Cérebros de Monges Meditadores Budistas são Escaneados

Somente para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser impresso para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser re-formatado e distribuído para uso em computadores e redes de computadores
contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuição ou uso.
De outra forma todos os direitos estão reservados.

 


 

Nova Iorque, EUA (BBC News, 24 Abril 2011) - Num laboratório escondido, próximo a uma rua movimentada em Nova Iorque, um neurologista vem colocando monges Budistas Tibetanos numa máquina do tamanho de um carro, para escanear o seu cérebro de modo a melhor entender a antiga prática de meditação.

Mas poderia essa pesquisa incomum não somente revelar os segredos de uma vida harmoniosa mas também ajudar a entender algumas das mais misteriosas doenças do mundo?

Zoran Josipovic, um cientista pesquisador e professor adjunto na New York University, diz que ele tem observado os cérebros dos monges durante a meditação para entender como os cérebros se re-organizam durante esse exercício.

Desde 2008, o pesquisador tem colocado as mentes e corpos de proeminentes figuras Budistas numa máquina de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI) que pesa 5 toneladas.

O escaneamento segue o fluxo sanguíneo no cérebro dos monges enquanto eles meditam dentro do confinamento da máquina, que produz um ritmo musical ao estar em operação.

O Dr. Josipovic, que também faz um bico como monge Budista, diz que espera descobrir como alguns meditadores atingem um estado de "não-dualidade" ou "unicidade" com o mundo, uma consciência unificada entre a pessoa e o seu meio-ambiente.

"Uma das coisas que a meditação oferece para aqueles que a praticam muito é o desenvolvimento da atenção," diz o Dr. Josipovic, adicionando que o aprimoramento dessa habilidade pode conduzir a um estado com mais tranqüilidade e felicidade.

"As pesquisas da meditação, particularmente nos últimos 10 anos, têm sido muito promissoras porque apontam para uma habilidade do cérebro de mudança e otimização de um modo que antes não se sabia ser possível."

Ao relaxar no estado de unicidade, a rede de neurônios dos praticantes com experiência muda na medida em que a barreira psicológica com o meio ambiente é reduzida, diz o Dr. Josipovic.

E essa reorganização no cérebro pode conduzir ao que alguns meditadores afirmam ser uma profunda harmonia com aquilo que os cerca.

Mudando a atenção

A pesquisa do Dr. Josipovic faz parte de um esforço mais amplo para compreender aquilo que os cientistas denominaram o circuito automático no cérebro.

Ele diz que o cérebro parece estar organizado em dois circuitos: o circuito extrínseco e o circuito intrínseco, ou automático.

A parte extrínseca do cérebro se torna ativa quando os indivíduos estão focados em atividades externas, tal como praticar esportes ou colocando café numa xícara.

O circuito automático está ativo quando as pessoas refletem sobre temas que envolvem elas mesmas e as suas emoções.

Mas os circuitos estão ativos ao mesmo tempo apenas raramente. Igual a uma gangorra, quando um está ativado o outro é reduzido.

Essa organização neural permite que os indivíduos se concentrem com mais facilidade num determinado momento numa determinada tarefa, sem ser absorvido por distrações como por exemplo sonhar acordado.

"O que estamos tentando fazer é basicamente identificar as mudanças nos circuitos no cérebro na medida em que a pessoa muda essas formas de atenção," diz o Dr. Josipovic.

O Dr. Josipovic descobriu que alguns monges Budistas e outros meditadores experientes têm habilidade em manter ambos circuitos neurais ativos ao mesmo tempo durante a meditação - isto é, eles encontraram uma forma de manter ambos extremos da gangorra no alto, ao mesmo tempo.

E o Dr. Josipovic acredita que essa habilidade de manter ambos circuitos interno e externo ativos ao mesmo tempo pode fazer com que os monges experimentem uma sensação de unicidade harmoniosa com o meio ambiente.

Introspecção

Antes os cientistas acreditavam que o circuito introspectivo automático no cérebro estava ativo simplesmente quando a pessoa não tinha nenhuma tarefa na qual focar a sua atenção.

Mas os pesquisadores descobriram na última década que essa parte do cérebro se enche de atividade quando a pessoa pensa no eu.

O circuito automático veio à luz em 2001 quando o Dr. Marcus Raichle, um neurologista na Washington University School of Medicine no estado de Missouri, EUA, começou a escanear os cérebros de indivíduos que não haviam recebido nenhuma tarefa para ser realizada.

Os participantes rapidamente se entediaram e o Dr. Raichle observou um segundo circuito, que antes não havia sido observado, muito ativo. Mas para o pesquisador não ficou claro porque essa atividade estava ocorrendo.

Outros cientistas rapidamente sugeriram que os pacientes do Dr. Raichle poderiam na verdade estar pensando sobre si mesmos.

Pouco tempo depois outros neurologistas, que conduziam estudos empregando filmes para estimular o cérebro, descobriram que quando havia uma trégua nas ações no filme, o circuito automático começava a brilhar - indicando que os participantes no estudo poderiam ter começado a pensar em si mesmos devido ao tédio.

Mas o Dr. Raichle diz que o circuito automático é importante não somente para pensar na janta da noite passada.

"Os pesquisadores têm se debatido com essa idéia de como sabemos que somos quem somos. O circuito automático tem algo da resposta sobre como isso pode ter surgido," ele diz.

E o Dr. Raichle adiciona que aqueles que estudam o circuito automático também podem ajudar a desvendar os segredos que cercam alguns distúrbios psicológicos, como a depressão, autismo e até mesmo Alzheimer.

"Se você analisar a doença de Alzheimer e verificar se há alguma região em particular do cérebro afetada, o que é surpreendente, é que na verdade a doença afeta o circuito automático," diz o Dr. Raichle, adicionando que a pesquisa do circuito intrínseco, tal como a feita pelo Dr. Josipovic, pode ajudar a explicar porque acontece isso.

Cindy Lustig, professora assistente de psicologia e neurologia na Universidade de Michigan concorda.

"É um circuito importante mas pouco estudado no cérebro que parece estar muito envolvido em muitos distúrbios neurológicos, incluindo o autismo e Alzheimer, e é importante compreender como esse circuito interage com o circuito orientado para tarefas (extrínseco)," ela diz. "É como se fosse a outra peça do quebra-cabeças que foi ignorada durante muito tempo."

O Dr. Josipovic escaneou os cérebros de mais de 20 meditadores experientes, ambos monges e monjas, que estudam o estilo de meditação do Budismo Tibetano, para melhor entender esse circuito misterioso.

Ele diz que a sua pesquisa, que será publicada em breve, irá por enquanto continuar se concentrando na explicação das implicações neurológicas da unicidade e da tranqüilidade - embora a melhora no entendimento, como parte do processo, do autismo e Alzheimer, seria um bônus significativo.

 

 

Revisado: 16 Julho 2011

Copyright © 2000 - 2017, Acesso ao Insight - Michael Beisert: editor, Flávio Maia: designer.