Budismo Theravada e o MDG 3

Por

Ajaan Brahmavamso

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Introdução

Em 1 de Dezembro de 1955, em Montgomery Alabama, uma mulher afro-americana se recusou a obedecer a ordem de um motorista para ceder o seu assento no ônibus a um passageiro branco. Esse simples ato de desafio pela causa da justiça social tornou-se um dos símbolos mais importantes dos modernos movimentos dos direitos civis nos EUA. Essa mulher era Rosa Parks. O Congresso dos Estados Unidos a chamou de "a primeira-dama dos direitos civis" e "mãe do movimento de libertação". O dia 1 de Dezembro é comemorado nos estados da Califórnia e Ohio nos EUA como "Rosa Parks Day". Rosa Parks converteu-se ao Budismo antes de falecer em 2005 aos 92 anos. Pode-se especular que esse ícone feminino contra a discriminação escolheu o Budismo pois é uma religião bem adequada para avançar as questões de justiça social.

Neste artigo, vou discutir como o Budismo pode avançar a questão particular de justiça social, de acordo com o Terceiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio: Igualdade dos Sexos e Empoderamento das Mulheres (Millennium Development Goal No. 3: Gender Equality and the Empowerment of Women [1]). Vou me concentrar na necessidade que a atual liderança masculina do Budismo Theravada demonstre claramente o seu próprio comprometimento com o MDG 3 aceitando a ordenação de bhikkhunis. Somente então poderão usar a sua considerável influência para tornar o nosso mundo mais justo, onde as pessoas são julgadas pelo seu caráter e não com base no sexo.

Desigualdade dos Sexos na Austrália e as Contribuições dos Líderes Budistas

Em um relatório sobre a igualdade dos sexos, emitido pelo Conselho dos Governos da Austrália em 19 de Novembro de 2013, o salário médio dos novos formandos do sexo feminino na Austrália foi verificado ser 10% menor do que o salário dos formandos do sexo masculino. Muito embora elas tenham a mesma qualificação, as mulheres recebem um salário menor do que os homens. Assim, mesmo em um país desenvolvido como a Austrália, a desigualdade dos sexos ainda persiste. Nos países menos desenvolvidos, a situação é muito pior.

O meu colega, Ajahn Sujato, recentemente participou da Assembléia Mundial das Religiões pela Paz de 2013, em Viena, patrocinada pelo governo da Arábia Saudita. Ele relatou no seu blog: Um painel foi dedicado ao papel das mulheres na religião, e foram, previsivelmente, relatos poderosos e comoventes. Estupro, violência doméstica, tráfico de mulheres, prostituição forçada, mortalidade materna: são realidades por demais dolorosas para muitas mulheres; e no entanto, a moralidade religiosa dominada por homens permanece obcecada com a doutrina correta e a rejeição dos homossexuais. O sofrimento das mulheres raramente é destaque no discurso religioso, e tal como dito por um dos delegados, quando é mencionado é fraco e equivocado. No entanto, tal como aqueles que trabalham na área de desenvolvimento sabem muito bem, o empoderamento das mulheres é o meio mais eficaz para erguer os países da pobreza.

Como Budistas, que defendem o ideal de amor-bondade incondicional e respeito, julgando as pessoas com base no seu comportamento em vez do seu nascimento, deveríamos estar bem posicionados para mostrar liderança no desenvolvimento da igualdade dos sexos no mundo moderno, e a conseqüente redução do sofrimento para metade do população do mundo. Além disso, se o Budismo quer continuar sendo relevante e crescer, temos de abordar estas questões de frente. Mas como podemos falar de igualdade dos sexos, quando algumas das nossas próprias organizações Budistas Theravada são sexualmente tendenciosas?

Na Austrália, a Igreja Cristã Anglicana representa 17,1% da população (Censo Nacional em 2011) e mantém a sua relevância ao ordenar bispos do sexo feminino. Em Maio de 2008, em Perth, fui convidado para participar da ordenação do primeiro bispo do sexo feminino no mundo na Igreja Cristã Anglicana, a Rev. Kay Goldsworthy. A resposta da mídia para o reconhecimento das mulheres na Igreja Anglicana foi esmagadoramente positiva. Tais iniciativas colocam o foco nas outras religiões na Austrália, que ainda discriminam com base no sexo. Mas colocou uma luz positiva sobre o Budismo Theravada em Perth que tem bhikkhunis ordenadas.

Infelizmente, outros templos e monastérios Budistas Theravada na Austrália, e em outras partes do mundo, ainda adotam a exclusão das mulheres como participantes plenas e completas da Sangha. Mais tarde irei argumentar que não há base legal no Vinaya, o antigo Código Monástico Budista, para negar às mulheres a ordenação completa. Além disso, quando certas partes do Budismo Theravada em geral são consideradas como injustificadamente impedindo a adesão plena das mulheres na Sangha, esses grupos não têm autoridade moral para falar em igualdade dos sexos. Eles perderam a oportunidade de falar em favor do empoderamento das mulheres em outras partes da sociedade e promover o Terceiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio.

Quando Mahatma Gandhi era um estudante de direito em Londres, a dona da casa da pensão onde ele morava lhe pediu para ter uma conversa com o filho dela. Seu menino estava comendo açúcar demais e não queria ouvi-la quando ela lhe disse que parasse. No entanto, o menino tinha admiração pelo jovem Gandhi. Ela sugeriu que se Gandhi aconselhasse o seu filho a não comer tanto açúcar, ele talvez seguisse o seu bom conselho. Uma ou duas semanas se passaram e o filho da proprietária ainda estava consumindo muito açúcar. Então ela levou Gandhi para um lado e perguntou por que ele não tinha mantido a sua promessa de conversar com o filho. "Mas eu conversei com o seu filho", Gandhi respondeu, "mas apenas esta manhã." "Então por que você esperou tanto tempo?" "Porque foi somente ontem que abri mão de comer açúcar". Essa foi a resposta do grande homem.

Os líderes religiosos, acima de todos os outros, devem praticar o que pregam para que sejam levados a sério e para que os seus conselhos sejam eficazes.

O Poder de Liderar pelo Exemplo

De acordo com os últimos dados da Wikipedia, há entre 506 milhões a 1.146 milhões de Budistas em nosso mundo. Mesmo com a estimativa mais baixa, essa é uma proporção significativa da população mundial. A grande maioria dos Budistas buscam inspiração, orientação e liderança moral nos seus monges e lamas. Além disso, muitos desses Budistas estão em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, onde o empoderamento das mulheres é crucial para o desenvolvimento econômico e o progresso social desses países. No mundo altamente conectado de hoje, as palavras não são suficientes. São exigidas ações.

Mestre Cheng Yen, a fundadora da Fundação Internacional Tzu Chi, é um exemplo do poder de uma monja Budista ordenada. Ordenada em Taiwan em 1962, numa época em que as mulheres tinham pouca influência na política social, ela é agora considerada como um ícone na sua terra natal, bem como internacionalmente. Ela construiu em Taiwan hospitais com alta tecnologia, à prova de terremotos, liderou o processo no sentido de incentivar a reciclagem de resíduos em seu país, e estabeleceu a maior organização Budista de assistência no mundo. Quando visitei a Fundação Tzu Chi em Taiwan em maio de 2013, pude ver como garrafas plásticas descartadas foram transformadas em cobertores para serem enviados para as zonas de desastres naturais, tais como as áreas devastadas pelo recente tufão Haiyan nas Filipinas. Grande parte do trabalho foi feito por homens e mulheres aposentados que assim deram uma maior significado às suas vidas, juntamente com o considerável benefício emocional e de saúde que uma atividade social proporciona. Eles aproveitam os seus anos de crepúsculo em vez de definhar em casa. Nenhum monge ou lama fez ago que possa ser comparado.

Para que o Budismo cresça em nosso mundo moderno, precisamos fazer mais do que ensinar meditação, dar palestras inspiradoras, e disponibilizar os sutras através da internet. Somos bons em estudar, publicar e espalhar os ensinamentos do Budismo. Não temos sido muito bem sucedidos em mostrar a compaixão e o altruísmo do Dharma através das nossas ações. Temos escrito muito mais palavras em livros, do que palavras amáveis ditas aos pobres, solitários e desesperados. Construímos muito mais templos do que orfanatos.

Liderança Feminina nos Países do Budismo Theravada

Sri Lanka, um país com a maioria de Budistas Theravada, pode se orgulhar de ter tido a primeira mulher primeiro-ministro do mundo moderno, a senhora Sirimavo Bandaranaike, em 1960. Myanmar teria tido a sua primeira mulher chefe de governo em 1990, quando Aung San Su Kyi e seu partido NLD ganhou 59% do voto popular na eleição nacional, mas o resultado da eleição não foi aceito. Em 2013, a Tailândia elegeu sua primeira mulher Primeiro-Ministro, Yingluk Shinawatara.

Isso mostra que os leigos Budistas Theravada são capazes de aceitar mulheres em cargos de liderança, por que a Sangha não é capaz?

Tradição

Em geral os monges Budistas Theravada são muito conservadores. Com freqüência afirmam serem os guardiões do Budismo Original desde os tempos do próprio Buda. Eles consideram que uma das suas funções mais importantes é preservar esses ensinamentos preciosos originais e autênticos. Nesse contexto, qual era a tradição na época do Buda em relação às mulheres na Sangha?

Todos os monges de todas as tradições de todos os países, e todos os Budistas leigos acadêmicos, aceitam plenamente que havia mulheres com ordenação completa, chamadas bhikkhunis, durante a vida do Buda. Além disso, afirma-se claramente nesses ensinamentos originais que um dos objetivos da missão do Buda foi dar a ordenação completa para as mulheres:

“Ananda, certa ocasião, eu estava em Uruvela às margens do rio Neranjara ao pé da figueira-dos-pagodes, pouco tempo depois de ter realizado a perfeita iluminação. Então Mara, o Senhor do Mal, veio até a mim, ficou em pé a um lado e disse: ‘Venerável senhor, que o Abençoado agora realize o parinibbana! Que o Iluminado agora realize o parinibbana! Agora é o momento para o parinibbana do Abençoado!’

“Em vista disso, eu disse para Mara: ‘Eu não realizarei o parinibbana, Senhor do Mal, até que eu tenha discípulos bhikkhus ... discípulas bhikkhunis... discípulos leigos ... discípulas leigas, que sejam sábias, disciplinadas, confiantes, libertadas do cativeiro, estudadas, defensoras do Dhamma, praticando de acordo com o Dhamma, praticando do modo correto, comportando-se de modo apropriado; que tenham aprendido a doutrina do mestre e sejam capazes de explicá-la, ensiná-la, proclamá-la, estabelecê-la, revelá-la, analisá-la e elucidá-la; que sejam capazes de refutar completamente com argumentos as doutrinas dos outros e que sejam capazes de ensinar o Dhamma que é eficaz.’" [2]

Os Budistas Theravada deveriam ter uma vantagem em relação às demais grandes religiões do mundo, porque a sua tradição dá explicitamente igualdade às mulheres. O Cristianismo não tem uma tradição de igualdade dos sexos no seu sacerdócio. Nem o Islamismo, Judaísmo ou as várias escolas do Hinduísmo. O Budismo se destaca, e esteve à frente de seu tempo, ao conceder tal status para as mulheres.

Portanto, a ordenação completa das mulheres faz parte da tradição mais antiga. E também foi o desejo declarado do Buda.

Os Obstáculos à Igualdade dos Sexos na Sangha Theravada

Há dois principais obstáculos para a aceitação da ordenação de bhikkhunis no Budismo Theravada:

1) a ignorância sobre quem toma as decisões que regem a Sangha,

2) a ignorância do Vinaya, as regras estabelecidas pelo Buda que regulam as decisões que podem ser tomadas.

1. Muitos monges na Tailândia argumentam que uma decisão do Sangharaja da Tailândia em 1928 proíbe a ordenação de bhikkhunis:

Pronunciamento

"É inadmissível que qualquer Bhikkhu ordene mulheres."

"Qualquer mulher que deseje ser ordenada como samaneri, de acordo com aquilo que foi permitido pelo Buda, tem que ser ordenada por uma bhikkhuni ordenada de pleno direito. O Buda estabeleceu a regra de que apenas uma bhikkhuni com mais de 12 vassas pode ser elegível como preceptora (pavattini)."

"O Buda não permitiu que um bhikkhu seja o preceptor nessa cerimônia. Infelizmente, a linhagem das bhikkhunis, desde então, desapareceu e ficou extinta. Como não há mais bhikkhunis de pleno direito para transmitir a linhagem, doravante não existem samaneris que tenham obtido uma ordenação adequada de uma bhikkhuni de pleno direito."

"Portanto, ambas linhagens de bhikkhunis e samaneris foi extinta. Assim, qualquer bhikkhu que dê a ordenação para que uma mulher se torne uma samaneri, pode-se dizer que esse bhikkhu não está agindo de acordo com as regras estabelecidas pelo Buda. Em essência, ele está seguindo suas próprias diretrizes e divergindo das diretrizes que o Buda estabeleceu. Isso é algo que vai colocar em risco a religião Budista e não é um bom exemplo para outros bhikkhus."

"Portanto, todos os monges e noviços, em ambos nikayas, são proibidos de ordenar uma mulher como bhikkhuni, sikkhamana ou samaneri, deste dia em diante."

Phra Bancha Somdet Phra Sangharacha Jiao Gromluang Jinawarn Siriwad (18 de junho de 2471)
(Anúncio oficial da ata da reunião do Comitê da Sangha, Livro 16 pag. 157)

Além de destacar a antiguidade dessa decisão, também deve-se salientar que o pronunciamento do Sangharaja da Tailândia, em conjunto com o Conselho Tailandês de Anciãos (Mahatherasamakom), só é permitido, baseado nos vínculos jurídicos da sua constituição, sobre as questões diretamente relacionadas com os monges e noviços das duas principais linhagens Budistas Tailandesas: Mahanikaya e Dhammayuttanikaya. Eles não são legalmente responsáveis pelas decisões sobre os assuntos de outros grupos monásticos, como os monges chineses Mahayana na Tailândia, nem sobre as monjas. Os monges bem intencionados que estão esperando que o Conselho Tailandês de Anciãos decida sobre a legitimidade das bhikkhunis Theravada terão de esperar para sempre. O Conselho Tailandês de Anciãos não está legalmente autorizado a pronunciar-se sobre questões que vão além da sua competência.

Tal como me disse o falecido Somdet Phra Pootajarn, o então líder em exercício do Conselho Tailandês de Anciãos, sobre a questão da ordenação das bhikkhunis - "a lei Tailandesa não vai além da Tailândia." Em essência, a Sangha na Tailândia não pode pronunciar-se sobre os procedimentos de uma Sangha no Sri Lanka, nem na Austrália.

De fato, o Buda estabeleceu que todos sanghakamma (atos legais monásticos), tais como a ordenação de bhikkhunis, devem ser decididos pela comunidade monástica local, definida como aqueles monges ou monjas que habitam dentro da mesma área monástica demarcada. As decisões ou opiniões de outras comunidades monásticas não são vinculativas. A governança da Sangha é delegada para cada comunidade monástica. Essa foi a decisão do Buda.

2. No entanto, cada comunidade monástica é obrigada a agir de acordo com as regras chamadas Vinaya. Então, essas regras são um obstáculo para a ordenação de bhikkhunis?

A decisão do Sangharaja da Tailândia em 1928 foi que a Sangha dos bhikkhus não pode ordenar uma bhikkhuni, porque é necessário outras bhikkhunis para ordenar uma bhikkhuni. Este é um ponto discutível. Na recente publicação "The Revival of the Bhikkhuni Order and the Decline of the Sasana" [3] pelo renomado estudioso monge Bhikkhu Analayo, o autor argumenta que tal ordenação é válida. Em suma, ele argumenta que inicialmente o Buda deu a autorização para os bhikkhus ordenarem bhikkhunis. Mais tarde, o Buda deu autorização para as bhikkhunis serem ordenadas por uma cerimônia de ordenação dual: primeiro a ordenação por uma Sangha de bhikkhunis e depois a ordenação por uma Sangha de bhikkhus. No entanto, em contraste com a história da ordenação de bhikkhus, onde se verifica que sempre que um novo método de ordenação era definido pelo Buda, o método anterior era imediatamente abolido, a ordenação original das bhikkhunis pelos bhikkhus não foi abolida pelo Buda. Este é um princípio geral do Budismo Theravada - "Não abolir o que foi autorizado pelo Buda" (uma das sete causas para a longevidade da religião Budista) [4]. Este, então, é um forte argumento a favor da legitimidade da ordenação de bhikkhunis apenas por bhikkhus.

Em geral se considera que a primeira ordenação de bhikkhunis nos tempos modernos foi aquela ocorrida em 1998, em Bodh Gaya. Essa foi uma dupla ordenação realizada pela primeira vez por bhikksunis chinesas seguindo o Vinaya Dharmagupta e, em seguida, por uma Sangha internacional de bhikkhus Theravada. Essa ordenação foi legítima?

Há quatro, e apenas quatro maneiras, que uma ordenação pode ser considerada como ilegítima:

Simavipatti: quando dentro do limite da área monástica demarcada há um monge ou monja que deveria estar presente, mas está ausente.

Parisavipatti: quando não há um quorum suficiente.

Vatthuvipatti: quando o candidato é desclassificado da ordenação como sendo menor de idade.

Kammavacavipatti: quando o procedimento é recitado de forma incorreta, por exemplo, uma cerimônia de ordenação sendo recitada sem uma moção e três proclamações.

No que diz respeito à ordenação em Bodh Gaya, não há dúvida que:

1. Dentro do limite da área monástica demarcada todos os monges e monjas necessários estavam presentes,

3. As candidatas estavam bem qualificadas e

4. O procedimento foi recitado corretamente.

Mas havia um quórum? As bhikksunis Mahayana podem ser qualificadas como um quorum?

Não existem motivos razoáveis para suspeitar que as bhikksunis Mahayana chinesas que realizaram a ordenação em Bodh Gaya não são bhikkhunis legítimas. Os registros históricos mostram que a sua linhagem veio do Sri Lanka. O seu próprio procedimento de ordenação não é falho em nenhum dos quatro critérios acima expostos. A cerimônia é realizada com todos os presentes dentro de uma área monástica demarcada (o que eles chamam de uma "plataforma"). Há sempre um quorum. Elas garantem que a candidata é qualificada. E a cerimônia é promulgada pela mesma moção e três proclamações tal como no Theravada, embora recitado em chinês. Elas são bhikkhunis de acordo com o Vinaya e por isso podem ordenar outras bhikkhunis.

Mas o que dizer de um quórum de uma seita (Mahayana) ordenando bhikkhunis de uma outra seita (Theravada)?

Seitas no Budismo

As diferentes seitas do Theravada são chamadas de "nanasamvasa" no Vinaya. São comunidades separadas, cada uma realizando seus próprios atos de governança (sanghakamma), até mesmo dentro da mesma área monástica demarcada. O Vinaya afirma que há apenas duas origens para comunidades separadas (nanasamvasabhumi - Vinaya Mahavagga, capítulo 10, verso 1.10):

1. Um monge decide por si mesmo fazer parte de uma comunidade separada dos outros, ou

2. A Sangha força um monge a abandonar a sua comunidade decretando a pena de grave ukkhepaniyakamma através de uma moção e três proclamações.

O segundo motivo para surgir uma comunidade separada não é usado nos dias de hoje. Assim resta apenas o primeiro motivo, a escolha pessoal. Simplificando, de acordo com o Vinaya, um monge pode optar por realizar sanghakamma com qualquer grupo de monges que ele se sinta confortável. Não há obstrução legal que impeça um bhikkhu Theravada de realizar um sanghakamma com um bhikksu Mahayana. Na verdade, de acordo com o Vinaya, com precisão pode ser dito que não há bhikkhus Theravada ou Mahayana, existem apenas bhikkhus, que seguem os costumes Theravada ou as práticas Mahayana. Assim, um monge ordenado em uma cerimônia Theravada pode juntar-se a um monastério Mahayana, sem a necessidade de ser re-ordenado.

Assim, de acordo com o Vinaya, bhikksunis Mahayana podem realizar a primeira parte da cerimônia de ordenação de uma nova bhikkhuni, e em seguida ela pode tomar a segunda parte da dupla ordenação numa assembléia de bhikkhus Theravada. Isto é o que aconteceu em Bodh Gaya. Não há nenhum argumento razoável, baseado no Vinaya, para invalidar essa ordenação. E a qual seita pertencem as bhikkhunis ordenadas em Bodh Gaya? Elas escolhem!

A Ordenação de Bhikkhunis em Perth em 2009

Uma vez que havia bhikkhunis Theravada ordenadas, foi relativamente fácil organizar a ordenação de quatro mulheres como bhikkhunis em Perth em Outubro de 2009. Muito embora na época tenha causado alguns problemas, as bhikkhunis que foram ordenadas são hoje reconhecidas por todos como bhikkhunis de acordo com Vinaya. Como diz o velho ditado: "Não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos".

A Sangha das bhikkhunis está crescendo. Em Perth, o Monastério de Bhikkhunis Dhammasara tem atualmente 11 mulheres na Sangha, com uma lista de espera de mulheres de todo o mundo que querem se ordenar. Recentemente, um canal de televisão Tailandês visitou Dhammasara e entrevistou as bhikkhunis. Na Tailândia, há cerca de 100 bhikkhunis (Murray Hunter, ANU, 2/1/2014) e no Sri Lanka cerca de 800 bhikkhunis (The Sunday Leader, Sri Lanka, 3/32013). Elas podem não ser respeitadas por todos os bhikkhus, mas elas estão se tornando cada vez mais respeitadas pela comunidade Budista leiga, especialmente nos países Ocidentais. As bhikkhunis de Perth estão dando palestras e ensinando meditação. Elas estão tomando o seu lugar no conjunto quádruplo do Budismo como o Buda queria. Elas estão recebendo amplo apoio.

É necessário que a atual liderança Theravada abraçe a Ordenação de Bhikkhunis

Pode ser de interesse dos bhikkhus Tailandeses saber que a preceptora (pavattini) na ordenação das bhikkhunis em Perth, Ayya Tathhaaloka, visitou Ajaan Maha Boowa em Wat Bahn That em Udon pouco antes da ordenação em Perth. Ajaan Maha Boowa a convidou para se hospedar nos alojamentos femininos, e lhe deu o reconhecimento da sua ordenação ao convidá-la para sentar-se na plataforma reservada aos bhikkhus e, em seguida, dirigindo-se a ela como uma bhikkhuni na frente da Sangha juntamente com a assembléia dos leigos.

Muitos líderes influentes na Tailândia respeitam Ajaan Maha Boowa a tal ponto que este incidente pode encorajar outros monges seniores a aceitar a existência das bhikkhunis Theravada na Tailândia. Tal aceitação pelos líderes da Sangha Budista irá resultar em um maior respeito para o status das bhikkhunis entre os seguidores leigos Budistas. Assim, essas mulheres serão empoderadas para exercer liderança em muitas outras áreas para o benefício e progresso de sua nação.

A Relevância da Ordenação de Bhikkhunis para o Terceiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio

Em um artigo publicado recentemente por Emma Tomalin e Caroline Starkey (Newsletter Sakyadhita, Winter 2012), as autoras exploraram o papel que o Budismo na Tailândia e Camboja desempenha na manutenção da disparidade dos sexos na educação e, "em última análise, perguntar qual é a relação entre a reafirmação dos direitos tradicionais das mulheres de ordenação e o empoderamento das mulheres através da educação?" Elas observaram que "Vários estudiosos, Tailandeses e Ocidentais, têm implicado o Budismo como um fator que explica a desigualdade histórica entre os sexos, especialmente nas áreas mais pobres." Também que "muitos defensores da ordenação de bhikkhunis consideram que há uma relação direta entre o baixo status das mulheres em muitas tradições budistas e o status inferior das mulheres dentro das sociedades budistas."

Assim, através da restauração do lugar das mulheres na Sangha Theravada através da re-instituição da ordenação de bhikkhunis, iremos tratar do status inferior das mulheres em muitos países Theravada, promovendo a igualdade dos sexos na educação e, com isso, fazer uma forte declaração de apoio ao Terceiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio da ONU.

Ao colocar, em primeiro lugar a nossa própria casa em ordem, temos a oportunidade considerável e a autoridade moral através de nossos livros e palestras para inspirar e encorajar os nossos seguidores Budistas também a trabalhar no sentido da igualdade dos sexos em outras esferas que não a religião. Isso levará a um mundo com menos violência, mais saúde e mais prosperidade.


 

Notas:

Perth, Janeiro 2014

[1] Veja mais informações: Millennium Development Goals [Retorna]

[2] Mahaparinibbana Sutta - DN 16. [Retorna]

[3] Journal of Buddhist Ethics, Vol. 20 2013, disponível em:
http://blogs.dickinson.edu/buddhistethics/files/2013/09/Analayo-Legality-final.pdf [Retorna]

[4] Sattaka Sutta - AN VII.23. [Retorna]

 

 

Revisado: 9 Agosto 2014

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