Origem Dependente - Paticca-samuppada

Por

Ajaan Brahmavamso

Somente para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser impresso para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser re-formatado e distribuído para uso em computadores e redes de computadores
contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuição ou uso.
De outra forma todos os direitos estão reservados.

 


 

Introdução

O ensinamento do Buda chamado Paticca-samuppada, geralmente traduzido como a Origem Dependente, é fundamental para o Dhamma (Verdade) para o qual o Buda despertou na noite de sua iluminação. O Buda é lembrado por ter dito:

Quem vê a Origem Dependente vê o Dhamma;
quem vê o Dhamma vê a Origem Dependente (MN 28)

Além disso, o entendimento da Origem Dependente é parte integrante do insight que destroça a delusão que conduz a pessoa ao estado "daquele que entrou na correnteza" (sotapanna), destinado à completa iluminação no prazo máximo de mais sete vidas. O Buda afirmou que aquele que entrou na correnteza pode ser considerado como possuindo cinco atributos:

1. Convicção inabalável no Buda, ao invés de outros líderes religiosos
2. Convicção inabalável no Dhamma, ao invés de outras crenças religiosas
3. Convicção inabalável na Sangha, os discípulos iluminados da comunidade monástica
4. Elevado padrão de moralidade, 'apreciada pelos nobres'
5. Compreensão precisa da Origem Dependente e do seu corolário,
    Idappaccayata (Causalidade) - (SN XII.27)

Por isso, é justo dizer que a correta compreensão da Origem Dependente só pode ser obtida pelos Iluminados, isto é, por aqueles que entraram na correnteza, aqueles que retornam uma vez, aqueles que não retornam, e os Arahants. Isso já é suficiente para responder à pergunta porque há tanta diferença de opiniões sobre o significado da Origem Dependente.

Neste ensaio vou discutir o significado dos 12 elos que compõem a descrição padrão da Origem Dependente. Depois vou analisar a natureza das causas que ligam cada par de elos vizinhos, usando um modelo ocidental de causalidade. Depois de ter explicado o que o Buda quis dizer por Origem Dependente, vou então examinar talvez a questão mais interessante "Por que o Buda deu tanta importância à Origem Dependente? Qual é o seu propósito?" Nesta seção final, vou propor que a função da Origem Dependente é tripla:

1. Para explicar como pode haver renascimento sem uma alma
2. Para responder à pergunta "O que é a vida?"
3. Para entender por que há sofrimento, e onde o sofrimento chega ao fim

Então vamos começar entendendo o que o Buda quis dizer com Origem Dependente.


Origem Dependente - Descrição Padrão

Avijjapaccaya sankhara, sankharapaccaya vinnanam, vinnanam napaccay namarupam, namarupapaccaya salayatanam, salayatanapaccaya phasso, phassapaccayo vedana, vedanapaccayo tanha, tanhapaccayo upadanam, upadanapaccayo bhava, bhavapaccayo jati, jatipaccayo jaramaranam soka-parideva-dukkha-domanass-upayasa sambavanti. Evametassa kevalassa dukkha-khandhassa samudayo hoti.

Avijjayatveva asesaviraganirodha sankharanirodho, sankharanirodho vinnananirodho, vinnanam nirodha namarupanirodho, namarupanirodha salayatananirodho, salayatananirodha phassanirodho, phassanirodha vedananirodho, vedananirodha tanhanirodho, tanhanirodha upadananirodho, upadananirodha bhavanirodho, bhavanirodha jatinirodho, jatinirodha jaramaranam soka-parideva-dukkha-domanass-upayasa nirujjanti. Evametassa kevalassa dukkha-khandassa nirodho hoti.

"Da ignorância como condição, as formações volitivas [surgem]. Das formações volitivas como condição, a consciência. Da consciência como condição, a mentalidade-materialidade (nome e forma). Da mentalidade-materialidade (nome e forma) como condição, as seis bases dos sentidos. Das seis bases dos sentidos como condição, o contato. Do contato como condição, a sensação. Da sensação como condição, o desejo. Do desejo como condição, o apego. Do apego como condição, o ser/existir. Do ser/existir como condição, o nascimento. Do nascimento como condição, então o envelhecimento e morte, tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero surgem. Essa é a origem de toda essa massa de sofrimento.

“Agora, do desaparecimento e cessação sem deixar vestígios dessa mesma ignorância cessam as formações volitivas. Da cessação das formações volitivas cessa a consciência. Da cessação da consciência cessa a mentalidade-materialidade (nome e forma). Da cessação da mentalidade-materialidade (nome e forma) cessam as seis bases dos sentidos. Da cessação das seis bases dos sentidos cessa o contato. Da cessação do contato cessa a sensação. Da cessação da sensação cessa o desejo. Da cessação do desejo cessa o apego. Da cessação do apego cessa o ser/existir. Da cessação do ser/existir cessa o nascimento. Da cessação do nascimento, então o envelhecimento e morte, tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero, tudo cessa. Essa é a cessação de toda essa massa de sofrimento.” (SN XII.15)


O Significado dos Doze Elementos, de acordo com a Definição do Buda

É importante que entendamos exatamente o que o Buda quis dizer com esses 12 termos. Felizmente, quando o Buda ensinou o Dhamma, ele também explicou em detalhe o significado daquilo que ele disse. É certo que alguns termos são utilizados em contextos ligeiramente distintos em diferentes suttas. No entanto, o Nidanasamyutta é uma colecção de suttas que dizem respeito apenas a Paticca-samuppada. O segundo sutta nessa coleção é chamado de Vibhanga Sutta. Vibhanga significa a explicação dos termos utilizados. Nesse sutta o Buda dá a mais clara explicação sobre o que cada um desses termos significa. Com base nesse sutta, explicarei o significado desses 12 termos. Além disso, com a ajuda de alguns outros suttas, o significado dos dois termos mais controversos será esclarecido.

Primeiro de tudo, O Buda perguntou: "O que, bhikkhus, é o envelhecimento e morte? O envelhecimento dos seres nas diversas classes de seres, a sua idade avançada, os dentes quebradiços, os cabelos grisalhos, a pele enrugada, o declínio da vida, o enfraquecimento das faculdades - a isto se chama envelhecimento. O falecimento dos seres nas várias classes de seres, a sua morte, a dissolução, o desaparecimento, o morrer, a finalização do tempo, a dissolução dos agregados, o cadáver descartado - a isto se denomina morte."

É muito claro que neste caso o Buda está falando sobre a morte no sentido usual do termo, não uma morte em um momento (que é um termo usado equivocadamente por algumas pessoas). Significa a morte para a qual chamamos um agente funerário.

"E o que é nascimento? O nascimento dos seres nas várias classes de seres, o próximo nascimento, a precipitação [em um ventre], a geração, a manifestação dos agregados, a obtenção das bases para contato - a isto se denomina nascimento." O significado de "várias classes de seres" é explicado por completo num outro sutta que trata especificamente da Origem Dependente, o Mahanidana Sutta:

“Foi dito: ‘Com o nascimento como condição surge o envelhecimento e morte.’ Isso, Ananda, deve ser compreendido desta forma: Se não houvesse absolutamente e completamente nenhum nascimento de qualquer tipo em nenhum lugar – isto é, de devas no mundo dos devas, fantasmas famintos, demônios, seres humanos, quadrúpedes, animais com asas e répteis, cada um no seu próprio mundo – se não houvesse nenhum nascimento de seres de qualquer tipo em nenhum mundo, então, com a completa ausência de nascimento, com a cessação do nascimento, haveria como discernir o envelhecimento e morte?” - “Com certeza não, venerável senhor.”

Novamente fica bem claro que nascimento nesse caso significa aquilo que normalmente consideraríamos ser o nascimento: o surgimento no plano humano de um ser num ventre.

"E o que é ser/existir (bhava)? Existem esses três tipos de seres: seres do reino sensual, seres do reino da matéria sutil, (ou com forma), e seres do reino imaterial, (ou sem forma)."

Visto que este termo, bhava, é com frequência mal entendido explicarei o seu significado em mais detalhes. A classificação do ser/existir em três reinos acima mencionada é chamada tiloka, os três reinos. Kamaloka são os mundos dominados pelos cinco sentidos. Compreendendo o mundo humano, o mundo animal, o mundo dos fantasmas, o mundo dos infernos e os mundos dos devas até e incluindo o brahmaloka. Rupaloka são mundos silenciosos onde o ser/existir corresponde aos jhanas. Esses mundos começam como o brahmaloka e incluem vários outros mundos baseados nos jhanas mais elevados. Arupaloka são os mundos de apenas mente, onde o ser/existir corresponde às realizações imateriais. Rupaloka e Arupaloka correspondem à experiência de jhana alcançada no momento da morte que continua por longos períodos de tempo, transcendendo os cataclismas do universo e contados, algumas vezes, em milhares de éons.

Para compreender a extensão do significado de bhava vejamos o Bhava Sutta no qual o venerável Ananda pergunta ao Buda:

"Venerável senhor, é dito: 'ser/existir, ser/existir.' De que modo, venerável senhor, há o ser/existir (bhava)?" O Buda responde questionando Ananda:

"Ananda, se não houvesse o amadurecimento de kamma no reino da esfera sensual (kamaloka), o ser/existir no reino da esfera sensual seria discernido?" Ele então faz a mesma pergunta em relação aos outros dois reinos:

"Ananda, se não houvesse o amadurecimento de kamma no reino da matéria sutil (rupaloka), o ser/existir no reino da matéria sutil seria discernido? Se não houvesse o amadurecimento de kamma no reino imaterial (arupaloka), o ser/existir no reino imaterial seria discernido?" Ananda responde a cada pergunta: "Não, venerável senhor." O Buda então explica:

"Ananda, portanto, para os seres atrapalhados pela ignorância e agrilhoados pelo desejo, kamma é o campo, a consciência a semente, e o desejo a umidade para que a consciência se estabeleça no plano inferior (isto é o plano dominado pelos cinco sentidos), (e assim por diante com relação aos outros dois reinos de ser/existir). É dessa forma que há a produção de um renovado ser/existir no futuro." Nesse sutta o Buda emprega o símile de plantas crescendo sendo kamma o campo, a consciência a semente, e o desejo a umidade para que a consciência se estabeleça, para explicar como o ser/existir (bhava) é a condição para o renascimento (jati).

"E o que é apego (algumas vezes traduzido como 'combustível')? Existem esses quatro tipos de apego: apego a prazeres sensuais, apego a idéias, apego a preceitos e rituais e apego à idéia da existência de um eu."

"E o que é desejo? Existem essas seis classes de desejo: desejo por formas, desejo por sons, desejo por aromas, desejo por sabores, desejo por tangíveis, desejo por objetos mentais."

"E o que é sensação (vedana) [1]? Existem essas seis classes de sensações: sensações que surgem do contato no olho, sensações que surgem do contato no ouvido, sensações que surgem do contato no nariz, sensações que surgem do contato na língua, sensações que surgem do contato no corpo, sensações que surgem do contato na mente."

"E o que é contato? Existem essas seis classes de contato: contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na língua, contato no corpo, contato na mente."

"E o que são as seis bases dos sentidos? Existem essas seis bases: a base do olho, a base do ouvido, a base do nariz, a base da língua, a base do corpo, a base da mente."

"E o que é mentalidade-materialidade (nome e forma)? Sensação, percepção, volição (cetana), contato (phassa) e atenção (manasikara) - esses são chamados de mentalidade (nome). Os quatro grandes elementos e a forma material derivada dos quatro grandes elementos - esses são chamados de materialidade (forma). Dessa forma, essa mentalidade e materialidade (nome e forma) é o que se denomina mentalidade-materialidade (nome e forma)."

"E o que é consciência? Existem essas seis classes de consciência: consciência no olho, consciência no ouvido, consciência no nariz, consciência na língua, consciência no corpo, consciência na mente."

"E o que são formações (sankhara)? Existem esses três tipos de formações: a formação corporal, a formação verbal e a formação mental."

O significado de sankhara é algumas vezes debatido porque essa é uma palavra que tem vários significados em diferentes lugares. O Sankharupapatti Sutta mostra uma situação em que a palavra sankhara é empregada como condição para o renascimento. Sankharupapatti significa 'renascimento de acordo com sankhara.' Nesse sutta o Buda descreve como certos seres renascem em diferentes mundos de acordo com as suas ações planejadas com o corpo, linguagem, e mente, que são acompanhadas pela volição (cetana); sendo que esse kamma dará origem a um futuro renascimento. Isso é chamado sankhara. Num outro sutta (SN XII.51) o Buda diz que se alguém possuindo ignorância planeja um sankhara meritório (punnam sankharam abhisankaroti), a sua consciência irá para um lugar meritório. Se ele planejar um sankhara demeritório (apunnam sankharam abhisankaroti), a sua consciência irá para um lugar demeritório. Se ele planejar um anenja sankhara (anenja sendo algo intermediário), então a sua consciência irá para um lugar correspondente. Isso mostra que há três tipos de sankhara: meritório, demeritório e intermediário e esse sankhara é obra de kamma. Tal como kamma que pode ser realizado através do corpo, linguagem, e mente, assim também há três tipos de sankhara - corpo, linguagem, e mente.

"E o que é ignorância (avijja)? Não ter o conhecimento do sofrimento, não ter o conhecimento da origem do sofrimento, não ter o conhecimento da cessação do sofrimento, não ter o conhecimento do caminho que conduz à cessação do sofrimento - a isto se denomina ignorância."


Causalidade e os Doze Fatores

Junto com a Origem Dependente o Buda também ensinou Idappaccayata, Causalidade. A fórmula padrão da causalidade é a seguinte:

Imasmim sati, idam hoti. Imass uppadadam uppajjati.
Imasmim asati, idam na hoti. Imassa nirodha, idam nirujjhati
.

‘Quando existe isso, aquilo existe; Com o surgimento disso, aquilo surge.
Quando não existe isso, aquilo também não existe; com a cessação disto, aquilo cessa.’ (SN XII.37)

A primeira característica da causalidade que deve ser enfatizada é que pode haver um intervalo de tempo considerável entre a causa e os seus efeitos. É um erro supor que o efeito segue um instante depois da sua causa, ou que aparece simultaneamente com a sua causa. Na causalidade Budista, a causa e os seus efeitos podem ser separados por qualquer período de tempo.

As duas frases acima em pali Imasmim sati, idam hoti, e imasmim asati, idam na hoti, são construções gramaticais chamadas 'locativos absolutos' em pali. O professor A.K. Warder no livro Introduction to Pali (página 103), afirma categoricamente que, em tal construção gramatical, a ação principal (a causa) pode preceder ou ser simultânea com a ação subordinada (o efeito). No que respeita ao pali, a gramática permite a causa preceder o efeito por qualquer intervalo de tempo.

Por exemplo, no Gotama Sutta o Buda afirma:

"Quando há o nascimento, o envelhecimento e morte surgem; o envelhecimento e morte têm o nascimento como condição."

Já foi demonstrado que de acordo com o Nidana Samyutta, 'nascimento' e 'morte', devem ser entendidos no seu significado comum. É claro que o nascimento e a morte não acontecem simultaneamente. Nem nascimento precede a morte por apenas um momento. Nascimento pode algumas vezes preceder a morte por muitos anos - 80, 90, 100, até 120 anos.

Enfatizei esse ponto por causa dos mal-entendidos sobre a Origem Dependente apresentado por alguns autores modernos. O fato é que pode haver um intervalo de tempo substancial entre uma causa e seu efeito.


O Significado de Sanditthika e Akalika

Alguns escritores modernos têm sugerido que o efeito deve surgir em simultâneo com a sua causa, ou surgir apenas um momento depois, para que isso possa ser qualificado como o Dhamma, que pode ser "visto no aqui e agora" e ser "imediato". Visto que o Dhamma é sanditthika e akalika e a Origem Dependente é uma das características centrais do Dhamma, eles argumentam que portanto, a Origem Dependente deve ser sanditthika e akalika. Mas será que sanditthika significa "visto no aqui e agora"? Akalika significa "imediato"? Como vou mostrar a seguir, estas traduções podem ser enganosas.

A passagem nos suttas que dá a indicação mais clara do significado de sanditthika está no Mahadukkhakkhandha Sutta. Neste sutta, os perigos dos prazeres sensuais são descritos com sete exemplos de consequências para serem experimentadas nesta vida, e todos as sete são descritas como sanditthika. Isto está em contraste com a consequência dos prazeres sensuais descritos no parágrafo seguinte do sutta que são para serem experimentados após a morte e são chamados samparayika. Claramente, sanditthika e samparayika são antônimos (palavras com significados opostos). Neste contexto, sanditthika deve significar "visível nesta vida". Apesar de algumas palavras em pali terem significados ligeiramente distintos em contextos diferentes, isso é raro, e parece razoável supor que sanditthika significa "visível nesta vida" em todos os outros contextos também.

Sanditthika e Kalika (o oposto da akalika) são usados em conjunto numa frase reveladora que ocorre três vezes no suttas (SN I.20; SN IV.21, e MN 70). A frase, com pequenas variações em cada sutta é a seguinte:

Eu não persigo o que é kalika, tendo abandonado o que é sanditthika.
Eu persigo o que é sanditthika, tendo abandonado o que é kalika.

Naham sanditthikam hitva, kalikam anudhavami.
Kalikam hitva, sanditthikam anudhavami
.

Nestes três contextos, sanditthika e kalika são claramente opostos diretos, antônimos novamente. Assim, é razoável supor que o oposto de kalika, akalika, deve ser sinônimo de sanditthika. Isto é, sanditthika e akalika têm essencialmente o mesmo significado. Ambos referem-se ao que é "visível nesta vida".

Por exemplo, o Buda incentivou práticas como maranasati, a meditação sobre a morte, e muitos bhikkhus, bhikkhunis, leigos e leigas Budistas praticam este método de meditação com resultados libertadores. Maranasati é certamente uma parte do Dhamma que é sanditthika e akalika. Portanto, se essas duas palavras em pali querem realmente dizer "aqui e agora" e "imediato", maranasati seria quase impossível - seria preciso estar morto para ser capaz de contemplar a morte no "aqui e agora", "imediatamente"! Obviamente, sanditthika e akalika não têm tal significado. Ambos se referem a algo visível nesta vida, ao contrário do que só pode ser conhecido depois que alguém tenha morrido.

É porque cada um dos 12 elos da Origem Dependente podem ser vistos nesta vida, e a sua relação causal também pode ser vista nesta vida, que a Origem Dependente que abrange mais de uma vida se qualifica como um Dhamma que é sanditthika e akalika.

Podemos não ser capazes de diretamente ver a nossa própria morte, mas podemos ver a morte ocorrendo todos os dias nos hospitais, na televisão, ou nos jornais. Não temos que esperar por algum pós-vida para compreender a verdade da morte. Também vemos o nascimento, talvez não o nosso próprio, mas de muitos outros. Podemos verificar a verdade do nascimento nesta vida. Então, vendo o ser humano em suas diversas etapas, desde o nascimento até a morte, podemos verificar nesta vida que o nascimento é a causa da morte. É por isso que a parte da Origem Dependente "com o nascimento como condição, envelhecimento e morte" é um Dhamma que é sanditthika e akalika, para ser visto nesta vida.

Não podemos ver todos os 12 elos neste momento, porque eles não ocorrem em um único momento. Mas podemos ver uma manifestação de cada elo nesta vida. Também por isso a Origem Dependente é sanditthika e akalika.

Também podemos ver nesta vida, a causalidade, que liga cada par de fatores vizinhos. Através do desenvolvimento do insight penetrante, reforçado pela meditação tranquila, podemos ver nesta vida como a sensação (vedana) dá origem ao desejo (tanha). Podemos igualmente testemunhar como o desejo dá origem ao apego/combustível (upadana). E podemos igualmente entender nesta vida como desejo e apego/combustível produz o ser/existir (bhava) e nascimento (jati) na próxima vida. O modo como podemos ver a causalidade se extendendo além da morte pode ser explicado parafraseando o símile do Buda no Mahasihanada Sutta. Podemos saber a partir de dados observados nesta vida que a conduta de uma pessoa a levará a um renascimento desagradável exatamente da mesma maneira que podemos saber que uma pessoa andando ao longo de um caminho sem bifurcações deverá cair em um fosso com carvão em brasas que se encontra um pouco mais à frente ao longo desse caminho. Assim, mesmo a causalidade que conecta fatores dos dois lados da morte também qualifica como um Dhamma que é sanditthika e akalika, para ser visto nesta vida.

Discuti este assunto longamente aqui apenas porque os mal-entendidos sobre o significado de sanditthika e akalika resultaram em uma rejeição equivocada da clara intenção do Buda em permitir que a sua Origem Dependente abranja mais de uma vida.


Causalidade e as Condições Necessárias e Suficientes

Já apresentei a fórmula do Buda para a causalidade, idappaccayata, logo no início deste ensaio. Agora vou mostrar como idappaccayata se relaciona com aquilo que na lógica ocidental chamamos de "condição necessária" e "condição suficiente". Esta análise moderna da causalidade ajuda muito esclarecer idappaccayata e a Origem Dependente.

A condição necessária é uma causa, sem a qual não haveria nenhum efeito. Por exemplo, o combustível é uma condição necessária para o fogo. Sem combustível não há fogo. A condição necessária é expressada na segunda metade de idappaccayata:

Quando não existe isso, aquilo também não existe; com a cessação disto, aquilo cessa.

Uma condição suficiente é uma causa que deve sempre produzir o efeito. Por exemplo, um fogo é uma condição suficiente para o calor. Um fogo deve causar calor. A condição suficiente é expressa pela primeira metade de idappaccayata:

Quando existe isso, aquilo existe; Com o surgimento disso, aquilo surge.

A fim de demonstrar a diferença entre estes dois tipos de causas usarei o exemplo que foi dado. Combustível é uma condição necessária para o fogo, porque com a interrupção do combustível, o fogo cessa. Mas o combustível não é uma condição suficiente para o fogo, porque o combustível nem sempre produz fogo - alguns combustíveis permanecem sem entrarem em combustão. O fogo é uma condição suficiente para o calor, porque o fogo deve produzir calor. Mas o fogo não é uma condição necessária para o calor, porque sem o fogo ainda pode haver calor - o calor pode ser gerado a partir de outras fontes.

Assim, uma condição necessária é uma causa, sem a qual não haverá nenhum efeito, e é expressa pela segunda metade de idappaccayata. Uma condição suficiente é uma causa que deve produzir o efeito, e é expressa pela primeira metade de idappaccayata. Juntas, ambas formam a causalidade Budista.

A ordem 'para a frente' de Paticca-samuppada, quando analisada, mostra que apenas alguns dos 11 primeiros elos são uma condição suficiente para o seguinte fator. Os fatores ligados por uma condição suficiente, o que significa que o fator seguinte deve acontecer mais cedo ou mais tarde, como uma consequência do fator anterior, são os seguintes:

avijja - sankhara
viññana - namarupa
namarupa - salayatana
salayatana - phassa
phassa - vedana
tanha - upadana
bhava - jati
jati - dukkha

Assim, quando há avijja, inevitavelmente irão ocorrer algumas formações de kamma inclinando para o renascimento. Quando há viññana, deve haver namarupa, salayatana, phassa e vedana. Quando há tanha, haverá upadana. Além disso, bhava é suficiente para produzir o nascimento (ver AN III.76). Em seguida, o mais importante, jati deve produzir dukkha. Tendo nascido é preciso sofrer dukkha. Portanto, a única saída do sofrimento é deixar de renascer. Como disse Venerável Sariputta:

“Renascer, amigo, é sofrimento; não renascer é a felicidade.” (AN X.65)

É interesse agora verificar as ligações que não são condições suficientes:

Sankhara não é uma condição suficiente para a consciência de renascimento e o fluxo de consciência que segue. Isto porque, tendo alguém produzido cedo durante a vida muitas formações de kamma que se inclinam para o renascimento, é possível torná-las todas nulas e sem efeito (chamado ahosi kamma) com a realização do estado de arahant, cuja realização elimina o fluxo de consciência que caso contrário reiniciaria no renascimento.

O fato que upadana não é uma condição suficiente para bhava é semelhante a sankhara não ser uma condição suficiente para viññana. Através do desenvolvimento do Nobre Caminho Óctuplo, até a plena iluminação, nenhum novo upadana é gerado e todo upadana anterior torna-se ineficaz na produção de uma base para um novo ser/existir ou bhava. O upadana anterior à plena iluminação torna-se, por assim dizer, ahosi upadana.

Ainda mais evidente, vedana não é uma condição suficiente para tanha. Vedana é certamente experimentado por arahants, mas nunca gera tanha. Além disso, para as pessoas comuns, não todo vedana produz tanha.

Alguns budistas ocidentais têm proposto que a ordem 'para a frente' de Paticca-samuppada pode ser interrompida 'cortando' o processo entre vedana e tanha. Muitas vezes ouvi sugestões que o renascimento pode ser evitado através da utilização de sati (atenção plena) em vedana interrompendo a geração de tanha e os fatores seguintes de Paticca-samuppada. Isto é, no meu entendimento, equivocado por dois motivos.

Primeiro, a ordem 'para a frente' de Paticca-samuppada nunca foi intencionada para demonstrar como o processo deve ser 'cortado'. A ordem 'para a frente' serve apenas para mostrar como o processo continua. O ensinamento sobre a forma como o processo é 'cortado', ou melhor, como o processo cessa, é o propósito reservado para a ordem 'reversa' de Paticca-samuppada ou a 'Cessação Dependente'.

Em segundo lugar, apesar de não necessariamente vedana produzir tanha, porque não é uma condição suficiente, é também afirmado pelo Buda que só quando avijja cessa de uma vez por todas que vedana nunca mais irá gerar tanha! Isto significa que não podemos 'cortar' o processo usando sati em vedana. Sati não é suficiente. O processo cessa à partir da cessação de avijja, tal como fica evidente na Cessação Dependente. A cessação de avijja implica muito mais do que apenas a prática de sati.


Interpretando os Suttas Incorretamente

Há um sutta no Anguttara Nikaya que é muitas vezes apresentado como evidência de que a Origem Dependente não abrange mais de uma vida. Trata-se do Tittha Sutta. Alguns interpretam este sutta como afirmando que vedana não é causada pelas formações de kamma (sankhara) de uma vida passada. Portanto o fator chamado sankhara na Origem Dependente (que não causaria vedana) não pode significar formações de kamma de uma vida anterior. Vou mostrar a seguir que esta conclusão é errada, visto que está baseada numa leitura equivocada dos suttas.

A parte relevante deste sutta apresenta três teorias para explicar por que alguém sente vedana agradável, desagradável ou neutro. A primeira teoria afirma que todas as sensações são devidas ao que foi feito no passado (sabbam tam pubbe katahetu). As outras duas teorias são que todas as sensações são causadas por algum Deus ou por acaso. O Buda afirma categoricamente neste sutta que todas as três teorias estão erradas.

A primeira teoria, pertinente a esta discussão, que todas as sensações são devidas ao que foi feito no passado, se repete no Devadaha Sutta, onde é dito ser uma crença dos jainistas. Os jainistas acreditavam que todo o sofrimento experimentado nesta vida seria devido ao kamma ruim de uma vida anterior. O Devadaha Sutta desmente esta teoria.

Portanto é correto que o Buda negou que todas as sensações, prazerosas, desprazerosas ou neutras, são devidas ao que foi feito em uma vida passada (ou seja, devido a formações de kamma de uma vida passada). Isso deveria ser óbvio. Algumas sensações são causadas pelas formações de kamma de uma vida passada, algumas causadas por formações de kamma no passado, nesta vida, e algumas causadas por formações de kamma sendo realizadas agora. O Buda estava negando que todas as sensações, prazerosas, desprazerosas ou neutras, são devidas ao que foi feito em uma vida anterior.

Deve ser salientado que o Buda está aqui se referindo ao tipo de sensação, ao invés da sensação em si. É verdade que qualquer um dos três tipos de sensação que alguém experimente: prazer, desprazer ou neutra, não é sempre devida a kamma de uma vida passada. Mas também é verdade que o fato de poder experimentar alguma sensação, o fato que vedana existe, é devido ao kamma de uma vida passada.

Um símile pode tornar isso mais claro. A situação de possuir uma TV durante um feriado é devido a você tê-la comprado em algum dia anterior. A presença da TV, por assim dizer, é devido ao kamma de um dia passado. Mas qualquer um dos três canais disponíveis que aparece na tela, Canal Prazer, Canal Desprazer, ou Canal Neutro, não é sempre devido ao que foi feito em algum dia anterior. O conteúdo não é sempre devido ao kamma do passado.

Da mesma forma, o Buda afirma que a existência de vedana nesta vida é devido a formações de kamma de uma vida anterior. Mas o tipo em particular de prazer, desprazer, ou neutro não é sempre devido ao kamma de uma vida anterior.

Uma vez que a distinção tenha sido feita entre vedana e o conteúdo de vedana (prazer, desprazer, ou neutro), fica claro que o Tittha Sutta não diz que vedana não é causada por formações de kamma de uma vida anterior. O sutta não desmente o entendimento ortodoxo da Origem Dependente como abrangendo três vidas.

Na verdade, a última parte do Tittha Sutta introduz a Origem Dependente com um ponto de partida único.

"Há esses seis elementos: o elemento terra, o elemento água, o elemento fogo, o elemento ar, o elemento espaço, o elemento consciência. Sustentado por/apegando-se aos seis elementos, ocorre o estabelecimento de um embrião. Ocorrendo o estabelecimento surge a mentalidade-materialidade (nome e forma). Da mentalidade-materialidade (nome e forma) como condição surgem as seis bases dos sentidos. Das seis bases dos sentidos como condição surge o contato. Do contato como condição surgem as sensações."

Channam dhutanam upadaya gabbhass' vakkanti hoti; okkantiy sati, namarupam; namarupa-paccaya salayatanam; salayatana-paccaya phasso; phassa-paccaya vedana .

Assim, o Buda está claramente mostrando a origem de vedana devido ao estabelecimento do embrião, de um ser no útero. Isso pode agora ser comparado com o Mahanidana Sutta, e a sua definição de namarupa:

“Foi dito: ‘Com a consciência como condição surge a mentalidade-materialidade (nome e forma).’ Isso, Ananda, deve ser compreendido desta forma: Se a consciência não se estabelecesse no ventre da mãe, a mentalidade-materialidade (nome e forma) se formaria no ventre?” - “Com certeza não, venerável senhor.”

namarupa-paccaya vinnann'ti, iti kho pa'etam vuttam. Tad, Ananda, imina p'etam pariyayena veditabbam, yatha namarupa-paccaya vinnanam. vinnanam va hi Ananda matu kucchismim no okkamissattha, api nu kho namarupam matu kucchismim samucchissatha' ti? No h'etam bhante.

Isso claramente equipara o estabelecimento do ser que irá nascer no útero no Tittha Sutta, com o estabelecimento da consciência (de renascimento) no útero no Mahanidana Sutta. Assim no Tittha Sutta é dito que vedana é causada pela primeira consciência que surge nesta vida, cuja própria causa só pode ser encontrada em uma vida anterior.

Assim o sutta no Anguttara Nikaya que é muitas vezes apresentado como evidência de que a Origem Dependente não abrange mais de uma vida, quando lido com precisão e no todo, na verdade, mostra claramente o oposto. Antes de tudo, o fato que vedana existe é devido a avijja e as formações de kamma da vida anterior, e a Origem Dependente, tal como ensinado pelo Buda, de fato, abarca mais do que uma única vida.


O Propósito da Origem Dependente

Até agora, descrevi o significado da Origem Dependente. Tenho mostrado, citando os textos originais, que o elo viññana se refere ao fluxo de consciência começando em uma vida depois de avijja e as formações de kamma que causaram o renascimento. Mostrei como a causalidade, o vínculo entre um elo e outro pode envolver um intervalo de tempo considerável, mesmo se estendendo para além desta vida em uma vida futura. Em resumo, mostrei que Paticca-samuppada, tal como ensinada pelo Buda nos suttas, só pode significar um processo que se estende por três vidas. Acreditar que Paticca-samuppada deve ser restrito a uma única vida, ou até mesmo a alguns momentos, é simplesmente insustentável à luz da razão e dos fatos.

Agora é hora de considerar o propósito da Origem Dependente. Pode-se obter a compreensão de alguma coisa, não só descobrindo do que ela é feita, mas também investigando o que ela faz. Agora irei discutir a função de Paticca-samuppada. Vou discutir três propósitos de Paticca-samuppada:

1. Para explicar como pode haver o renascimento sem uma alma
2. Para responder à pergunta "O que é a vida?"
3. Para entender por que há sofrimento, e onde o sofrimento chega ao fim


Renascimento sem uma Alma

Uma das perguntas mais comuns que me fazem é como pode haver renascimento quando não há uma alma para renascer. A resposta a essa pergunta é a Origem Dependente. Paticca-samuppada mostra o processo vazio, isto é, vazio de uma alma, que flui numa vida e transborda para uma outra vida. Também mostra as forças em ação no processo, que o guiam desta forma ou daquela, e mesmo exercem influência na vida posterior. A Origem Dependente também revela a resposta de como kamma realizado em uma vida anterior pode afetar uma pessoa nesta vida.

A Origem Dependente apresenta duas sequências que geram renascimento:

1) delusão (avijja) + kamma - fluxo de consciência com início no renascimento.
2) o desejo (tanha) + combustível (upadana) ser/existir (bhava) - renascimento nesse ser/existir (jati).

Estes são processos paralelos. Eles descrevem a mesma operação de dois ângulos diferentes. Agora vou combiná-las:

O kamma deludido e o desejo produzem o combustível que gera o ser/existir e o renascimento (naquele ser/existir), dando assim origem ao início do fluxo de consciência, que está no centro da nova vida.

É kamma e o desejo, ambos sob o domínio da delusão, que são a força propulsora do fluxo de consciência para uma nova vida.

Agora vou empregar alguns símiles para ilustrar esta operação. Esses símiles são apenas aproximações e, portanto, nunca vão estar perfeitamente compatíveis com Paticca-samuppada. Porque a Origem Dependente é principalmente um processo que descreve o fluxo da consciência mental, enquanto que os símiles à minha disposição são do mais bem conhecido mundo material. Ainda assim, eles devem ajudar na compreensão.

Alguém vai para um aeroporto para voar para outro país. Se ele tem dinheiro suficiente para a passagem e deseja ir para um novo país, então ele pode chegar ao destino. Se ele tem dinheiro, mas não o desejo, ou o desejo, mas não dinheiro, ou a falta de ambos, então ele não irá chegar ao destino. Neste símile: a pessoa equivale ao fluxo de consciência, o aeroporto representa a morte, o destino representa a próxima vida, o dinheiro representa o kamma acumulado da pessoa, e seu desejo de chegar ao destino equivale ao desejo. Com muito bom kamma e desejo pela felicidade, ou apenas o desejo de ser, o fluxo de consciência que pensamos ser o "eu" é impelido para a próxima vida escolhida. Com muito kamma ruim e desejo pela felicidade, não é possível alcançar a felicidade desejada, e, assim, há a impulsão para uma vida seguinte insatisfatória. Com muito kamma ruim e desejo de punição, aquilo que nesta vida reconhecemos como o complexo de culpa, o resultado é uma próxima vida de sofrimento. Por fim, com muito bom kamma e nenhum desejo, não se vai para lugar nenhum. Assim como o viajante no aeroporto, há dinheiro suficiente para viajar para onde ele quiser de primeira classe, mas a delusão foi rompida e o desejo que gerou todo esse ir e vir já não existe mais. O desejo cessou no aeroporto.

Como uma semente produz uma nova semente? Suponhamos que uma semente é plantada num bom campo, alimentada pela umidade que leva os nutrientes essenciais, e cresce até a maturidade produzindo na sua morte uma outra semente. Não há nenhuma alma ou eu na semente, mas uma semente evoluiu para outra semente após um processo de causa e efeito. A semente original e a nova semente são completamente diferentes. Quase com certeza, não existe nem uma molécula da semente original que possa ser encontrada na nova semente. Mesmo o DNA, embora semelhante, não é o mesmo. É um exemplo de um processo bem conhecido que se extende por uma vida, mas com nada que se possa identificar como uma essência que passe inalterada da semente original para a nova semente. O renascimento que ocorre, por assim dizer, sem que uma 'semente da alma' atravesse. Cito esse exemplo porque ele é semelhante a um símile do Buda:

"Para os seres atrapalhados pela ignorância e agrilhoados pelo desejo, kamma é o campo, a consciência a semente, e o desejo a umidade para que a consciência se estabeleça."
(AN III.76)

É interessante observar como um exemplo real, recente de kamma e desejo trabalharam juntos para mudar bhava, o tipo de ser/existir. No final da década de 1970 na Grã-Bretanha, muitas minas de carvão economicamente inviáveis foram permanentemente fechadas. Uma mina em particular abandonada se situava próxima a uma área densamente povoada no sul do país de Gales. Quando algumas pessoas muito pobres da área tinham gatinhos indesejados, elas para não gastar muito, cruelmente, se descartavam dos bichinhos jogando-os dentro do buraco da mina abandonada. Vários anos mais tarde, alguns engenheiros entraram na mina para verificar a sua segurança. Eles fizeram uma descoberta notável. Alguns dos gatinhos tinham sobrevivido à queda e, no espaço de apenas algumas gerações, tinha evoluído para uma espécie completamente nova de gato, cegos mas com orelhas enormes. Desejo e condicionamento comportamental (kamma) foram as forças motrizes óbvias que produziram a mutação.

Os exemplos mencionados apenas servem para dar uma indicação do processo de Paticca-samuppada. Afinal de contas, a Origem Dependente, é principalmente um processo que descreve o fluxo mental, e isso é fundamentalmente diferente dos processos materiais. Se alguém pode imaginar uma praia de areia branca, a praia parecerá contínua. Numa análise mais detalhada, no entanto, descobre-se que a praia é composta de um número incontável de pequenos grãos, um perto do outro. Se olharmos ainda mais perto, descobrimos que os grãos nem sequer se tocam, que cada grão é único. Da mesma forma, quando a atenção plena foi fortalecida com a meditação dos jhanas, pode-se ver o fluxo mental em grande parte da mesma maneira. Antes, parecia um trecho contínuo de cognição ininterrupta. Mas então é revelado como se fossem grânulos, pequenos momentos de consciência, incontáveis em número, próximos mas sem se tocarem, e cada um único. Depois de ter visto a verdadeira natureza da mente, só então se pode ver como um momento de consciência influencia aquele que segue. Kamma, tal como uma partícula discreta de condicionamento comportamental, juntamente com o desejo, se combinam para compor as forças impessoais que orientam o trajeto da consciência, como um avião com um super-piloto automático. Além disso, quando surge o insight, baseado unicamente nos dados dos jhanas, de que a consciência é independente do corpo e claramente sobrevive à morte do corpo, então se vê com absoluta certeza que as forças de kamma e do desejo que agora dirigem a mente, continuarão a dirigir a mente através e além da morte. O renascimento e o seu processo são vistos. Paticca-samuppada é compreendido.

No começo do Mahanidana Sutta o Buda disse para Ananda:

"Esta Origem Dependente é um ensinamento profundo, difícil de ser visto."

Na minha opinião, a experiência de jhana é necessária para ver esse processo claramente. No entanto, espero que a explicação e os símiles que foram dados ajudem a lançar alguma luz sobre a verdadeira natureza e propósito deste processo impessoal que impulsiona a consciência de vida em vida. Pelo menos vocês sabem que quando Paticca-samuppada for totalmente compreendida, também será claramente visto como o renascimento ocorre sem uma alma.

O que é a Vida?

Uma das maiores dificuldades que os Budistas enfrentam com o ensino de anatta é que se não há alma, ou eu, então o que é isso? O que é isso que pensa, que deseja, que sente, ou que sabe? O que é que está lendo isto? Em resumo, o que é a vida?

Em uma dos mais profundos suttas nas escrituras Budistas, o Kaccayanagotta Sutta, que iria desempenhar um papel importante na história subsequente do Budismo, o Buda afirmou que, em sua maior parte, a opinião das pessoas sobre a natureza da vida tende para um de dois extremos. Ou elas sustentam que há algo, ou elas sustentam que não há absolutamente nada. Infelizmente, muitos Budistas confundem o ensinamento de anatta e acabam adotando a idéia de que não há nada em absoluto.

O Buda condenou ambos extremos com um argumento devastador baseado na experiência. É insustentável manter que há uma alma, porque qualquer coisa que possa ser significativamente considerado como uma alma ou um eu: o corpo, a volição, o amor, a consciência, ou a mente - todos podem ser vistos como impermanentes. Tal como o Buda colocou:

"Aquele que vê com correta sabedoria a cessação do mundo, tal como na verdade ela ocorre, a noção da ‘existência’ com relação ao mundo não lhe ocorrerá."

Por outro lado, é insustentável manter que não existe nada em absoluto, porque é óbvio que há vida! Como o Buda colocou:

"Aquele que vê com correta sabedoria a origem do mundo, tal como na verdade ela ocorre, a noção da ‘não existência’ com relação ao mundo não lhe ocorrerá."

Assim, como o filósofo-monge Budista Nagarjuna (século 2 EC) lembrou a todos, o Buda claramente negou a doutrina do vazio absoluto.

Ainda hoje, a maioria das pessoas tendem para um desses dois extremos. Ou que não há nada em absoluto e a mente, o amor, a vida, é uma completa ilusão, ou que existe uma alma eterna com Deus como o corolário. Ambos estão errados.

O Kaccayanagotta Sutta continua com o Buda apontando que há um meio que exclui essa dicotomia de opiniões. Há uma terceira opção que evita os dois extremos. Então, o que é esse "meio" entre os extremos de algo e nada? Esse meio, disse o Buda, é Paticca-samuppada.

Quando o Buda declarou que é insustentável crer que há uma alma ou eu (ou um Deus), porque a cessação pode ser vista, ele explicou o que quis dizer assim:

"Do desaparecimento e cessação sem deixar vestígios dessa mesma ignorância cessam as formações. Da cessação das formações cessa a consciência. Da cessação da consciência cessa a mentalidade-materialidade (nome e forma). Da cessação da mentalidade-materialidade (nome e forma) cessam as seis bases dos sentidos. Da cessação das seis bases dos sentidos cessa o contato. Da cessação do contato cessa a sensação. Da cessação da sensação cessa o desejo. Da cessação do desejo cessa o apego. Da cessação do apego cessa o ser/existir. Da cessação do ser/existir cessa o nascimento. Da cessação do nascimento, então o envelhecimento e morte, tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero, tudo cessa. Essa é a cessação de toda essa massa de sofrimento." [2]

Ele estava se referindo ao processo de cessação chamado de Cessação Dependente. Este processo impessoal é exatamente aquilo que nós identificamos como vida. Além disso, esse processo inclui tudo aquilo que podemos chamar como os "suspeitos de costume" que se disfarçam como uma alma: o corpo (parte de namarupa), a volição (parte das formações de kamma, às vezes tanha), o amor (parte das formações de kamma e principalmente parte de upadana, apego), a consciência (viññana) e a mente (parte de salayatana e muitas vezes equivalente a viññana).

Estes suspeitos de costume são claramente vistos à luz da Cessação Dependente como transitórios, insubstanciais, e sujeitos ao desaparecimento tão logo tenham surgido. São todos condicionados. Existem apenas enquanto são suportados por suas causas externas, que são também instáveis. Quando as causas externas de suporte desaparecem, assim também ocorre com cada um dos suspeitos de costume. Porque estas coisas não persistem, uma vez que não continuam a existir, é insustentável manter que há uma alma, um eu, ou um Deus.

Quando o Buda afirmou que também é insustentável manter que tudo é puro vazio, vacuidade, nada, porque o surgimento é visto, ele explicou o que quis dizer assim:

"Da ignorância como condição, as formações [surgem]. Das formações como condição, a consciência. Da consciência como condição, a mentalidade-materialidade (nome e forma). Da mentalidade-materialidade (nome e forma) como condição, as seis bases dos sentidos. Das seis bases dos sentidos como condição, o contato. Do contato como condição, a sensação. Da sensação como condição, o desejo. Do desejo como condição, o apego. Do apego como condição, o ser/existir. Do ser/existir como condição, o nascimento. Do nascimento como condição, então o envelhecimento e morte, tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero surgem. Essa é a origem de toda essa massa de sofrimento."

Ele estava se referindo ao processo de surgimento chamado Origem Dependente. Novamente, esse processo impessoal inclui tudo o que podemos conhecer como 'vida'. Porque esse surgimento é visto, não se pode dizer que isso não existe. Não é uma ilusão. Esses fenômenos são reais.

Um símile pode ajudar. Na matemática um ponto é um conceito derivado da ciência da vida. O ponto descreve os aspectos de fenômenos reais. No entanto, um ponto não tem tamanho. É menor do que qualquer medida que possa ser sugerida, no entanto é maior do que nada. Em certo sentido, não se pode dizer que um ponto é, porque o ponto não persiste, não continua no espaço. No entanto, não se pode dizer que não é, visto que é claramente diferente do nada. O ponto é semelhante à natureza momentânea da experiência consciente. Nada continua sendo, por isso, não pode ser algo. Algo surge, portanto, não pode ser nada. A solução para este paradoxo, o meio, é o processo impessoal.

No Advaita Vedanta, um método comum é insistir no inquérito "Quem sou eu?" Essa é uma pergunta capciosa. Ela contém uma premissa implícita que ainda tem de ser acordada. A pergunta "Quem sou eu?" assume que "eu sou", apenas não sei o quê. No Sabbasava Sutta o Buda chamou tais investigações "atenção sem sabedoria" (ayonisamanasikara), e no Mahatanhasankhaya Sutta o Buda descreveu isso como permanecer "perplexo no interior"(kathamkatha). Em outras palavras, não conduz a nada revelador. Esse inquérito do Advaita Vedanta é dito concluir com uma experiência da realidade última descrita como "Você é isso", ou Tat tvam asi em sânscrito. Mas tal doutrina final claramente assume uma resposta a uma pergunta que não foi feita. O que é esse "Isso" que você é? O Buda nunca deu voltas de um modo infrutífero em torno da questão. Pois O Buda dizia:

Patticca-samuppado tvam asi - Você é Origem Dependente.

O que antes foi assumido como sendo o "eu", ou uma alma, ou como sendo uma ilusão, ou um completo vazio, agora é claramente visto como o processo impessoal da Origem Dependente, uma seqüência causal rolando de vida em vida, contendo toda e qualquer coisa que pode de modo significativo ser uma alma, os "suspeitos de costume", como eu os chamo, mas nada que persista no ser.

Então, se você queria saber quem você é, agora você tem a resposta - Origem Dependente!

E se você quiser saber o que é a vida, agora você também tem a resposta - Origem Dependente!

Paticca-samuppada - é a vida!


Por que Sofrimento?

O principal propósito de Paticca-samuppada é estabelecer a razão pela qual nós sofremos, e para encontrar uma maneira de eliminar o sofrimento de uma vez por todas. Para entender esse ponto, devemos agora dar uma olhada na descoberta pelo Buda da Origem Dependente no contexto da história da sua vida.

O Bodisatva (um ser não ilumnado que logo realizará a Iluminação) na noite de sua iluminação sentou sob a árvore figueira-dos-pagodes com o único propósito de encontrar uma solução para o sofrimento. Quando jovem, ele ficou profundamente comovido com as visões trágicas de um homem velho, um homem doente, e um homem morto. Percebendo que o sofrimento da velhice, da doença, e da morte era o destino certo dele mesmo também, ele abandonou a sua casa a fim de encontrar uma maneira de escapar de todo esse sofrimento. Sob a árvore, o Bodisatva entrou nos jhanas, pela primeira vez desde quando era um menino. Tendo, assim, fortalecido a sua mente, ele então, desenvolveu um método de investigação chamado yonisomanasikra, que literalmente significa "trabalho da mente que se dirige para a fonte". O problema era o sofrimento, em particular o sofrimento aparentemente inevitável associado à velhice, doença, e morte. Detectar o problema até a sua fonte, a fonte foi vista como o nascimento.

Jatipaccaya Dukkha - o sofrimento é causado pelo nascimento.

Tal como mostrado acima, o nascimento é uma causa suficiente para o sofrimento, o nascimento dá lugar a dukkha. Todo ser que nasce vai envelhecer, adoecer, e morrer, e experimentar dukkha inescapavelmente associado a esse processo. Assim, o nascimento é o problema.

Raramente é dada a atenção que este primeiro elo de Paticca-samuppada merece. Isso tem enormes implicações. Antes do grande insight sobre a Origem Dependente sob a figueira-dos-pagodes, o Bodisatva, como a maioria das pessoas, viveu na esperança de que de alguma forma ele poderia atingir a perfeita felicidade nesta existência ou alguma existência futura. Mas ele acabou vendo que todo ser/existir (bhava) está intrinsecamente envolvido com o sofrimento. Não há felicidade perfeita que possa ser encontrada em qualquer forma de existência. Como disse o Buda:

"Tal como um pouco de fezes tem um cheiro ruim, da mesma forma não recomendo nem mesmo um pouquinho de existência, nem mesmo pelo pouco tempo que leva para estalar os dedos."
(AN I.18)

Um símile poderá ajudar. Uma pessoa que nasce numa prisão dura, que foi criada nessa prisão, que passou todo o seu tempo na prisão, só pode conhecer a vida na prisão. Ela nem sequer suspeita que algo além da prisão possa existir. Assim ela faz o melhor possível da vida na prisão. Aqueles que pensam positivamente, porque estiveram em seminários para prisioneiros, começam a pensar que a prisão dura é na verdade um lugar maravilhoso. Eles até compoem canções como "Todos os cárceres brilhantes e lindos ... o bom Deus fez todos eles!" Outros se envolvem com o serviço social, decorando com compaixão as celas dos outros na prisão. Quando alguém é torturado ou castigado na prisão, eles pensam que alguma coisa deu errado e procuram alguém para culpar. Se alguém sugere que essa é a própria natureza da prisão, de estar sofrendo, ele é demitido como pessimista. Numa noite de lua cheia, um prisioneiro descobre uma porta que leva para fora da prisão e sai pela porta. Só então ele percebe que a prisão inerentemente é sofrimento e não há modo de ser de outra forma. Ele volta para dizer aos seus colegas de prisão. A maioria não acredita nele. Eles não podem sequer imaginar outra coisa que não seja a sua prisão. Quando ele diz que a prisão é sofrimento e a cessação da prisão é a felicidade, ele é acusado por todos de escapista.

Às vezes as pessoas me repreendem dizendo "Vocês monges estão apenas tentando escapar do mundo real!"

Eu respondo: "Muito bem! Finalmente alguém entendeu o Budismo!"

O que há de errado com o escapismo, especialmente quando se percebe que o mundo real é uma dura prisão.

A experiência de iluminação do Buda começou com a experiência dos jhanas. Estes "estágios de abrir mão" são também estágios de felicidade crescente. Depois dos jhanas, podemos refletir sobre a razão por que esses jhanas são de longe a felicidade mais pura e poderosa da vida. Qual é a causa de tanta felicidade? Ajaan Chah costumava dizer que é como se tivéssemos uma corda apertada em torno do pescoço por tanto tempo quanto podemos lembrar. Então, um dia a corda é subitamente solta. A felicidade e a descontração sentida se deve à enorme carga de sofrimento que se foi. O êxtase de jhana ocorre porque escapamos, ainda que temporariamente, daquilo que as pessoas querem dizer com "o mundo real". Quando o Buda refletiu sobre os jhanas, ele percebeu que o mundo real é sofrimento, é uma prisão, e a libertação do mundo é a bem-aventurança. Ele só poderia saber disso uma vez que saísse da prisão. Esse é um dos propósitos dos jhanas. Os jhanas também são chamados de vimokkha, que significa "libertação".

Mesmo os Arahants, os bhikkhus e as bhikkhunis Iluminadas, experimentam sofrimento. Eles não estão libertados do sofrimento, eles ainda estão no mundo, na prisão. A principal diferença entre um "prisioneiro" comum e um Arahant é que este último tem certeza que sairá em breve. Usando a analogia do Theragatha (Th 1003, 606), um Arahant é como um trabalhador que completou o trabalho e agora calmamente espera pelo seu salário. No Sallatha Sutta o sofrimento é comparado a ser atingido por duas flechas. Um Arahant só é atingido por uma flecha. As duas flechas se referem ao sofrimento físico e ao sofrimento mental. O Arahant, único neste mundo, apenas experimenta o sofrimento corporal. Mas isso ainda é o suficiente para dizer que um Arahant nesta vida ainda experimenta o sofrimento. Tal como explicado pela bhikkhuni iluminada no Vajira Sutta, um Arahant apenas experimenta "sofrimento que surge, o sofrimento que permanece e cessa. Nada além do sofrimento surge, nada além do sofrimento cessa." Isso foi confirmado pelo Buda no Kaccayanagotta Sutta, mencionado acima. Arahants experimentam o sofrimento, porque todo ser/existir (bhava) ou nascimento (jati) é sofrimento. Só quando eles falecem, ou no parinibbna, quando o ser/existir cessa, o sofrimento termina de uma vez por todas.

Bhava-nirodho nibbanam - a cessação do ser/existir é a libertação. (SN XII.68)

Tendo descoberto que ser/existir (bhava) e nascimento (jati) são uma condição suficiente para o sofrimento (dukkha), que criam obrigatoriamente sofrimento, o problema se tornou como dar um fim a mais ser/existir (puna-bhava) e o renascimento. Como se tornou conhecido popularmente e corretamente, o objetivo da prática Budista (para aqueles que percebem que o mundo real é uma prisão e não estão em negação dessa verdade) é dar um fim a samsara, a jornada incrivelmente longa através de inúmeras vidas, e sair da roda de moagem do renascimento.

Assim, o Bodisatva continuou a desenvolver yonisomanasikara, o trabalho da mente que se dirige para a fonte, para encontrar as causas de bhava e jati. Ele traçou a sequência de causas, agora conhecida como Origem Dependente, através do desejo (tanha) de volta até a delusão (avijja). Foi a delusão que foi vista como a culpada fundamental.

O que é esta delusão? Avijja é consistentemente explicada como não compreender completamente as Quatro Nobres Verdades. Em outras palavras, não se dar conta que estamos numa prisão. É incrível como tantas pessoas estão em uma negação tão profunda do sofrimento da vida mostrando sinais graves de inadaptação à velhice, doença, e morte. Algumas pessoas ficam mesmo surpresas que essas coisas ainda acontecem, e apresentam distúrbios como a raiva e a tristeza quando acontecem! Nossa delusão é que a vida pode ser consertada.

Como todo Budista sabe, o caminho para sair da prisão, para dar um fim ao renascimento e o inevitável sofrimento que vem em seguida, é desenvolver o Nobre Caminho Óctuplo culminando nos jhanas (samma-samadhi). Mas isso é um assunto para outro ensaio.

Quero acrescentar que a Origem Dependente é frequentemente citada como uma definição alternativa da Segunda Nobre Verdade, a causa do sofrimento. A Cessação Dependente é uma definição alternativa da Terceira Nobre Verdade, a cessação do sofrimento (SN XII.43). Assim, o objetivo principal da Origem Dependente, equivalente à Segunda Nobre Verdade, é responder à pergunta "Por que sofrimento?" E o objetivo principal da Cessação Dependente, equivalente à Terceira Nobre Verdade, é responder à pergunta: "Como pode o sofrimento ser eliminado?"


Conclusão

Neste ensaio, tentei descrever o que vem a ser Paticca-samuppada. Comecei por apresentar a seqüência padrão dos 12 elos, e em seguida o seu significado, tal como definido pelo próprio Buda. Com base nessas definições deve ter ficado claro que Paticca-samuppada, como o Buda quis que fosse entendida, abrange mais de uma vida.

Depois passei a discutir um modelo ocidental de causalidade, as condições necessárias e suficientes, e como estas se encaixam de modo perfeito em Idappaccayata, o modelo de causalidade do Buda. Depois, usei o modelo das "condições necessárias e suficientes" para esclarecer melhor as diferentes formas de relações causais entre cada par de elos.

Uma digressão sobre o significado de sanditthika-akalika, e uma seção chamada "leitura equivocada dos Suttas", foram incluídas para tratar de algumas objeções (mal concebidas, como espero tenha sido provado) de que Paticca-samuppada nos suttas não abrange mais de uma vida. Embora o argumento aqui tenha sido um pouco técnico, ficou destacada a importância de kamma e renascimento no Dhamma do Buda. Kamma e renascimento não são, obviamente, um mero acréscimo cultural, como alguns autores modernos mal informados nos querem fazer crer, mas são essenciais ao ensinamento central de Paticca-samuppada.

Por fim, introduzi uma seção raramente mencionada nos ensaios sobre Paticca-samuppada - Qual é o seu propósito? Mostrei que o propósito de Paticca-samuppada é muito mais do que um simples alimento para o debate intelectual. Na verdade, Paticca-samuppada demonstra como pode haver renascimento sem uma alma, revela o que é a vida, e explica por que há sofrimento, juntamente com a maneira como o sofrimento é totalmente eliminado. Paticca-samuppada responde essas grandes questões.

Não é exagero afirmar que Paticca-samuppada está no coração do Dhamma. Como o Buda disse, quem entende Paticca-samuppada com precisão, também vê o Dhamma. E aquele que vê o Dhamma totalmente, é aquele que entrou na correnteza e em breve dará um fim a todo o sofrimento. Pode ser você!

 


 

Notas:

[1] Vedana em geral traduzido como sensação corresponde ao aspecto da experiência sensorial que é considerado como prazeroso (sukha), desprazeroso (dukkha), ou neutro (adukkhamasukha). [Retorna]

[2] Dukkha (sofrimento) neste caso abrange o termo completo: soka-parideva-dukkha-domanassa-upaysa. [Retorna]

Monastério Bodhinyana, Outubro 2002

 

 

Revisado: 19 Outubro 2013

Copyright © 2000 - 2017, Acesso ao Insight - Michael Beisert: editor, Flávio Maia: designer.