Os Bardos e o Theravada

Por

Michael Beisert

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Os suttas no Cânone em pali indicam que o Despertar pode ser alcançado nesta mesma vida ou no momento da morte. O Sasankhara Sutta descreve justamente esses dois processos. Na realização do Despertar no momento da morte, que é o tema deste ensaio, o sutta diz o seguinte:

"Como, bhikkhus, uma pessoa realiza nibbana através do esforço na dissolução do corpo? Aqui, um bhikkhu permanece contemplando as coisas repulsivas no corpo, percebendo as coisas repulsivas na comida, percebendo o não-deleite com tudo no mundo, contemplando a impermanência em todos os fenômenos condicionados; e ele tem a percepção da morte bem estabelecida internamente. Ele permanece na dependência destes cinco poderes de um treinando: o poder da fé, o poder da vergonha de cometer transgressões, o poder do temor de cometer transgressões, o poder da energia, o poder da sabedoria. Estas cinco faculdades nele surgem com debilidade: as faculdades da fé, energia, atenção plena, concentração, e sabedoria. Porque essas faculdades são débeis, ele realiza nibbana através do esforço na dissolução do corpo."

Como pode ser observado não há menção aos jhanas e por conseguinte podemos deduzir que a "debilidade das faculdades" estaria conectada justamente com o não desenvolvimento dos jhanas, ou apenas com uma experiência superficial dos jhanas sem a sua maestria. Também é possível deduzir que a faculdade da sabedoria também deve ser débil nesse praticante, apesar da prática das contemplações.

A questão que surge é qual o momento em que nibbana é realizado. O sutta fala em "dissolução do corpo" (khayassa bheda). Na maioria dos suttas essa expressão é seguida de "após a morte" (param marana). A omissão parece deliberada. Talvez o propósito seja indicar que: primeiro há um intervalo entre a dissolução do corpo e a morte, e segundo, que a pessoa sendo descrita realiza nibbana nesse intervalo sem dar continuidade a uma nova existência.

Isso nos remete ao conhecido Livro Tibetano dos Mortos. Esse livro descreve os Bardos que são os estados intermediários que ocorrem no processo da morte e renascimento. Há seis Bardos que compõem esse processo que podem ser condensados em três: a mente luminosa, a manifestação de karma, o renascimento.

Vale lembrar que na literatura clássica do Theravada, particularmente no Abhidhamma, esses estados intermediários não são reconhecidos e a consciência de renascimento surge imediatamente após a morte. Nesse caso há uma clara dissonância com aquilo que aparece nos suttas em que um estado intermediário, que apesar de não ser mencionado explicitamente, pode com facilidade ser deduzido.

O que vou apresentar a seguir é uma versão retrabalhada da descrição dos primeiros Bardos, nos quais ocorre a manifestação da mente luminosa. Os demais Bardos não serão abordados neste ensaio. Na descrição desses primeiros Bardos deixarei de lado aqueles elementos que dizem respeito a entendimentos e práticas típicas do Budismo Tibetano que não fazem parte do contexto do Theravada. A idéia é oferecer meios para entender do que se trata e como se beneficiar desse período intermediário entre a "dissolução do corpo" e a "morte" mencionados acima.

 


A Grande Libertação através da Audição - Livro Tibetano dos Mortos

Esta grande libertação através da audição deve ser lida com clareza e precisão junto ao corpo da pessoa morta. Se o corpo não estiver presente, deve-se sentar na cama ou num assento da pessoa morta, e proclamando o poder da verdade, invocar a sua consciência e ler imaginando que ela está na escuta à sua frente. Neste momento sons de choro e lamentação não são bons, por isso os seus parentes não devem estar presentes. Se o corpo estiver presente, então durante o intervalo entre a cessação da respiração e a cessação da pulsação nas artérias, o seu professor ou um amigo espiritual que ela amava e confiava, deve ler esta grande libertação através da audição perto do seu ouvido. Se nenhum destes estiverem disponíveis, então alguém que possa ler em voz alta, clara e precisa, lembrando o falecido a reconhecer imediatamente a luminosidade da mente e realizar a libertação.

Deve ser feita uma cuidadosa oferenda para as três jóias se os recursos estiverem disponíveis, mas se não estiverem disponíveis, deve-se oferecer o que houver e visualizar o restante sem limites. Como preparação deve-se recitar alguns pujas inspiradores. Então deve-se ler a grande libertação através da audição, sete ou três vezes, mostrando a luminosidade no Bardo.

Deve-se dizer estas palavras: "Amigo Fulano, agora chegou a hora de você buscar o caminho. Assim que a respiração tenha cessado, o que é chamado a primeira luminosidade do primeiro Bardo aparecerá. Essa é a mente luminosa, aberta e vazia como o espaço, vazio luminoso, mente nua pura, sem centro ou circunferência. Reconheça, relaxe e fique com essa experiência, e eu também irei mostrar-lhe isso ao mesmo tempo". [1] Isto deve ser firmemente implantado na mente do ouvinte, repetindo várias vezes próximo ao ouvido, até que ele pare de respirar.

Quando a respiração cessa, prana (a energia vital) é absorvido no canal central da sabedoria e a luminosidade livre de complexidades brilha claramente na consciência. O período de tempo durante o qual a pulsação interior permanece depois que a respiração cessa é parecido com o tempo necessário para comer uma refeição.

Então, quando a cessação da respiração for detectada, deve-se deitá-lo no lado direito, na posição do leão, pressionando com firmeza as duas artérias no pescoço que induzem o sono, até que parem de pulsar. Em seguida, deve-se ler novamente as instruções. Neste momento, a mente luminosa surge na mente de todos os seres. As pessoas comuns chamam esse estado de "perda da consciência". O tempo que esse estado dura é incerto, dependendo da condição espiritual e do estado de desenvolvimento mental. Tem uma duração mais longa naqueles que tenham praticado muito, cuja prática da meditação da tranquilidade é estável, e que são sensíveis. O esforço para instruir essa pessoa deve ser repetido até que alguma secreção saia dos meios dos sentidos. Em pessoas más e insensíveis, esse estado não dura mais do que um único estalar de dedos, mas em algumas, dura o tempo necessário para comer uma refeição. Diz-se que, em geral, este estado inconsciente dura quatro dias e meio, o leitor deve se esforçar para mostrar a luminosidade durante todo esse período de tempo.

Se o ouvinte for capaz, ele irá trabalhar com as instruções que foram dadas, mas se ele não for capaz, um amigo espiritual deve então ficar próximo e ler em voz alta, claramente, a seqüência dos sinais da morte: "Agora essa miragem que você vê é o elemento terra dissolvendo-se na água. Essa fumaça é o elemento água dissolvendo-se no fogo. Esses vaga-lumes são o elemento fogo dissolvendo-se no ar. A chama da vela é o elemento ar dissolvendo-se na consciência", quando a seqüência estiver quase concluída, ele deve ser encorajado a adotar uma atitude como esta "Amigo fulano, não deixe que seus pensamentos vagueiem", isso deve ser falado baixinho em seu ouvido:

"Amigo fulano aquilo que é chamado morte agora chegou, e você deve adotar esta atitude: eu cheguei ao momento da morte, agora por meio desta morte vou adotar apenas a atitude do estado iluminado da mente, amor bondade e compaixão, e realizar a perfeita iluminação. Com essa atitude, neste momento especial, vou reconhecer a luminosidade da morte e alcançar esse estado de realização. Sem abandonar essa atitude você deve se lembrar e praticar a meditação que lhe foi ensinada." Estas palavras devem ser ditas distintamente com os lábios perto do ouvido, a fim de lembrá-lo de sua prática, sem deixar que a sua atenção vagueie nem por um momento: "Amigo Fulano ouça, agora a pura luminosidade da mente luminosa está brilhando diante de você, reconheça isso Fulano, neste momento o seu estado de espírito é, por natureza, puro vazio, não possui de nenhum modo qualquer natureza, nem substância, nem qualidade, como por exemplo cor, mas é o puro vazio. Mas este estado de espírito não é apenas um vazio em branco, ele é desobstruído, brilhante, puro e vibrante. Estas duas, a sua mente, cuja natureza é o vazio, sem qualquer substância que seja, e a sua mente, que é vibrante e luminosa são inseparáveis. Essa mente é a inseparável luminosidade e vazio na forma de uma grande massa de luz, sem nascimento ou morte, portanto, é o Buda da luz imortal. Reconhecer isso é tudo o que é necessário. Quando você reconhecer essa natureza pura da sua mente como a mente do Buda, olhando para a sua própria mente será repousar na mente do Buda." Isso deve ser repetido três vezes, ou sete vezes, com clareza e precisão. Ele irá reconhecer sua própria mente nua como a luminosidade, e tendo assim reconhecido, certamente irá realizar a libertação.

Se ele reconhecer a primeira luminosidade estará libertado, mas se houver dúvida que ele tenha reconhecido a primeira luminosidade, então o que é chamado a segunda luminosidade irá brilhar. Então a sua consciência emerge e ele não sabe se está morto, ou não. Ele vê os seus parentes ali reunidos como antes e ouve os seus lamentos. Durante esse tempo, quando as violentas projeções confusas de karma ainda não apareceram, e os terrores do Senhor da Morte ainda não chegaram, as instruções devem ser administradas com estas palavras: "Medite no Senhor da Grande Compaixão". [2] Não há dúvida de que aqueles que não tenham reconhecido o Bardo irão percebê-lo pelo que está sendo mostrado desta maneira. É melhor se ele entender durante o primeiro Bardo. Mas se ele não entendeu, o seu insight será despertado com esta lembrança no segundo Bardo, e ele será liberado. Durante o segundo Bardo a sua consciência, que não sabia se ele estava morto ou não, de repente se torna clara. Este é o chamado corpo ilusório puro. Se ele entender o ensinamento neste momento ele não mais será dominado pelo karma. Assim como a luz do sol vence as trevas, de modo que o poder de karma é superado pela luminosidade do caminho, e a libertação é realizada. Isto que é chamado o segundo Bardo é como um flash ante o corpo mental e a consciência é capaz de ouvir novamente como antes. Se esta instrução é entendida neste momento o seu objetivo estará cumprido, e uma vez que as projeções confusas de karma ainda não apareceram, ele é capaz de dirigir-se para qualquer direção. Desta forma, ele é libertado por reconhecer a luminosidade durante o segundo Bardo, mesmo que ele não tenha reconhecido inicialmente a primeira luminosidade.

[1] A dificuldade de reconhecimento vem do impulso habitual de se sentir presente com uma perspectiva subjetiva, portanto, sentindo medo ou fraco ao perder o sentimento de apego. É por isso que a instrução insta o falecido a reconhecer o estado como essencialmente não-eu. [Retorna]

[2] O Senhor da Grande Compaixão é o Bodhisattva Avalokiteshvara, a figura salvadora na cultura tibetana. Pode-se preferir invocar neste caso o Buda, ou Jesus, ou Moisés, ou Maomé, ou Krishna, etc Qualquer arquétipo do sagrado para fazer com que a consciência se sinta segura. [Retorna]

Como Interpretar esses Ensinamentos sobre os Bardos à luz do Theravada

Nos ensinamentos do Theravada é dito que a mente do quarto jhana é "purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexível, maleável, estável e atingindo a imperturbabilidade". No Visudhimagga é explicado que a experiência dos jhanas é acompanhada pelo surgimento de um sinal luminoso semelhante à lua cheia que brilha num céu escuro. Isso também é confirmado por praticantes experientes como Ajaan Brahmavamso. Essas descrições se assemelham muito à experiência da consciência nos primeiros Bardos. Nessa descrição essa consciência é dito ser a "mente do Buda" ou em outras palavras a mente iluminada: "pura, vazia, desobstruída e brilhante."

No Theravada a experiência da mente no quarto jhana é dito ser a experiência mais próxima de nibbana, no Latukikopama Sutta o Buda descreve o quarto jhana como sambodhasukha - a felicidade da iluminação. Mas os jhanas não são considerados como a iluminação em si, mas estados temporários que também estão sujeitos à condicionalidade. Nos primeiros Bardos, com a dissolução do corpo, a mente se afasta dos sentidos e volta completamente para si mesma, o mesmo processo que ocorre nos jhanas.

Com base nisso, a instrução de simplesmente "reconhecer, relaxar e ficar com essa experiência" pode não ser suficiente para realizar a completa libertação. Nos suttas a experiência dos jhanas não é suficiente em si mesma para realizar a iluminação. Essa experiência serve como base para o desenvolvimento do insight - a compreensão e visão da realidade tal como ela é. Os jhanas possibilitam o desenvolvimento do insight porque são estados desobstruídos da ignorância visto que os obstáculos, que são as qualidades mentais que são considerados como "uma obstrução, uma corrupção da mente, enfraquecedores da sabedoria" foram suprimidos. Com a sua supressão a mente se torna clara e límpida e capaz de compreender e ver a realidade. Portanto a lógica seria que nos primeiros Bardos nos quais surge a mente luminosa, esse trabalho de insight também deveria ser feito, para dessa forma conduzir a mente a compreender e ver a realidade e assim conduzir ao desapego. Lembrando que nos suttas nibbana é descrito como o completo desapego de tudo (Cundi Sutta). Sem esse trabalho de insight, mesmo com a experiência da mente luminosa, não há possibilidade que a mente se liberte. Nibbana também representa o fim do ciclo de renascimentos, ou seja não há mais renascimento. Se as instruções do Bardo realmente conduzissem à iluminação o renascimento não deveria ocorrer, mas não é isso que ocorre com os Tulkus.

É possível argumentar que as instruções dadas no Sasankhara Sutta, mencionado acima, para desenvolver as distintas percepções e contemplações, tem como objetivo justamente permear a mente com as instruções sobre como agir no momento da experiência da mente luminosa nos Bardos, de modo a conduzi-la à completa libertação através do desapego, e dar um fim ao ciclo de renascimentos.

 


O que diz a Ciência:

Experiências de Quase Morte (EQM) em sobreviventes de paradas cardíacas: um estudo prospectivo na Holanda

Introdução:

Este foi um estudo coordenado pelo Dr. Pim van Lommel durante 4 anos, de 1988 a 1992, entrevistando pacientes que sofreram paradas cardíacas e que estiveram clinicamente mortos, definido como um período de inconsciência durante o qual o cérebro não recebe suprimento sanguíneo devido a problemas circulatórios, respiratórios, ou ambos. Nesse tipo de situação se a ressuscitação cardio-pulmonar (CPR) não for iniciada num intervalo entre 5-10 minutos há sérios riscos de danos cerebrais irreparáveis e morte.

EQM foi definido como a memória de todas as impressões registradas durante o período de morte clínica, incluindo alguns elementos específicos como experiências fora do corpo, emoções positivas, visão de um túnel, visão de uma luz, de parentes mortos, revisão da vida.

As entrevistas foram padronizadas, realizadas alguns dias após a ressuscitação, perguntando se os pacientes se lembravam de alguma coisa durante o período de inconsciência e o que eles se lembravam. Também foram realizadas entrevistas dois anos e oito anos após o incidente.

Resumo das Conclusões:

Os resultados do estudo mostram que fatores médicos não são suficientes para explicar a ocorrência da EQM. Embora todos os pacientes estivessem clinicamente mortos, apenas 18% tiveram EQM. Além disso, a gravidade da crise não teve correlação com a ocorrência ou profundidade da experiência. Se fatores puramente fisiológicos resultantes da anoxia cerebral causam EQM então a maioria dos pacientes deveriam ter tido essa experiência. A medicação dos pacientes também não teve correlação com a frequência de EQM. É improvável que fatores psicológicos tenham importância visto que o medo não esteve associado à EQM.

Foi notado que a frequência de EQM foi maior em pessoas com menos de 60 anos do que em pessoas mais velhas. Em outros estudos, a idade média de ocorrência de EQM foi menor do que neste estudo (62.2 anos) e a frequência de ocorrência foi maior. Em outros estudos foram observadas ocorrências de 85% de EQM em crianças, 48% em pessoas com idade média de 37 anos e 43% de EQM em pessoas com idade média de 49 anos; portanto, parece haver uma correlação entre a idade e a frequência de EQM.

Pessoas mais velhas têm uma chance menor de recuperação cerebral após uma ressuscitação difícil e complicada devido a uma parada cardíaca. Pacientes mais jovens têm mais chance de sobreviver uma parada cardíaca e assim descrever a sua experiência. Num estudo de 11 pacientes após CPR, a pessoa que teve EQM era significativamente mais jovem do que os pacientes que não tiveram a experiência.

Uma memória recente (short-term memory) boa parece ser essencial para lembrar a EQM. Neste estudo, pacientes com problemas de memória após a ressuscitação relataram menos experiências do que os demais pacientes.

Os elementos da EQM observados correspondem aos elementos de outros estudos. No entanto, é quase impossível uma comparação confiável com os estudos retrospectivos que incluem a seleção de pacientes, registros médicos não confiáveis, e que empregam critérios distintos para a EQM.

Elementos da EQM

Consciência de estar morto (50%); Emoções positivas (56%); Experiência fora do corpo (24%); Movendo-se através de um túnel (31%); Visualização de uma luz (23%); Visualização de cores (23%); Visão de uma paisagem celestial (29%); Encontro com pessoas falecidas (32%); Revisão da vida (13%).

O estudo longitudinal para investigar os processos transformativos após a EQM confirmou as transformações descritas em outros estudos. Neste estudo os pacientes foram entrevistados 3 vezes durante 8 anos. As entrevistas mostraram que o processo de mudança após a EQM tende a demorar vários anos para se consolidar. Aparentemente, além dos possíveis processos psicológicos internos, uma das razões tem a ver com a reação negativa da sociedade em relação à EQM que leva a pessoa a negar ou reprimir a experiência devido ao temor da rejeição ou da ridicularização. Dessa forma, o condicionamento social faz com que a EQM seja traumática, embora em si mesma ela não seja uma experiência traumática. Como resultado os efeitos da experiência podem ser retardados por anos e apenas gradualmente e com dificuldades a EQM pode ser aceita e integrada. Além disso, os efeitos transformativos a longo prazo de uma experiência que dura apenas alguns minutos durante a parada cardíaca foi uma descoberta surpreendente e inesperada.

Uma das limitações neste estudo foi que no grupo apenas fizeram parte pacientes cardíacos holandeses que em geral eram mais velhos do que os pacientes em outros estudos. Por conseguinte a frequência de EQM neste estudo pode não ser representativa de todos os casos, isto é, uma frequência maior poderia ser esperada com uma amostragem mais jovem, ou os percentuais poderiam variar com algum outro tipo de população. Também, a incidência de EQM pode variar entre pessoas que sobreviveram um episódio de quase morte devido a outras causas, como por exemplo o quase afogamento, acidentes rodoviários quase fatais com trauma cerebral, e a eletrocução. No entanto, estudos prospectivos rigorosos seriam praticamente impossíveis em muitos desses casos.

Muitas teorias têm sido sugeridas para explicar a EQM. Neste estudo foi mostrado que fatores psicológicos, neurofisiológicos, ou fisiológicos não causaram essas experiências após as paradas cardíacas. Em um outro estudo foi mostrado que uma jovem americana teve complicações durante uma cirurgia no cérebro para tratar um aneurisma cerebral. O EEG do cortex e do tronco cerebral ficaram completamente inativos. Após a operação, que no final das contas foi bem sucedida, essa paciente revelou ter tido uma profunda EQM, incluindo uma experiência fora do corpo com observações, que foram subsequentemente confirmadas, durante o período de inatividade cerebral.

Mas no entanto, os processos neurofisiológicos devem desempenhar algum papel na EQM. Experiências semelhantes podem ser induzidas através do estímulo elétrico do lobo temporal (e por conseguinte do hipocampo) durante cirurgias do cérebro para tratamento da epilepsia, com elevados níveis de dióxido de carbono (hipercarbia), e na reduzida perfusão cerebral resultante da hipoxia cerebral como ocorre na rápida aceleração durante o treinamento de pilotos de aviões de caça, ou na hiperventilação seguida da manobra valsalva. Experiências induzidas pela ketamina resultantes do bloqueio do receptor NMDA, e o papel da endorfina, serotonina e enquefalina também são mencionados, bem como experiências de quase morte depois do uso de LSD, psilocarpina e mescalina. Essas experiências induzidas podem consistir de inconsciência, experiências fora do corpo, e a percepção de luz ou lampejos, e a recordação do passado. Essas recordações no entanto consistem de fragmentos e memórias aleatórias ao contrário do repasse panorâmico da vida que ocorre na EQM. Além disso os processos transformativos com insights que mudam a vida e o desaparecimento do medo da morte são raramente relatados após as experiências induzidas.

Por conseguinte, as experiências induzidas não são idênticas à EQM e assim, além da idade, em alguns casos um mecanismo desconhecido causa a EQM estimulando processos neurofisiológicos e neurohumorais num nível sub celular no cérebro durante uma situação como a morte clínica. Esses processos também podem determinar se a experiência se torna consciente e poderá ser lembrada.

Com essa falta de evidências para quaisquer das teorias sobre a EQM, o conceito até agora aceito, mas nunca provado, que a consciência e a memória estão localizadas no cérebro, deve ser questionado. Como é possível que a consciência lúcida fora do próprio corpo possa ser experimentada numa situação em que o cérebro não funciona durante o período de morte clínica sem registro no EEG? Também, numa parada cardíaca, na maioria dos casos, o EEG fica sem registro passados cerca de 10 segundos do início da síncope. Além disso, pessoas cegas descreveram percepções verídicas durante experiências fora do corpo numa EQM. A EQM desafia os limites das idéias médicas sobre o alcance da consciência humana e da relação mente-cérebro.

Outra teoria diz que a EQM pode ser um outro estado de consciência (transcendência) no qual a identidade, cognição e a emoção funcionam independente de um corpo inconsciente, mas retendo a possibilidade de percepção não sensorial.

As pesquisas deveriam se concentrar no esforço em explicar cientificamente a ocorrência e o conteúdo da EQM, sendo que a teoria da transcendência deveria ser incluída como parte das explicações dessas experiências.

Leia o relatório completo do estudo.

 

 

Revisado: 1 Junho 2013

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