A Questão das Bhikkunis

Ajaan Brahmavamso entrevistado
por Nissara Horayangura

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O que se segue é a transcrição completa da entrevista dada por Ajaan Brahm em 28 de fevereiro de 2009, sobre a questão das bhikkhunis. Uma versão abreviada foi publicada no jornal Bangkok Post em 28 de abril de 2009. Embora a entrevista levante algumas questões que são específicas para a Tailândia, Ajaan Brahm também compartilha conhecimentos e perspectivas que se aplicam de modo mais geral e também comentários sobre a situação no Ocidente.

Nissara Horayangura: Acredita-se que na tradição Theravada, não há mais nenhuma maneira de realizar ordenações válidas de bhikkhunis de acordo com o Vinaya. É dito que as ordenações precisam ser realizadas por uma "sangha dupla" de ambos bhikkhus e bhikkhunis, e como a sangha de bhikkhunis no Theravada teria "morrido" no Sri Lanka há muitos séculos, isso não seria mais possível. Centenas de bhikkhunis, incluindo muitas Tailandesas, foram ordenadas desde que a ordem das bhikkhunis Theravada foi restaurada [no Sri Lanka no final da década de 1990 usando bhikkhunis Mahayana], mas principalmente na Tailândia elas são vistas, como não sendo bhikkhunis Theravada legítimas. O que você pensa disso?

Ajaan Brahm: Isso é um mito. Na Tailândia, perdemos muito do nosso tempo acreditando nos nossos professores, acreditando na sabedoria popular, em vez de investigar e questionar. Então, às vezes é necessário que monges ocidentais de fora da Ásia questionem e investiguem, mesmo com relação à sabedoria que tenha sido aceita por muito tempo, questionando se há uma nova justificativa para aceitá-la.

Quando era um jovem monge na Tailândia eu também pensava que o problema era de caráter legal, que a ordem das bhikkhunis não poderia ser restabelecida. Mas tendo investigado e estudado, descobri que muitos dos obstáculos que pensávamos existir na verdade não existem. Alguém como Bhikkhu Bodhi [um respeitado monge erudito Theravada] pesquisou o Vinaya em Pali e o texto que ele escreveu é um dos mais eloqüentes que já vi - justo, equilibrado, concluindo: "É possível, por que não fazemos isso?"

Um dos maiores mitos é que as bhikkhunis da tradição Mahayana são de alguma forma separadas do Theravada. Mas a verdade da questão é que não existe tal coisa como um Vinaya Mahayana. Todas as escolas Mahayana quer seja no Tibete, na China, na Coréia, ou no Vietnã, seguem principalmente o Vinaya Dharmagupta. Dharmagupta é uma das escolas Theravada. Elas seguem o Vinaya do Theravada. Se alguém realmente ler e estudar esse Vinaya irá descobrir a sua similaridade ao Vinaya que é praticado - ou deveria ser praticado - aqui na Tailândia.

Se alguém participar uma cerimônia de ordenação em Taiwan - vi um vídeo de uma ordenação recente - verá a semelhança. Eu tinha uma cópia das recitações. Quase idênticas à cerimônia de ordenação que é feita aqui no Wat Bovorn em Bangkok. Quaisquer diferenças são superficiais e não contestam a legalidade da ordenação. Alguém com formação legal, ou mesmo em filosofia e lógica, analisando o caso, também chegaria à conclusão de que a linhagem de bhikkhunis que vemos até hoje em Taiwan e na China é uma linhagem ininterrupta desde o tempo do Buda. Elas são bhikkhunis no que diz respeito ao Buda. Elas apenas usam mantos diferentes. Os ensinamentos, os sutras são diferentes, mas o Vinaya é o mesmo. A linhagem das bhikkhunis pode ter morrido em alguns países, mas não morreu completamente.

Além disso, durante muito tempo pensávamos que precisaríamos de outras bhikkhunis para restabelecer as bhikkhunis no Budismo. Esse argumento não é válido. Há uma possibilidade, uma outra maneira de ler o Vinaya, para dizer que isso é desnecessário. Uma das grandes descobertas de Bhikkhu Bodhi durante as suas pesquisas, foi encontrar um famoso monge birmanês [Mingun Jetavan Sayadaw, o professor de meditação do famoso Mahasi Sayadaw e Taungpulu Sayadaw] que há 50-60 anos disse ser bastante claro na sua opinião, que o Buda deixou a possibilidade nas regras monásticas para a re-ordenação das bhikkhunis apenas por uma sangha de bhikkhus. O Sayadaw argumenta que o Buda deve ter feito isso porque ele deve ter previsto que um dia a sangha das bhikkhunis desapareceria e para reinstituí-la ele deixou a possibilidade aberta que apenas os bhikkhus pudessem realizar a cerimônia de re-ordenação das bhikkhunis.

Se realmente quisermos, podemos novamente reinstalar a Sangha de bhikkhunis.

Dada essa possibilidade de ordenar de acordo com o Vinaya, podemos argumentar esse ponto como acadêmicos, mas também com base na compaixão, dizendo que se há alguma margem de manobra na interpretação, então vamos adotar a interpretação mais compassiva. Porque essa é uma parte tão importante dos ensinamentos Budistas. Temos que seguir as regras, mas se existe uma interpretação que diz ser possível, que é benevolente, isso é o que devemos seguir porque isso seria aquilo que o Buda nos encorajaria fazer.

Eu ajudei a publicar a tradução em Tailandês do ensaio escrito por Bhikkhu Bodhi, que gostaria de ver distribuído para os monges seniores e intelectuais na Tailândia. Isso é apenas uma contribuição para mudar o pensamento de muitos monges para dar-lhes não apenas as razões políticas para ordenar bhikkhunis mas para basear isso num forte argumento dos suttas, do Vinaya, dos ensinamentos originais do Buda, tal como o Vinaya, para que eles saibam que não são apenas monges ocidentais seguindo os costumes ocidentais, mas que isso é o Budismo.

Antes era muito fácil dizer que não poderia ser feito. Agora, o argumento não é se pode ou não pode ser feito, mas por que deve ou por que não deve ser feito. Torna-se mais uma questão política ou emocional, não é mais uma questão prática. Uma vez que é visto que o problema prático realmente não existe, a pergunta é por que não agora?

NH: Então, por que deveria ser feito?

AB: Porque o Buda estabeleceu a ordem das bhikkhunis. Por que o Buda teria estabelecido a ordem das bhikkhunis se isso não fosse ajudar ainda mais o Dhamma ou dar mais possibilidade para as mulheres se tornarem iluminadas? Nós sempre dizemos que o Buda sabe melhor do que nós. Se o Buda pensou que era uma boa idéia, então por que nós não pensamos o mesmo?

Sendo um monge sênior, tenho uma enorme fé no Buda, no Dhamma e na Sangha. Especialmente uma fé enorme no Buda. Se o Buda estabeleceu algo e isso desapareceu, mas pode ser re-estabelecido, seria um maravilhoso gesto de fé no Buda ajudar a restabelecer o que o Buda estabeleceu, mas foi destruído.

É como uma pessoa que encontra um templo ou uma estupa em ruínas no meio da selva. Não está destruída, está apenas terrivelmente danificada. Aquela pessoa decide que vai despender a energia necessária para a reconstrução da estupa e trazê-la de volta à sua antiga glória. Essa é uma ação meritória.

A sangha das bhikkhunis é igual à estupa. Esteve escondida na selva. Antes, eu nunca tinha pensado existirem bhikkhunis. Mas agora estou convencido racionalmente que há bhikkhunis, bhikkhunis legítimas na tradição Theravada. Elas estão vivas. Nós as encontramos na selva. Elas estão lá, então agora queremos construir sobre o remanescente da velha estupa construída pelo Buda e torná-la grande e forte.

Como monge fico realmente triste que as mulheres não tenham apoio para renunciar. Se tivéssemos a ordenação para bhikkhunis e monastérios assim como temos para os bhikkhus, as mulheres floresceriam. É por isso que temos que trabalhar muito. Eu já fiz o suficiente na minha vida como monge, construindo monastérios no Ocidente, para assumir um outro fardo na ajuda ao estabelecimento das bhikkhunis, mas isso de fato precisa ser feito.

Precisamos persuadir os monges que isso é importante e que, se as mulheres tiverem uma oportunidade justa, muitas mulheres gostariam de viver a vida monástica. O que temos visto na Tailândia é que como há uma oportunidade rara e histórica, as mulheres na Tailândia têm feito disso algo maravilhoso. Porque elas têm algo que provar, que elas merecem essa oportunidade, elas vão se comportar de acordo com essa oportunidade. Elas não iriam fazer mal uso dessa oportunidade, elas não destruirão a Sangha, elas irão melhorá-la, embelezá-la, e elas farão um serviço maravilhoso ao trazer o Budismo para o século 21 e novamente assumir o seu papel na vanguarda da sociedade Tailandesa.

A principal razão por que as pessoas dizem que devemos re-introduzir a ordenação das bhikkhunis, não é tanto por elas mesmas, mas para aumentar a fé das pessoas no Budismo. Tornar-se uma bhikkhuni não é apenas uma coisa pessoal, é algo que podemos fazer para fortalecer o Dhamma em nosso mundo.

NH: O que as bhikkhunis podem contribuir para o Budismo e a sociedade?

AB: Elas vão ajudar a modernizá-la e elas vão ajudar a ensinar. E essas são as coisas que precisamos.

Na Tailândia, muitas vezes se diz que as pessoas em Bangkok e até mesmo nas províncias estão se afastando do Budismo. As crianças não vão mais aos templos. Tendo bhikkhunis seria uma maneira muito poderosa e eficaz para restaurar a confiança no Budismo. Isso irá mostrar que somos modernos. Não somos uma relíquia de uma época passada. E mostra que somos uma religião justa. Como podemos dizer que seguimos a razão, a verdade, e a justiça? Somos hipócritas quando negamos a cinqüenta por cento da população as mesmas oportunidades. Sinceramente - você realmente pensa que o Buda concordaria com isso? Se o Buda estivesse vivo hoje, tenho certeza que ele iria dizer que não é equitativo, é injusto, não é o Dhamma, ordenem essas Irmãs [1] hoje!

Muitas mulheres me disseram que não importa o quanto elas me respeitem, há certas coisas que elas não podem dizer e algumas coisas que eu não sou capaz de entender, mais uma razão porque ter monjas é tão importante para o crescimento do Budismo. As minhas organizações na Austrália Ocidental e Cingapura nunca teriam crescido tanto sem a presença das monjas. Eles são essenciais.

O Budismo também está desaparecendo na Tailândia porque as pessoas não estão respeitando tanto os monges. Incluam as mulheres e elas poderão ajudar a limpar isso.

NH: E sobre as suas possíveis contribuições no Ocidente em particular?

AB: Elas ajudarão o Budismo a encontrar o seu lugar no Ocidente. Com as outras religiões introduzindo a igualdade de direitos para as mulheres e o Budismo não, nós não sobreviveremos no Ocidente. É culturalmente inaceitável não haver igualdade entre homens e mulheres nos países ocidentais e isso também está acontecendo na Tailândia. Basicamente não é aceitável, quer seja para as mulheres ou para os homens, ter falta de liberdade para que as mulheres busquem uma vida monástica como o Buda estabeleceu.

Se não houver ordenação de bhikkhunis então as pessoas no Ocidente irão abandonar o Budismo. Elas vão jogar fora o Budismo. Porque dirão que o Budismo é hipócrita. Não é compassivo, não é sábio, é igual a qualquer outra religião antiga - dogmática, exploradora, enraizada no passado, e nunca será realmente capaz de se adaptar a um país como a Austrália. Não há nenhuma razão pela qual não possa se adaptar. Quando tenhamos bhikkhunis em países como Austrália, Inglaterra, os EUA, e na Europa, isso dará um impulso para o Budismo e para o Dhamma.

Parte do meu trabalho na Austrália não é apenas praticar o Budismo, mas também difundir o Budismo. Esse é o meu trabalho, o meu papel. Uma maneira de realizar esse trabalho e papel é incentivar a inclusão de mulheres no Budismo em todos os níveis.

E, tendo ensinado em um país ocidental por um longo tempo, eu realmente trabalho muito, 7 dias por semana. O ano inteiro (exceto durante um retiro pessoal de duas semanas). Além disso, tenho uma agenda incrivelmente pesada. A razão porque faço isso é porque não há professores suficientes que possam ensinar Budismo na língua inglesa. Por que diabos é que vamos cortar metade da população? Basicamente, eu preciso de professoras para ajudar a espalhar o Dhamma e o Budismo no Ocidente. Não há professores suficientes do sexo masculino para ensinar.

Na BSWA, monges e monjas se revezam dando palestras do Dhamma para a comunidade. Porque temos mais monges e eu sou mais sênior, no momento, em geral durante três semanas um monge ensina, e uma semana uma monja ensina, mas posso ver no futuro, assim que mais monjas se tornem professoras e se tornem mais populares, quem sabe, talvez as monjas possam assumir e haverá um monge a cada três semanas! Mas isso não importa, porque a maioria das pessoas já me disseram que elas não se importam se é um monge ou monja. Elas nem sequer se importam se for Theravada, Mahayana ou Vajrayana. Eles não se importam se for asiático ou caucasiano ou africano. Se uma pessoa dá uma boa palestra, que tenha valor e faça sentido, elas irão querer ouvir. As mulheres, assim como homens, podem dar boas palestras. Claro que podem, é óbvio! E talvez elas possam dar uma palestra num padrão superior ao meu!

Em outras religiões, como por exemplo o Catolicismo, a maioria dos monásticos são freiras. Também na escola Mahayana, há muito mais bhikkhunis do que bhikkhus. E, basicamente, elas fazem um trabalho melhor. De fato fazem! É por isso que há tantas.

NH: Muitas pessoas na Tailândia dizem que são principalmente os ocidentais, ou pessoas com uma mentalidade ocidental, que estão pressionando a ordenação de bhikkhunis, baseadas em valores culturais e conceitos de direitos das mulheres ocidentais, que estão sendo impostos sobre as pessoas e a cultura Tailandesa.

AB: Bem, uma pessoa na Austrália pode às vezes perguntar se aquilo que é feito na Austrália deve ser imposto pela Tailândia, muito embora as coisas sejam tão diferentes na Austrália? Na Austrália, na Inglaterra, respectivamente deve ser feito aquilo que o povo australiano quer fazer, o que os ingleses querem fazer.

E é verdade que o Ocidente não deveria impor sobre o Oriente, não mais do que o Oriente deve impor ao Ocidente.

NH: Já há muitas mulheres professoras leigas e Irmãs em todo o mundo, que são altamente respeitadas e satisfeitas com o seu papel. Muitas pessoas dizem que não lhes importa se alguém está usando ou não os mantos de uma monja. Como você mesmo acabou de dizer, se alguém for uma boa professora, as pessoas estariam interessadas nos seus ensinamentos, e a respeitariam. E muitos dizem que se essa pessoa pratica bem o Dhamma e cultiva qualidades virtuosas (gunadhamma), elas também podem servir como um campo de mérito, significando que as pessoas também receberiam muito mérito ao apoiá-las.

Então, por que as mulheres precisam se tornar bhikkhunis?

AB: Mesmo digamos em países como a Austrália ou os EUA, onde há muitos professores leigos e monges professores, e monges que não ensinam - mesmo assim, os monges que não ensinam obtêm mais apoio do que os leigos que ensinam. Isto é verdade até mesmo na Austrália sem falar na Tailândia. As pessoas dão suporte à Sangha não só porque está no seu sangue, mas porque o Buda disse no Dakkhinavibhanga Sutta que qualquer oferenda dada à Sangha dos bhikkhus e das bhikkhunis produz muito mais mérito, uma quantidade muito maior de mérito do que uma oferenda dada a um leigo. A idéia de que isso possa ser diferente - não foi o que o Buda disse.

Por que os monges são um campo de mérito maior do que um leigo que pratica corretamente? A razão é porque está sendo apoiada uma tradição. Não está sendo apoiada uma pessoa, está sendo apoiado um veículo. O veículo da Sangha dos bhikkhus ou das bhikkhunis. E as pessoas deveriam ter mais fé no que o Buda disse e tomar o que ele disse mais a sério ao invés dos seus próprios pensamentos e idéias.

As maechees [2] [mesmo se forem boas professoras] não são um campo de mérito como tal. Algumas pessoas podem não gostar de ouvir isso, mas não é uma questão de incomodar as pessoas ou não incomodar as pessoas, é ser fiel aos ensinamentos de Buda. O Buda nunca estabeleceu uma ordem de maechees. Ele estabeleceu a ordem das bhikkhunis. Não há como contestar isso.

A próxima pergunta seria por que o Buda estabeleceu a ordem das bhikkhunis e não a ordem das maechees? É óbvio que o Buda pensou ser preferível, um veículo melhor. Assim, devemos respeitar a sabedoria do Buda até que nós mesmos estejamos tão sábios quanto o Buda.

NH: Como pode ser uma bhikkhuni um "veículo melhor"? Estritamente falando, não é necessário ser uma bhikkhuni para realizar a iluminação - algumas leigas e maechees alcançaram isso. Então como ao ser uma bhikkhuni ajuda no progresso do Dhamma e a alcançar o objetivo maior, nibbana?

AB: Isto está relacionado com a questão do apoio. O Buda disse que a pessoa precisa de sappaya (condições favoráveis) para a prática - um lugar calmo, bom apoio, e não muitos deveres a cumprir. Atualmente é muito difícil que mulheres encontrem lugares onde elas possam estar em isolamento e praticar a contenção sensorial. Os monges têm mais opções.

A realidade é que na Tailândia, as maechees - as únicas "monjas" legalmente aceitáveis - não têm prestígio e, sem isso, não têm o apoio, para serem capazes de praticar o Dhamma de um modo livre e propício que conduza ao objetivo supremo, a iluminação.

Talvez se houvessem bhikkhunis, haveria mais apoio para as mulheres, pois teríamos algo que faz parte da tradição. Como as maechees não têm origem desde a época do Buda, talvez essa seja uma das razões por que elas não recebem apoio. Se temos uma ordem com 2.500 anos de história, que foi estabelecida pelo próprio Buda, talvez isso desse origem a mais fé entre os nossos leigos. E dessa fé pode vir mais apoio.

Outro importante benefício é a inspiração que nos dá - como monge, eu sei que estou em uma linhagem que remonta há 2.500 anos. Recentemente estive no Sri Lanka e lá foi possível ficar em uma caverna e, acima, na parede da caverna, haviam inscrições que o local tinha sido oferecido para a Sangha há 1.500 anos. E você pode sentar naquela caverna sabendo que nela haviam sentado monges durante os últimos 1.500 anos, meditando. Mantendo os mesmos preceitos que eu mantinha. Isso me deu uma tremenda inspiração. É como alguém que tenha uma herança de família. Nos sentimos orgulhosos dos nossos antepassados e mantemos essa tradição ancestral de honradez.

Se alguém tem uma linhagem, no meu caso a linhagem dos bhikkhus, a pessoa sente que tem que manter essa tradição e homenagear aqueles antepassados. Honrar aqueles outros monges que estiveram sentados naquela caverna durante 1.500 anos antes de mim. Isso é uma grande ajuda para a minha própria prática.

Imagine se houvesse uma bhikkhuni que soubesse que durante 2.500 anos houve mulheres que praticaram a mesma tradição que ela. Significa manter essa tradição ancestral e honrar todas as mulheres que tenham usado os mantos antes dela. Isso é um apoio muito poderoso. É o apoio da herança, da tradição, da honra. É poderoso.

NH: Que tal manter mais preceitos - isso realmente faz muita diferença no progresso na prática do Dhamma?

AB: As maechees não têm tantas regras (8 ou 10 comparado às 311 regras das bhikkhunis). As regras ou preceitos restringem os efluentes da mente, restringem as contaminações. Assim, num sentido muito profundo, quando se faz essa transição, mesmo de um samanera a um bhikkhu, ou de uma maechee a uma bhikkhuni, essas regras adicionais são muito úteis para minimizar as contaminações. As kilesas (contaminações) são colocadas num espaço mais confinado de modo que a mente não é capaz de perambular tanto. Ela está sendo contida. Por isso que temos uma Sangha de monges da tradição da floresta, que mantêm as regras com mais rigor do que os monges na cidade. Por causa dessa maior contenção dos sentidos e das contaminações normalmente são os monges na floresta que ganham as realizações de meditação mais profundas e também a iluminação.

NH: Algumas pessoas dizem que as mulheres praticantes poderiam apenas estudar as regras das bhikkhunis e mantê-las por conta própria, sem a necessidade de se ordenar como bhikkhunis.

AB: Você também pode dizer que "ninguém realmente precisa se ordenar como um bhikkhu. Eles podem simplesmente estudar o Vinaya e manter as 227 regras de um bhikkhu em casa, como um leigo." O argumento não tem fundamento.

Quando alguém vive em uma comunidade (de bhikkhus) as regras de fato são observadas. Porque existem outros monges policiando. E você está numa situação onde há o apoio para manter as regras. Por exemplo, quando pela primeira vez cheguei na Austrália, as pessoas não queriam que nós mantivéssemos as regras. Coisas como por exemplo ter que comer apenas a comida que fosse oferecida. Ou ter um acompanhante quando estiver falando com uma mulher. Muitos Australianos acharam isso problemático - por que vocês nos estorvam com todas essas regras? Nós não tivemos apoio, nós, os monges, tivemos que ser muito firmes. Se você tentar manter essas regras por si mesmo, outras pessoas que não entendem a sua importância irão questioná-lo, e as regras serão perdidas. Você precisa do apoio mútuo de outras pessoas na mesma comunidade mantendo as mesmas regras. Caso contrário, essas regras não irão resistir às contaminações de outras pessoas ao seu redor.

Por isso que o Buda disse aos monges para viverem juntos durante pelo menos os primeiros cinco anos.

O monge não está autorizado a permanecer só até que tenha completado esses primeiros anos de formação. Sozinho, no início, o monge não é forte o suficiente.

NH: De modo semelhante, comumente muitos monges e até mesmo outras leigas dizem para as mulheres: "não é necessário ordenar para praticar. Você pode se ordenar no coração e praticar onde quer que esteja."

AB: Se os monges dizem [para as mulheres] que não é necessário se ordenar para praticar, bem, então eles deveriam abandonar os mantos e praticar como um leigo.

Pelo menos assim eles serão fiéis à sua palavra. A razão pela qual eles são monges é porque é mais fácil praticar como um bhikkhu ou bhikkhuni.

E a pergunta sempre surge - por que o Buda estabeleceu a Sangha? Eu estava lá com Ajaan Chah numa noite, quando Christopher Titmuss, que então era um monge e estava prestes a abandonar os mantos, foi falar com Ajaan Chah. Ajaan Chah perguntou: "Por que?" E ele respondeu: "Porque eu quero ensinar o Dhamma no Ocidente, e é mais fácil de ensinar como um leigo." E Ajaan Chah respondeu: "Então, por que o Buda estabeleceu a Sangha?" Christopher Titmuss não soube responder. Ajaan Chah colocou um ponto muito forte: a razão pela qual o Buda estabeleceu a sangha dos bhikkhus é porque esse é o melhor veículo para alguém praticar e alcançar a iluminação. Também é o melhor veículo para ensinar o Dhamma. O mesmo vale para a sangha das bhikkhunis. Caso contrário, tal como Ajaan Chah perguntou a Christopher Titmuss, então por que o Buda estabeleceu a Sangha se isso não era necessário?

NH: Você acha que durante os séculos em que a ordem das bhikkhunis foi interrompida na tradição Theravada, menos mulheres alcançaram a iluminação do que teria sido possível de outra forma?

AB: A razão me diz que as realizações espirituais das mulheres teriam sido menores sem a Sangha das bhikkhunis. A realização espiritual dos homens também teria sido menor (sem a Sangha dos bhikkhus).

NH: Então, se diz apenas da boca para fora que "as mulheres e os homens têm o mesmo potencial espiritual" se não houver condições de apoio iguais para realizar esse potencial?

AB: Concordo - eu usaria um símile. Podemos dizer que as mulheres são tão inteligentes quanto os homens e assim são capazes de estudar numa universidade, no entanto houve universidades que não aceitavam mulheres, que foi o caso em muitos países. Por exemplo, quando estive na Universidade de Cambridge, havia cerca de 30 faculdades para homens e apenas 3 faculdades para mulheres. Portanto as mulheres tinham 1 em 10 possibilidades de conseguir um lugar em Cambridge. Sim, elas eram igualmente inteligentes, mas elas nunca tiveram as mesmas oportunidades. E ninguém aceitou ser isso correto, e assim hoje, quase 40 anos depois que estive em Cambridge, há uma representação igual de homens e mulheres em toda a universidade. Se disséssemos: 'Sim, as mulheres são tão inteligentes quanto os homens', mas mantivéssemos 30 faculdades para homens e 3 faculdades para mulheres isso seria aceitável?

E agora estamos dizendo: "Bem , as mulheres têm o mesmo potencial para se iluminarem", mas só temos não sei quantas faculdades para os monges e menos faculdades para as monjas.

Por "faculdade" não me refiro apenas a instituições de ensino ou a locais onde as mulheres possam praticar bem, mas também o veículo, com maior contenção e com preceitos superiores.

NH: Ao estabelecer monastérios para monjas, porque é importante torná-los independentes dos monastérios dos monges? [3]

AB: Deliberadamente mantive Dhammasara afastado, embora às vezes elas tenham dito, por favor, venha e nos ensine, por favor, venha e cuide de nós. [Eu digo] Não, vocês têm que aprender a ficar em pé por si mesmas e ser completamente independentes. Caso contrário, isso nunca irá funcionar. E estou muito orgulhoso das monjas desse monastério. Elas são independentes. Elas administram o seu monastério e fazem isso muito bem e elas são professoras por direito próprio. Elas dirigem retiros e dão palestras maravilhosas. E isso me inspira. Que as mulheres possam se sair tão bem, ou até melhor, do que os homens na vida monástica.

Uma das coisas que eu queria muito era tornar o monastério das monjas completamente independente porque eu vi muitos monastérios de monjas onde as monjas se submetem aos monges. Francamente não penso que isso seja saudável. Então, prefiro muito mais que as monjas tenham o seu monastério. Elas o administram. Se fizerem bem, ótimo. Se elas não fizerem isso bem, irão se desintegrar. Mas eu não vou ajudar. Elas têm que aprender. É como criar uma criança. Você tem que permitir a liberdade e a independência para que a criança possa se tornar responsável.

Ajaan Vayama é a professora das monjas mais jovens. Não, eu não sou o professor. Eu deixo isso muito claro. Se elas se tornarem uma monja, elas se tornam uma monja porque têm fé na sua mestra Ajaan Vayama ou porque têm fé no Budismo e a respeitam o suficiente de ser capaz de treiná-las nos deveres e responsabilidades e no comportamento e atitude de uma monja. Ela faz isso muito bem. Então, eu estou realmente muito orgulhoso dessas monjas. Elas fizeram um excelente trabalho.

NH: O que será necessário para as bhikkhunis florescerem?

AB: Uma coisa é ordenar-se como bhikkhuni, outra coisa é onde ela irá viver e quem irá apoiá-la? Existem tantas mulheres que querem explorar essa opção, por isso pode ser um grande problema para as mulheres garantirem um lugar onde ficar, onde sejam bem cuidadas. Nós não queremos que seja como aqui na Tailândia, onde algumas maechees basicamente têm que trabalhar. Elas na verdade não são religiosas, algumas vezes elas são apenas escravas. E isso é inaceitável. Então, nós queremos construir monastérios para monjas. Há tantos monastérios para monges na Tailândia que na maioria das vezes estão vazios. Não seria maravilhoso se alguns dos lugares vazios pudessem ser dados para que as Irmãs cuidassem?

O passo seguinte é que elas precisam ser bem treinadas. Algumas das Irmãs com dez preceitos que estiveram na Austrália me disseram: "Sim, nós gostaríamos de ser bhikkhunis mas também precisamos do treinamento. Porque queremos ser capazes de manter todas as regras que são necessárias para as bhikkhunis. Nós não queremos ser bhikkhunis apenas pelo status. Não apenas pelo nome. Mas para que possamos ter todo o treinamento e nos tornar-mos boas bhikkhunis".

NH: Como os primeiros grupos de mulheres ordenadas como bhikkhunis Theravada neste renascimento contemporâneo podem receber formação adequada se não há professoras bhikkhuni seniores para ensiná-las?

AB: A formação inicial pode ser feita por monges. A grande maioria do Vinaya é o mesmo para os bhikkhus e as bhikkhunis - nós compartilhamos muitas regras, especialmente os procedimentos legais monásticos (sanghakamma). Assim, os monges sênior, como eu, que conhecem muito bem o Vinaya, podem treinar as monjas nas mesmas regras que os monges também observam.

Meu trabalho seria treiná-las e, em seguida, retorná-las de volta. As monjas poderiam vir treinar no monastério masculino algumas horas por semana. Obter instruções especiais sobre coisas como sanghakamma, as regras para a gestão de monastérios, cerimônias que precisam ser feitas, e algumas outras coisas como estabelecer simas ou o que acontece se transgressões mais graves forem cometidas. Essas regras e procedimentos são idênticas, quase exatamente as mesmas, para os homens e mulheres. É a mesma coisa que eu aprendi e sei. Assim seria fácil para mim ensinar essa parte do Vinaya para as monjas.

Quanto às regras que são especiais para as monjas, há apenas uma pequena quantidade e são muito claras como devem ser praticadas. Portanto, não é tão difícil de fazer.

É igual a muitas Irmãs, maechees, que mesmo agora procuram os monges para o treinamento em meditação e no Dhamma, e elas descobrem que podem fazer isso. Igual na época do Buda, homens e até mesmo monges iam até as bhikkhunis para perguntar sobre o Dhamma. Foi assim então, é assim agora.

A questão do treinamento é uma questão que pode ser facilmente resolvida. É como uma árvore que está sendo cultivada em um viveiro antes de ser plantada em um lugar onde ela vai crescer e florescer até que morra. As bhikkhunis, aquelas mais junior, irão ter com os monges quase como se fosse um viveiro, embora elas ainda vivam no seu lugar. Indo ter com os monges para serem treinadas, para serem aconselhadas, até o momento em que elas possam ser totalmente auto-suficientes. Da mesma forma que uma árvore é cuidada em um viveiro antes que possa crescer por si só.

Outra alternativa - há comunidades maravilhosas de monjas que vivem em lugares como Taiwan que mantêm quase exatamente as mesmas regras que as bhikkhunis Theravada. Mesmo que os seus mantos sejam diferentes, o que elas fazem e como elas se comportam é regulado por exatamente as mesmas regras. Assim, a segunda possibilidade é enviar as primeiras dessas bhikkhunis para Taiwan para treinamento e regressando treinar outras bhikkhunis em como manter as suas regras.

NH: Uma das preocupações levantadas por alguns monges é que há certas regras do Vinaya das bhikkhunis que são muito difíceis ou impraticáveis de serem mantidas na atualidade, por isso, se a ordem das bhikkhuni fosse revivida, as bhikkhunis não seriam capazes de seguir estritamente o Vinaya e, portanto, não estariam verdadeiramente praticando bem. Isto, por sua vez, poderia enfraquecer o padrão de como os monges da mesma tradição observam o Vinaya. O que você acha?

AB: Essas regras podem ser observadas na atualidade. Quando olhamos para o Vinaya das bhiksunis das diferentes tradições Theravada, descobrimos que a versão pali nem sempre é a mais precisa. Da mesma forma que monges eruditos estão descobrindo através da comparação dos agamas chineses com os nikayas em pali. Os suttas em Pali são geralmente mais precisos em 98% dos casos, mas em 2% dos casos a versão chinesa é mais precisa. É a mesma coisa com o Vinaya, se as diferentes tradições do Vinaya forem comparadas é possível chegar muito mais perto do Vinaya que o Buda ensinou. A versão em pali não é 100%. Quando se comparam as outras tradições, é surpreendente como essas regras que seriam quase impossíveis na atualidade se revelam práticas. Nós perguntamos porque o Buda em sua imensa sabedoria criaria essas regras, que eram tão difíceis de manter, mesmo na época do Buda? E a resposta é, talvez não seja assim como ele definiu. Se as outras versões forem investigadas, então descobrimos que, na verdade, elas são muito práticas.

Por exemplo: uma bhikkhuni que viaje sozinha se supõem ter cometido uma transgressão sanghadisesa (infração grave). Verificamos que no Vinaya em pali - mesmo no pali é ambíguo e não é claro - parece dizer que se uma bhikkhuni viajar sem outra bhikkhuni, ela comete uma transgressão sanghadisesa. Mas as outras versões dizem que se a bhikkhuni viajar ela mesma sozinha, mas havendo outras mulheres e homens por perto então ela estará livre de tal transgressão.

Outro exemplo: no Vinaya em pali parece dizer que uma bhikkhuni, mesmo com outras bhikkhunis, não pode ficar numa floresta, num aranya. No Vinaya Dharmagupta - que por sua vez é um Vinaya Theravada, não Mahayana - é dito que, contanto que hajam cabanas com muitas mulheres, contanto que hajam outras bhikkhunis naquela floresta, então a bhikkhuni poderá ficar naquela floresta.

NH: Como é possível dizer quando a versão chinesa é mais precisa?

AB: Normalmente, o mais preciso é aquilo que é mais simples e faz mais sentido. Normalmente começamos com algo simples e tendemos a complicá-lo. Assim, como regra geral, a versão mais simples geralmente é a mais original. As pessoas tendem a adicionar coisas aos ensinamentos do Buda, elas nunca removem algo daquilo que o Buda disse.

Outro ponto é que, a versão em pali do Vinaya das bhikkhunis é muito abreviada, pode ser que algumas coisas foram deixadas de lado, porque não eram realmente relevantes. O Vinaya das bhikkhunis continuou sendo recitado no Sri Lanka mesmo sem haver bhikkhunis. Como isso já não era tão importante há um bom argumento de que não houve o mesmo grau de cuidado na sua preservação comparado ao grau de cuidado com que o Vinaya dos bhikkhus foi preservado.

NH: Muitas pessoas têm uma percepção negativa das mulheres que buscam a ordenação como bhikkhunis, vendo-as como feministas estridentes que estão exigindo direitos iguais.

AB: Aquelas que conheci que estão buscando a ordenação não são nada disso. Acho que é mais um mito de pessoas que nunca viram alguém que quer se tornar uma bhikkhuni. Elas não são exigentes de forma alguma. Elas vêem e dizem: "Eu não estou fazendo isso por mim mesma." Há quase um senso de missão em favor de outras mulheres, para tornar possível, no futuro, talvez não para elas, mas para outras mulheres que poderão ser capazes de viver a vida santa em sua pureza. Portanto, há um senso de sacrifício, uma missão altruísta para estabelecer algo que existia na época do Buda e que elas querem ver novamente.

É igual ao meu caso, eu fui para a Austrália para estabelecer o Budismo. Eu devia estar louco ao fazer isso. Eu deveria ter ficado na Tailândia com uma vida fácil. Mas eu pensei que aquilo precisava ser feito. Eu queria propagar o Budismo em um país estrangeiro. E isso é uma quantidade enorme de trabalho. Uma grande quantidade de esforço. Por que fazemos isso? Não foi por ego, ou só para provar algo para mim mesmo, foi com um sentido de serviço ao Budismo.

A maioria das mulheres que conheci têm o mesmo tipo de atitude. E o que elas querem fazer vai ser difícil, muito difícil, mas elas querem fazê-lo como um serviço. Muitos Budistas são idealistas, não egoístas. Eles vêem um quadro maior, a possibilidade de servir a sua comunidade, de ajudar os outros. As pessoas que conheci que querem se tornar bhikkhunis são muito altruístas. Elas estão fazendo isso por altos ideais, não pelo ganho pessoal. E elas não são exigentes de modo algum.

NH: No Sri Lanka, a ordem das bhikkhunis foi revivida há mais de dez anos. Ainda assim, não é bem aceita por muitos leigos e monges seniores. Será que vai ser parecido na Tailândia? Haverá apoio para as bhikkhunis ?

AB: Claro que vai ser parecido na Tailândia. Vai levar muitas décadas para se tornar forte. Por exemplo, quando Ajaan Chah começou Wat Pah Pong, durante as duas primeiras décadas, foi sempre considerado um tanto exagerado. Pouco antes de viajar para a Austrália, veio uma delegação de monges de Bangkok, para verificá-lo, na verdade para ver se ele era um bom monge ou não. E o monastério existia há vinte anos. Levou um longo tempo para estabelecer as credenciais de Wat Pah Pong e desse tipo de tradição.

Essas coisas não mudam de um dia para o outro. Mas nunca haverá mudança, se alguém não começar. Então alguém começa, e ao longo dos anos, das décadas, tenho certeza que irá criar raízes e crescer de novo e ser uma grande inspiração para as pessoas na Tailândia e no resto do mundo.

A Tailândia olha para o Ocidente em busca de inovações. Se virem um monastério de monjas surpreendente no Ocidente, talvez queiram construir um na Tailândia.

NH: Até que ponto é dever de um professor fazer o seu melhor para ajudar as estudantes a perceberem o seu potencial, reconhecendo que aquilo que atualmente está disponível não é suficiente? Até que ponto é a responsabilidade de quem vê o valor em ter bhikkhunis em ajudar de alguma forma?

AB: Sempre que na vida existe um problema e há algo que possa ser feito, as pessoas deveriam se esforçar e tentar mudar essa situação. Na verdade, penso que é nosso dever como seres humanos. Simplesmente não fazer nada quando algo pode ser feito é irresponsável. As pessoas queixam-se do estado do mundo, sobre a economia, política, crises climáticas. Se há uma crise, esta será resolvida se as pessoas não fizerem nada a respeito? Portanto, cabe a nós fazer tudo o que pudermos para tentar resolver as crises do nosso mundo. Para tentar aliviar a dor e resolver os problemas.

O argumento de que é algo grande demais para ser mudado pois está na mente das pessoas por tanto tempo não é válido se a situação é de alguma forma antiética.

Há muito tempo o povo Tailandês tem ingerido bebidas alcoólicas. Há muito tempo os governos têm sido corruptos. É quase uma tradição. Portanto devemos deixar que essa tradição continue, com a corrupção no nosso governo e no serviço público? "É muito difícil mudar estas coisas." Portanto dá para ver que o argumento não é válido.

Se algo pode ser feito para melhorar a sociedade, para melhorar o governo, para melhorar a força policial, melhorar o exército, isso deve ser feito. Essas coisas simples devem ser feitas.

NH: Mas muitas pessoas, mesmo aquelas simpatizantes com as bhikkhunis, se sentem impotentes para fazer alguma coisa devido à regra do Conselho da Sangha Tailandesa que existe há 80 anos proibindo os monges de ordenar mulheres e a ainda fraca aceitação social das bhikkhunis. O que as pessoas - tanto monges como leigos - podem fazer para ajudar a apoiar a revitalização das bhikkhunis?

AB: Nunca é o caso de que "nada pode ser feito". É só que ainda não foi pensado nisso. Continuemos a pensar, continuemos a investigar e, eventualmente, soluções surgem. Nunca desistamos e digamos que não pode ser corrigido.

O principal obstáculo é o desconhecimento do fato de que a linhagem das bhikkhunis já foi revivida e é legítima. Então, devemos espalhar essa notícia às instituições e sociedades Budistas, e também para a mídia. Mantenhamos a panela quente, continuemos falando sobre isso, escrevendo artigos sobre o assunto para persuadir os monges que isso é importante.

Em seguida, a pequena Sangha de bhikkhunis requer apoio material especial para evoluir pois quase não têm nenhum recurso, portanto dêem oferendas (em Tailandês: tum boon) para a Sangha de ambos os sexos, assim como leigos fizeram no tempo do Buda. Em vez de apenas dar dinheiro a todos esses monastérios pomposos para construir mais um salão de uposatha que só é usado uma vez por ano e talvez tenha apenas um ou dois monges que lá vivem, então por que não ajudar a construir alguns monastérios com instalações realmente agradáveis para monjas. Agradáveis com instalações adequadas.

E quando a Sangha de bhikkhunis em um país como a Tailândia tiver crescido em número, e seja muito respeitada por sua conduta virtuosa e pelos ensinamentos pacíficos, então a sua popularidade será a causa natural para alterar qualquer legislação discriminatória.

Não é difícil estabelecer a Sangha de bhikkhunis, se houver mulheres interessadas e monges dispostos a realizar a cerimônia de ordenação. A cerimônia será legalmente válida. Por que não? É um experimento. Abram as mentes, lhes dêem uma oportunidade, vejamos o que acontece. E se for verdade que não é realmente necessário, e que as leigas podem praticar muito bem, então isso não irá durar muito tempo. Então porque não dar-lhes uma oportunidade e ver o que acontece?

NH: Quantos outros monges compartilham a sua opinião?

AB: Isso realmente depende se um monge vive isolado apenas rodeado por outros monges ou por uma comunidade leiga que nunca os questiona ou desafia. Na Tailândia, e às vezes em países estrangeiros também, um monge é cercado por um grupo de pessoas, basicamente que apenas dizem sim, que respeitam o monge tanto que nunca o questionam. Na Austrália, os monges são constantemente questionados. Na verdade, eu acho que este é um lugar muito mais saudável para um monge praticar. Você tem que estar sempre alerta. Você tem que justificar suas posições em público. As pessoas fazem as perguntas mais difíceis, o que faz com que pensemos e questionemos. Os monges que não são questionados não têm que sair das suas zonas de conforto.

Então, por que não? Qual é a razão pela qual deveríamos impedir as mulheres de se tornarem bhikkhunis? Por que? A obstrução legal foi feita em pedaços, os estudiosos dizem que a ordenação pode ser feita legalmente. Se alguém disser que as mulheres não querem ser ordenadas como bhikkhunis, isso também foi feito em pedaços pois muitas mulheres querem se ordenar. Se alguém disser que é só por causa do ego, isso também não é válido pois se alguém for investigar verá que as mulheres que querem se ordenar querem fazer isso por motivos altruístas. Se alguém disser, bem, elas podem praticar como leigas - a prática como bhikkhuni é muito melhor. Se investigarem e fizerem as perguntas difíceis e forem honestos, então aqueles monges serão convencidos. Por que não?

 


 

Notas:

[1] O termo "Irmãs" foi empregado na tradução para identificar aquelas mulheres que não são ordenadas como bhikkhunis (monjas) mas que seguem 8 ou 10 preceitos. Na Tailândia elas vestem mantos brancos e são conhecidas como maechees, em Myanmar elas vestem mantos rosa e são chamadas thilashins, no Sri Lanka elas vestem mantos ocre e são chamadas dasa sil matas, nos monastérios da Forest Sangha na Inglaterra elas vestem mantos de cor ocre e são chamadas siladhara. [Retorna]

[2] Na Tailândia, as maechees não são consideradas como pessoas ordenadas, mas upasikas, ou devotas leigas. [Retorna]

[3] A BSWA da qual Ajaan Brahm é o Diretor Espiritual suporta o Monastério Bodhinyana para os monges [Ajaan Brahm é o abade] e o Monastério Dhammasara para monjas [Ajaan Vayama é a abade e Diretora Espiritual Adjunta da BSWA]. [Retorna]

No seu livro The Revival of Bhikkhuni Ordination in the Theravada Tradition o Venerável Bhikkhu Bodhi diz: "depois de uma ausência de mais de 900 anos, a história foi criada quando a Ordem das Bhikkhunis Theravada foi revivida em 1996 com a ordenação de 11 dasa sil matas em Sarnath, na Índia pelo Venerável Dodangoda Revata Mahathera e o falecido Venerável Mapalagama Vipulasara Mahathera da Sociedade Mahabodhi na Índia. O falecido Venerável Dr. K Sri Dhammananda que tinha defendido fortemente o renascimento da Ordem das Bhikkhunis Theravada, participou da seguinte ordenação em Bodh Gaya em 1998.

 

 

Revisado: 9 Agosto 2014

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