Sammaditthi Sutta – MN 9

Por

Ajaan Thanissaro

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O Entendimento Correto normalmente é explicado como o entendimento das quatro nobres verdades. No Sammaditthi Sutta, o ven. Sariputta expande a análise em várias direções.

Ele começa focando em dois conceitos que são a base das quatro nobres verdades: a dicotomia da ação hábil ou inábil e o conceito de alimento.

Ao focar na dicotomia da ação hábil ou inábil a atenção é chamada para o princípio geral de causa e efeito – o fato de que as ações produzem resultados – e para o papel específico da ação na determinação da experiência de prazer ou dor da pessoa: ações inábeis conduzem à dor, ações hábeis conduzem ao prazer. A busca da raíz das ações hábeis ou inábeis no final das contas conduz à mente, porque a presença ou ausência de habilidade em qualquer ação é determinada pelo estado mental que a motiva. Deste modo, a questão das ações hábeis ou inábeis proporciona em poucas palavras alguns dos princípios básicos das quatro nobres verdades em relação à causalidade, usos sábios e não sábios da causalidade, e o papel dominante da mente na cadeia causal que conduz à felicidade ou à infelicidade.

A imagem da “raíz” traz implicações adicionais. Como a função das raízes é extrair alimento do solo, a questão natural é: de onde as raízes do comportamento hábil ou inábil extraem o seu alimento? Essa é a razão porque o tópico seguinte no sutta é o alimento, que pode ser de dois tipos, físico e mental. E implícito na idéia do alimento está a possibilidade de uma estratégia para usar o alimento com habilidade: se o estado mental que está sendo alimentado for inábil, ele poderá ser superado privando-o do seu alimento; se for hábil, ele poderá ser estimulado alimentando-o mais (veja por exemplo o SN XLVI.51). Isto aponta para a possibilidade de treinar a mente através de uma estratégia de alimentação e esfomeação seletiva, ao mesmo tempo que a análise do alimento mental mostra precisamente quais eventos são os mais básicos na cadeia alimentar da mente: contato, volição e consciência.

O ven. Sariputta combina as questões de habilidade e alimento abordando o tópico do alimento com uma estrutura quádrupla: o alimento, a sua origem, (o alimento por seu turno tem o seu próprio alimento), a sua cessação (a possibilidade de esfomeação), e o caminho da prática que conduz à cessação, (o caminho para esfomeá-lo). Essa linha de pensamento conduz naturalmente ao tópico seguinte, onde a mesma estrutura é aplicada no ponto focal do ensinamento do Buda – o sofrimento – produzindo as quatro nobres verdades. Deste modo, o ven. Sariputta mostra como as quatro nobres verdades derivam dos dois tópicos de habilidade/inabilidade e alimento.

É interessante observar que ambos os tópicos figuram com destaque em discursos dirigidos a pessoas jovens. A instrução do Buda para Rahula no MN 61 foca no comportamento hábil ou inábil; a primeira pergunta no Samanera Pañha -- As Perguntas do Noviço (Khp 4), trata do alimento. Vendo quão básicos são esses conceitos na compreensão do papel da causalidade, que é de dar um fim ao sofrimento, o Buda os ensinou para pessoas jovens como um meio para entrar no Dhamma. Neste sutta, o ven. Sariputta mostra como esses tópicos podem desempenhar a mesma função para adultos. E talvez ele também esteja nos mostrando uma linha de raciocínio, através da qual ocorreu o seu próprio primeiro vislumbre de nibbana, baseado num simples enunciado do princípio causal:

Qualquer fenômeno que surja de uma causa:
        a sua causa
        e a sua cessação.
Esse é o ensinamento do Tathagata,
        o Grande Contemplativo. (Mv 1.23.5)

O restante deste sutta expande as quatro nobres verdades com uma análise na ordem reversa do ciclo da origem dependente. Dois aspectos se destacam nessa seção. Para começar, o ven. Sariputta aponta que a compreensão da relação entre quaisquer dois fatores adjacentes na cadeia da origem dependente proporciona sabedoria suficiente para abandonar as obsessões inábeis e dar um fim ao sofrimento. Não há necessidade de compreender todo o ciclo, pois o todo está implícito em cada relação de pares. Este é um ponto que tem importantes implicações práticas. O Snp III.12 afirma o mesmo, mas combina os objetos para contemplação de um modo diferente: cada fator no ciclo da origem dependente forma o seu par com o sofrimento. Uma comparação entre esses dois suttas oferece muito que pensar em termos práticos, mostrando como a habilidade para ver e compreender as dualidades é essencial para a sabedoria e a libertação na estratégia do Buda.

Segundo, o ven. Sariputta dá continuidade ao ciclo da origem dependente para além da ignorância – em geral o ponto final – para analisar a sua origem, que são as impurezas mentais. Como as impurezas por seu lado dependem da ignorância, a análise mostra como a ignorância tende a promover ainda mais ignorância. Mas como o ven. Sariputta demonstrou ao longo deste sutta, a ignorância não precisa ser propagada para sempre. Como ela é simplesmente a falta de conhecimento em relação às quatro nobres verdades, ela pode ser substituída pelo conhecimento que vê as coisas sob o prisma das quatro nobres verdades – o referencial derivado dos tópicos relacionados a hábil/inábil e alimento. Quando o conhecimento em relação a esse referencial for aplicado a qualquer ponto da cadeia causal, todo o ciclo que depende da ignorância poderá ser erradicado.

Deste modo, o ven. Sariputta preenche uma lacuna existente na descrição padrão Cânonica para a iluminação. A parte central dessa descrição diz, “Ele compreende, tal como na verdade é que ‘Isso é sofrimento ... essa é a origem do sofrimento ... essa é a cessação do sofrimento ... esse é o caminho para a cessação do sofrimento ... essas são as impurezas mentais ... essa é a origem das impurezas mentais ... essa é a cessação da impurezas mentais ... esse é o caminho que conduz à cessação das impurezas mentais.’” Essa descrição no entanto não explica esses últimos quatro insights das impurezas mentais, nem explica como eles se relacionam com os quatro insights do sofrimento. Na última seção deste discurso, o ven. Sariputta explica a primeira dessas questões, e na estrutura geral do discurso ele explica a segunda.

O ven. Sariputta oferece explicações adicionais sobre o Entendimento Correto em dois outros suttas do Majjhima Nikaya. No MN 141 ele faz uma análise palavra por palavra das quatro nobres verdades. No MN 28 ele analisa a primeira nobre verdade – em particular o agregado da forma – mostrando como a compreensão desse único agregado abrange a compreensão de todos os cinco agregados, todas as quatro nobres verdades e o princípio da origem dependente.

 

 

Revisado: 5 Julho 2008

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