cada um dos quatro primeiros Nikayas surgiu para satisfazer uma necessidade e propósito distintos para o crescimento e desenvolvimento da comunidade Budista” (p. 73). Aqui, iremos tentar responder rapidamente a questão referente ao propósito que estaria por detrás da compilação do SN e do AN, em comparação com os outros dois Nikayas.

Ao abordar essa questão deveríamos primeiro observar que os suttas desses dois Nikayas proporcionam apenas um mínimo de informação circunstancial. Com raras exceções, na verdade, um ambiente está totalmente ausente com o cenário indicando simplesmente que o sutta foi proferido pelo Abençoado em tal e qual lugar. Deste modo, enquanto o DN e o MN estão repletos de drama, debate e narrativa, especialmente o DN, com uma abundância de excursões imaginativas, aqui, o entorno decorativo está totalmente ausente. No SN todo o entorno é reduzido a uma única sentença, em geral abreviada para “Em Savathi, no Bosque de Jeta”, e no quarto livro até mesmo isso desaparece. Exceto o Sagathavagga, que se situa numa categoria à parte, os outros quatro livros do SN possuem pouca ornamentação. Os suttas em si, em geral, são formulados como proclamações doutrinárias pelo próprio Buda; algumas vezes eles assumem a forma de uma consulta com o Mestre por um único bhikkhu ou um grupo de bhikkhus; outras vezes estão formulados como uma discussão entre dois monges eminentes. Muitos suttas consistem em um pouco mais do que algumas poucas sentenças e não é incomum eles elaborarem permutações sobre um único tema. Quando chegamos na Parte V, cadeias completas de suttas são reduzidas a meras palavras em versos mnemônicos, ficando por conta do recitador (ou do mestre contemporâneo) a tarefa de expandir o esboço e completar o conteúdo. Isso indica que os suttas do SN (tal qual o AN) não seriam, como regra geral, destinados às pessoas de fora ou mesmo àqueles recém-conversos, mas direcionados àqueles que já haviam buscado refúgio no Dhamma e se encontravam profundamente imersos no seu estudo e prática.

Com base no seu arranjo temático, podemos postular que, por suas características mais distintivas como uma coleção, (embora, com certeza não em todos os particulares), o SN foi compilado para servir como o repositório dos suttas muito curtos e concisos que revelam os insights radicais do Buda quanto à natureza da realidade e o seu caminho único para a emancipação espiritual. Esta coleção teria atendido às necessidades de dois tipos de discípulos dentro da comunidade monástica. Os especialistas doutrinários, aqueles monges e monjas que eram capazes de compreender as dimensões mais profundas da sabedoria e que tomaram para si a tarefa de esclarecer para os outros os muitos suttas com nuances abstrusas, profundas e delicadas, relacionados a tópicos de peso como a origem dependente, os cinco agregados, as seis bases sensuais, os fatores do caminho e as Quatro Nobres Verdades. Esta coleção seria perfeitamente adequada para aqueles discípulos com inclinação intelectual, que se deliciariam com a exploração das profundas implicações do Dhamma e com o trabalho de explicá-las para os companheiros no caminho espiritual. O segundo tipo de discípulos, aos quais o SN parece ter sido designado, eram aqueles monges e monjas que já haviam realizado os estágios preliminares do treinamento meditativo e que tinham a intenção de aperfeiçoar os seus esforços com a realização direta da verdade suprema. Como os suttas nesta coleção têm uma importância vital para os meditadores inclinados a realizar o “conhecimento das coisas como elas na verdade são,” eles poderiam muito bem ter constituído o corpo principal de um currículo de estudo compilado para guiar os meditadores na prática do insight.


Nota do Tradutor:

[1] Esta divisão adicional dos samyuttas em sub-capítulos, também chamados de vaggas, não é empregada no Acesso ao Insight. No web site os suttas do samyutta nikaya estão organizados de acordo com Vaggas/samyuttas (livros/capítulos). A ausência dos sub-capítulos não traz nenhum prejuízo aos leitores/estudiosos, pois eles servem apenas como um recurso adicional de classificação nos samyuttas mais extensos. [Retorna]

Veja a explicação sobre o Majjhima Nikaya e o Anguttara Nikaya.

 

 

Revisado: Revisado: 28 Agosto 2004

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