As Tendências Subjacentes

Por

Bhikkhu Analayo

Somente para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser impresso para distribuição gratuita.
Este trabalho pode ser re-formatado e distribuído para uso em computadores e redes de computadores
contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuição ou uso.
De outra forma todos os direitos estão reservados.

 


 

Neste artigo será examinada a relação traçada no Culavedalla Sutta (MN 44) entre os três tipos de sensações e as tendências subjacentes.

O termo Pali para “tendência subjacente” é anusaya [1] , que transmite a idéia de algo que “está latente”, uma inclinação ou tendência latente da mente. Tal como é usado nos discursos originais, o termo anusaya carrega invariavelmente conotações negativas. Dada a sua natureza adormecida e repercussões invariavelmente negativas, uma questão central a ser abordada no decorrer desta exposição será como superar a influência dessas tendências prejudiciais.

O termo anusaya ocorre nos discursos com e sem detalhamentos adicionais. Nos versos do Sutta Nipata, por exemplo, o termo ocorre por si mesmo e, portanto, carrega um significado geral, sem se referir a uma impureza específica. [2]

Outros discursos mencionam tendências subjacentes mais específicas. Um exemplo é o Mahamalunkya Sutta (MN 64), que menciona a tendência subjacente à idéia da existência do eu, sakkayaditthanusaya. Essa é a tendência do mundano não-desperto de fabricar um eu em relação aos cinco agregados do apego.

O mesmo discurso também menciona a tendência subjacente de se apegar dogmaticamente a regras e observâncias, silabbataparamasanusaya. Tal apego dogmático não é um problema apenas para aqueles que praticam fora da dispensação do Buda. Um verso no Dhammapada (Dhp 271) ordena que um monge Budista não deveria se contentar com meras regras e observâncias (silabbata) e ao invés disso deveria praticar para a destruição das impurezas (asava). Isso mostra que a expressão silabbata também pode se referir às regras e observâncias Budistas. Segue-se que a tendência de se agarrar a isso dogmaticamente pode também ser um obstáculo para os praticantes Budistas.

Tal como com relação à tendência subjacente à idéia da existência do eu, o apego dogmático às regras e observâncias só será extirpado quando o grilhão correspondente (samyojana) tiver sido erradicado com a realização da entrada na correnteza (sotapanna). Dessa forma, embora as tendências subjacentes sejam de natureza latente e, portanto, pareçam não ser passíveis de contemplação direta, o progresso do insight acaba levando à sua erradicação. Tendo realizado a completa iluminação todas as tendências subjacentes não são mais capazes de influenciar a mente. Em outras palavras, o progresso para se tornar um arahant leva a essa emancipação.

As várias tendências subjacentes mencionadas nos discursos acabaram sendo sistematizadas como um conjunto de sete, que são as seguintes:

• desejo sensual (kamaraga)
• aversão (patigha)
• idéias (ditthi)
• dúvida (vicikiccha)
• presunção (mana)
• desejo por ser/existir (bhavaraga)
• ignorância (avijja)

Como Operam as Tendências Subjacentes

O Cetana Sutta (SN 12.38) aponta para a natureza subliminar das tendências subjacentes. Isso mostra que a operação de um anusaya é diferente de intenções e planejamento. O tema principal do discurso é a exploração dos meios através dos quais a consciência é estabelecida (no contexto do renascimento). A passagem relevante procede da seguinte forma:

Bhikkhus, aquilo que alguém intenciona, aquilo que alguém planeja e aquilo que alguém tenha como tendência subjacente: isto se torna uma base para a manutenção da consciência...

“Se, bhikkhus, alguém não intenciona, alguém não planeja, mas ainda tem como tendência subjacente, isto se torna uma base para a manutenção da consciência...

“Mas, bhikkhus, quando alguém não intenciona, alguém não planeja e não tem como tendência subjacente, nenhuma base existe para a manutenção da consciência..."

De acordo com a segunda dessas três alternativas, a consciência pode tomar como objeto aquilo que alguém tenha apenas como uma tendência subjacente. Isso é suficiente, sem necessidade de intenção ativa e planejamento. Isso indica que a natureza das tendências subjacentes é algo latente ou subliminar na mente. Mesmo sem a ativação de intenções e planejamento, uma tendência subjacente pode, no entanto, impactar a consciência.

De acordo com o Mahamalunkya Sutta (MN 64) já mencionado acima, as tendências subjacentes estão até presentes em um bebê. No caso da tendência subjacente ao desejo sensual, a passagem relevante diz:

"Um bebê recém-nascido não tem nem mesmo a noção de ‘prazeres sensuais,’ então como o desejo sensual pode surgir nele? No entanto, a tendência subjacente ao desejo sensual está nele."

As tradições Budistas posteriores encontraram dificuldades para reconciliar o retrato das tendências subjacentes, da maneira mencionada nessa passagem, com a noção de que as qualidades benéficas e prejudiciais não poderiam coexistir em um único estado mental. Como algo decididamente prejudicial pode estar presente na mente de alguma forma continua, mesmo quando nenhuma condição mental prejudicial é manifestada e a mente está em um estado benéfico?

No entanto, o Malunkyaputta Sutta mostra claramente que, baseado na perspectiva Budista original, as tendências subjacentes já são encontradas em um bebê, mesmo que esse ser seja incapaz de entreter os pensamentos e reações correspondentes.

Do ponto de vista prático, a apresentação resultante aponta para a natureza entranhada da tendência subjacente e sua presença contínua, mesmo na ausência de ativação. Uma vez que o interesse muda das questões pragmáticas para a criação de um mapa abrangente dos estados e qualidades mentais, este tipo de situação passa a ser o desafio na construção de tais mapas. Ao mesmo tempo, é destacada uma questão de relevância prática: se uma tendência subjacente pode estar presente o tempo todo sem necessariamente ter um impacto perceptível na condição benéfica da mente, como combater e remover essas tendências prejudiciais?

As Tendências Subjacentes e as Sensações

Para explorar essa questão, a seguir, tomaremos três do conjunto padrão de sete tendências subjacentes, ou seja, aquelas que se relacionam diretamente com os três tipos de sensações (vedana).

O Chachakka Sutta (MN 148), descreve o surgimento condicionado dessas três tendências subjacentes em relação à experiência visual da seguinte forma:

Bhikkhus, na dependência do olho e das formas, a consciência no olho surge; o encontro dos três é o contato; com o contato como condição surge uma sensação sentida como prazerosa ou dolorosa ou nem prazerosa, nem dolorosa.

"Quando alguém é tocado por uma sensação prazerosa, se ele sente prazer com ela, recebe-a e permanece agarrado a ela, então a tendência subjacente ao desejo está nele.

"Quando alguém é tocado por uma sensação dolorosa, se ele fica triste, angustiado e lamenta, chora, bate no peito e fica perturbado, então a tendência subjacente à aversão está nele.

"Quando alguém é tocado por uma sensação nem prazerosa, nem dolorosa, se ele não compreende como na verdade é a origem, a cessação, a gratificação, o perigo e a escapatória em relação àquela sensação, então a tendência subjacente à ignorância está nele."

O Chachakka Sutta continua destacando que, sem superar essas três tendências subjacentes, não será possível alcançar a libertação.

Somente quando o despertar tiver sido alcançado e as três tendências subjacentes tiverem sido superadas, as reações descritas no Chachakka Sutta não mais surgirão. Com a ocorrência de sensações prazerosas, não haverá mais nenhum deleite e apego. Da mesma forma, o surgimento de sensações dolorosas não mais resultará em sofrimento e tristeza, e qualquer tendência a ignorar sensações neutras é substituída por compreensão e insight.

Claramente, superar essas tendências subjacentes é uma questão de importância considerável. No entanto, a questão mencionada acima permanece: como podemos superar algo que não podemos observar diretamente, algo que só podemos conhecer através de suas repercussões na experiência desses três tipos de sensações?

O problema é que as nossas reações às sensações prazerosas, dolorosas e neutras por meio do prazer, da dor e da ignorância não é algo que decidimos fazer intencionalmente. Nós apenas reagimos de uma maneira um pouco automática e, muitas vezes, apenas nos damos conta mais tarde, que estivemos sob a influência de uma dessas três tendências subjacentes. Portanto, algum tipo de treinamento meditativo parece ser necessário para emergir de tais automatismos. Felizmente, discursos no Samyutta Nikaya fornecem informações sobre o tipo de insight meditativo que precisa ser cultivado para esse propósito.

As Tendências Subjacentes e o Insight

O Asavapahana Sutta (SN 35.58) conecta a superação das tendências subjacentes ao cultivo do insight. No caso de experiências visuais, isso assume a seguinte forma:

"Bhikkhu, quando alguém compreende e vê o olho como impermanente, as tendências subjacentes são abandonadas. Quando alguém compreende as formas como impermanentes, as tendências subjacentes são abandonadas. Quando alguém compreende e vê como impermanente qualquer sensação que surja tendo o contato na mente como condição - quer seja prazerosa, dolorosa ou nem prazerosa nem dolorosa - as tendências subjacentes são abandonadas."

De acordo com esse sutta, a superação das tendências subjacentes requer o estabelecimento de insight em relação à impermanência. Esse insight envolve compreender a natureza mutável de cada dimensão do que está sendo experimentado. No caso da experiência visual, isso inclui o meio do sentido, seu objeto, o tipo correspondente de consciência e outras facetas dessa experiência, em particular sua tonalidade hedônica em termos dos três tipos de sensações. Parece ser uma compreensão tão abrangente da impermanência que ajuda a impedir uma reação imediata ao tom da sensação dessa experiência visual.

Desta forma, o modo instintivo de reagir à sensação, querendo o que é prazeroso, afastando o que é doloroso e ignorando o que é neutro, pode ser combatido. Vistas como impermanentes, as sensações são despojadas de uma parte considerável de seu potencial reativo. Dado que irão mudar de qualquer maneira, a aparente necessidade de agir se torna diminuída. Essa percepção contesta o impacto das tendências subjacentes, que de outra forma operam fora do alcance de nosso controle consciente. Ao aprender a resistir ao impulso instintivo de reagir de imediato, a capacidade dessas três tendências subjacentes de ativar a reatividade inábil em resposta aos três tipos de sensações pode ser gradualmente enfraquecida.

O elemento chave nesse caso parece ser um abrandamento da reatividade mental. Em vez de reagir de imediato, permite-se tempo suficiente para que surja o quadro completo da situação, em especial para que a percepção crucial da natureza impermanente de todos os aspectos da experiência atual tenha seu impacto total. A partir deste ponto de observação mais informado, torna-se possível diminuir e, eventualmente, superar a reatividade desencadeada pelas tendências subjacentes em relação aos três tipos de sensações.

O próximo discurso no Samyutta Nikaya (SN 35.59) oferece basicamente a mesma perspectiva sobre a superação das tendências subjacentes, com a diferença de que, em vez da impermanência, traz o tópico de não-eu.

Assim como toda dimensão daquilo que é experienciado é impermanente, também é vazia de um eu. De fato, é precisamente porque é impermanente que nenhuma essência permanente pode ser encontrada, que possa ser tomada como um eu.

Isso completa o cultivo do insight descrito acima, pois enfraquecendo e, eventualmente, erodindo nossa identificação com as sensações experimentadas, a reatividade instintiva pode ser erradicada. Dessa maneira, a impermanência e o não-eu podem fazer sua contribuição combinada para extinguir os modos prejudiciais de reagir às sensações - modos que geralmente ocorrem em um nível da mente que não é diretamente passível de controle consciente.

As Tendências Subjacentes e a Atenção Plena (Mindfulness)

Nesse aspecto, a prática da meditação satipatthana parece ser de particular relevância. De acordo com as instruções dadas no Satipatthana Sutta (MN 10), a tarefa da atenção plena em relação às sensações é, em primeiro lugar, um claro reconhecimento de sua qualidade afetiva. Quando experimentamos uma sensação prazerosa, por exemplo, devemos reconhecer isso claramente como se estivéssemos dizendo para nós mesmos: "Estou sentindo uma sensação prazerosa". O mesmo vale para os outros dois tipos de sensações.

Além da distinção entre sensações prazerosas, dolorosas e neutras, o Satipatthana Sutta diferencia cada uma em situações mundanas e não-mundanas. No caso de sensações prazerosas, um discurso no Samyutta Nikaya explica que sensações prazerosas mundanas são aquelas relacionadas à sensualidade (SN 36.29). Tais sensações prazerosas estão naturalmente relacionados à tendência subjacente ao desejo sensual, conforme estipulado no Culavedalla Sutta (MN 44). Um exemplo de sensações prazerosas não-mundanas dado no discurso do Samyutta Nikaya é a felicidade dos jhanas. De acordo com o Culavedalla Sutta (MN 44), essa felicidade não está ligada à tendência subjacente ao desejo sensual.

Desse modo, as instruções dadas no Satipatthana Sutta para contemplar sensações como mundanas ou não-mundanas podem ser entendidas como apontando para a necessidade de reconhecer não apenas o tom afetivo de uma sensação em particular, mas também seu potencial relacionamento com uma tendência subjacente.

Com base nessa compreensão, há uma instrução encontrada na seção do Satipatthana Sutta que pode ser chamada de "refrão". De acordo com essa instrução, qualquer sensação deve ser contemplada de acordo com a sua natureza de surgir e cessar. Isso aponta para a impermanência, a percepção que, de acordo com o discurso do Samyutta Nikaya mencionado acima, pode levar a uma superação das tendências subjacentes.

Dessa forma, o cultivo da atenção plena pode servir como uma ferramenta para superar o funcionamento das tendências subjacentes que desencadeiam reações impulsivas aos três tipos de sensações.



Notas:

(1) O termo em pali - anusaya – em geral é traduzido como “tendência subjacente” ou “tendência latente.” A etimologia do termo tem o sentido literal de “deitar-se com.” No entanto, no uso corrente, o verbo relacionado (anuseti) significa estar obcecado com algo, os pensamentos da pessoa regressam e “deitam com aquilo” repetidamente.[Retorna]

(2) Aquele que não abriga nenhuma obsessão, cujas raízes prejudiciais foram obliteradas (Snp I.1). [Retorna]

(3) Leia também sobre os estudos de Benjamin Libet sobre o cronômetro do cérebro que reforçam esta conclusão.

 

 

Revisado: 12 Agosto 2018

Copyright © 2000 - 2018, Acesso ao Insight - Michael Beisert: editor, Flávio Maia: designer.