Anattanisamsa

Por

Venerável Mahatera Ledi Sayadaw

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Agora demonstrarei as vantagens resultantes da realização de anatta. Alguém que perceba com clareza a característica de anatta alcançará o estágio de conhecimento de um sotapatti magga (caminho daquele que entrou na correnteza) em que atta-ditthi (ilusão de um ego) ou sakkaya-ditthi (idéia da existência de um eu) são totalmente erradicadas.

Realização de Anatta e Kammas Passados

Todos os seres que vagueiam e perambulam pelo longo ciclo de renascimentos que não tem um princípio definido, denominado samsara, raramente encontram a Sasana de um Buda. Eles não encontram a Sasana de um Buda nem mesmo ao longo de cem mil ciclos cósmicos. Eles não têm a oportunidade de encontrar a Sasana de um Buda nem mesmo uma vez ao longo de um número infinito de ciclos cósmicos. Predominam o número de existências e o número de ciclos cósmicos em que eles foram atormentados pelo mal e pelos erros, por conseguinte, na constituição mental desses seres existe a todo momento um número incontável de kammas que podem resultar na possibilidade deles serem arremessados no inferno de Sanjiva e no resto dos outros infernos, ou  ainda, deles renascerem em outras existências como um peta, asura ou no reino animal. 

Atta-ditthi é o cabeça – o chefe por assim dizer – dos antigos kammas akusala que acompanham os seres incessantemente. Enquanto existir sakkaya-ditthi, esses akusala kamma antigos terão força e vigor. Embora os seres possam desfrutar da felicidade e prosperidade como devas ou como Sakka nos seis deva lokas, eles estarão forçados a existir sempre com os olhos voltados  para os quatro apaya lokas. Da mesma forma, embora os seres possam desfrutar da felicidade e prosperidade no rupa brahma e arupa brahma lokas, eles estarão forçados a existir sempre com os olhos voltados  para os quatro apaya lokas.

Os frutos de uma palmeira possuem a tendência sempre presente de cair no solo mesmo estando firmemente pegados no topo das palmeiras. Enquanto os caules estiverem firmes os frutos permanecerão nas palmeiras, mas na medida em que os caules enfraquecem, inevitavelmente os frutos caem no chão. Da mesma forma, devas e brahmas atormentados com atta ditthi têm a oportunidade de existir  no deva e brahma lokas apenas enquanto os ‘caules’ das forças vitais como devas e brahmas permanecerem intactos. Quando esses ‘caules’ das forças vitais forem cortados, os seres inevitavelmente descerão para os lokas inferiores, exatamente como os frutos das palmeiras. Isso, de fato,  é assim porque sakkaya-ditthi, que está sempre presente na constituição mental de um ser, é um grande fardo ainda mais pesado que o grande Monte Meru, considerando que sakkaya-ditthi abrange um número incontável de akusala kammas.

Portanto, os seres em cuja constituição mental exista sakkaya-ditthi são continuamente forçados a cair ou descer para os apaya lokas mesmo que estejam vivendo nos mais elevados brahma lokas. A situação daqueles seres que se encontram nos brahma lokas inferiores ou nos deva lokas ou no plano humano é muito pior e carece de comentário adicional. Embora os seres possam estar existindo como reis dos brahma ou reis dos devas  a sua constituição mental possui, já pronta, um sem número de infernos inferiores, os mundos dos petas, os mundos dos asuras e os mundos animais. É  por desconhecer que a sua constituição mental possui sempre presente a tendência para esses reinos inferiores e miseráveis que esses seres, como os reis dos brahmas e os reis dos devas, são capazes de derivar prazer e satisfação dessas existências.

Todos os antigos akusala kamma que desde um princípio indeterminado têm acompanhado os seres nesse ciclo de renascimentos, longo e sem um início definido, chamado samsara, são completamente extintos assim que sakkaya-ditthi, que é o seu cabeça, desaparece completamente.

Para não falar daqueles akusala kamma que têm acompanhado os seres desde existências  e ciclos cósmicos anteriores e até mesmo o número incontável de akusala kamma praticados na existência atual; kammas como matar e roubar cuja tendência resultante desaparece inteiramente assim que sakkaya-ditthi for completamente extinto. Podem restar ocasiões em que esses seres temam a destruição de parasitas e insetos, mas não existirá mais motivo para que eles tenham medo das conseqüências do número incontável de akusala kamma passados.

Seres cuja constituição mental esteja totalmente livre de sakkaya-ditthi possuem os olhos voltados para os planos superiores dos deva e brahma lokas mesmo que estejam vivendo no mundo humano. Embora possam estar vivendo nos planos inferiores dos devas e brahmas, os seus olhos estarão para sempre voltados para os planos superiores dos devas e brahmas. Eles se assemelham aos vapores que  sobem continuamente das florestas e montanhas durante o final da estação das chuvas.

Isto demonstra a grandiosidade das vantagens que resultam da extinção de sakkaya-ditthi no que diz respeito a kammas passados.

Realização de Anatta e Kammas Futuros

Os seres humanos, devas e brahmas, que possuem sakkaya-ditthi como parte da sua constituição mental podem ser seres bons e virtuosos hoje, mas podem cometer um incontável número de duccaritas (N.T.: conduta má: ações, linguagem e pensamentos), tal como os grandes panatipata kammas de matricídio, parricídio, ou matar arahants, ou os adinnadana kamma de roubar, etc., amanhã, ou no dia seguinte, ou num outro mês, ou no próximo ano, ou nas existências seguintes. Pode ser que hoje eles vivam numa congregação da Sasana do Buda, mas amanhã, ou no dia seguinte, etc., eles podem estar fora da Sasana do Buda e podem até mesmo se converter em destruidores da Sasana.

Os seres humanos, devas e brahmas, que no entanto percebem bem a característica de anatta, e que dessa forma extirparam sakkaya-ditthi completamente da sua constituição mental, não cometem mais as duccaritas e outros akusala kamma, nem mesmo em sonhos, a partir do momento em que eles se livraram de sakkaya-ditthi, embora possam continuar  perambulando pelo samsara durante muitas existências e muitos ciclos mais. A partir do dia em que eles se livrarem de sakkaya-ditthi e até o momento em que realizarem  Nibbana, eles permanecerão como parte da Sasana do Buda de forma permanente e contínua ao longo de existências e ciclos cósmicos sucessivos. Para eles não existe existência ou mundo no qual a Sasana do Buda tenha desaparecido.

Isto demonstra a grandiosidade das vantagens que resultam da extinção de sakkaya-ditthi no que diz respeito a kammas futuros.

Como os Kammas Passados se tornam Inoperantes

Como o incontável número de  kammas passados se tornam inoperantes no momento em que sakkaya-ditthi é extinto pode ser ilustrado da seguinte forma:

Num cordão com um número incontável de contas presas, enfiadas num fio de seda resistente, se uma conta for puxada, todas as demais seguem ou acompanham aquela que foi puxada. Mas se o fio de seda for removido, ao puxar uma das contas as demais não serão afetadas,  porque já não existe conexão entre elas.

Um ser de posse de sakkaya-ditthi abriga um grande apego pelos khandas ao longo das existências e ciclos cósmicos passados transformando-os em ‘eu’. Ao pensar ‘Em existências e ciclos cósmicos passados eu fui um ser humano em muitas ocasiões, um deva ou um brahma,’ ele adquire o ‘fio de seda’ que é sakkaya-ditthi. É assim que o incontável número de akusala kamma do passado cometido em existências e ciclos cósmicos passados que ainda não produziram seus resultados acompanham aquele ser aonde quer que ele renasça. Esses akusala kamma passados se assemelham a contas que são amarradas e mantidas juntas por um fio resistente.

Os seres, no entanto, que claramente percebem a característica de anatta, e que se livraram de sakkaya-ditthi, percebem o rupakhanda e namakhanda  que surgem e cessam, até mesmo no decorrer de uma breve meditação, como fenômenos distintos e não como parte de um continuum. O conceito de ‘meu atta’ que é igual ao fio, não está mais presente. Os khandas são percebidos como o cordão de contas em que o fio foi removido. Eles claramente percebem que os akusala kamma que foram cometidos no passado não são ‘pessoas’, ou ‘seres’ ou ‘eu’, ou ‘meu kamma,’ e são eles que surgem e cessam num instante. É por isso que os akusala kamma desaparecem por completo assim que sakkaya-ditthi desparece.

Agora, deve ser observado que apenas os akusala kamma desaparecem. Os kusala kamma do passado não desaparecem através do mero desaparecimento de sakkaya-ditthi. É somente quando o estágio de arahatta magga (NT.: caminho do arahant) é realizado, quando tanha é completamente erradicado, que os kusala kamma também desaparecem por completo.

O Mal de Sakkaya-Ditthi

Sakkaya-ditthi  é um mal extremamente profundo e de grande alcance.

Uma pessoa que cometa matricídio e que por isso fica extremamente agitada e preocupada com a possibilidade de com certeza renascer no inferno de avici, transforma o kamma de matricídio em ‘atta’ e fica muito angustiada pelos pensamentos aos quais ela está firmemente apegada como, ‘Eu de fato agi de forma incorreta. Eu de fato errei.’ Se esse ser compreender e realizar de forma completa a característica de anatta (anatta parinna) e puder dessa forma abandonar o apego a esses pensamentos como ‘Eu de fato errei,’ aquele kamma do matricídio não mais terá o poder de produzir resultados no que diz respeito àquele ser. Mas, os seres não descartam o seu apego a tais pensamentos.

Embora, por assim dizer, aquele kamma não deseje acompanhar aquele ser e não deseje produzir resultados, ele é forçado ou coagido a fazer isso pelo fato de que o ser toma posse desse kamma ao abrigar pensamentos como ‘É um kamma que cometi. É o meu kamma.’  Devido a esse ato possessivo coercivo, aquele kamma é forçado a produzir os seus resultados. Dessa forma, os seres mundanos que possuem sakkaya-ditthi estão deludidos e perdidos nos seus caminhos.

O mesmo ocorre com os demais akusala kamma. É devido ao ato possessivo coercivo de sakkaya-ditthi que os akusala kamma acompanham os seres através do samsara, onde quer que eles renasçam e  produzem os seus resultados.

Os seres descobrem que não são capazes de descartar os akusala kamma  mesmo quando  oprimidos pelos seus resultados e por causa deles se encontrarem num processo de sofrer grandes privações. Esses seres consideram esses akusala kamma como ‘akusala kamma que eu cometi’, e dessa forma se apossam deles mesmo se estiverem num  processo de sofrimento infernal como conseqüência dos resultados produzidos pelos kammas. Como os seres não conseguem descartar, abandonar, esses akusala kamma, esses kammas não possuem outra opção que produzir os seus resultados. Esses kammas continuam a produzir resultados tais que esses seres são incapazes de alcançar a sua libertação de existências nos infernos. É nessa extensão que sakkaya-ditthi é equivocado e produz um mal profundo.

Da mesma forma, os seres temem os perigos das doenças, envelhecimento e morte de maneira extremada. Mas, mesmo abrigando tal medo eles se tornam apegados a incidentes passados de doenças, envelhecimento e morte através de pensamentos tais como ‘Eu sofri tantas vezes no passado por doenças, envelhecimento e morte’. Assim, eles se vêem incapazes de abandonar e descartar até mesmo um  fenômeno tão apavorante. E por que eles são incapazes de abandoná-los e descartá-los, o fenômeno da doença, envelhecimento e morte acompanham-nos contra a vontade deles e continuam a causar opressão. É assim que o fenômeno da doença, envelhecimento e morte é obrigado a aparecer. É nessa extensão que sakkaya ditthi é equivocado e produz um mal profundo.

Também nesta existência, quando perigos externos e internos são encontrados e os seres se tornam oprimidos por enfermidades e indisposições, eles desenvolvem um apego por essas enfermidades e indisposições através de pensamentos como, ‘Eu sinto dor. Eu me sinto magoado. Eu me sinto oprimido por sensações de queimação,’ e assim se apossam delas. Esse ato de posse é um ato de cativeiro que irá mais tarde evitar que eles se livrem das enfermidades e indisposições. É devido à força desse ato de cativeiro de sakkaya-ditthi que no ciclo de samsara, longo e sem um início definido, os seres possuem essas enfermidades e indisposições como seus companheiros inseparáveis até a presente data. É assim que sakkaya-ditthi desenvolve o apego e se apossa até mesmo dessas enfermidades e indisposições que oprimem de forma significativa os seres.

Muito embora esses grandes perigos e sofrimentos não queiram, por assim dizer, acompanhar aqueles seres, eles são incapazes de evitá-lo e são obrigados a acompanhá-los de forma contínua, de existência em existência, devido ao arrastão exercido por sakkaya-ditthi.

Em existências futuras também, os apegos engendrados por  pensamentos tais como, ‘Experimentaremos enfermidades e indisposições, encontraremos a velhice, encontraremos a morte,’ são ações de sakkaya-ditthi que se apossa das eventualidades futuras de enfermidades, envelhecimento e morte, a partir do momento presente, atando-as aos seres. Enquanto esse ato de cativeiro não for destruído é certo que esses seres no futuro irão encontrar essas eventualidades. É nessa extensão que sakkaya-ditthi é equivocado e produz um mal profundo.

Esta é uma breve descrição de como sakkaya-ditthi  é equivocado e produz um mal profundo.

Apego Superficial e Profundo

Os apegos de tanha e mana não são apegos de ditthi. Tanha desenvolve o apego por todos os fenômenos nas três esferas de existência sob a forma de ‘É minha propriedade.’ Mana desenvolve o apego a eles sob a forma de ‘Sou eu.’ No caso de seres que possuem sakkaya-ditthi, tanha e mana  seguem a liderança dada por sakkaya-ditthi; no caso daqueles que ‘entraram na correnteza’, ‘que retornarão uma vez’ e ‘que não retornam’ que se livraram de sakkaya-ditthi, tanha e mana  seguem sañña vipallasa (distorções da percepção) e citta vipallasa (distorções da mente). Os apegos produzidos por sañña e citta vipallasa são superficiais. Os apegos produzidos por sakkaya-ditthi são profundos.

Aqui termina a descrição de como os akusala kamma cessam totalmente com o desaparecimento de sakkaya-ditthi.   

 

 

Revisado: 4 Maio 2002

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