Começando Modestamente
Uma Coleção de Palestras para Meditadores Iniciantes

Por

Phra Ajaan Lee Dhammadharo
(Phra Suddhidhammaransi Gambhiramedhacariya)

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Conteúdo

 


 

Introdução

Os trechos aqui traduzidos tiveram o seu início em palestras que Ajaan Lee proferiu para grupos de pessoas que estavam praticando a meditação. Em alguns casos, as pessoas eram seus discípulos; em outros, totalmente estranhos. Em cada caso, Ajaan Lee achou necessário cobrir o tipo de questões que passam pelas cabeças de pessoas principiantes em meditação – Por que meditar? Como devo meditar? E por que dessa forma em particular? – e no seu estilo peculiar ele não somente respondia de forma clara a essas questões mas também com vívidas metáforas, para ajudar os seus ouvintes a encontrar uma relação entre a sua meditação e atividades mais conhecidas de tal forma que eles se sentissem menos intimidados pelas áreas inexploradas da mente que eles estavam tentando adestrar.

Um aspecto dos ensinamentos de Ajaan Lee que pode lhes parecer estranho é a sua análise do corpo em quatro elementos: terra, fogo, água, e ar. Essa forma de análise remonta à época do Buda, embora Ajaan Lee a desenvolva de uma maneira especial. Pense nessa análise, não como uma explicação através da biologia ou química – as ciências que usamos para analisar o corpo a partir do exterior – mas como uma forma de analisar como se sente o corpo a partir do seu interior. Essa é uma parte da consciência que com freqüência negligenciamos e que dispomos de um vocabulário pobre para descrever. À medida que você ganhar, através da meditação, uma maior familiaridade com este aspecto da sua consciência, você irá ver o quão útil é o método de análise de Ajaan Lee.

Os trechos aqui incluídos tiveram um caminho tortuoso da boca de Ajaan Lee até os seus olhos. Um dos seus alunos – uma monja, Mae Chii Arun Abhivanna – tomou notas durante as palestras das quais ela mais tarde elaborou versões reconstruídas do que Ajaan Lee havia dito. No caso de palestras datadas antes de 1957, o próprio Ajaan Lee teve a oportunidade de examinar e revisar as reconstruções antes que fossem impressas. Quanto aos discursos posteriores àquele ano, Mae Chii Arun teve oportunidade de elaborar as reconstruções somente após a morte de Ajaan Lee em 1961, e dessa forma elas foram impressas sem as suas observações.

Embora os discursos sejam excelentes para ler, eles são melhores ainda para ouvir. Se você medita com um grupo de amigos, tente fazer com que um dos participantes do grupo leia uma passagem enquanto os demais estão meditando. Dessa forma, você pode recriar o contexto para o qual os discursos foram originalmente criados.

Thanissaro Bhikkhu     
Outubro, 1999    

 


 

Brilho Interior

18 Maio 1958    

Para que as pessoas sejam felizes ou tristes, boas ou más, tudo depende do coração. O coração é que está no comando, a coisa mais importante que pode ser encontrada no seu corpo. É porque ele é durável e responsável por todo o bem e mal que fazemos. Quanto ao corpo, ele não conhece nada de prazer ou dor, felicidade ou tristeza, e não é de forma nenhuma responsável por qualquer ação boa ou má. Por que isso? Porque o corpo não é durável. Ele é vazio.

Dizer que ele é vazio significa que assim que ele é privado da respiração, os seus quatro elementos da terra, água, ar e fogo separam-se um do outro e retornam à sua natureza original. As partes que vêm do elemento da terra retornam à terra que é onde estavam originalmente. As partes que vêm do elemento da água retornam à água que é onde estavam originalmente. As partes que vêm do elemento do ar e do elemento do fogo retornam ao ar e ao fogo que é onde estavam originalmente. Não há nada a seu respeito que seja ‘mulher’ ou ‘homem’, ‘bom’ ou ‘mal’. Devido a isso é que somos ensinados, rupam aniccam, a forma física é inconstante. Rupam dukkham, é insatisfatória. Rupam anatta, é não-eu, vazia, e não permanece sob o controle de ninguém. Mesmo se tentamos proibi-la de envelhecer, adoecer e morrer, esta não se comportará de acordo com os nossos desejos. A forma física tem que se enquadrar aos processos de surgimento e desaparecimento de acordo com a natureza das formações naturais. Isto se aplica a todos.

Porém você não pode afirmar que o corpo é inteiramente anatta, pois algumas de suas partes são atta. Em outras palavras, o corpo está de certa forma sob seu controle. Por exemplo, se você quiser que o corpo caminhe, ele caminhará. Se você quiser que ele se deite, ele deitará. Se você quiser que ele coma, ele comerá. Se você quiser que ele se banhe, ele se banhará. Isso mostra que de certa forma ele está sob seu controle. Dessa forma o corpo é ambos anatta e atta. Mas mesmo assim, ambos aspectos são iguais no sentido de que são vazios e não são responsáveis pelas coisas boas ou más que fazemos. Não importa o quanto de bem ou mal você faça, o corpo não tem participação nenhuma nas retribuições. Quando ele morre, é cremado e de qualquer forma se transforma em cinzas. Não tem qualquer responsabilidade pela felicidade ou tristeza de qualquer pessoa. Quando as pessoas fazem o bem ou o mal, os resultados do que fizeram de bem ou mal recai sobre as suas próprias mentes. A mente é responsável por todas nossas ações, e também é que experimenta os resultados das próprias ações. É por isso que o Buda nos ensinou a limpar nossos corações e mentes, para torná-los puros como forma de conduzir-nos à felicidade futura.

O que usamos para limpar o coração e mente? Nós limpamos o coração e mente com a habilidade – em outras palavras através do desenvolvimento de qualidades hábeis internas, através da prática da concentração. Eliminamos todos os pensamentos de cobiça, raiva, e delusão de dentro da mente, tais como os obstáculos do desejo sensual, má vontade, torpor e preguiça, inquietação e ansiedade e dúvida. Todas essas características são coisas que poluem a mente. Quando a mente está poluída dessa forma, está confinada ao sofrimento. Está destinada à escuridão por causa das suas próprias ações.

Nossas ações inábeis podem ser divididas de acordo com a sua intensidade de trevas. Algumas são escuras como a escuridão da noite, isto é, totalmente desprovidas de qualquer claridade. Algumas são escuras como nuvens, isto é, elas se alternam entre estar escuras e claras, tal como a lua que é clara em alguns momentos e coberta por nuvens em outros. Algumas das nossas inabilidades são escuras como a neblina, que obscurece completamente nossa visão quer seja durante o dia ou à noite. Esse terceiro tipo de inabilidade é a ignorância, ou avijja. Ela obscurece a mente durante todo o tempo de tal forma que não podemos reconhecer quais objetos da mente são o passado, quais são o futuro, e quais são o presente. É por isso que a mente se preocupa com o passado, presente, e futuro de tal forma que não consegue ficar firmemente em nenhum lugar. Sem ter certeza de nada. Isso é ignorância. Da ignorância vem o desejo, a causa de todo sofrimento e estresse.

Para livrar-se dessa neblina temos que meditar, livrando-nos de pensamentos e conceitos do passado e futuro vendo-os como inconstantes, desgastantes, e não-eu, vendo os agregados da forma, sensações, percepções, formações mentais, e consciência como inconstantes, desgastantes, e não-eu, até o ponto em que não exista passado, nem futuro, nem presente. Assim é como a mente se livra das nuvens e neblina dos seus obstáculos e entra na luminosidade.

Existem dois tipos de pessoas no mundo. Algumas possuem boa visão. Elas são aquelas que desenvolvem qualidades hábeis dentro de si mesmas, e dessa forma elas vêm a luminosidade do mundo tanto durante o dia como à noite. Depois existem aquelas que não desenvolvem qualidades mentais hábeis. Elas são como as pessoas que nasceram cegas: mesmo com o brilho da luz do sol e da lua, essas pessoas estão na escuridão – nesse caso, a escuridão da própria mente. É por isso que o Buda nos ensinou a remover a escuridão das nossas mentes, remover as nossas mentes da escuridão, tal como no verso em Pali,

Kanham dhammam vippahaya     sukkam bhavetha pandito,

que significa, “Tendo abandonado as qualidades sombrias, a pessoa sábia desenvolve as luminosas”. Quando as pessoas desenvolvem a luminosidade interna, elas podem usar essa luminosidade para iluminar todas as suas atividades. Isso lhes trará sucesso em tudo que fizerem. Porém se estão na escuridão, é como se estivessem cegas, assim as coisas que fizerem não irão resultar em sucesso completo. Por exemplo, elas podem ouvir o Dhamma, mas se as suas mentes ainda estiverem vagando por todos os lados, é como se elas estivessem obscurecidas pelas nuvens e neblina dos seus obstáculos.

É por isso que somos ensinados a praticar a meditação da tranqüilidade, fixando a mente em um único objeto. Diga a si mesmo que as qualidades do Buda não estão separadas das qualidades do Dhamma, que não estão separadas das qualidades da Sangha. Na verdade elas são uma só e a mesma, tal como nos diz o verso em Pali:

Buddho dhammo sangho cati     nanahontampi vatthuto
Aññamaññaviyoga va     ekibhutamapanatthato

“Embora o Buda, Dhamma, e Sangha possam ser diferentes como objetos, aparentemente separados um do outro, eles são na realidade um só em significado.”

Dessa forma quando fazemos com que a mente fique firme com a sua atenção desperta, ela contém todas as qualidades do Buda, Dhamma, e Sangha. É então que a nossa concentração irá se desenvolver da forma apropriada.

Então, eu lhes peço que abandonem qualidades mentais inábeis e limpem a mente de forma que ela fique imaculada e pura. A luminosidade irá então surgir dentro do seu coração. Dessa forma, sem dúvida nenhuma, você experimentará a tranqüilidade e a felicidade, tal como o trecho em Pali garante: Citte sankilitthe duggati patikankha. Citte asankilitthe sugati patikankha. ”Quando a mente está contaminada, um destino ruim pode ser esperado. Quando a mente não está contaminada, um destino feliz pode ser esperado.”

 


 

Soltando

Notas de uma Palestra    
21 Abril 1953    

Soltando.

Uma das razões importantes porque o Buda ensinou o Dhamma foi para nos ensinar a soltar, não se agarrar às coisas. Quanto mais compreendemos o Dhamma, mais somos capazes de soltar. Aqueles que compreendem um pouco, podem soltar um pouco; aqueles que compreendem muito, podem soltar muito.

Como um primeiro passo somos ensinados acerca de dana - ser generosos, dar donativos – como uma estratégia para aprender a soltar. O próximo passo é caga - renúncia aos direitos de posse – que é soltar em um nível mais elevado que dana. E finalmente, em um nível mais refinado, somos ensinados a abandonar todos nossos upadhi, ou as contaminações na mente. Esse é o nível que examinamos e exploramos até obter a libertação final.

Dana significa dar coisas materiais. Se não as damos, é difícil que as deixemos. Na maioria das vezes, se não damos as coisas, mantemos direitos sobre elas e as consideramos como pertencendo a nós. Porém se as damos, não temos mais nenhum direito sobre elas. As coisas às quais nos agarramos são perigosas. (1) Elas podem nos causar dano. (2) Elas causam dano às pessoas que nos roubam. e (3) uma vez que essas pessoas as tenham roubado, então elas afirmam ter direitos sobre elas. O Buda viu esses perigos, e é por isso que ele nos ensinou a ser generosos, a aprender como dar as coisas.

As pessoas que desenvolvem o hábito de ser generosas colhem muitas recompensas. O seu ato de generosidade lhes retorna tanto no presente como no futuro. Elas têm muitos amigos. Outras pessoas confiam nelas. Os seus corações ficam leves – elas não ficam deprimidas com preocupações por ter que cuidar daquelas coisas que foram dadas. E esses mesmos resultados continuarão a vir no futuro, tal como quando temos um balde cheio de grãos de arroz: se plantamos o arroz em um campo, colheremos dez baldes em troca. O mesmo se aplica com a bondade que desenvolvemos nesta vida. Ela dá um retorno enorme. É dessa forma que as pessoas com sabedoria entendem a generosidade.

Caga é o passo seguinte. Dana é algo que até pessoas malucas podem fazer, porém caga é um tipo de generosidade que somente as pessoas sábias podem fazer, porque o seu senso de posse pessoal tem que ter um fim imediatamente com o ato de dar. Elas vêm todas as coisas materiais como elemento comum: as coisas realmente não nos pertencem, elas realmente não pertencem a outras pessoas. Ao ver as coisas como pertencendo a você, isso é o apego pela sensualidade. (kamasukhallikanuyoga). Se você vê as coisas como pertencendo a outros, isso é o apego pela mortificação (attakilamathanuyoga). Quando nascemos, não trouxemos nada conosco ao chegar. Quando morremos, não levamos nada conosco ao partir. Dessa forma o que realmente nos pertence? O coração tem que abandonar a noção de posse para que a nossa generosidade seja considerada como caga.

O terceiro nível de soltar é abandonar o que está no coração. Quer demos ou não as coisas, nós as soltamos do coração todos os dias. Nós soltamos das coisas que temos. Nós soltamos das coisas que não temos. Da mesma forma como uma pessoa tem que lavar a sua boca e as suas mãos todos os dias depois de comer se ela quiser permanecer limpa. O que isto significa é que não queremos permitir que nada atue como um inimigo no coração fazendo com que sejamos mesquinhos ou que nos agarremos. Se não fizermos isso, somos o tipo de pessoa que não se lava após uma refeição. Não somos limpos. Permanecemos dormindo sem nunca acordar. Porém se soltamos da forma descrita, a isto de chama viraga-dhamma, ou desapego. Os níveis inferiores de soltar são coisas que apenas podem ser feitas ocasionalmente. O desapego é algo que podemos desenvolver sempre.

Em geral as nossas contaminações nos amarram pelas mãos e pelos pés, e depois nos pregam no chão. É difícil de se libertar, e é por isso que necessitamos de uma habilidade mais elevada, denominada bhavanamaya-pañña – a sabedoria que vem do desenvolvimento da mente em meditação – para obter a libertação.

Desapego é uma qualidade mental que é realmente deliciosa e nutritiva. Todos aqueles que ainda não atingiram este nível do Dhamma comeram apenas a casca da fruta, sem conhecer o sabor e o alimento da polpa. A melhor parte da polpa se encontra no fundo.

Os upadhi-kilesas, ou contaminações da mente, são a ignorância, desejo, e o apego. Se alcançamos o nível em que vemos por nós mesmos o Dhamma dentro de nós, então assumiremos responsabilidade por nós mesmos. Seremos responsáveis por essas coisas, da mesma forma como quando atingimos a maioridade perante a lei.

Se conseguirmos fazer com que as nossas mentes entrem no primeiro jhana, estaremos soltando os cinco obstáculos.

A maioria de nós age como crianças inexperientes: quando comemos peixe ou frango, comemos os ossos junto com a carne porque não desenvolvemos nenhum insight. Quando esse insight surge, ele é mais deslumbrante que a luz de um fogo, mais afiado que uma lança. Pode consumir qualquer coisa: carne, ossos, arroz, cascas – qualquer coisa – porque é sábio o suficiente para triturar tudo sob a forma de um pó. Pode consumir visões, sons, aromas, sabores, tangíveis, e idéias. Boas ou más, sem ser exigente. Pode devorar tudo. Se as pessoas nos elogiam, podemos usar isso para alimentar o coração. Se nos criticam, podemos usar isso para alimentar o coração. Mesmo se o corpo estiver com dores terríveis, o coração estará tranqüilo, pois ele tem todos os utensílios necessários para preparar o seu alimento da maneira adequada: moedores, batedeiras, panelas de pressão, panelas, e frigideiras. A neblina da ignorância irá dissipar tudo que nos amarra – os pregos dos cinco agregados do apego, as três amarras (amor pela esposa, amor pelos filhos, amor por possessões materiais), e os oito grilhões dos assuntos mundanos (loka-dhamma) – ganho e perda, elogio e crítica, fama e má reputação, alegria e tristeza – todos irão desaparecer.

As pessoas estúpidas pensam que ficar aprisionadas é confortável, sendo que por isso continuam fazendo mais e mais o mal. Elas vêm o mundo como prazeroso e dessa forma são como prisioneiros que não querem sair da cadeia. Quanto às pessoas com discernimento, elas são como a codorna aprisionada que está buscando uma forma de escapar da gaiola. Como resultado os oito grilhões dos assuntos mundanos que as aprisionam irão desaparecer um elo de cada vez. Os oito grilhões mundanos são como as correntes com as quais se prendem os criminosos. As pessoas estúpidas pensam que essas correntes são colares de ouro para usar como adorno. Na verdade, isso são coisas que contaminam a mente. As pessoas que são acorrentadas com isso nunca conseguirão escapar, porque elas temem que irão perder a sua riqueza e status, temerosas da crítica e da dor. Qualquer um que esteja aprisionado pelo prazer, que teme a crítica, nunca será capaz de vir ao monastério para praticar.

O Buda viu que nós somos iguais a macacos acorrentados. Se não desenvolvemos o insight libertador, nunca nos libertaremos das correntes. Nunca alcançaremos o desapego.

No primeiro estágio soltamos daquilo que é ruim e começamos a fazer o bem. No segundo estágio soltamos daquilo que é ruim e algumas formas do bem. No terceiro estágio soltamos tudo, mal e bem, porque tudo é fabricado pela natureza e dessa forma indigno de confiança. Fazemos o bem porém não nos apegamos a ele. Quando você solta, deve fazê-lo de forma inteligente, e não de uma forma destruidora – isto é, sem fazer o mal. Você não deve se agarrar nem às suas opiniões, muito menos a coisas materiais. Quando você faz o bem, você o faz pelo benefício dos seres vivos do mundo, para os seus filhos e netos. Você faz tudo da melhor forma possível, porém sem apego, porque você sabe que todas as coisas fabricadas são inconstantes. Dessa forma o seu coração será claro e luminoso como uma jóia.

Se você se deixar capturar pela crítica ou elogio, será um tolo. É como beber a saliva de uma outra pessoa. Quando você age da forma correta, existem pessoas que dirão que você está certo e aqueles que dirão que você está errado. Quando você age da forma incorreta, existem pessoas que dirão que você está errado e aqueles que dirão que você está certo. Não existe nada constante acerca do bem ou mal, pois eles não são nada mais que fabricações.

 


 

Três Princípios

6 Julho 1956    

Em resumo, existem três princípios que são realmente básicos para a meditação:

1) Intenção Correta: Você tem que decidir que irá se soltar de todos os pensamentos e preocupações que dizem respeito ao mundo. Você não irá mantê-los para ficar pensando neles. Cada pensamento e conceito que lida com o passado ou futuro é um assunto mundano, e não do Dhamma. Decida-se que você irá fazer uma só coisa agora: a tarefa da prática, e nada mais. Em outras palavras, você irá trabalhar no presente imediato. A isto se denomina a intenção correta.

2) O objeto correto: Isto significa o tema correto ou ponto focal para a mente. O tema aqui é dhatuvavatthana, ou determinação dos elementos, um dos temas que toma o corpo como fundamento da meditação (kayanupassana-satipatthana). Em resumo, estaremos analisando os quatro elementos que compõem o corpo: os elementos da terra, água, ar, e fogo. O elemento da terra abrange as partes duras do corpo, como os ossos. O elemento da água abrange as partes líquidas, como a urina, saliva, sangue e pus. O elemento do fogo abrange o calor e aquecimento no corpo. O elemento do ar abrange as sensações de energia que fluem no corpo, como a respiração. De todos esses elementos, o mais importante é o elemento do ar, ou a respiração. Se outras partes do corpo são danificadas – digamos, se você ficar cego, ou surdo, ou com os braços e pernas quebradas – você ainda consegue sobreviver. Porém se não tiver nenhuma respiração, não poderá sobreviver. Terá que morrer. Dessa forma a respiração é um objeto importante porque forma a base da nossa consciência.

3) A qualidade correta: Isto significa as sensações de conforto ou desconforto que surgem no corpo. Quando você cuida da inspiração e expiração de tal forma que ela flua livremente através das várias partes do corpo, surgirão resultados. Observe cuidadosamente se os resultados que o corpo e a mente colhem da respiração são bons ou ruins. O corpo se sente livre e tranqüilo, ou ele se sente apertado e contraído? A mente se sente calma, quieta, e prazerosa, ou ela está irritada, distraída, e caótica? Se o corpo e a mente se sentem tranqüilos, isso conta como bons resultados. Se o oposto é verdadeiro, então isso conta como resultados ruins. Dessa forma você tem que ter a noção de como ajustar a respiração de tal forma que ela seja confortável.

Quanto às qualidades corretas da mente, elas são a atenção plena e a plena consciência.

Tente seguir esses três princípios básicos cada vez que você praticar a concentração. Somente então você obterá resultados que serão plenos e corretos.

Quanto às recompensas da concentração, existem muitas. Elas surgem de acordo com o poder da mente da pessoa que está meditando, eu explicarei isso em uma outra ocasião.

 


 

Três Filamentos de uma Corda

19 Agosto 1959    

Se você nunca meditou, estes dois princípios fáceis são tudo aquilo que você precisa entender: (1) Pense nas qualidades do Buda; e (2) Pense em trazê-las para dentro da sua mente. O que isto significa é, estar plenamente atento para fazer com que a mente fique firmemente estabelecida unicamente na respiração, sem se esquecer dela ou permitir que você se distraia.

Não se esquecer da respiração significa estar plenamente atento na inspiração e expiração todo o tempo. Não ficar distraído significa que você não agarra nenhuma outra coisa para pensar a respeito. Se a mente está focada porém você está pensando em outra coisa, a isto não se denomina Concentração Correta. A sua atenção plena tem que se manter dentro dos limites da tarefa que você está fazendo, em outras palavras, permanecer com a respiração.

Não coloque pressão sobre a respiração, não a retese, nem a segure. Deixe que ela flua com facilidade e de forma confortável, como quando você coloca um ovo fresco sobre um acolchoado de algodão. Se você não arremessá-lo ou apertá-lo, o ovo não ficará rachado ou quebrado. Dessa forma a sua meditação irá progredir sem percalços.

A respiração é uma coisa, a atenção plena é outra, e a sua consciência ainda outra. Você tem que torcer esses três filamentos juntos de forma que eles não se separem um do outro. Em outras palavras, sua consciência tem que estar junto com o seu ato de atenção plena, focando na respiração. E ambas sua consciência e atenção plena têm que permanecer com a respiração. Somente então você poderá dizer que essas coisas são fatores de meditação.

Quando você for capaz de torcer esses três filamentos em uma única corda, foque a sua atenção na observação da inspiração e expiração para verificar se está confortável ou não, expansiva ou confinada, ampla ou limitada. Qualquer que seja a forma de respiração que você sinta confortável, permaneça respirando dessa forma. Se a respiração não estiver confortável, mude-a até que esteja.

Se você forçar a mente em demasia, ela irá escapulir. Se afrouxar o seu controle em demasia, ela irá se perder. Então tente cuidar dela de tal forma que seja a medida justa. O ponto importante é que a sua atenção plena e plena consciência sejam circunspectas, fazendo ajustes através da respiração. Não permita que a mente flua para outras preocupações.

A atenção plena é como uma pessoa que está viva e desperta. Se falta atenção plena na mente, é como se estivéssemos dormindo com cadáveres em um cemitério. Não há nada exceto odores asquerosos e medo. É por isso que nos ensinam a ter atenção plena em nós mesmos no momento presente todo o tempo. Corte fora todos os pensamentos do passado e futuro sem se agarrar a eles para pensar, pois essas coisas são enganosas e ilusórias, como espíritos e demonios. Elas fazem você perder o seu tempo e o destroem. Então tenha simplesmente consciência da respiração, pois a respiração é o que dá vida e o conduz à felicidade mais elevada.

A atenção plena é como uma sabão mágico que limpa a respiração. A plena consciência é outra barra de sabão mágico para limpar a mente. Se você tiver constantemente a atenção plena e plena consciência em conjunto com a respiração e a mente, o seu corpo e mente serão valiosos e puros, de modo que enquanto você viver no mundo estará tranqüilo; quando você morrer, não enfrentará dificuldades.

Se a mente está focada porém se esquece da respiração e permanece pensando em outras coisas, a isto se denomina Concentração Incorreta. Se a mente abandona alguns dos seus obstáculos, tal como o desejo sensual, através do sono, a isto se denomina a Libertação Incorreta. Somente se a mente estiver firmemente focada na atenção plena e na respiração se trata de Concentração Correta. Somente se a mente abandona os obstáculos por ter sapiência dos seus truques é que se denomina Libertação Correta.

Se a atenção plena e a plena consciência estiverem constantemente estabelecidas na mente, nosso entendimento se tornará correto, nossa concentração se tornará correta, tal como quando dois raios de luz se encontram: eles dão nascimento à luz brilhante da sabedoria. Existem ocasiões em que a sabedoria surge somente por um breve momento na mente, e no entanto pode aniquilar contaminações enormes. Por exemplo, pode soltar todos os agregados do apego. Pode abandonar o entendimento acerca da identidade, soltar do corpo; pode abandonar o apego a preceitos e rituais, soltar das sensações; e pode abandonar a incerteza soltando a percepção, formações mentais, e consciência..

Somos ensinados a desenvolver esse tipo de sabedoria através da prática da Concentração Correta. Mesmo se ela surgir por apenas um piscar de olhos, pode trazer muitos, muitos benefícios. Tal como uma bomba atômica: apesar do seu pequeno tamanho, pode produzir destruição no mundo de uma forma espantosa.

A sabedoria que surge de dentro da mente é algo que não pode ser descrito. É uma coisa mínima, pequena, não como o conhecimento que resulta do estudo e memorização na escola. É por isso que não podemos falar a seu respeito. O Buda até definiu regras de treinamento para os bhikkhus, proibindo-os de falar acerca das suas conquistas espirituais. É por isso que não podemos saber se outras pessoas são nobres discípulos. É algo que cada nobre discípulo pode saber somente por si mesmo e para si mesmo.

 


 

No Portão de um Curral

23 Agosto 1959    

Eu gostaria de recomendar os princípios básicos de meditação para os principiantes que nunca fizeram isso antes.

1. Decida-se que você não irá pensar em nada mais, que você irá pensar somente em uma coisa: as qualidades do Buda, ou a palavra buddho.

2. Mantenha firme atenção plena na respiração, pensando bud- com a inspiração, e dho com a expiração. Ou se você preferir, pode simplesmente pensar buddho, buddho.

3. Faça com que a mente fique quieta e então abandone a palavra buddho de tal forma que você possa simplesmente observar a inspiração e a expiração e nada mais. É como ficar parado junto ao portão de um curral e vigiar o gado para observar as suas características quando saem e entram no curral. Qual é a sua cor - preta? marrom? branca? Com manchas? Velhos ou novos? Bezerros ou já adultos? Tenha certeza de que você não sairá caminhando com o gado, pois eles podem lhe dar um coice e quebrar as suas costelas, ou espetá-lo até a morte com os chifres. Fique exatamente no portão. O que isso significa é que você mantém a sua mente quieta em um ponto. Você não tem que fazer com que ela entre e saia com a respiração. Observar as características do gado significa aprender como observar a respiração: inspirar e expirar curto é confortável? Ou inspirar e expirar longo é confortável? E que tal inspirar longo e expirar curto, ou inspirar curto e expirar longo? Aprenda a reconhecer qual o tipo de respiração é mais confortável, e então permaneça com ela.

Assim existem três passos que você precisa seguir: o primeiro passo é permanecer plenamente atento na palavra buddho. O segundo é estar plenamente atento na respiração, pensando bud- com a inspiração e dho com a expiração. Não esqueça. Não se distraia. O terceiro passo, quando a mente estiver quieta, é abandonar a palavra buddho e observar nada mais além da inspiração e da expiração.

Quando você conseguir fazer isso, a mente se acalmará. A respiração irá se acalmar também, tal como uma concha flutuando em um barril com água: a água está parada, a concha está parada, porque não há nenhuma pressão, inclinação, ou impulso nela. A concha permanecerá flutuando em perfeita calma na superfície da água. Ou se pode dizer que igual a escalar o topo de uma montanha muito alta, ou como flutuar acima das nuvens. A mente sentirá nada além de uma sensação fresca de prazer e tranqüilidade. Essa é a raiz, o cerne, o ápice de tudo aquilo que é hábil.

É chamada a raiz porque é uma boa qualidade que penetra fundo e com tenacidade bem no meio do coração. É chamada de cerne porque é sólida e resistente, como o cerne de uma árvore que os insetos não conseguem escavar e destruir. Mesmo que os insetos possam ser capazes de mordiscar a árvore, eles somente conseguem atingir a casca ou a parte debaixo da casca. Em outras palavras, mesmo que as distrações venham nos perturbar, elas somente podem nos atingir até a porta dos sentidos: nossos olhos, ouvidos, nariz, língua, e corpo. Por exemplo, quando visões atingem o olho, elas não vão além do olho. Elas não penetram no coração. Quando sons atingem o ouvido, eles não vão além do ouvido, e não atingem o coração. Quando aromas atingem o nariz, eles não vão além do nariz. Eles não entram no coração. É por isso que dizemos que o que existe de bom na meditação é o cerne daquilo que é hábil, porque as várias formas do mal não podem facilmente destruir a bondade do coração quando ele for sólido e estável, da mesma forma como os insetos não conseguem perfurar o cerne da árvore.

A habilidade de uma mente em concentração é chamada de ápice de tudo aquilo que é hábil porque é elevada em qualidade. Ela pode puxar todas as demais formas de bondade para dentro da mente. Quando a mente está quieta, a sua bondade se espalha para abranger todo o corpo, de tal forma que paramos de fazer coisas inábeis com o corpo. Irá abranger nossa linguagem, de forma que paramos de dizer coisas inábeis com a nossa boca. As coisas inábeis que fizemos com nossos olhos, ouvidos, mãos, serão purificadas. Assim, a bondade que surge da meditação irá purificar nossos olhos e ouvidos, irá purificar as mãos e todas as partes do corpo de forma que elas fiquem todas limpas.

Quando temos a limpeza como responsável pelo nosso corpo, é uma bondade que é elevada em qualidade – tal como a chuva que cai do alto do céu se espalha para cobrir tudo. De quanto mais alto ela cair, mais território irá cobrir. Quando a mente é elevada em qualidade, a sua bondade se espalha para cobrir nossos olhos, ouvidos, nariz, língua, e corpo. Ela se espalha para cobrir visões, sons, aromas, sabores, e sensações tácteis. Ela se espalha para cobrir nossos pensamentos do passado e futuro. Dessa forma, essa bondade se espalha até que no final cubra todo o universo. Essas são, de forma breve, algumas das recompensas que resultam da meditação.

A bondade de qualidade elevada que resulta da meditação é como a chuva que cai do alto do céu. Não somente ela lava as coisas sujas do solo, mas também alimenta as plantas de forma que os seres humanos possam depender delas. Além disso, ela refresca as pessoas com o seu frescor. O Buda derramou a sua bondade sobre o mundo começando pelo dia do seu Despertar, e a sua bondade ainda está chovendo sobre nós 2.500 anos depois. O Buda foi um Grande Ser por causa da bondade de qualidade elevada que ele desenvolveu através da meditação – a mesma meditação que estamos fazendo agora.

Colocando de uma maneira simples: qualquer aspecto de meditação é bom. Não importa quanto você faça, mesmo se aparentemente você não estiver obtendo nenhum resultado, é bom de qualquer forma. Enquanto você simplesmente repete a palavra buddho, isso é bom para a mente. Quando você está plenamente atento na respiração, isso é bom para a mente. Quando você aquieta a mente com a respiração, isso é bom para a mente. Por essa razão, a meditação é algo que você deveria fazer sempre. Não perca a oportunidade para meditar.

 


 

Começando Modestamente

17 Maio 1959    

O poder do Buda é mais tremendo do que o de todos os outros seres, humanos e divinos. Seu corpo é enorme, de tal forma que estamos fazendo representações dele desde os tempos antigos até o presente e ainda não terminamos o trabalho. A sua boca é imensamente ampla. Muitas são as coisas que ele disse uma só vez mas que outras pessoas repetiram sem cessar: aqui estou falando sobre seus ensinamentos que os membros da Sangha copiaram como textos e apresentaram como sermões para que pudéssemos ouvi-los até o presente. A boca física do Buda era pequena, porém as suas palavras são espantosamente grandes, é por isso que dizemos que a sua boca era ampla. Os seus olhos são amplos também: eles viram a verdadeira natureza de todo o universo. É assim como são as pessoas realmente boas: elas tendem a ter esse tipo de grandeza.

Grandes coisas como essas têm que surgir de coisas pequenas. Antes que o Buda se tornasse enorme dessa forma, ele primeiro teve que fazer-se pequeno. Em outras palavras, ele se separou da sua família real e foi sozinho para a floresta para sentar-se sob os galhos da figueira-dos-pagodes às margens do rio Nerañjara. Ele deixou a sua inspiração e expiração se reduzir e reduzir até ficarem extremamente sutis, e então o fogo das suas contaminações mentais se extinguiu sem deixar vestígios. Ele despertou para o mais elevado e perfeito despertar por seu próprio mérito, tornando-se um Buda. Seu coração, que ele fez com que se tornasse tão extremamente sutil e pequeno, explodiu externamente com bondade de uma tal forma que é evidente para nós até hoje.

Assim eu peço que realmente coloquemos as nossas mentes na prática da concentração. Não se preocupe a respeito do passado ou futuro ou qualquer outra coisa. Quando a mente está firmemente colocada na concentração, o conhecimento e a sabedoria irão surgir sem que tenhamos que nos preocupar com eles. Não se permita pensar que você quer saber isso ou ver aquilo. Essas coisas virão por si mesmas. Como diz o provérbio, “Aqueles com muita cobiça ganharão somente pouco alimento; aqueles que se contentam com o equivalente a um dedo mindinho ganharão o equivalente a um polegar.” Mantenha isso em mente.

Pois a mente que está em todo lugar, perambulando em busca de conceitos e preocupações externas, acaba minando as forças que necessita para lidar com os seus vários assuntos. O que quer que seja que a mente pense em fazer, obterá sucesso somente com grande dificuldade. É como uma arma com um calibre elevado. Se você colocar nela balas muito pequenas, elas irão chacoalhar internamente e não sairão com muita força. Quanto menor for o calibre da arma, mais força terão as balas quando forem disparadas. É o mesmo com a respiração: quanto mais você estreita o foco, mais refinada ficará a respiração, até que em algum momento você possa respirar através dos poros. A mente nesse ponto tem mais força do que uma bomba atômica.

Os donos de pomares, que são inteligentes, fazem com que as suas bananas lhes ajudem a plantar o pomar, fazem com que as mangas lhes ajudem a plantar o pomar. Eles não têm que investir muito capital. Em outras palavras, eles limpam a terra pouco a pouco, plantam pouco a pouco, colhem pouco a pouco, vendem pouco a pouco, até que o pomar cresça cada vez mais todo o tempo. Dessa forma eles não têm que investir muito em termos de mão de obra e capital, porém os resultados que eles obtêm são substanciais e duradouros. Quanto às pessoas estúpidas, quando elas iniciam um pomar, não importa quão grande, elas investem todo o seu dinheiro, contratam pessoas para limpar o terreno, lavram a terra, e plantam tudo de uma só vez. Se elas tiverem uma seca por três dias ou sete dias seguidos, as plantas murcharão e morrerão. Grama e mato crescerão e tomarão conta do lugar. Nesse ponto, não há nada que se possa fazer, porque o pomar é demasiado grande para eles. Eles não têm o dinheiro para contratar os trabalhadores novamente já que eles usaram os seus recursos no início. Tudo que podem fazer é sentar-se com os braços ao redor dos joelhos, piscando os olhos para afastar as lágrimas. Eles perderam todo o capital e não conseguiram nenhum lucro. Assim é com as pessoas vorazes. Quanto àquelas que se mantêm no seu trabalho com constância, pouco a pouco, os resultados crescem cada vez mais todo o tempo.

 


 

Força para a Jornada

7 Maio 1958    

Quando você está sentado concentrado, você tem que se manter vigilante para ver se a mente está estabelecida em todos os fatores componentes da meditação. A sua prática de concentração tem que estar composta de três fatores para que possa ser considerada correta de acordo com os princípios de meditação que fazem surgir o resultado completo que todos nós queremos. Os fatores componentes da meditação são:

O objeto correto. Isto se refere ao objeto com o qual a mente se ocupa - ou em outras palavras, a respiração. Nós temos que focar nossa atenção na respiração e não permitir que ela vagueie em outras direções. A isto se chama o "thana" ou fundamento do nosso kammatthana.

Intenção correta. Uma vez que focamos nossa atenção na inspiração e na expiração, temos que manter nossa atenção plena fixada exclusivamente na respiração pensando bud- com a inspiração, e dho com a expiração. Devemos fazer isso até que a mente esteja quieta e acomodada. Então podemos abandonar a palavra de meditação. Uma vez que a mente esteja quieta e não fique vagando para outros lugares, a atenção plena ficará colada à respiração sem escapar ou ficar distraída. Essa é a intenção, o kamma do nosso kammatthana.

A qualidade correta. Isto se refere à habilidade com a qual podemos melhorar e ajustar a respiração de tal forma que ela se torne confortável. Por exemplo, se a respiração curta é desconfortável, modifique-a para que ela seja um pouco mais longa. Se a respiração longa é desconfortável, modifique-a para que ela seja um pouco mais curta. Observe a respiração longa, respiração curta, respiração rápida ou devagar, e então mantenha a respiração da forma que for mais confortável. Se surgir algum problema ou desconforto, faça mais ajustes. Porém não retese a respiração ou tente segurá-la. Deixe que o corpo inspire e expire com uma sensação de relaxamento. Então você sentirá a respiração relaxada, ágil, e espaçosa. Ela não ficará reprimida em nenhum ponto, não será sentida pesada ou confinada. Quando esse for o caso, uma sensação de satisfação e alívio, uma fresca sensação de tranqüilidade irá surgir na mente. Quanto ao corpo ele se sentirá tranqüilo também. Essa é a essência daquilo que é bom, a habilidade que todos desejamos.

Quando treinamos a mente a permanecer firme nesses três fatores da meditação, ela se tornará adestrada e obediente, e não mais será teimosa - porque uma vez que a nossa mente fique hábil e inteligente, ela ganhará a noção do que é bom para nós, o que não é, quais são os assuntos de outras pessoas, quais são os nossos assuntos. Quando isso acontece, não haverá confusão. É igual a um boi treinado. Podemos colocá-lo para fazer um bom trabalho e não temos que desperdiçar muita corda para mantê-lo amarrado. Dessa forma podemos ficar tranquilos. Mesmo se o deixarmos vagar por conta própria, ele não irá se perder. Quando ele se afasta, irá regressar para o curral por conta própria, pois ele sabe qual curral pertence ao seu dono, qual curral pertence a outras pessoas, qual pessoa é o seu dono e quais não são, qual é o tipo de pasto que ele pode comer, quais plantas são arroz que ele não deve comer. Dessa forma ele não irá invadir as terras de outras pessoas, pisoteando a colheita e comendo o arroz, o que resultaria em todo tipo de controvérsias e sentimentos ruins. Dessa forma, podemos viver em paz.

Ocorre o mesmo com a mente. Uma vez treinada, ela se tornará adestrada. Ela não irá vagar em busca de pensamentos externos e preocupações. Normalmente, a mente não gosta de ficar com o corpo no presente. Às vezes ela flui pelos olhos, às vezes pelos ouvidos, às vezes pelo nariz, pela língua, e pelo corpo, dessa forma ela se divide em cinco correntes diferentes, tal como um rio que se divide em cinco canais ao invés de permanecer em um só: a força da correnteza fica enfraquecida. E além de escapar pelas cinco portas dos sentidos em busca de visões, sons, aromas, sabores, e tangíveis, a mente também flui em busca de pensamentos do passado e pensamentos do futuro sem nunca estar firmemente no presente. Essa é a razão porque ela não sabe o que é a paz, porque não tem nenhum tempo para descansar. Como resultado, a sua força começa a fraquejar, e quando a força da mente enfraquece, também o corpo enfraquece. Quando esse é o caso, não conseguimos terminar nenhum dos nossos projetos, quer seja no nível mundano ou do Dhamma.

Quando isso ocorre, somos como uma pessoa enferma que é um fardo para os seus médicos e enfermeiras. Os médicos têm que fazer visitas para checar os sintomas. As enfermeiras têm que alimentá-la, dar-lhe remédios, e levá-la ao banheiro. Quando ela tenta sentar, necessita de alguém para apoiá-la. As pessoas que cuidam dela ficam sem dormir tanto de dia como à noite, e nunca podem deixá-la só. Quanto às pessoas responsáveis financeiramente, elas têm que tentar encontrar o dinheiro para pagar as contas médicas. Toda a família está angustiada e preocupada, e a própria pessoa doente não encontra consolo. Ela não pode ir a lugar nenhum, não pode fazer nada, não pode comer alimentos sólidos, não consegue dormir: tudo se converte em um problema.

Da mesma forma, quando as nossas mentes não estão calmas e tranqüilas, e ao invés disso ficam correndo atrás de conceitos e preocupações, somos como pessoas enfermas. Não temos as forças para concluir o nosso trabalho. Isso ocorre porque a mente destreinada fica vagando como quer e é muito teimosa. Você não consegue lhe dizer que faça algo. Se você lhe diz para deitar, ela senta. Se você lhe disser para sentar, ela levanta e caminha. Se você lhe disser para caminhar, ela começa a correr, se você lhe disser para correr, ela irá parar. Na verdade você não consegue controla-lá. Sendo assim, todo tipo de qualidades inábeis - ignorância e contaminações como cobiça, raiva, e delusão, ou os cinco obstáculos - irão se estabelecer na mente, submetendo-a e tomando o controle da mesma forma como as pessoas que são tomadas por espíritos. Por conseguinte, nos metemos em todo tipo de confusão e tumulto - tudo porque a mente não tem a força que necessita para resistir à ignorância e expulsá-la do coração.

O Buda viu assim é como as coisas são para a maioria das pessoas, resultando no seu sofrimento, e por isso ele nos ensinou a reunir a força do corpo e a força da mente que necessitamos para combater essas várias formas de sofrimento. Em outras palavras, ele nos ensinou a praticar a concentração e dessa forma fazer com que a força da nossa mente seja firme e sólida. Praticar a concentração significa treinar a mente para que ela fique calma e tranqüila. Quando a mente fica calma e tranqüila por períodos de tempo cada vez mais longos, ela se tornará límpida. Quando ela fica límpida, a luz da sabedoria surgirá dentro dela. Essa sabedoria é a força que capacitará a mente a enfrentar todo tipo de assuntos, tanto bons como ruins, pois ela terá a inteligência que a capacitará a enfrentar sabiamente todas as preocupações que vêm através dos olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e intelecto. Ela será capaz de identificar percepções do passado, presente, e futuro. Ela estará familiarizada com os elementos, agregados e faculdades dos sentidos, sabendo o que é bom, o que não é, o que vale a pena ser pensado, o que não, o que não é verdadeiro, o que é verdadeiro. Quando ela souber isso, se tornará desencantada, desapegada, e irá soltar todos os pensamentos e conceitos, irá soltar os seus apegos ao corpo, soltar dos seus apegos a coisas externas, tudo que surge do processo de fabricação e que não possui uma essência permanente.

Quando a mente conseguir se soltar de todos os pensamentos e preocupações, ela se tornará leve e ágil, tal como uma pessoa que tirou dos ombros e das mãos as cargas que vinha trazendo. Ela pode caminhar, correr, e saltar com agilidade. Ela pode sentar ou deitar com facilidade. Qualquer lugar que ela vá, se sentirá confortável. Quando a mente experimenta uma sensação de conforto, ela fica feliz e plena. Ela não se sente faminta. Quando ela está feliz e plena, ela pode descansar. Uma vez descansada, ela terá força. Qualquer tarefa que ela tome para si, no nível mundano ou do Dhamma, será bem sucedida. Se a mente porém está desprovida da sensação de satisfação, de qualquer forma, ela estará faminta. Quando ela está faminta, ela está de mal humor: irritável e preocupada. Quando esse é o caso, é igual a uma pessoa enferma que não tem forças para completar com tranqüilidade nenhuma tarefa.

Quanto às pessoas que praticaram a concentração até o ponto em que as suas mentes estão calmas e tranqüilas, elas não estão mais famintas, pois elas têm uma sensação de saciedade. Isso lhes dá cinco tipos de forças – convicção, energia, atenção plena, concentração, e sabedoria – que lhes permitirão avançar para níveis ainda mais elevados de bondade. Quando a mente está quieta, ela desenvolve serenidade mental. Quando o corpo está quieto, ele também desenvolve serenidade física: os vários elementos dentro dele estarão tranqüilos e harmoniosos, e não estarão em disputa uns com os outros. Todo o corpo então é banhado na pureza que flui através das correntes da mente através dos elementos da terra, água, fogo, e ar, cuidando deles e protegendo-os. Quando as coisas são cuidadas e protegidas, elas não se acabam. Dessa forma os elementos do corpo atingem um estado de harmonia, dando-lhes a força que necessitam para resistir as sensações de dor e cansaço. Quanto à mente, ela desenvolverá força cada vez maior, permitindo que resista a todo tipo de tormentos mentais. Ela ficará cada vez mais poderosa, tal como a pólvora que é utilizada para fazer foguetes e fogos de artificio. Quando é acesa, ela explode e sobe até o céu.

Quando praticamos a concentração, é como se estivéssemos reunindo provisões para uma viagem. As provisões nesse caso são as qualidades hábeis que desenvolvemos na mente. Quanto mais provisões tenhamos, mais confortavelmente poderemos viajar e percorrer uma distância maior. Poderemos ir para o mundo humano, o mundo dos devas, o mundo de brahma, ou todo o caminho até nibbana. Quando temos muitas provisões, nossa viagem é fácil, pois podemos nos dar ao luxo de ir de carro ou por barco. Podemos ficar em lugares confortáveis e ter comida em abundância para comer. A viagem não irá nos cansar, e poderemos ir longe e rápido. Quanto às pessoas com poucas provisões, elas não podem pagar pela passagem, dessa forma elas têm que seguir descalças, caminhando sobre o cascalho e pisando sobre espinhos, expostas ao sol e a chuva. Elas não conseguem ficar em lugares confortáveis; lhes falta comida; o seu progresso é cansativo e lento. Quando elas chegam ao seu destino elas estão prontas a desistir, pois estão sem forças. Porém quer viajemos rápido ou devagar, todos estamos indo na mesma direção. Por exemplo, suponha que todos estamos indo para Bangcoc. Aqueles que vão à pé chegarão lá em três meses; aqueles que vão de carro, em três dias; enquanto que aqueles que vão de avião chegarão em um instante.

Por essa razão, você não deveria ficar desencorajado nos seus esforços de fazer o que é bom. Desenvolva o tanto de força quanto puder, de forma que tenha as provisões e veículos que necessitar para acelerar o seu caminho para o objetivo. Uma vez que tenha chegado, você experimentará nada além de felicidade e tranqüilidade. Quando você pratica o Dhamma, mesmo que não alcance os caminhos supramundanos, as suas fruições, ou nibbana nesta vida, no mínimo você estará desenvolvendo as condições que irão auxiliá-lo no futuro.

Quando meditamos, é como se estivéssemos dirigindo um carro em uma viagem. Se você tiver a noção de como ajustar e melhorar a sua respiração, é o mesmo que estar dirigindo em uma estrada plana e pavimentada. O carro não irá encontrar quaisquer obstáculos, e mesmo uma viagem longa parecerá curta. Quanto às pessoas que não são centradas na concentração, cujas mentes estão escorregando e deslizando sem noção de como melhorar a sua respiração, elas estão dirigindo os seus carros em uma estrada com lombadas, sem pavimentação e cheia de buracos. Em alguns lugares as pontes caíram. Em outros a estrada foi arrastada pela enxurrada. O que isso significa é que a sua atenção plena tem deslizes e ela permite que a sua mente caia dentro de pensamentos do passado e futuro. Ela não fica no seu lugar no presente. Se ela não sabe como consertar a estrada, continuará a enfrentar perigos e obstáculos. O seu carro continuará atolado. Às vezes ela perde semanas e meses presa em um lugar, e a sua viagem curta se transforma em longa. Às vezes ela retorna ao ponto inicial e recomeça tudo outra vez. Indo e voltando dessa forma, andando em círculos, ela nunca será capaz de atingir o objetivo.

Dessa forma eu peço que vocês se lembrem desta palestra do Dhamma e a tomem com seriedade. Tentem utilizá-la fazendo ajustes na sua mente e vendo o que acontece. Se você treinar a mente corretamente de acordo com os três fatores de meditação que mencionei aqui, é bem capaz que você vá encontrar a paz e a felicidade que está buscando.

 


 

Na Posição

Sem data, 1958    

Quando meditadores “se colocam em posição”, exatamente o que estão fazendo? “Se colocar na posição” significa fazer a mente ficar no lugar, fazer ela ficar com o corpo, não permitir que ela vá ficar com outras pessoas ou pensar em qualquer outra coisa. Se a mente fica fora do corpo, é o mesmo que uma bateria descarregada. Você não conseguirá utilizá-la para nada. Você não consegue fazer com que ela produza calor ou luz. É por isso que somos ensinados a manter a mente interiorizada.

Quando as árvores estão encolhidas e secas, é porque elas não têm água para alimentá-las. O mesmo se aplica a nós. Se a mente não fica dentro do corpo, o corpo não irá prosperar. Ele irá se debilitar e desgastar, ficará enfermo de uma forma ou de outra, e no final morrerá devido a esta ou aquela enfermidade. Dessa forma a mente é como a água que permeia o corpo para dar-lhe alimento. Se a mente foca a sua atenção fora do corpo, então o corpo será incapaz de obter qualquer sensação de frescor, satisfação, ou tranqüilidade. Isso é porque a mente é o fator mais importante que influencia o corpo. É o nosso recurso mais valioso.

Agora, sendo a mente assim um recurso valioso, devemos aprender como cuidar dela. Devemos entregá-la a alguém em quem possamos confiar. Em outras palavras, nós a damos em confiança para alguém venerável. Porém a palavra venerável nesse caso não significa veneráveis externos, tal como monges, porque nem todos os monges são dignos de confiança. Alguns deles são bons monges, alguns não são. Se permitirmos que eles nos enganem tomando nossas riquezas, estaremos pior do que antes. Não, venerável nesse caso significa veneráveis interiores: as veneráveis qualidades do Buda, Dhamma, e Sangha dentro da mente.

Quando meditamos, estamos entregando nossas mentes a essas qualidades veneráveis. Elas são qualidades que são gentis e com consideração. Elas não irão nos abusar ou causar dano a ninguem. É por isso que podemos de todo coração confiar nossas riquezas – nossa mente – a elas. Por exemplo, quando meditamos buddho, buddho, temos que ser sinceros com essas qualidades. Nós realmente temos que pensar a seu respeito. Nós não pensamos a seu respeito somente de brincadeira. “Pensar de brincadeira” significa que pensamos sem realmente ter a intenção. Temos que realmente ter a intenção de manter buddho na mente, e a mente com buddho cada vez e todas as vezes que inspiramos e expiramos. Isso é o que significa ser sincero nos nossos pensamentos. É o tipo de pensamento que tem um propósito.

O propósito nesse caso é desenvolver algo dentro de nós com uma essência real e abundante – para criar resultados que serão duradouros. Coisas que não atendem um propósito real são aquelas que dão resultados que não são duradouros. Quando falamos acerca de resultados duradouros: por exemplo, quando você senta aqui e medita, você verá que os resultados continuarão aparecendo mesmo depois da sua morte. Porém se você não estiver realmente meditando, se você deixa a sua mente pensar em outras coisas, você verá que os resultados desaparecerão com a morte, porque as coisas nas quais você pensa não são certas ou óbvias. Elas não duram. Elas terão que mudar, deteriorar, e terminarão por desaparecer e morrer da mesma forma que você.

Quando fazemos com que fiquemos quietos e tranqüilos – quando colocamos a mente em concentração – é como se estivéssemos carregando a bateria. Uma vez que a bateria está carregada, podemos usá-la quando quiser. Quando a nossa bateria está plenamente carregada – plena de sabedoria – podemos usá-la para qualquer tipo de propósito. Podemos ligá-la a um fio e utilizá-la para cozinhar nossa comida ou iluminar nossa casa. Se simplesmente a carregamos, sem conectá-la a nada, a corrente permanecerá ali, fresca na bateria, sem causar dano de qualquer tipo, tal como a carga em uma pilha para lanternas. Se a bateria estiver sem uso, podemos tocá-la com nossas mãos e notar a sensação fresca, nem um pouco quente – e no entanto ainda existe o fogo da eletricidade dentro dela. Se necessitamos luz ou queremos cozinhar nossa comida, tudo que temos que fazer é conectar um fio e virar o botão, e a eletricidade sairá da bateria para realizar o quer que seja que tenhamos em mente.

A nossa “bateria” é a mente concentrada. Se conectamos o fio da ardência para assar nossas contaminações, o poder da nossa corrente, ou sabedoria, as queimará até que se convertam em cinzas. Da mesma forma como quando cozinhamos para eliminar a crueza dos alimentos: evitamos que o alimento se estrague beneficiando o corpo. Da mesma forma, as pessoas que possuem sabedoria dentro de si podem eliminar todas as contaminações que representam o perigo e causam sofrimento para o corpo e mente. Essa é a razão porque somos ensinados a desenvolver concentração: de forma a acumular a sabedoria que irá nos beneficiar nesta vida presente e na próxima.

 


 

Duas Meditações Protetoras

11 Agosto 1956    

Ao sentar e meditar, permaneça observando dois fatores importantes:

1. O corpo, que é onde a mente habita; e

2. A mente, que é o fator responsável pelo bem e pelo mal..

A mente é extremamente instável e rápida. Ela gosta de escapar para procurar todo tipo de coisas sem sentido, coisas que nos trazem nada além de problemas. Ela não gosta de permanecer em um só lugar. Agora ela corre para cá, depois corre para lá, trazendo todo tipo de sofrimento. É por isso que dizemos que ela é instável e rápida: facilmente distraída, difícil de ser cuidada. Agora, já que a nossa mente é assim instável e rápida, o Buda teve que procurar um método através do qual possamos tomar esse ponto fraco e convertê-lo em algo bom. Ele nos ensinou a desenvolver a concentração através do foco no corpo. Em outras palavras, ele nos faz fixar nossa atenção em um dos fatores realmente importantes do corpo, a respiração. A respiração é o que nos ajuda a encontrar conforto e tranqüilidade em todas as partes do corpo. É o que mantém o corpo vivo. Todas as nossas portas do sentidos – os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua, o corpo, e a mente – dependem da respiração para criar as sensações através das quais as impressões das coisas externas são recebidas e trazidas para ter um efeito no corpo. Por exemplo, a função dos olhos é receber impressões das formas para que as possamos ver. A função dos ouvidos é receber as impressões dos sons para que as possamos ouvir. A função do nariz é receber a impressões dos aromas para que os possamos cheirar. A função da língua é receber as impressões de sabores para que os possamos saborear. A função do corpo é receber impressões dos tangíveis para que possamos tocar. A função da mente é receber impressões das várias coisas que vêm através dos outros cinco sentidos.

Dessa forma quando meditamos, temos que fechar com força todas essas portas dos sentidos. Fechamos os nossos olhos: não temos que olhar para objetos bonitos ou feios. Fechamos nossos ouvidos, assim não precisamos ouvir nada que não é necessário – isto é, qualquer coisa que não seja benéfica de ser ouvida. Somente as palavras que nos aconselham a fazer o bem deveriam ser ouvidas. Quanto ao nariz, é necessário para a vida. Se não tivermos o nariz como passagem para a respiração, começaremos a ter problemas em outras partes do corpo, assim nós o mantemos aberto. Quanto à boca, nós a mantemos fechada. Quanto ao corpo, nós o mantemos em uma posição, tal como quando sentamos com as pernas cruzadas, como estamos fazendo agora.

Temos que tentar manter essas portas dos sentidos fechadas, dessa forma não usamos nossos olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, ou mente em qualquer outra atividade exceto a prática da concentração. Nós colocamos a mente em um só objeto, assim ela fica na sua morada, o corpo, com as portas e janelas todas fechadas.

A mente é a característica do coração ou elemento do coração. A natureza da mente é que ela é mais rápida que o ar no espaço, que flui para cá e para lá, para cima e para baixo, e nunca fica em um lugar. Dessa forma temos que trazer nossa atenção plena para dentro da mente para que possamos tomar esse ponto fraco e revertê-lo em algo bom. A isto se denomina bhavana, ou desenvolvimento da mente através da meditação. Focamos na respiração e nos recordamos das qualidades do Buda. Quando começamos a recordar do Buda dessa forma, nós simplesmente pensamos na palavra buddho. Nós ainda não precisamos analisar o seu significado. Buddho é o nome para atenção plena. Significa estar atento, estar desperto. Mas se simplesmente pensamos na palavra buddho, ela não irá preencher todos os fatores para o desenvolvimento mental através da meditação. Quando pensamos na palavra, temos que firmá-la e ajustá-la de tal forma que ela fique no mesmo ritmo da respiração. Quando respiramos, temos que respirar da maneira justa, não muito devagar, não muito depressa, da forma como for natural. Então pensamos buddho indo e vindo com a respiração, ajustando o nosso pensamento de tal forma que ele se funda com a respiração. É quando podemos dizer que estamos preenchendo os fatores de meditação.

A isto se denomina recordar-se do Buda, quando pensamos nas qualidades do Buda de uma forma abreviada, dependendo da respiração como nosso foco e mantendo a nossa atenção plena como responsável pelo pensamento.

Quando a atenção plena e a plena consciência se tornam únicas com a respiração, nossos vários sentidos ficarão regulados e calmos. A mente ficará gradualmente cada vez mais quieta, pouco a pouco. A isto se denomina estar estabelecido na primeira “meditação protetora” – recordação do Buda – quando usamos nosso pensamento como um caminho para a prática.

Este tipo de pensamento produz resultados para todos os tipos de Budistas. Ao mesmo tempo, ele nos traz os fatores que auxiliam a mente – atenção plena e plena consciência – os fatores que suportam a mente para que ela se estabeleça na bondade.

A segunda meditação protetora é o amor bondade. A palavra amor bondade – metta – vem de mitta ou amigo. Como uma qualidade, ela significa amor, benevolência, familiaridade, intimidade. Quando imbuímos a nossa mente de amor bondade, escapamos da animosidade e da hostilidade. Em outras palavras, devemos nos lembrar que permaneceremos com o nosso amigo todo o tempo. Não sairemos vagando. Não deixaremos o nosso amigo desamparado. Nosso amigo, nesse caso, é o corpo, porque o corpo e a mente têm que depender um do outro todo o tempo. O corpo tem que depender da mente. A mente tem que depender do corpo. Quando as pessoas são amigas elas têm que amar uma às outras, desejar o bem umas às outras, permanecer umas com as outras, ter a intenção de auxiliar umas às outras em todas ocasiões. Elas não abandonam umas às outras.

Dessa forma diga a si mesmo que quando o corpo inspira, você irá permanecer com a respiração. Em Pali, a respiração é denominada kaya-sankhara, ou formação do corpo, porque é o que fixa o corpo para mantê-lo vivo. É como o cozinheiro que prepara a comida em uma casa para que as pessoas da família possam comer até ficar satisfeitas e felizes. Se existe algo de errado com o cozinheiro, então haverá tumulto e confusão na casa. Se o cozinheiro do corpo – a respiração - fica estranho, tudo mais no corpo – os elementos da terra, água, ar, e fogo – irão sofrer e serão jogados num torvelinho. Dessa forma podemos dizer que a respiração é o elemento que cuida de todos os elementos do corpo. Por exemplo, nós inalamos o ar para os pulmões. Ali ele limpa o sangue nos pulmões, que é enviado para o coração. A função do coração é enviar o sangue para alimentar todas as partes do corpo, assim a energia do sangue e da respiração fluirão normalmente. Se a respiração não for boa como deveria ser, os pulmões não serão bons como deveriam ser. O coração não será bom, o sangue que ele bombeia não será bom, assim as várias partes do corpo irão sofrer como conseqüência. Isso é o que significa estarem os elementos do corpo contaminados.

Se a mente realmente tem amor bondade com o corpo, então ela tem que cuidar da respiração para mantê-lo funcionando adequadamente. Dessa forma temos que cuidar do nosso “cozinheiro” para assegurar-nos de que ele não esteja sujo, preguiçoso, ou apático. De outra forma, ele colocará veneno na nossa comida para nos matar, ou impurezas na nossa comida para que fiquemos doentes. Assim temos que nos assegurar que o nosso cozinheiro tenha hábitos limpos e puros, tal como quando respiramos as qualidades do Buda com cada respiração.

A respiração acompanhada por buddho é chamada de respiração sukkha, ou a respiração limpa, clara. Quando o mestre da casa é limpo e circunspecto dessa forma, o cozinheiro terá que ser limpo e circunspecto também. Todos os empregados na casa terão que ser limpos. Em outras palavras, quando temos atenção plena, a respiração que vai para dentro do corpo será uma respiração pura. Quando ela alcança o coração, limpará o sangue no coração de tal forma que ele também será puro. Quando o coração bombear esse sangue puro, enviando-o para alimentar o corpo, o corpo será purificado também. E a mente então se sentirá bem. Em outras palavras, com o coração bom, o alimento no sangue será bom. Quando a mente está em boa forma dessa maneira, o sangue não ficará anormal. E quando esse sangue bom é enviado para alimentar os nervos através do corpo, o corpo irá funcionar bem. Não se sentirá cansado ou dolorido.

Isso porque ajustamos bem a nossa respiração, assim podemos tratar todo tipo de doenças e dores. Quando a pureza da respiração se espalha por cada vaso sanguíneo, as coisas ruins que estão no corpo irão se dissipar. Aquelas que ainda não surgiram não terão condições de surgir. Isto auxiliará o corpo a ficar balanceado e normal.

Quando a respiração está em boas condições e o coração está em boas condições, então o elemento do fogo no corpo não será tão forte. Se a respiração não estiver bem, ou se estiver muito quente, então o elemento do fogo ficará desequilibrado. Quando fica muito quente, o sangue engrossa e fica entalado nos vasos capilares, fazendo com que fiquemos sonolentos ou com dor de cabeça. Se fica frio demais, faz com que tenhamos calafrios ou fiquemos febris.

Assim a respiração é mais importante do que qualquer outro elemento do corpo. Ele ajuda o elemento do fogo, que por sua vez distila o elemento água. O elemento água no corpo pode ser de dois tipos: a parte que endurece e se transforma em terra, e a parte que permanece líquida por sua própria natureza. Quando a respiração funciona da maneira adequada, todos os demais elementos funcionam de maneira adequada e o corpo se sentirá descansado e tranqüilo.

A isto se denomina demonstrar amor bondade consigo mesmo. A mente fica com a respiração, a respiração fica com o corpo, o corpo fica com a mente. Eles não abandonam um ao outro. Eles são amorosos, íntimos, harmoniosos – eles são bons amigos.

Quando as pessoas ficam juntas elas se tornam intimas e próximas uma da outra. Se elas não ficam uma com a outra, elas não conseguem ficar próximas uma da outra. E quando não estão próximas, elas realmente não se conhecem.

Quando as pessoas são amigas e estão próximas, elas confiam umas nas outras. Elas contam os segredos uma para a outra. Elas não escondem o que está acontecendo. Da mesma forma, quando nos tornamos amigos próximos do corpo, iremos aprender os segredos do corpo. Por exemplo, podemos aprender qual kamma no passado levou ao nascimento do corpo da forma como ele é – como foram nossas vidas passadas, que coisas boas e más fizemos, que resultaram no corpo ser desta ou daquela forma. Aprenderemos como os quatro elementos do corpo funcionam. Aprenderemos como as coisas surgem e desaparecem nas características do olho, ouvido, nariz, língua, corpo, e intelecto. Aprenderemos os segredos dos vários assuntos conectados com o corpo, porque ele terá que nos revelar a sua verdadeira natureza – tal como quando destampamos uma vasilha de servir, permitindo que vejamos o que está dentro da vasilha.

Quando aprendemos dessa forma como as coisas funcionam no corpo, a isso se denomina vijja, ou entendimento correto. Esse tipo de entendimento surge do silêncio da mente. Quando o corpo e a mente estão ambos juntos em silêncio, eles proporcionam conhecimento um ao outro. Da mesma forma com as pessoas: se somos amigáveis com elas, elas tenderão a ser amigáveis conosco. Se somos antagonísticos com elas, elas serão obrigadas a nos antagonizar. Da mesma forma, quando o corpo é amigável com a mente, a mente tenderá a ser amigável com o corpo. Em outras palavras, ela pode ajudar as várias partes do corpo. Ela pode ajudar a fazer o corpo agir de acordo com os seus pensamentos. Se, por exemplo, existe uma sensação de dor ou cansaço, podemos reunir o poder da mente com força total para pensar na sensação desaparecendo, e aquela sensação de dor ou cansaço pode ser que desapareça por completo, simplesmente através do poder de um único momento da mente. As pessoas que ajudaram umas às outras no passado têm que se ajudar todo o tempo. Se podemos ajudá-las, elas tenderão a nos ajudar.

A habilidade para fazer isso vem do poder da mente que é capaz de dar ordens de acordo com as suas aspirações. Quando podemos fazer com que nosso amigo se torne bom através da força do nosso pensamento, então todos nossos amigos podem se tornar bons. Por exemplo, quando pensamos em purificar a respiração, a respiração irá auxiliar a melhorar o elemento fogo. O elemento fogo irá auxiliar a melhorar o elemento água. O elemento água irá auxiliar a melhorar o elemento terra. Quando todos elementos se auxiliam mutuamente desta forma, eles ficam balanceados e auxiliam o corpo, assim o corpo poderá ser sadio.

Quanto à mente, ela fica fresca e tranqüila. Qualquer pessoa que se aproxime irá apanhar um pouco dessa calma também. Da mesma forma como uma montanha fresca nas suas profundezas: quem quer que passe por perto também será refrescado, mesmo que a montanha não os salpique com água para refrescá-los.

Até agora temos falado sobre o corpo. Quanto à mente, quando ela é pura dá resultados ainda maiores. Quando pensamos em usar o poder da mente pura, a sua energia vai mais rápido do que raios cortando o céu, e ela pode ir a qualquer canto do mundo. Se alguém quer se aproximar para nos causar dano, não consegue chegar próximo, porque uma mente pura, forte, tem o poder de se proteger contra todos os tipos de perigo. Tome o Buda como um exemplo: ninguém poderia matá-lo. As pessoas que pensaram em matá-lo, assim que chegavam próximo dele, o viam como o seu amado pai. Aquelas que foram submetidas à pureza do Buda abandonaram os seus hábitos ruins e se converteram em boas pessoas; elas abandonaram a violência e o vício, tornando-se gentis e moderadas. Angulimala por exemplo: se ele não quisesse ouvir o Buda, ele seria devorado pela terra. Porém ele foi capaz de pensar, “O Buda não irá me matar. Eu não matarei ninguém.” Ele imediatamente largou as suas armas, e abandonou a matança de uma vez por todas, se ordenou, e se tornou um dos nobre discípulos do Buda.

Assim da mesma forma, devemos pensar nas qualidades do Buda, Dhamma, e Sangha com cada inspiração e expiração. Quando permanecemos dessa forma dentro do território do Dhamma, é como se estivéssemos tendo uma audiência com o próprio Buda. Mesmo que – quando pensamos nas qualidades do Buda, Dhamma, e Sangha – estamos percorrendo o mesmo velho território outra vez, o que há de errado nisso? Na verdade, quando usamos os nossos poderes de pensamento aplicado (vitakka) e sustentado (vicara) indo e vindo dessa forma, os resultados que obtemos são positivos: uma sensação de plenitude se espalha por todas as partes do corpo. A mente se sentirá plena e luminosa. O coração se sentirá florescendo, estabelecido na sensação de plenitude, ou êxtase (piti), que vem com os pensamentos de amor bondade. Quando o coração está pleno dessa forma, estará tranqüilo, da mesma forma como quando comemos nossa porção de comida. E quando o coração está pleno, o seu amigo, o corpo com certeza irá se sentir pleno e descansado também. Estaremos tranqüilos ambos o corpo e a mente, igual a quando vemos nossos filhos ou netos bem alimentados e dormindo bem. A isto se denomina felicidade (sukkha). E quando vemos que algo traz a felicidade para os nossos filhos e netos, temos que focar nossos esforços nisso continuamente. Assim é como a mente alcança a sua unicidade (ekaggatarammana), entrando num estado de paz, livre de todo tipo de perturbação e perigo.

 


 

Sendo Anfitrião

27 Setembro 1956    

Quando você senta e medita, diga a si mesmo que o seu corpo é como a sua casa. Quando você repete a palavra buddho com a respiração, é como convidar um monge a entrar na sua casa. Quando as pessoas convidam um monge para as suas casas, o que é que elas fazem de modo a demonstrar boas maneiras? 1) Elas têm que preparar um lugar para ele sentar. 2) Elas lhe dão boa comida ou água para beber. 3) Elas conversam com ele.

Quando meditamos, “preparar um lugar para sentar” significa pensar bud- com a inspiração, e dho com a expiração. Se somos atentos em pensar dessa forma, a palavra buddho estará sempre junto com a respiração. Sempre que o seu pensamento escapar da respiração, é como se fizéssemos um rasgo no assento que estamos preparando para o nosso hóspede. E não se esqueça que antes de preparar o assento, você primeiro tem que varrer o lugar para que fique limpo. Em outras palavras, quando você começa, deve respirar longa e profundamente e expirar o ar completamente, por duas ou três vezes. Então você permite que a respiração se torne mais leve, pouco a pouco, até o ponto em que você possa acompanhá-la confortavelmente. Não permita que ela enfraqueça mais ou seja mais longa daquilo que é a medida justa. Então você começa a combinar buddho com a inspiração e a expiração. Quando você faz isso, o seu monge visitante virá para a sua casa. Agora se assegure de que você irá permanecer com ele. Não saia correndo para algum outro lugar. Se a sua mente sai correndo ou fica vagando com conceitos externos de passado ou futuro, é o mesmo que se você tivesse fugido do monge que convidou para a sua casa – o que realmente não são boas maneiras.

Uma vez que o monge tenha sentado no assento que você lhe preparou, você deve dar-lhe boa comida ou água, e então encontrar coisas boas para conversar com ele. A boa comida neste caso é a comida das intenções, a comida do contato sensual, e a comida da consciência. A comida das intenções significa a forma como você ajusta a respiração de tal forma a fazer com que ela seja confortável tanto para o corpo como para a mente. Por exemplo, você está vigilante para ver que tipo de respiração é boa para o corpo, e qual tipo é má. Qual tipo de inspiração se experimenta facilmente? Que tipo de expiração se experimenta facilmente? A sensação de inspirar e expirar rápido é boa? E que tal inspirar e expirar devagar? Você tem que experimentar e então provar a comida que você preparou. Esse é um tipo de comida para a mente. É por isto que a intenção de permanecer com a respiração é chamada de comida da intenção. Quando você ajusta a respiração até o ponto em que você a sente confortável e em boa ordem, ela fará surgir uma sensação de plenitude e tranqüilidade. É quando você pode afirmar que proveu ao monge que o está visitando com comida boa e nutritiva. Quando ele terminar a refeição, ele irá cantar bênçãos pelo seu bem-estar e felicidade, de forma que você se livre da dor e do sofrimento. Ou, como diz o ditado, o poder do Buda elimina o sofrimento. Em outras palavras, quando você ajustou a respiração da maneira adequada, as dores no corpo irão desaparecer. Mesmo que exista alguma dor que não desapareça, ela não invadirá a mente. Quanto à dor e sofrimento no coração, isso irá desaparecer completamente. A mente irá se acalmar. Quando ela se acalmar, ela estará tranqüila – quieta e luminosa.

E quanto ao ditado que diz que o poder do Dhamma elimina os perigos: as várias formas de Mara que vêm para perturbar o corpo, tal como as dores dos agregados, todas desaparecerão. A mente estará livre de perigos e animosidades.

E quanto ao ditado que diz que o poder da Sangha elimina as enfermidades: todas as várias enfermidades na mente – tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero – irão desaparecer. Dessa forma, uma vez que você tenha convidado este monge para a sua casa e tenha lhe dado boa comida, ele lhe dará três tipos de benção: você se livra da dor, do perigo, e da enfermidade. Isto é parte da benção que o seu monge visitante lhe dará. Porém, se tendo convidado um monge para a sua casa, você sai correndo para fora – em outras palavras você se esquece da respiração ou fica vagando com pensamentos externos – isso é realmente grosseiro, e o monge será colocado em uma situação dificil. É como se você o tivesse convidado à sua casa mas tivesse esquecido de preparar a refeição. Assim se você não estiver realmente com a intenção na respiração e realmente não recepcionar o monge na sua casa, você não terá esse tipo de bençãos.

A última tarefa ao convidar o monge para a sua casa é de conversar com ele. Uma vez que ele tenha terminado a refeição, você conversa com ele. Isto é representado pelas qualidades do pensamento aplicado, sustentado, êxtase, felicidade, e unicidade da mente. Você conecta todos os seis tipos de energia da respiração no corpo de tal forma que todos fluem de um para o outro – como quando você instala uma linha telefônica. Se a linha permanecer em boas condições, você poderá ouvir o que as pessoas dizem em qualquer lugar do mundo. Porém se a linha for cortada, você não terá idéia do que estão dizendo mesmo estando em Bangcoc a uma pequena distância. Então se você mantém a sua linha em boas condições, você pode ouvir qualquer coisa que é dita em qualquer lugar. Quando a mente permanece desta forma no primeiro jhana, é como se o seu monge visitante estivesse conversando com você e você com ele. E as coisas acerca das quais estão conversando são todas do Dhamma. Isso faz você ficar de bom humor. Conforme o tempo passa, você se sente tão bem que não quer nem comer. Isso é o êxtase: o corpo se sente satisfeito. Ao mesmo tempo, a mente está livre de perturbações e assim sente felicidade. Sempre que você obtiver a sensação de felicidade, você permanecerá interessado naquele ponto: isso é a unicidade da mente.

Quando você recepciona o seu monge visitante desta forma, ele continuará a visitá-lo. Não importa aonde você vá, ele será capaz de encontrá-lo. Mesmo se você estiver nas montanhas ou na floresta, ele será capaz de lhe dar toda ajuda que você precisar.

 


 

Uma Imagem do Buda

31 Agosto 1958    

Nossa bondade: o que podemos fazer para torná-la realmente boa? Para a bondade de hoje gostaria que cada um de nós colocasse a mente em moldar uma imagem do Buda dentro da mente para nos proteger, porque os Budas são as coisas mais sagradas e divinas que qualquer outro objeto no mundo. Eles podem nos proteger e ajudar a sobreviver todo o tipo de perigos e sofrimentos. Como nos diz o canto em Pali, "Sabba-dukkha sabba-bhaya sabba-roga vinassantu," que significa, “Todos os sofrimentos, todos os perigos, todas as enfermidades podem ser destruídas através do poder do Buda, Dhamma, e Sangha.”

Quem quer que tenha uma imagem interna do Buda estará protegido dos três principais temores. O primeiro tipo de temor é o medo do sofrimento, isto é, nascimento, envelhecimento, enfermidade, e morte. O Buda não tem absolutamente nenhum temor dessas coisas, pois ele as afastou em todas as suas formas ... Os vários tipos de perigos, tal como o perigo de criminosos: quem quer que seja que tente roubar os seus bens, o Buda não tem o menor temor, pois os seus bens não são do tipo que alguém possa roubar. O perigo do fogo: Sem mencionar incêndios de casas ou ser bombardeado por armas nucleares. Mesmo se o fogo do fim da eternidade fosse queimar todo o mundo, ele não ficaria assustado ou temeroso. O perigo de enchentes: mesmo se a água fosse inundar da terra até o céu, ele não estaria preocupado. O perigo da fome, seca, e peste não o fariam sofrer ou o colocariam em dificuldade. As várias enfermidades que surgem no corpo não lhe causam nenhum temor. Simplesmente olhe para a imagem do Buda à sua frente. Quais perigos ele teme? De onde? Não importa o que alguém lhe faça, ele simplesmente está ali sentado perfeitamente imóvel, sem temer absolutamente nada. É por isso que devemos moldar um Buda dentro de nós mesmos assim poderemos usá-lo em volta do pescoço e proteger-nos do perigo aonde quer que formos.

Agora, quando uma imagem do Buda é moldada, qual é o processo? A primeira coisa é fazer um molde que seja lindo e bem proporcionado. Então o molde é aquecido até que o calor penetre completamente. Então o metal derretido é derramado dentro do molde. E deixado esfriar. Quando estiver completamente frio, os pedaços do molde são retirados, deixando somente a imagem do Buda, mas ainda a imagem do Buda é grosseira e sem atrativos. A imagem será polida até que se possam ver reflexos claros, ou então pintá-la com laca e revesti-la com folhas de ouro. Somente então a imagem do Buda estará terminada de acordo com os seus objetivos.

Então agora que estamos moldando um Buda dentro de nós, temos que aquecer o nosso molde antes de que possamos derramar o metal. Faça de conta que o corpo nesse caso é o seu molde; sua mente o artesão especialista. Quero que todos coloquemos as nossas mentes em moldar um Buda dentro de nós mesmos. Quem vai ter o Buda mais bonito, depende de quão capaz e hábil cada artesão é na fundição.

Como aquecemos nosso molde? Aquecemos o molde sentandos em concentração: sua perna direita sobre a esquerda, as suas mãos colocadas sobre o colo com as palmas para cima, a sua mão direita sobre a esquerda. Sente-se ereto. Não se incline para a frente ou para trás ou para qualquer um dos lados. Se o molde não estiver centrado, o seu Buda também não estará centrado. O próximo passo é fixar a atenção plena na respiração, pensando bud- com a inspiração e dho com a expiração. Permaneça focado exclusivamente na respiração. Você não precisa pensar em nada mais – tal como se você estivesse bombeando ar no seu forno para aquecer o molde. Se a sua atenção não permanecer com a respiração – se você esquecer ou por desatenção pensar em outras coisas – é como se o seu fole quebrasse. O fogo não ficará intenso, e o molde não irá ficar completamente aquecido. Se o molde não ficar completamente aquecido, então quando você despejar nele o metal derretido, o molde irá rachar e o metal irá vazar por todos os lados. Dessa forma você tem que ser cuidadoso para que o seu molde não rache, se assegure também de que o seu fole não irá se desgastar. Em outras palavras, mantenha a plena consciência sobre a sua atenção plena de forma que ela não fique distraída ou esquecida.

Agora vamos falar sobre como você derrete o seu metal – bronze, ouro, prata, ou qualquer tipo de metal que você irá usar para moldar a sua imagem do Buda. Quando uma imagem é moldada, o metal é derretido e todas as manchas e impurezas são removidas, deixando nada além do metal na sua forma mais pura. Somente então o metal poderá ser utilizado para moldar a imagem. Da mesma forma, temos que eliminar do coração todos os conceitos e preocupações que atuam como obstáculos. Os cinco obstáculos são como impurezas misturadas com ouro. Se não os dissolvemos ou removemos do coração, nossa imagem do Buda não sairá perfeita e poderosa como nós gostariamos. Ela estará manchada e cheia de buracos. Se você a colocasse em um altar, a sua aparência não seria inspiradora. Se você a desse, ninguém gostaria de recebê-la. Dessa forma é necessário – crucial – que o seu artesão especialista seja meticuloso, diligente, e não descuidado, que ele faça um esforço concentrado para purificar o metal que ele está utilizando. Em outras palavras, você tem que varrer para o lado todos os conceitos de passado e futuro, deixando somente o presente: a respiração. Tenha atenção somente na respiração. Quando o seu molde estiver completamente aquecido (isto é, com plena consciência em relação a todo o corpo), o seu fole está trabalhando bem (isto é, a atenção plena está firme e forte), e o seu metal está puro e sem manchas (isto é, não há obstáculos no coração), então a imagem do Buda que você está moldando será bonita e irá satisfazê-lo.

Moldar uma imagem do Buda dentro de você significa sentar em concentração, dando origem à paz e calma na mente. Quando a mente está em paz, o corpo está em paz. O êxtase – uma sensação de plenitude no corpo e na mente – irá surgir dentro de você ( isto é, quando a atenção plena preenche o corpo, a sua consciência preenche o corpo também). Quando o êxtase surge com força total, ele dá lugar à felicidade. Quando existe muita felicidade, a mente se torna clara e luminosa. A luminosidade da mente é o conhecimento do insight que liberta. Você vê a verdade do corpo, que ele é constituído simplesmente dos quatro elementos terra, água, fogo, e ar – não é seu, nem de ninguém. É impermanente. Cheio de sofrimento. Isso dá origem a uma noção de desencantamento e desapego, dessa forma você se solta do processo de fabricação mental e física, vendo que nisso não existe substância real. Você pode separar o corpo da mente.

A mente então estará livre da sua carga de ter que ficar rebocando o corpo físico. Ela se converte em uma mente que é livre, leve e relaxada. Qualquer direção que você olhe estará amplamente aberto – como se você removesse o piso, paredes e teto da sua casa: se você olha para baixo vê o chão. Se olha para cima, vê as estrelas. Olhe em volta para as quatro direções e verá que não há nada para obstruir o seu campo de visão. Você pode ver tudo claramente. Se você olhar para o oeste verá a nobre verdade do sofrimento. Olhe para o sul e verá a causa do sofrimento.Olhe para o leste e verá a cessação do sofrimento. Olhe para o norte e verá o caminho. Se você conseguir ver dessa forma se diz que você é uma moeda completa, isto é, vale quatro quartos. E se você conseguir os quatro quartos muitas vezes, você ficará cada vez mais valioso. Você se tornará uma pessoa rica com muitas riquezas – isto é, nobres tesouros. Você estará livre da pobreza.

Quem quer que possua nobres tesouros se diz que é uma nobre pessoa. Nobres pessoas são aquelas que viram as quatro nobres verdades. Quem quer que veja as quatro nobres verdades se diz que viu o Buda dentro de si. O Buda gosta de ficar com pessoas desse tipo – e quando o Buda está conosco, seremos abençoados e não enfrentaremos dificuldades. Simplesmente estaremos indo cada vez mais alto. É por isso que deveríamos todos moldar um Buda dentro de nós através da prática da concentração sempre que tivermos a oportunidade.

Uma outra forma de moldar um Buda dentro de nós é meditar constantemente acerca das impurezas do corpo, como quando cantamos: Ayam kho me kayo: este meu corpo. Uddham padatala: da ponta do dedão até a cabeça – como é ele? Addho kesamatthaka: da coroa da cabeça até o dedão, como é ele? Tacapariyanto: dentro deste saco de lona, que valores temos? A pele que cobre este corpo é como um saco de lona cheio de todo tipo de coisas, então vejamos que valores fantásticos temos aqui neste saco. Começando com as costelas, coração, fígado, pulmões, intestinos, comida no estômago e intestinos, sangue, bílis, urina. Que tipo de valores atraentes são essas coisas?

Se você olhar com cuidado para o seu corpo, verá que o que você tem são os quatro estados de privação, nada de maravilhoso.

O primeiro estado de privação é o reino animal: todos os vermes e germes que vivem em nosso estômago e intestinos, nos vasos sanguíneos e nos nossos poros. Enquanto houver alimento nesses lugares para essas criaturas comerem, eles sempre estarão conosco, multiplicando-se como loucos, tornando-nos enfermos. Na parte externa do corpo existem pulgas e piolhos. Eles gostam de ficar com aqueles que não se mantêm muito limpos, tornando a sua pele vermelha e inflamada. Quanto aos animais que vivem nos vasos sanguíneos e poros, eles nos causam erupções e infecções.

O segundo estado de privação é o reino dos fantasmas famintos, isto é, os elementos terra, água, fogo, e ar no corpo. Primeiro sentimos demasiado frio, depois demasiado calor, depois nos sentimos enfermos, depois queremos comer isto ou aquilo. Temos que ficar realizando os desejos, vagando para encontrar o que comer sem nunca ter uma oportunidade para parar e descansar. E nunca é o suficiente – como os fantasmas famintos que estão famintos depois que eles morrem, sem ninguém para alimentá-los. Esses elementos ficam nos amolando, e não importa o que você faça, nunca conseguirá satisfazê-los. Primeiro a comida está muito quente, assim você tem que esfriá-la. Então está muito fria, assim precisa colocar de volta no fogão. Tudo isso se resume a um desequilíbrio nos elementos, às vezes bom, às vezes ruim, sem nunca chegar a um estado de normalidade, fazendo com que soframos de várias formas.

O terceiro estado de privação é o mundo dos demônios enraivecidos. Às vezes, quando ficamos doentes ou perdemos o juízo, corremos por aí pelados sem absolutamente nenhuma roupa, como se estivéssemos possuídos por demônios raivosos. Algumas pessoas têm que se submeter a cirurgias, removendo isto ou cortando aquilo ou drenando isto, agitando os braços e gemendo de tal forma que é realmente patético. Algumas pessoas ficam tão pobres que elas não têm nada para comer; elas ficam tão magras que não lhes resta nada exceto as costelas e os globos oculares, sofrendo como um demônio raivoso que não consegue ver a luminosidade do mundo.

O quarto estado de privação é o inferno. O inferno é a moradia de todos os espíritos com muito kamma ruim que têm que sofrer sendo assados, furados com estacas em brasa, e penetrados com espinhos. Todos os animais cuja carne comemos, depois que foram mortos e cozidos, se reúnem no nosso estômago e então desaparecem no nosso corpo em grande número. Se você os contasse, teria gaiolas de frangos, rebanhos de gado, e metade de um mar de peixes. Nosso estômago é uma coisa tão pequena, e no entanto não importa o quanto você coma nunca consegue mantê-lo cheio. E você tem que alimentá-lo com coisas quentes também, como os habitantes do inferno que têm que viver com o fogo e as chamas. Se não há fogo, eles não conseguem viver. Assim, para eles há uma grande frigideira de cobre. Todos os vários espíritos que comemos se reúnem na grande frigideira de cobre do nosso estômago, onde são consumidos pelo fogo da digestão, e depois nos perseguem: os seus poderes penetram através da nossa carne e sangue, dando origem à cobiça, raiva e delusão, fazendo com que nos contorçamos como se também estivéssemos queimando com o fogo do inferno.

Dessa forma olhe para o corpo. Ele é realmente seu? De onde ele veio? De quem ele é? Não importa o quanto você cuide dele, ele não ficará com você. Ele terá que regressar para o lugar de origem: os elementos terra, água, fogo, e ar. O fato de que ele possa permanecer por algum tempo depende inteiramente da respiração. Quando não existe mais respiração, começa a deterioração, e então ninguém mais o quer. Você não será capaz de levá-lo quando se for. Não existe ninguém que possa levar consigo os seus braços, pernas, pés, ou mãos. É por isso que dizemos que o corpo é não-eu. Ele pertence ao mundo. Quanto à mente, é o que faz o bem e o mal, e irá renascer de acordo com o seu kamma. A mente não morre. É quem experimenta todo o prazer e a dor.

Dessa forma quando você se dá conta disso, deveria fazer tanto bem quanto puder, por seu próprio beneficio. O Buda sentiu compaixão por nós e nos ensinou dessa forma, porém nós não sentimos muita compaixão por nós mesmos. Preferimos nos encher com sofrimento. Quando outras pessoas nos ensinam, não se pode comparar com quando nós nos ensinamos a nós mesmos, pois as pessoas nos ensinarão apenas ocasionalmente. A possibilidade de ser um animal comum, um ser humano, um ser divino, ou de realizar nibbana estão todas dentro de nós, assim temos que escolher qual delas queremos.

O bem que você faz é o que irá com você ao futuro. É por isso que o Buda nos ensinou a meditar, para contemplar o corpo para fazer surgir o desapego. O corpo é impermanente, sujeito ao sofrimento, e não tem nada de nosso. Você o toma emprestado durante algum tempo e depois tem que devolvê-lo. O corpo não pertence à mente, e a mente não pertence ao corpo. Essas são coisas separadas que dependem uma da outra. Quando você consegue ver isso, você não terá mais preocupações ou apegos. Você pode se soltar do corpo, e três coisas mais – idéia da existência de um eu, apego a preceitos e rituais, e a dúvida do caminho – irão cair do seu coração. Você verá que o bem e o mal vêm do coração. Se o coração está puro, esse é o maior bem no mundo.

 


 

Binóculos

20 Agosto 1956    

Quando você meditar, tem que estar atento a três coisas ao mesmo tempo. Em outras palavras, conforme você inspira e expira, três coisas – (1) a respiração, (2) a palavra de meditação, e (3) a mente – têm que estar juntas a cada momento. Ao mesmo tempo, a plena consciência sempre tem que estar no comando. Somente então você poderá dizer que está estabelecido nos fatores da meditação que são a essência daquilo que é hábil e meritório.

“Atenção Plena” – prestar atenção – é o que conta como meritório nesse caso. Esquecimento – negligência – é o que conta como ruim.

A plena consciência é o que supervisiona os resultados das nossas atividades – vendo o que fazemos que produz bons resultados, o que fazemos que dá resultados ruins – e então faz os ajustes. Por exemplo, se a respiração ainda não está confortável, movemos a mente para um outro ponto ou modificamos a maneira como estamos respirando. É o mesmo que mudar de lugar. Se aonde estamos sentados não está confortável, temos que levantar e encontrar um outro lugar para sentar. Uma vez que tenhamos encontrado um lugar confortável para sentar, temos que nos manter ali pelo máximo de tempo que possamos. Não temos que mudar de lugar outra vez.

Quando a atenção plena fica com a respiração, é denominada anapanasati. Quando está imersa no corpo, é denominada kayagatasati. Quando a atenção plena permanece com o corpo e a mente todo o tempo a isto se denomina desenvolver nosso tema de meditação (kammatthana) – como quando estamos sentados aqui meditando: estamos fazendo o nosso trabalho, isto é, nosso trabalho em relação ao tema da meditação.

Atenção plena é a causa. Se focamos nossa atenção em trabalhar com a mente, obteremos muitos resultados mentais. Se focamos em trabalhar com o corpo, obteremos muitos resultados corporais.

Os resultados que surgem do desenvolvimento do nosso tema de meditação são (1) acalmamos as qualidades ruins da mente; e (2) acalmamos os elementos físicos do corpo. A mente estará aberta e livre, tal como o oceano quando não tem ondas: o ar está parado, a superfície lisa, e o ar está limpo. Quando esse é o caso, podemos ver todo tipo de coisas que estão distantes. Dessa forma passamos a conhecer os assuntos do corpo. No nível mais baixo, passamos a conhecer o corpo no presente: entendemos o que está ocorrendo com os elementos terra, água, fogo, e ar, ambos nas suas partes importantes e nas partes sem importância. As partes importantes são aquelas que permanecem no corpo; as sem importância são aquelas que vêm e que vão, formando uma ponte entre os elementos internos do corpo e aqueles externos. Em relação ao elemento ar, veremos quantos tipos de energia da respiração ficam no corpo, e quantos tipos de respiração entram e saem. Veremos quais partes dos elementos terra, fogo, e espaço ficam no corpo, e quais partes vêm e vão. O mesmo se aplica ao elemento consciência. Por exemplo, quando nossos olhos não vêm com clareza, o que há de errado com o elemento consciência no olho? Seremos capazes de ver todas as formas nas quais ela se transforma, como também as mudanças nos elementos consciência no ouvido, nariz, língua, corpo, e mente. Teremos a atenção plena e a plena consciência constantemente no comando.

A atenção plena e a plena consciência são como binóculos para ver a grandes distâncias. A mente é como o dono do binóculo. Se os elementos do corpo não estiverem na sua normalidade, se eles não estão estáveis e calmos, então não importa quão espetacular sejam os nossos binóculos, não seremos capazes de ver nada. Por exemplo, quando o Buda investigou os seres do mundo, ele esperou até que o mundo estivesse quieto e tranqüilo – a última vigília da noite antes do amanhecer, quando as mentes dos seres humanos estavam quietas, tranqüilas e adormecidas. Foi então que ele usou os seus binóculos especiais para investigar tudo o que estava acontecendo no mundo.

Quando a mente está calma é como um oceano que está calmo: o ar está parado, o barco não balança, a água está clara e o ar escancarado.

Na medida em que treinamos a mente, ela se torna cada vez mais madura, mais temperada e afiada, capaz de cortar através de qualquer coisa. Como uma faca que sempre mantemos bem afiada: não há razão para que ela não esteja afiada. Assim devemos manter a prática da mesma forma como afiamos uma faca. Se qualquer parte do corpo ou da mente não está em boa forma, nós a ajustaremos até que obtenhamos bons resultados. Quando bons resultados surgem, estaremos no estado de Concentração Correta. A mente estará firmemente estabelecida no presente, em um estado de unicidade. Ganharemos poder sobre ambos corpo e mente. Poder sobre o corpo significa que em qualquer lugar que haja dores, podemos ajustar os elementos terra, água, fogo e ar para fazer surgir uma sensação de conforto, da mesma forma como podamos uma árvore. Se quaisquer galhos estão quebrados ou apodrecidos, nós os cortamos e enxertamos novos galhos. Se os novos quebram, enxertamos mais novos galhos. Continuamos fazendo isso até que a árvore esteja sadia e forte.

Quando trabalhamos a mente desta forma, as quatro bases para o sucesso surgem com força total. E como o Buda disse, qualquer um que desenvolva as bases para o sucesso viverá longamente. Em outras palavras:

chanda: estamos satisfeitos com o nosso trabalho;

viriya: permanecemos com o nosso trabalho e não nos desencorajamos ou desistimos;

citta: focamos nossa total atenção em nosso trabalho e nada mais;

vimamsa: investigamos a mente, investigamos as causas e resultados daquilo que estamos fazendo.

Todas essas quatro qualidades são bases ou passos no Caminho. Elas são a causa para o desenvolvimento de poder no corpo e na mente, por todo o caminho até o conhecimento do fim das impurezas mentais e para nibbana.

O que eu disse até agora tem o propósito de dar uma noção de como desenvolver a atenção plena e plena consciência como nossos binóculos especiais para investigar em termos mundanos e do Dhamma. Então você deve treinar a sua mente para permanecer firme nos fatores da nossa meditação, de forma que ela fique com o corpo no momento presente. Independentemente de quanto você se lembre do que eu disse, você deve colocar a sua mente na prática da meditação todo o tempo. Não abandone a prática ou pratique apenas de vez em quando, pois isso irá impedir que você alcance qualquer tipo de êxito. Veja-se como um supervisor, constantemente vigiando o corpo e a mente. Quando você faz isso, os seus trabalhadores terra, água, fogo e ar – não ousarão se esquivar ou negligenciar o seu trabalho. Cada um terá que satisfazer as suas responsabilidades plenamente. Dessa forma, você terá sucesso no seu trabalho de todas as formas. Ao mesmo tempo, uma vez que você tenha desenvolvido os seus binóculos especiais, o seu campo de visão irá mais longe do que o das pessoas comuns. Assim, você será capaz de se manter protegido de todos os lados. Você escapará dos perigos e encontrará felicidade e plenitude em tudo.

 


 

O Coração Elétrico

22 Outubro 1958    

As correntes do coração são rápidas, erráticas, e não assumem nenhuma forma que seja visível para o olho. As correntes sonoras e do olfato podem ser medidas em termos numéricos – 1, 2, 3, 4, etc. – porém as correntes da mente não podem ser medidas. E é da natureza das coisas que são rápidas que elas também sejam sutis. É por isso que as correntes da mente são impossíveis de ser vistas por qualquer pessoa que não esteja realmente interessada em investigá-las. As pessoas até afirmam que não existe a mente em um individuo, que tudo que temos é um corpo, como as árvores. Quando morremos, não sobra nada, nada para renascer. Existem somente os elementos terra, água, ar, e fogo.

É da natureza de coisas realmente rápidas que não possamos vê-las – como elas são, como são seus formatos ou suas características. Por exemplo, quando andamos em um carro ou barco passando por outro que venha em direção contrária em alta velocidade, não conseguimos ver os rostos das pessoas que estão no outro carro ou barco de maneira clara de modo a reconhecê-las. Ou suponha que duas pessoas passem correndo uma pela outra em alta velocidade. Elas não serão capazes de ver os rostos uma da outra. Alguns pássaros voam pelos céus tão rápido que nem conseguimos vê-los. Tudo que podemos ouvir é o ruido de quando eles cruzam o ar. Com as correntes da mente acontece o mesmo.

O Buda descobriu que a mente humana é algo poderoso – mais forte e mais divino do que qualquer coisa que exista. Porém, porque a mente opera tão velozmente, não conseguimos vê-la. Se quisermos vê-la, temos que fazê-la operar mais devagar. Conforme ela opera mais devagar podemos fazer com que ela pare. Quando ela para, nos damos conta de que a mente é algo verdadeiro, algo que não morre. Ao mesmo tempo, ela é fresca. Quando ela ainda está em movimento, é quente. O calor vem do movimento. Quando ela se movimenta com muita rapidez, pode gerar a eletricidade da cobiça, raiva e delusão.

Conforme geramos esses três tipos de eletricidade dentro de nós, a mente sairá em disparada pelos seis cabos – os nervos dos olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, e mente. Se qualquer um desses cabos entrar em curto pode incendiar a nossa casa ou cidade. Quando essas correntes se incendeiam na mente, elas podem desgastar os nervos dos olhos, ouvidos, nariz, língua, e corpo, de tal forma que elas nos enviam a informação errada e fazem com que nos equivoquemos. Se andamos por aí com cabos expostos e encontramos alguém que também esteja com os cabos expostos, criaremos um curto circuito, e ambos seremos destruídos. Já é suficientemente mal que ambos estejamos gerando eletricidade, para piorar ainda mais as coisas, colocamos as nossas mãos exatamente sobre os cabos expostos um do outro. Quando isso acontece, somos eletrocutados. O perigo de cabos expostos é que a sua corrente nos engula. Quando conectamos, o calor se acumula e acaba num incêndio.

O movimento da mente acumula calor nos elementos do corpo, e quando os elementos ficam assim desequilibrados, eles fazem surgir a dor e a enfermidade. Quando a mente se movimenta dessa forma, ela obscurece tudo. Nossos olhos, ouvidos, etc. ficam obscurecidos de forma que não conseguem ver a verdade das visões, sons, aromas, sabores, tangíveis, e idéias. É por isso que o Buda nos ensina a despertar o silêncio através do desenvolvimento de um lastro com as ações hábeis e meritórias. E o que funciona como um lastro para as mentes? Somos ensinados a criar lastro para a mente procurando por três grandes blocos de pedra: generosidade, fazendo doações de coisas materiais; virtude, mantendo as nossas palavras e atos dentro da normalidade; e meditação, treinando a mente. Se a mente não se movimentar de forma mais lenta com o peso do que é hábil e meritório, não há como conseguir alívio do calor do seu incêndio. Às vezes o mal a puxa em uma direção, enquanto o bem a puxa em outra. A bondade é como a corrente positiva; o mal, como a corrente negativa. A mente alterna entre o bem e o mal, olhando para o bem somente de tempos em tempos, porém ela não encontra a verdadeira paz e tranqüilidade. Apesar disso, ela principia a ver as coisas com mais clareza, tal como um carro que começa a reduzir a velocidade porém ainda não parou.

Assim precisamos encontrar outras quatro maneiras de diminuir a velocidade da mente. Em outras palavras, temos que nos assegurar que os nossos pensamentos, palavras e ações não caiam sob a influência de quatro tipos de preconceitos: preconceitos baseados no desejo, baseados na raiva, baseados na delusão e baseados no medo. Temos que ser justos e gentis com outras pessoas, não causando dano a nós mesmos nem aos outros. Isso ajuda a nossa mente a se mover cada vez mais lentamente. Se ela se move para a frente, tem quatro bloqueios no caminho. Se move para trás, tem três pedras segurando. Necessitamos de princípios para o modo como sentamos, ficamos parados, caminhamos, deitamos, falamos, agimos, etc. Esses são os suportes da mente no desenvolvimento da tranqüilidade e insight. Isso é o que significa meditação.

A mente é como uma máquina. Quando uma máquina para, podemos com segurança tocar as suas correias e engrenagens. As correias neste caso são os seus vários conceitos e percepções. Em outras palavras, percepções do passado e futuro giram para trás e para a frente, é por isso que a mente não consegue esfriar. Enquanto se mantem girando, gera calor. Se ela gira realmente rápido, irá pegar fogo, queimando a si mesma e se espalhando para queimar outras pessoas também. É por isso que somos ensinados a parar o giro cortando as correias. Em outras palavras, praticamos a meditação da tranqüilidade, não permitindo que a mente saia girando atrás das correntes do mundo. Qualquer que seja a atividade em que você esteja envolvido, mantenha a mente totalmente envolvida no que estiver fazendo. É como a água no oceano quando está cheio de ondas: se tomamos uma tigela de água e a colocamos de lado até que as ondas se acalmem, ou se clareamos a água com um cristal de alume, podemos olhar para a água e ver com clareza o nosso reflexo.

Nosso rosto é algo que normalmente nunca vemos. Embora usemos a nossa boca para falar todos os dias, nunca vimos que formato ela tem. Embora respiremos através do nosso nariz a cada momento, nunca o vemos. Nossos ouvidos ouvem sons o dia todo, porém nunca vemos a sua aparência. Nossos olhos podem ver todo tipo de coisas, porém eles não conseguem ver a si mesmos. É por isso que dependemos de espelhos para ver o nosso reflexo. Somente então poderemos ver o nosso rosto. Quando as pessoas têm sabedoria, é como se elas tivessem um grande espelho para olhar para si mesmas, porque a sabedoria é o conhecimento claro que surge de uma mente luminosa, limpa, e pura, livre do girar, livre de ondas.

Quando a mente para de girar, ela chega ao silêncio. Esse silêncio é o que dá origem à sabedoria que se desenvolve em habilidades cognitivas dentro de nós – as três e as oito habilidades, tal como a lembrança de vidas passadas, que nos permite ver a nós mesmos; conhecimento do falecimento e surgimento dos seres vivos – uma vez que tenhamos visto o suficiente a nosso respeito, podemos ver outras pessoas; e o conhecimento do fim das impurezas mentais: podemos ver o que é bom, o que é mal, o que deveria ser abandonado, o que deve ser desenvolvido, o que nasce e morre, o que não nasce e não morre. Quando essas habilidades surgirem dentro de nós, compreenderemos completamente nossos corpos e mentes, bem como as coisas fabricadas em geral. Os três fogos da cobiça, raqiva e delusão ficarão separados, distantes do coração. O coração para de girar velozmente, e quando não gira mais, o fogo e a eletricidade param, deixando nada além de frescor e tranqüilidade.

É por isso que somos ensinados a encontrar lastro e bloqueios para a mente de forma que ela gire cada vez mais lentamente, até que pare, com o propósito do frescor, tranqüilidade, e paz que mencionei antes.

 


 

Cobras, Fogos, e Ladrões

22 Abril 1959    

Os perigos que a mente enfrenta são como cobras venenosas, fogos, e grandes ladrões – coisas que estão sempre à espreita para nos destruir: roubando-nos, matando-nos, e despindo-nos dos nossos valores, nossa bondade humana, todos os dias e noites.

“Cobras venenosas” neste caso significa a cobiça, raiva e delusão, que possuem venenos doloridos que se infiltram nas mentes das pessoas comuns. Quando chega ao coração esses venenos podem matá-las.

Quanto aos “fogos”, existem dois tipos: fogos na floresta e fogos em casas. Um fogo na floresta não possui nenhum único dono. Surge espontaneamente, por sua natureza, e espalha sua destruição em uma grande área, sem fronteiras, até que morra por si mesmo. Isto significa os fogos do nascimento, envelhecimento, enfermidade e morte, formas de sofrimento que surgem no corpo de todos seres vivos. Esse fogo pode queimar ambos nossos tesouros mundanos e nossos tesouros nobres (isto é, a bondade da mente que de outra forma poderíamos desenvolver). Quanto aos fogos em casas, esses são fogos que surgem de dentro do coração – contaminações, ignorância, desejo e apego – os obstáculos que se interpõem no caminho da bondade que vem do treinamento do coração e mente.

Os “grandes ladrões” ou “os 500 criminosos mais procurados” significam os cinco agregados: forma, sensação, percepção, formações mentais e consciência, que estão constantemente nos roubando, nos matando, e nos oprimindo, destruindo ambos, nossos tesouros mundanos e nobres. Além disso, existem os criminosos subterrâneos que sorrateiramente se aproximam de nós sem nos darmos conta: ganho material, fama, elogios e alegria por coisas externas. Quem quer que seja ludibriado por esses criminosos terá dificuldades em libertar-se. É por isso que eles podem destruir a bondade que de outra forma poderíamos alcançar no coração e mente.

Todas essas cobras venenosas, fogos e criminosos oferecem um tremendo perigo para o coração. Eles ficam destruindo a nossa bondade a cada instante. Se não temos sabedoria em relação a eles, teremos dificuldade em libertarmo-nos deles. A única forma de prevenir esses perigos é através do poder do Dhamma: em outras palavras, a prática da meditação, usando nossos poderes do pensamento aplicado e sustentado até o ponto em que faremos surgir a sabedoria que claramente sabe e vê a verdade de todas as coisas fabricadas. Quando pudermos ver os perigos em todos os lados, aprenderemos a ser cuidadosos e manter a guarda, buscar formas de destruí-los ou escapar deles. Quando conseguirmos fazer isso, nossas vidas serão felizes.

Quando praticamos o Dhamma é como se estivéssemos indo através de uma floresta deserta, desolada, a caminho do objetivo que é a mais elevada forma de felicidade e segurança. Para atravessar a floresta, temos que depender da prática da concentração, com a nossa atenção plena circunspecta em todos os lados. Não podemos ser negligentes ou complacentes. Precisamos fazer o esforço para eliminar todos os conceitos e preocupações que surgem para destruir a bondade da mente. Quando sabemos que há cobras venenosas, fogos e os 500 criminosos mais procurados esperando por nós ao longo do caminho, temos que estar plenamente atentos, vigilantes e despertos todo o tempo, e ter boas armas preparadas para que possamos vencê-los.

Ao mesmo tempo, necessitamos provisões para nos auxiliar no caminho – em outras palavras os fatores de jhana. Pensamento aplicado é o que foca a mente naquilo que ela quer conhecer. Pensamento sustentado é o que mata os obstáculos. Essas duas qualidades são como preparar o jantar. Porém se somente temos essas duas qualidades, é como se tivéssemos preparado nosso jantar mas sem saber o sabor dos diferentes tipos de comida que temos. Se podemos acalmar a mente até que ela seja uma só com o seu objeto, isso é como comer e engolir a nossa comida. Então saberemos o seu sabor e através dele seremos capazes de ter a sensação de saciedade e nutrimento: em outras palavras, uma sensação de êxtase, felicidade e unicidade da mente. O coração então será capaz de ganhar força total, tal como o corpo quando tem uma refeição nutritiva.

A comida externa é o que alimenta o corpo e lhe dá força. Quando o corpo tem força, podemos caminhar e correr para onde queiramos. O que quer que seja que queiramos fazer, teremos as forças para ter sucesso. Quanto à comida interna – o Dhamma – isso é o que alimenta o coração e a mente. Quando o coração e a mente estão bem alimentados, o poder do coração se torna resistente e forte. No que quer que seja que apliquemos a nossa mente seremos bem sucedidos em relação aos nossos pensamentos. Se a mente está privada do alimento do Dhamma, ela fica débil e fraca. Os pensamentos não são bem sucedidos, ou na melhor hipótese, terá sucesso em algumas coisas porém não em outras, não exatamente de acordo com as nossas expectativas. É por isso que temos que reforçar a força das nossas mentes o máximo que pudermos, pois a força da mente é a coisa mais importante dentro de nós que nos levará ao objetivo da máxima felicidade.

Enquanto você ainda estiver vivo e respirando, não permita que você seja negligente ou complacente. Não permita que o tempo passe sem nenhum propósito. Apresse-se e acelere seus esforços no desenvolvimento da bondade – pois quando não houver mais respiração, não haverá mais oportunidade de fazer o bem...

Você deve focar exclusivamente em qualquer pensamento que auxilie a fazer com que a mente fique firme, de forma a que possa fazer surgir a bondade. Não flerte com outros tipos de pensamento, não importando se eles pareçam mais ou menos sofisticados. Coloque-os para fora. Não os traga para a mente para pensar a seu respeito. Mantenha a mente firmemente colocada em uma única preocupação: esse é o seu verdadeiro coração, o verdadeiro coração dos ensinamentos do Buda.

 

 

Revisado: 3 Fevereiro 2007

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