Dar Sentido à Vida,
Morrer com Alegria

Por

Ajaan Brahmavamso

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Nesta apresentação, vou usar histórias e anedotas, assim como algumas piadas, para demonstrar como podemos descobrir por nós mesmos o propósito da vida, a fim de viver com sentido. Depois irei mostrar que viver a vida com sentido, de acordo com o Dhamma, eliminará a dor da perda, e nos permitirá morrer com alegria.

No verão de 1969, logo após completar 18 anos, eu estava desfrutando da minha primeira experiência nas selvas tropicais, viajando na Península de Yucatán, no nordeste da Guatemala, indo para as pirâmides recentemente descobertas da desaparecida civilização Maia.

Naqueles dias, viajar era difícil. Levei três ou quatro dias para percorrer poucas centenas de quilômetros da Cidade da Guatemala para as ruínas do complexo de templos conhecido como Tikal. Viajei por rios estreitos na floresta tropical em barcos de pesca encharcados com óleo, por sinuosas estradas de terra equilibrado em cima de caminhões carregados, e através de pequenas trilhas na selva em carroças caindo aos pedaços. Era uma região remota, pobre e primitiva.

Quando finalmente cheguei ao extenso complexo de templos abandonados e antigas pirâmides, eu nem tinha um livro guia para explicar o significado daqueles imponentes monumentos de pedra apontando para o céu. Não havia ninguém por perto. Então comecei a escalar uma das pirâmides altas.

Ao chegar ao topo, de repente compreendi o significado da pirâmide, o seu propósito.

Nos últimos três dias, eu tinha estado viajando exclusivamente no meio da selva. As estradas, os caminhos e os rios eram como túneis através da densa vegetação. A selva rapidamente faz um teto sobre qualquer nova via. Eu não tinha visto o horizonte há muitos dias. Na verdade, eu não conseguia ver a uma grande distância. Eu estava na selva.

No topo da pirâmide, eu estava acima de todo o emaranhado da selva. Não só podia ver onde me encontrava naquele mapa panorâmico que se espalhava à minha frente, mas também podia ver em todas as direções, sem nada entre eu e o infinito.

Estando ali em pé como se fosse no topo do mundo, imaginei como poderia ter sido para um jovem Maia que nasceu na selva, foi criado na selva, viveu toda sua vida na selva. Eu o imaginei em algum rito religioso de passagem sendo levado gentilmente pela mão, por um velho sábio xamã, pela primeira vez até o cume de uma pirâmide. Quando eles ascendessem acima da linha das árvores e vissem o seu mundo na selva desdobrado-se e espalhando-se diante dos seus olhos, ao olharem para além dos limites do seu mundo, para o horizonte e acima, eles iriam ver o vazio acima e ao redor, com nenhuma coisa e ninguém entre eles e o infinito. Seus corações ressoariam com os símbolos claros da Verdade. Os insights floresceriam e dariam os seus frutos. Eles iriam compreender o seu lugar naquele mundo, tendo visto o infinito, o vazio, que abarca tudo. Eles teriam encontrado o significado da vida.

Viver com sentido exige esses insights profundos. Todos nós precisamos conceder-nos o tempo e a paz para escalar essa pirâmide dentro de cada um de nós, para nos elevarmos acima e além da selva emaranhada que é a nossa vida, mesmo que apenas por um curto período de tempo. Então veremos por nós mesmos o nosso lugar entre as coisas, a visão geral da nossa jornada de vida, e contemplar desimpedidos o infinito que abrange tudo. Chame isso de meditação se quiser, o saber silencioso ou ver silencioso. É como o jovem Maia subindo a pirâmide e transcendendo o seu mundo na selva, para assim descobrir o propósito.

Eu poderia dizer o que significa "viver com sentido", mas isso apenas adicionaria mais uma filosofia para a confusão de ciências espirituais com as quais vocês já devem estar sobrecarregados. Uma das belezas do Budismo é que não dizemos no que acreditar, mas dizemos como descobrir.

Por exemplo, durante muitos anos, acreditei no que as outras pessoas me diziam sobre a felicidade.

Quando tinha 14 anos, eu estava estudando para os meus exames finais numa escola em Londres. Meus pais e professores me aconselharam a parar de jogar futebol nas noites e finais de semana, e ao invés disso ficar em casa e dedicar mais tempo para as tarefas da escola. Eles explicaram a importância dos exames finais e que se eu me saísse bem, então ficaria feliz.

Assim, eu segui o conselho deles e fui muito bem. Mas isso não me fez sentir tão feliz, porque o meu sucesso significava que agora eu teria que estudar ainda mais duro, por mais dois anos, para os exames de nível A. Meus pais e professores me aconselharam a parar de sair à noite e nos finais de semana, agora deixando de ir atrás das meninas em vez de uma bola de futebol, e ficar em casa para estudar. Eles me disseram o quão importante era o exame de nível A e que se eu me saísse bem, então me sentiria feliz.

Assim, mais uma vez segui o conselho deles e, mais uma vez, fui muito bem. Mas, mais uma vez, isso não me fez sentir tão feliz, porque agora eu teria que estudar para o mais difícil de todos, por mais três longos anos em uma universidade, para conseguir um diploma. Meus pais (o meu pai já havia falecido) e professores me aconselharam a ficar longe dos bares e festas, e ao invés disso estudar duro. Eles me explicaram o quão essencial é um diploma universitário para ter sucesso na vida, e que se eu me saísse bem, então me sentiria feliz.

Nessa altura, eu já estava ficando desconfiado.

Eu vi alguns dos meus amigos mais velhos que tinham se saído bem, com os seus diplomas, trabalhando muito. Eles me disseram que estavam trabalhando tanto para juntar dinheiro para comprar algo importante. Quando tivessem o suficiente para comprar um carro, ou um pequeno apartamento, então eles se sentiriam felizes.

Depois de comprarem o seu pequeno carro, eles ainda não estavam muito felizes. Eles estavam se debatendo na turbulência dos romances, à procura da companheira para a vida. Quando se casassem, diziam eles, então, se sentiriam felizes.

Uma vez casados eles teriam que trabalhar mais duro ainda para comprar um apartamento maior, ou até mesmo a casa dos sonhos. "Quando tivermos economizado o suficiente para fazer o depósito, então nos sentiremos felizes", eles explicavam.

Em seguida, eles teriam filhos para acordá-los à noite, absorver todo o dinheiro que sobrasse e gerar um enorme aumento nas preocupações. A felicidade, uma vez mais, seria adiada. Como muitos me disseram: "Uma vez que os filhos estejam crescidos, saídos de casa e estabelecidos, então poderemos fazer o que queiramos." Em seguida, eles se sentiriam felizes.

Quando os filhos saíssem de casa, os pais já estariam à beira da aposentadoria. Eles continuariam trabalhando duro, economizando e investindo para a velhice. "Quando me aposentar", disseram, "Então vou me sentir feliz".

Mesmo antes de se aposentar, e certamente depois, meus parentes e amigos mais velhos, todos iam à igreja. Vocês já reparam quantas pessoas idosas gostam de ir aos templos e igrejas? É porque todos pensam: "Quando eu morrer, então vou me sentir feliz"!

Esse era o tipo de felicidade na qual eles queriam que eu acreditasse: "Quando você conseguir isto ou conseguir aquilo, então você irá se sentir feliz". A felicidade sempre foi um sonho no futuro, como um arco-íris que está a um ou dois passos à frente, mas para sempre fora do alcance. Algo estava errado. Ninguém estava realmente se sentindo feliz agora.

Isso é o que acontece quando nós simplesmente acreditamos nos outros, em vez de ver a verdade por nós mesmos. Se vivemos nossa vida perseguindo posses, acumulando apegos, mesmo buscando pelo paraíso - iremos descobrir que não estamos dando sentido à vida.

Muitos gurus da mídia moderna propõem que um relacionamento gratificante é a chave para dar sentido à vida. Muitos de nós, penso eu, compram essa idéia sem questioná-la devidamente.

Por que é que não escolhemos os nossos filhos, no entanto nós os amamos para sempre, e incondicionalmente? Mesmo se eles se revelarem muito menos do que desejamos, nós ainda assim os amamos. Por outro lado, apesar de cuidadosamente escolher o nosso marido ou esposa, examinando-os, antes de assinar o contrato, mais profundamente do que qualquer outra coisa na nossa vida, no geral, não os amamos para sempre, e certamente nunca incondicionalmente! Por quê?

É porque o amor entre um casal em um relacionamento não é o mesmo que o amor entre pais e filhos.

Em um artigo na revista Time publicado há vários anos, intitulado "The Chemistry of Love", bio-químicos demonstraram que, quando um casal se encontra num jantar romântico à luz de velas, os hormônios são secretados na corrente sanguínea para produzir uma excitação induzida quimicamente. A sua parceira (ou parceiro), literalmente, "liga você". E nós adoramos essa excitação, não aquela pessoa. Ou como a Time coloca: "Você ama a maneira como ela faz você se sentir". Mais tarde, quando o corpo desenvolve uma tolerância natural a esses elementos químicos, a sua parceira não lhe excita mais. Portanto, afinal, não é culpa dela. É apenas química. Então, por favor, nunca grite e fique zangado com a sua parceira, ao invés disso grite e fique zangado com o livro de química!

O amor entre os pais e um filho é substancialmente diferente. Os pais amam mesmo que não recebam nada em troca. Os pais amam, independentemente da forma como os filhos fazem com que eles se sintam. É o amor desinteressado, o amor incondicional.

Meu pai revelou esse tipo de amor quando eu tinha apenas cerca de 13 anos. Quando estávamos os dois sentados em seu carro velho, em uma travessa na região oeste de Londres, ele se virou e disse:

"Filho, não importa o que você faça na vida, a porta da minha casa estará sempre aberta para você." Depois ele dirigiu de volta para nossa casa.

Na época eu era demasiado jovem para entender o que ele quis dizer, mas velho o suficiente para saber que era algo importante. Eu memorizei aquilo. Só muitos anos mais tarde, muito tempo depois que meu pai tinha falecido, quando eu era um jovem monge, decifrei o seu real significado.

A casa dele, a nossa casa, era um pequeno apartamento alugado em uma área pobre da zona oeste de Londres. Não era exatamente o lugar para receber ninguém. Nós nunca tivemos medo de assaltantes, porque pensávamos que se um ladrão entrasse e visse o nosso lugar, então ele provavelmente nos deixaria algo do seu próprio bolso por compaixão!

O que meu pai quis dizer, o que ele realmente estava tentando dizer era:

"Filho, não importa o que você faça na vida, a porta do meu coração estará sempre aberta para você."

Isso é o que se entende por amor incondicional. Esse é o tipo de amor, muitas vezes encontrado entre pais e filhos. É o amor altruísta. Não um amor condicional. É um amor libertador. "Não importa o que você faça na vida, a porta do meu coração estará sempre aberta para você."

Voltemos para os relacionamentos, que tipo de amor flui entre você e a sua parceira (ou parceiro)? Aqui está um teste para você descobrir.

Imagine a sua parceira. Você realmente a ama? Você quer que ela seja feliz? Você realmente se preocupa com o bem-estar dela? A felicidade dela é para você a coisa mais importante no mundo?

Agora imagine que você vai para casa depois desta conferência para descobrir que a sua parceira fugiu para Paris apaixonada pelo seu melhor amigo. Como você se sentiria?

Se você realmente se preocupasse com o bem-estar dela, então você ficaria emocionado ao ouvir o quão felizes ambos estão agora. Se você realmente ama a sua parceira, você ficaria muito feliz por ela agora estar ainda mais feliz com o seu melhor amigo, do que com você. Se a felicidade do seu ente querido for assim importante, você estaria em êxtase - Ah, que alegria! - ao saber que eles estavam desfrutando juntos o luar no rio Sena. Você sempre quis que a sua parceira fosse feliz, agora ela está. Qual é o problema?

Este teste demonstra que o amor na maioria dos relacionamentos é o amor egoísta, o amor condicionado. Está enraizado no apego e, mais cedo ou mais tarde, irá se ramificar em sofrimento. Dizem que há três anéis em um casamento:

- O anel do noivado (engagement)
- O anel do casamento (wedding)
- O anel do sofrimento (suffer-ring)

O amor altruísta é sem apego. Está enraizado em dar e, inevitavelmente, ramifica para a liberdade. É o tipo de amor que diz: "Não importa o que você faça, a porta do meu coração está aberta para você." É a maneira que todos nós podemos dar sentido à vida.

Esse tipo de amor altruísta é a base de todo o trabalho de caridade. Se dermos um donativo esperando reconhecimento, isso não é altruísta. Se servimos uma comunidade querendo ser elogiados, isso não é dar. Se oferecemos nossa amizade para outrem querendo algo em troca, então isso não é compaixão. Caridade, igual ao amor altruísta, diz: "Não importa o que você faça, seja você quem for, eu lhe dou meu coração e o compartilho com você."

Mesmo monges praticam a caridade. Minha vida monástica é um festival de dar.

Uma mulher me chamou no telefone uma hora antes de eu dar uma palestra pública.

"Você dará uma palestra hoje à noite?" ela educadamente perguntou.

"Sim, senhora. A palestra começa às 19:30", eu respondi.

"Quanto custa para entrar?" continuou ela.

"Nada, minha senhora, nada" eu expliquei.

"Não, não!" ela interrompeu "Você não está entendendo. Quanto dinheiro tenho que pagar?"

"Senhora, não tem que pagar nada. Todas as minhas palestras são de graça."

"Ouça!" ela elevou a voz, "Dólares! centavos! quanto tenho que desembolsar para cruzar a porta?"

"Senhora," eu disse suavemente, "Não é necessário pagar nada na porta, nem na entrada e tampouco na saída. Nós não perguntamos o seu nome, nem pressionamos por doações. Se você não gostar da palestra, pode sair a qualquer momento. É grátis."

Houve uma longa pausa.

"Bem" disse ela com sincera consternação "O que vocês (significando 'monges') ganham com isso, então?"

"A felicidade, minha senhora" eu respondi: "Apenas ganhamos felicidade."

Essa generosidade altruísta é a diferença entre a vida mesquinha e a vida com sentido. Quanto mais abrimos mão, mais rica será a vida. É por isso que todas as caixas de doação no meu monastério em Perth são chamadas de "caixas para abrir mão."

No verso 204 do Dhammapada o Buda disse: "O contentamento é a maior riqueza."

Assim, o Budismo ensina o contentamento através do amor altruísta: "Não importa o que você faça, a porta do meu coração está aberta para você," trata da criação de riqueza. O sentido da vida é gerar essa riqueza. O contentamento é o seu portfólio, o amor altruísta são as suas ações, proporcionando o mais seguro dos investimentos com dividendos, literalmente, "do outro mundo," todos garantidos pelo Presidente do Banco Central, o próprio Buda.

John Keates, o poeta romântico Inglês do século XVII, iniciou o seu célebre poema "Endymion" com as palavras intemporais: "Uma coisa bela é alegria para sempre." (A thing of beauty, is a joy forever)

De fato, muitos de nós encontramos o sentido na vida através do apreço pela beleza - desfrutando de um glorioso por do sol ao anoitecer, vendo uma estrondosa cachoeira numa floresta intocada, ou parando para desfrutar de uma flor colorida brilhante que nos sorri no caminho. A beleza dá significado à vida, mas não tanto do modo que foi descrito até agora.

A beleza de um monge, disse o Buda, é a virtude (Cakkavatti Sihanada Sutta). Assim é. As pessoas mais belas no mundo são aquelas que possuem o coração puro. É bom estar com uma boa pessoa. Os benévolos, são bem simpáticos. E alguém santo no meio do povo é como uma rosa que surge do espinheiro. Mesmo uma pessoa velha, enrugada, com os dentes quebrados, o cabelo grisalho, que tenha vivido uma vida virtuosa, resplandece com uma beleza interior que causaria inveja a qualquer modelo.

Professores monges como eu, gostam de incentivar todos os seus ouvintes a viver uma vida virtuosa, para ganhar a beleza interior que, nas palavras de John Keates , é "alegria para sempre." Por isso não chamo o centro Budista na cidade de Perth "Dhammaloka" mas "Salão de Beleza Ajaan Brahm"! Eu faço pequenos "ajustes" nas virtudes, aplico tratamentos faciais para a honestidade, e elimino as rugas dos preceitos. Viver a vida com tal beleza é dar sentido à vida. Experimente. Se você quer desfrutar bons momentos, então, seja bom.

Todas as coisas boas chegam ao fim. Todos nós morremos. Como um monge, eu estive em mais funerais do que as flores num túmulo. Muitas vezes ouvi os parentes e amigos depois do funeral falando sobre a pessoa que acabou de morrer. É notável que aquilo que eles se lembram não é a riqueza do falecido, nem as suas propriedades, nem o seu poder. Depois do funeral eles falam sobre a bondade da pessoa, como ele era bondoso e caridoso. É como se eles estivessem fazendo um resumo de toda a vida da pessoa recém-falecida. E o que conta, as únicas coisas que contam, são coisas como virtude, caridade e amor altruísta. Tais qualidades são, em termos contabilísticos, o "resultado final" da vida de uma pessoa. É o que a vida dela significou e o que lhe deu sentido. É estranho que só através da morte podemos perceber a sabedoria dos ensinamentos do Buda sobre o que constitui o sentido da vida.

Para uma pessoa que teve um resultado final lucrativo, que deu sentido à sua vida, morrer pode então ser alegre. Um Budista entenderia que, por ter realizado muito bom karma, ele então pode legitimamente esperar por uma boa experiência após a morte. Ele sabe que está simplesmente trocando um corpo velho desgastado por algo muito melhor. É como comprar um carro novo, o veículo muda, mas o motorista continua. Onde está a tragédia nisso?

Além disso, dar sentido à vida, como foi explicado até agora, é um treinamento em abrir mão. Abrimos mão de parte da nossa riqueza para realizar a caridade. Abrimos mão do comportamento mais grosseiro para manter os preceitos. Abrimos mão da preocupação com nós mesmos para praticar a compaixão. E abrimos mão dos desejos para praticar a meditação. O Dhamma é um curso de treinamento completo em abrir mão.

Assim, quando chegar a hora de abrir mão do corpo e passar pela experiência da morte, uma pessoa treinada no Dhamma abre mão graciosamente. Na minha longa experiência lidando com a morte de ambos, Budistas e não Budistas nos países ocidentais, os Budistas morrem muito mais pacíficos e alegres do que qualquer outro.

Certa vez, uma discípula próxima ligou do hospital. Com quarenta e poucos anos, ela tinha sido diagnosticada naquela manhã com um câncer incurável. Ela teria apenas dois ou três meses mais para viver. Eu a visitei naquela mesma tarde. Da sua cama na ala dos pacientes com câncer, ela estava sorrindo e brincando comigo, fazendo planos para a sua morte.

Quando saí da unidade, a enfermeira chefe do hospital pediu para falar comigo. Ela me disse que estava extremamente preocupada porque aquela paciente estava num estado de negação, não aceitando o diagnóstico de morte iminente. Eu tive que responder de modo enfático que ela não estava de maneira nenhuma em negação. Na verdade, ela tinha estado falando comigo sobre a sua morte durante a minha visita! Vocês percebem, a experiente enfermeira chefe nunca tinha visto uma aceitação da morte tão rápida antes. Ela só tinha visto o terror e as lágrimas, a raiva e a rebeldia. Ela tinha confundido a falta de negatividade como sendo negação. Ela nunca tinha visto um Budista morrendo, e foi difícil para ela compreender como a paciente poderia enfrentar a morte com tanta alegria.

Alguns meses mais tarde, no enterro da paciente, o seu médico Cristão disse estar impressionado como os Budistas morriam tão graciosamente.

Quando entendemos o Dhamma, e vivemos de acordo com esse entendimento, então não há nada triste em relação à morte. A única coisa que me deixa triste é quando as pessoas não dão sentido à vida e desperdiçam a sua vida preciosa.

Meu pai morreu quando eu tinha apenas 16 anos. Eu o amava muito e ainda amo. No entanto, não chorei no seu funeral, nem chorei desde então. Não senti vontade de chorar. Levei muitos anos para entender como me senti na ocasião. Agora uso esse entendimento como um guia sobre como morrer, com alegria. Este é o meu entendimento.

Quando jovem, eu amava música. Todos os tipos de música, quer seja clássica, jazz, rock ou folk. Eu passava muitas noites nas salas de concerto e clubes do centro de Londres desfrutando de algumas das melhores orquestras e bandas, músicos e cantores, que o nosso mundo tinha para oferecer. Para quem gostava de música, Londres foi um ótimo lugar para crescer.

Quando o concerto estava para terminar, eu ficava em pé com o público, batendo palmas e gritando por mais. Muitas vezes, a orquestra ou banda continuava tocando por mais alguns minutos. Mas, eventualmente, eles tinham que parar e eu tinha que voltar para casa. Tal como me lembro, ao sair das salas de concerto no final da noite, parecia que sempre estava chovendo em Londres, a garoa mais miserável. Estava frio, úmido e sombrio, e eu sabia que provavelmente nunca mais veria aquela grande banda novamente. No entanto, mesmo na escuridão úmida miserável da noite, nunca me senti triste. Nunca caí no desespero. Em vez disso eu me sentia entusiasmado e inspirado pela grande música que tinha acabado de ter o privilégio de ouvir. Que crescendo emocionante, que desempenho magnífico, que experiência maravilhosa! Eu estava anos-luz de distância da tristeza que envelopava a noite de Londres.

Essa é a única maneira que consigo descrever como me senti quando meu pai morreu. Foi uma apresentação tão curta, apenas 16 anos. Eu estava aplaudindo e torcendo por mais no final. Meu pai continuou um pouco mais de tempo e, na verdade, foi um crescendo maravilhoso. Caminhando para fora do crematório em Mortlake, no oeste de Londres, após o seu funeral, lembro-me claramente que estava garoando e fazendo muito frio. No entanto, não me senti triste de modo algum. Senti-me inspirado, alçado e muito emocionado. "Pai, esse foi um desempenho maravilhoso. Esse foi um tremendo show que você fez para o seu filho. Nunca vou esquecer essas fugas e cadências e o sentimento profundo que você colocou na sua sinfonia. Você foi um maestro da vida. Que sorte tive de estar no seu concerto." Eu estava inspirado, não triste. Senti profunda gratidão, não pesar. Senti que tinha presenciado uma das grandes vidas da minha época.

Assim é como se pode morrer com alegria, e com alegria olhar para a morte de uma pessoa querida. No nosso íntimo sabemos que: "Querido amado, querido amigo, a porta do meu coração estará sempre aberta para você, não importa o que você faça, mesmo que você morra." Mesmo na morte, nós abrimos mão. Amor altruísta é libertador. Libertando quem nos tem que deixar, e libertando-nos de toda a tristeza.

Então é isso que quero dizer com dar sentido à vida e morrer com alegria. É o que tenho visto por mim mesmo como monge, ascendendo em minha meditação para além da confusão do mundo, tal como subir as pirâmides nas selvas da América Central. Dito pelo Buda nos suttas antigos. E está escrito no seu coração agora mesmo, esperando para guiá-lo.

Quando damos sentido à vida, não só morreremos com alegria, mas também daremos muita alegria para todos que nos conheceram, na vida e na morte.

 


 

Fonte: "Global Conference on Buddhism - 2002", 8 Dezembro 2002, Sham Alam, Malásia.

 

 

Revisado: 13 Julho 2013

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