O Cronômetro do Cérebro

Por

Benjamin Libet

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Benjamin Libet nasceu em 1916 e faleceu em 2007. Ele foi um dos cientistas pioneiros no campo da consciência humana com pesquisas no departamento de fisiologia da Universidade da Califórnia em São Francisco.

Na década de 1970 Benjamin Libet realizou estudos e descobertas empíricas sobre a relação entre eventos neurais e a consciência. Não foram conclusões baseadas em especulações teóricas mas baseadas em observações na prática. A questão que ele buscou responder foi onde e como surge a experiência consciente e de que forma isso difere das atividades mentais inconscientes. As suas descobertas foram surpreendentes, controvérsas a princípio, mas que têm sobrevivido a prova do tempo. A sua fama provém da descoberta que a decisão para agir ocorre no inconsciente muito antes de termos pensado em agir. Essa descoberta tem implicações profundas numa das principais questões filosóficas e psicológicas que é o livre-arbítrio.

Em 2004 foi publicado o livro "Mind Time" no qual Benjamin Libet relata os seus estudos e descobertas.

Para realizar os seus estudos Libet contou com a rara oportunidade de estudar pacientes submetidos a cirurgias do cérebro realizadas pelo seu colega de universidade o Dr. Bertram Feinstein. Para estudar o processo da consciência era necessário que os pacientes estivessem despertos e as cirurgias permitiam a colocação de eletrodos nas áreas do cérebro objeto de estudo. Todos esses estudos foram conduzidos com a concordância dos pacientes.

Na verdade, o trabalho inicial de pesquisa de Libet tinha a intenção de explorar qual seria o menor estímulo que daria origem a uma sensação consciente. É claro que o estímulo elétrico pode ser variado de diversas formas, mas ao longo das pesquisas surgiu um fato curioso: independente da voltagem das pulsações, o estímulo tinha que persistir por 500 milisegundos - meio segundo - até que o sujeito tomasse consciência do estímulo.

Na página 70 do livro "Mind Time" Libet descreve que o retardo entre o evento e a consciência desse evento tem várias implicações, sendo que a primeira é que a nossa consciência do mundo dos sentidos está sempre atrasada em meio segundo, ou seja aquilo que tomamos consciência já aconteceu faz meio segundo. Não estamos conscientes do momento presente. Estamos sempre um pouco atrasados. Outra implicação é que está bem estabelecido que a imagem relatada por um sujeito pode ser bastante diferente da imagem real mostrada para o sujeito. Não é que o sujeito está deliberadamente e conscientemente distorcendo o que está sendo relatado, ao invés disso ele parece acreditar que está relatando aquilo que viu. Isto é, a distorção do conteúdo parece ocorrer inconscientemente. Essa supressão do conteúdo da consciência, que foi inicialmente observada por Freud, pode ocorrer como forma de "proteger" o sujeito de uma experiência consciente desagradável. Em outras palavras, podemos ver apenas aquilo que queremos ver e não aquilo que realmente está presente.

Não é surpresa que ocorra algum retardo entre um evento e a consciência desse evento: de fato, se o processo normal de causa e efeito for aceito, o evento tem que anteceder a consciência à qual dará origem. Se fôssemos espectadores passivos do mundo, simplesmente observando tal como assistimos um filme, o constante retardo seria irrelevante - nunca perceberíamos que estamos sempre meio segundo atrás da realidade. Mas nós precisamos responder aos eventos e nesse caso o atraso é muito relevante e perceptível. Portanto a coisa realmente surpreendente foi a extensão do retardo que parecia estar acontecendo. Quinhentos milisegundos - meio segundo - é um período de tempo significativo e é evidente que os seres humanos com freqüência respondem aos eventos muito mais rápido do que isso. Se tivéssemos que esperar meio segundo antes de responder aos eventos, nunca seríamos capazes de jogar um bom jogo de tênis e seríamos motoristas perigosos, ou no mínimo cautelosos ao extremo.

Confrontado com esse problema, Libet decidiu que um elemento adicional era necessário nesse argumento: apesar de parecer improvável e contrário à nossa propria impressão, as nossas decisões devem ocorrer ligeiramente antes de tomarmos consciência delas.

Desenvolver um novo experimento para testar essa hipótese foi desafiador por duas razões. Primeiro, como determinar quando uma decisão foi tomada? No caso de uma percepção sabemos quando ocorre o estímulo e podemos identificar o sinal no cérebro, mas o único sintoma de uma decisão parece ser a ação resultante.

No entanto, um estudo conduzido em 1965 por Kornhuber e Deecke mostrou que quando os sujeitos eram solicitados a mover a mão no momento que quisessem, essa ação era precedida por uma carga elétrica mensurável no cérebro. Esse 'Readiness Potential', (Potencial de Prontidão), ou RP aparecia cerca de 800 milisegundos antes da ação e parecia ser uma clara indicação que a intenção de agir havia sido formada. Portanto parecia que o RP poderia ser usado experimentalmente como um indicador para a decisão.

O segundo problema era como medir o momento em que o sujeito tomava consciência de ter tomado a decisão. Se o sujeito tivesse que apertar um botão ou dar algum outro sinal, a cuidadosa cronometragem seria obscurecida pelo tempo necessário para fazer isso - o experimento estaria medindo dois movimentos com a mão e as suas respectivas decisões! A solução encontrada por Libet foi empregar um osciloscópio, (o experimento foi conduzido em 1977 nos dias em que não existiam PCs), para que os sujeitos identificassem a posição de um ponto na tela no momento em que decidissem mover a mão permitindo que a cronometragem fosse relatada com precisão.

Os resultados confirmaram a hipótese: o RP surgia 500 milisegundos antes dos sujeitos relatarem a consciência da decisão de movimentar a mão.

Esses experimentos solucionaram a questão sob o ponto de vista empírico: em termos filosóficos os problemas estavam apenas começando. A pesquisa, (que mais tarde foi repetida e corroborada por outros), parecia oferecer uma prova científica que o livre arbítrio era uma delusão. Como podemos nos considerar responsáveis por decisões das quais nem tínhamos consciência até depois que foram tomadas? Libet no entanto argumentou, sem no entanto apresentar nenhuma confirmação experimental, que apesar da decisão do sujeito ocorrer demasiado cedo para que possa ser iniciada pelo pensamento consciente, ainda haveria uma janela de oportunidade na qual a ação pode ser vetada pela consciência. De acordo com Libet essa janela dura não mais do que 100 milisegundos.

Na página 102 do seu livro Libet afirma que "há boas razões para acreditar que focar a atenção num determinado sinal sensorial pode ser o elemento para que a resposta a esse estímulo seja consciente." Em outras palavras o treinamento da atenção pode favorecer a resposta consciente aos estímulos dos sentidos e por conseqüência o livre-arbítrio.

 

 

Revisado: 8 Outubro 2011

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