Khuddakapatha - Os Textos Breves

Traduzido do Pali por Thanissaro Bhikkhu


O Khuddakapatha, o primeiro livro do Khuddaka Nikaya, é uma coleção de nove textos breves que talvez tenha sido desenhada como um guia de instrução para monges e monjas noviços. Inclui muitos textos fundamentais que são recitados mesmo nos dias de hoje por leigos e monásticos ao redor do mundo do Budismo Theravada.


Índice:



Introdução do Tradutor

Este, o primeiro livro do Khuddaka Nikaya (Coleção de Discursos Breves), parece ter sido desenhado como um guia de instrução para monges e monjas noviços. Em nove passagens curtas ele cobre os tópicos básicos que a pessoa necessita saber quando inicia a vida monástica Budista; muitas das passagens também servem como introduções úteis à prática Budista em geral. As passagens 1 e 2 cobrem a cerimônia de aceitação da ordenação como noviço. A passagem 3 oferece orientação preliminar na contemplação do corpo, um exercício de meditação desenhado para superar o desejo. A passagem 4 introduz muitas das categorias básicas de análise através das quais se pode desenvolver o discernimento, iniciando com a formulação mais simples do princípio causal que é um tema central nos ensinamentos do Buda. A passagem 5 proporciona um apanhado geral da prática como um todo - iniciando com a necessidade de associar-se a pessoas sábias e concluindo com a realização de nibbana. Esse apanhado geral é apresentado em um contexto de rituais protetores e enfatiza o ponto que - dada a natureza da ação humana e os seus resultados - a melhor proteção não vem de rituais mas agindo de maneira generosa, moral e sábia. A passagem 6 expande ambas as passagens 1 e 5, detalhando algumas das virtudes do Buda, Dhamma e Sangha enquanto que ao mesmo tempo disserta sobre a prática de meditação e a realização do estado de "Entrar na Correnteza" – que é o ponto no qual o meditador tem o seu primeiro vislumbre de nibbana. A passagem 7 desenvolve o tema de Generosidade, mostrando como os oferendas para a Sangha podem ser dedicadas para o bem-estar de parentes mortos. A passagem 8 mostra que ações meritórias são em geral investimentos mais confiáveis e mais duradouros que investimentos materiais. A passagem 9 retorna ao tema da meditação, focando no desenvolvimento do amor bondade e boa vontade.

Essas nove passagens, em diferentes contextos, são frequentemente recitadas nos países Theravada, mesmo nos dias de hoje. Budistas leigos e ordenados recitam a passagem 1 diariamente, como uma afirmação do seu refúgio na jóia tríplice. Monges com freqüência, recitam as passagens 5 - 9 como bênçãos quando pessoas leigas realizam méritos e freqüentemente utilizam versos da passagem 5 como temas para sermões.

Dessa forma, os textos contidos neste livro servem como introdução ao treinamento Budista tradicional e às práticas modernas Theravada.


 

Homenagem ao Abençoado,
Digno,
Perfeitamente Iluminado

1. Saranagamana -- Tomando o Refúgio

Buddham saranam gacchami
Eu busco refúgio no Buda.
Dhammam saranam gacchami
Eu busco refúgio no Dhamma.
Sangham saranam gacchami
Eu busco refúgio na Sangha.

Dutiyampi Buddham saranam gacchami
Pela segunda vez, eu busco refúgio no Buda.
Dutiyampi Dhammam saranam gacchami
Pela segunda vez, eu busco refúgio no Dhamma.
Dutiyampi Sangham saranam gacchami
Pela segunda vez, eu busco refúgio na Sangha.

Tatiyampi Buddham saranam gacchami
Pela terceira vez, eu busco refúgio no Buda.
Tatiyampi Dhammam saranam gacchami
Pela terceira vez, eu busco refúgio no Dhamma.
Tatiyampi Sangham saranam gacchami
Pela terceira vez, eu busco refúgio na Sangha.


2. Dasa Sikkhapada -- As Dez Regras de Treinamento

Eu tomo o preceito de abster-me de matar seres vivos.
Eu tomo o preceito de abster-me de tomar o que não for dado.
Eu tomo o preceito de abster-me de atividades sexuais.
Eu tomo o preceito de abster-me da linguagem incorreta.
Eu tomo o preceito de abster-me do vinho, ácool e outros embriagantes que causam a negligência.
Eu tomo o preceito de abster-me de comer nos horários proibidos (isto é, após o meio dia).
Eu tomo o preceito de abster-me de dançar, cantar, ouvir música, ver espetáculos de entretenimento.
Eu tomo o preceito de abster-me de usar ornamentos, usar perfumes, e embelezar o corpo com cosméticos.
Eu tomo o preceito de abster-me de deitar em leitos elevados ou luxuosos.
Eu tomo o preceito de abster-me de aceitar ouro e dinheiro.


3. Dvattimsakara -- As 32 Partes

Cabelos na cabeça,
    pêlos no corpo,
unhas,
    dentes,
pele,
    carne,
tendões,
    ossos,
tutano,
    rins,
coração,
    fígado,
diafragma,
    baço,
pulmões,
    intestino grosso,
intestino delgado,
    conteúdo do estômago,
fezes,
    bílis,
fleuma,
    pus,
sangue,
    suor,
gordura,
    lágrimas,
óleo,
    saliva,
muco,
    líquido sinovial,
urina,
    cérebro.


4. Samanera Pañha -- As Perguntas do Noviço

O que é um?

Todos os seres dependem de alimento. [Existem esses quatro tipos de alimentos para a manutenção dos seres que já nasceram e para o sustento daqueles que estão em busca de um nascimento. Quais quatro? O alimento comida, grosseira ou sutil, o contato como o segundo, a volição mental como o terceiro e a consciência como o quarto. -- SN XII.64.]

O que é dois?

Mentalidade-materialidade (nome e forma) [fenômenos físicos e mentais].

O que é três?

Os três tipos de sensações [prazerosa, dolorosa, nem prazerosa nem dolorosa].

O que é quatro?

As quatro nobres verdades [sofrimento, a origem do sofrimento, a cessação do sofrimento, o caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento].

O que é cinco?

Os cinco agregados [forma, sensações, percepções, formações, consciência].

O que é seis?

As seis bases internas dos sentidos [olho, ouvido, nariz, língua, corpo, mente].

O que é sete?

Os sete fatores da Iluminação [atenção plena, investigação dos fenômenos, energia, êxtase, tranqüilidade, concentração, equanimidade].

O que é oito?

O nobre caminho óctuplo [entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta].

O que é nove?

Existem seres que são diversos no corpo e diversos na percepção, tais como os seres humanos, alguns devas e alguns seres nos planos inferiores. Essa á primeira estação da consciência.

Existem seres que são diversos no corpo mas idênticos na percepção, tal como os devas do cortejo de Brahma que são gerados através do primeiro jhana. Essa é a segunda estação da consciência.

Existem seres que são idênticos no corpo mas diversos na percepção, tal como os devas do Abhassara. Essa é a terceira estação da consciência.

Existem seres que são idênticos no corpo e idênticos na percepção, tal como os devas do Subhakinna. Essa é a quarta estação da consciência.

Existem seres que, com a completa superação das percepções da forma, com o desaparecimento das percepções do contato sensorial, sem dar atenção às percepções da diversidade, consciente de que o ‘espaço é infinito,’ entram e permanecem na base do espaço infinito. Essa é a quinta estação da consciência.

Existem seres que, com a completa superação da base do espaço infinito, consciente de que a ‘consciência é infinita,' entram e permanecem na base da consciência infinita. Essa é a sexta estação da consciência.

Existem seres que, com a completa superação da base da consciência infinita, consciente de que ‘não há nada,’ entram e permanecem na base do nada. Essa é a sétima estação da consciência.

A base de seres não perceptivos e a base da nem percepção, nem não percepção – essas são as duas bases. [Mahanidana Sutta, DN 15]

O que é dez?

Dotado de dez qualidades, alguém é chamado de arahant [o entendimento correto de alguém que está além do treinamento, o pensamento correto de alguém que está além do treinamento, a linguagem correta de alguém que está além do treinamento, a ação correta de alguém que está além do treinamento, o modo de vida correto de alguém que está além do treinamento, o esforço correto de alguém que está além do treinamento, a atenção plena correta de alguém que está além do treinamento, a concentração correta de alguém que está além do treinamento, o conhecimento correto de alguém que está além do treinamento, a libertação correta de alguém que está além do treinamento [Maha-Cattarisaka Sutta, MN 117].


5. Mangala Sutta -- Proteção

Nota: Este sutta também aparece no Sn II.4.

Assim ouvi. Em certa ocasião o Abençoado estava em Savathi no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika. Então, quando a noite estava bem avançada, uma certa devata com belíssima aparência que iluminou todo o Bosque de Jeta, se aproximou do Abençoado. Ao se aproximar ela homenageou o Abençoado e ficando em pé a um lado a devata disse:

Muitos devas e seres humanos
desejando a felicidade,
pensam na proteção.
Diga-me então, qual é a proteção suprema.

O Buda:

Não se associar com os tolos,
associar-se com os sábios,
demonstrar respeito àqueles dignos de respeito:
    Essa é a proteção suprema.

Viver num local adequado,
ter realizado méritos no passado,
portar-se de maneira correta:

Conhecimento amplo e habilidade,
bem treinado na disciplina,
linguagem proveitosa:
    Essa é a proteção suprema.

Sustentar o pai e a mãe,
zelar pela esposa e filhos,
dedicar-se a uma ocupação pacífica:
    Essa é a proteção suprema.

Generosidade, conduta íntegra,
auxíliar os parentes,
ações que não sejam passíveis de censura:
       Essa é a proteção suprema.

Evitar e abster-se daquilo que é ruim e prejudicial;
abster-se do que provoca embriaguez,
estar atento às qualidades da mente:
       Essa é a proteção suprema.

Respeito e humildade,
satisfação e gratidão,
ouvir o Dhamma em ocasiões oportunas:
       Essa é a proteção suprema.

Paciência e obediência,
visitar os contemplativos,
discutir o Dhamma em ocasiões oportunas:
Essa é a proteção suprema.

Autocontrole, uma vida santa casta,
compreender as Nobres Verdades,
realizar Nibbana:
       Essa é a proteção suprema.

Uma mente que não é tocada
pelas vicissitudes do mundo,
livre da tristeza, purificada das impurezas, libertada do temor:
Essa é a proteção suprema.

Aqueles que assim agem,
sempre invencíveis,
estabelecidos na felicidade:
Para eles essas são as proteções supremas.


6. Ratana Sutta -- Tesouros

Nota: Este sutta também aparece no Sn II.1

Todos os espíritos aqui reunidos,
    - na terra, ou no céu -
que todos estejam em paz
e ouçam atentamente o que tenho a dizer.

Portanto, espíritos, prestem atenção.
Que vocês possam difundir o amor bondade para esses seres humanos
que dia e noite trazem oferendas para vocês,
assim, com diligência, protejam-los.

Toda riqueza - aqui ou no além -
todos os tesouros preciosos do paraíso,
para nós, não se igualam ao Tathagata.
    Essa jóia preciosa é o Buda.
    Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

O Nibbana supremo - cessação, desapego -
descoberto pelo Sábio dos Sakias através da meditação:
Não existe nada que possa se igualar a esse Dhamma.
    Essa jóia preciosa é o Dhamma.
    Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

O supremo Desperto exaltou o caminho da purificação (o Nobre Caminho Óctuplo),
chamando-o de o caminho infalível para a concentração,
o conhecimento sem intermediários:
Não pode ser encontrado nada igual a essa concentração.
   Essa jóia preciosa é o Dhamma.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

Os oito indivíduos que constituem quatro pares,
elogiados pelos homens virtuosos:
Eles, discípulos do Abençoado, merecem oferendas.
O que se lhes dá, produz grandes frutos.
   Essa jóia preciosa é a Sangha.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

Aqueles que, devotos, determinados,
se aplicam aos ensinamentos de Gotama,
e tendo alcançado o objetivo, mergulham no Nibbana,
desfrutando livremente a Libertação que conquistaram.
   Essa jóia preciosa é a Sangha.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

Uma pilastra de Indra, fincada na terra,
que mesmo os ventos dos quatro quadrantes não conseguem sacudir:
assim é, eu lhes digo, uma pessoa íntegra,
que - tendo compreendido
as nobres verdades - vê.
   Essa jóia preciosa é a Sangha.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

Aquele que vê as nobres verdades
bem ensinadas por aquele que possui profunda sabedoria -
independente do que (mais tarde) o faça ser negligente -
não irá alcançar mais do que oito existências.
   Essa jóia preciosa é a Sangha.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

No momento em que é realizado o olho do Dhamma
três coisas são abandonadas:
    idéias acerca da identidade, dúvidas,
    e todo apego a preceitos e rituais.
Ele está libertado
dos quatro estados miseráveis,
e incapaz de cometer
as seis grandes ofensas.
   Essa jóia preciosa é a Sangha.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

Qualquer ação ruim e prejudicial que seja cometida
- com o corpo, linguagem ou mente -
ele não será capaz de escondê-la:
uma incapacidade atribuída
àqueles que alcançaram o Caminho (Supramundano).
   Essa jóia preciosa é a Sangha.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

Tal como um bosque com os topos em florescência
no primeiro mês do calor do verão,
assim é o Dhamma insuperável que ele ensinou,
para o benefício supremo que conduz ao Nibbana.
   Essa jóia preciosa é o Buda.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

Supremo (o Buda),
Conhecedor (de Nibbana),
Provedor (de Nibbana),
Trazedor ( do Nobre Caminho Óctuplo),
    ele ensinou o
insuperável Dhamma.
   Essa jóia preciosa é o Buda.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

Deram fim ao (kamma) passado, novo kamma não mais surge.
Com a mente desapegada do devir,
a semente (consciência de renascimento) morreu, eles não têm desejo de renascer,
esses sábios, se extinguem como a chama desta lamparina..
   Essa jóia preciosa é a Sangha.
   Por esta afirmação da verdade, possa a felicidade existir.

Todos espíritos aqui reunidos,
    - na terra, no céu -
prestemos homenagem ao Buda,
o Tathagata venerado por seres
humanos e divinos.
    Possa haver
    felicidade.

Todos espíritos aqui reunidos,
    - na terra, no céu -
prestemos homenagem ao Dhamma
e ao Tathagata venerado por seres
humanos e divinos.
    Possa haver
    felicidade.

Todos espíritos aqui reunidos,
    - na terra, no céu -
prestemos homenagem à Sangha
e ao Tathagata venerado por seres
humanos e divinos.
    Possa haver
    felicidade.


7. Tirokudda Kanda -- Fantasmas Famintos do lado de fora dos muros

Eles ficam do lado de fora dos muros,
    e nas encruzilhadas.
Na soleira das portas,
    regressando para as suas antigas casas.
Porém quando é servida uma refeição farta em comida e bebida,
    ninguém se recorda deles:
Assim é o kamma dos seres vivos.

Assim aqueles que sentem compaixão pelos parentes mortos
dão nos momentos adequados oferendas de comida e bebida
    -- excelentes, limpas --
[pensando] "Que isto seja para os nossos parentes.
        Que nossos parentes sejam felizes!"

E aqueles que aqui se juntaram,
    os fantasmas dos parentes reunidos,
dão a sua benção com apreço
pela abundância de comida e bebida:
    "Que os nossos parentes vivam por muito tempo
    pois deles nós ganhamos [esta oferenda].
    Nós fomos honrados,
    e os doadores não ficarão sem recompensa."

Pois lá [no seu mundo] não há
    cultivo,
    rebanho de gado,
    comércio,
    transações com dinheiro.
Eles vivem do que lhes é dado aqui,
    fantasmas famintos
    cujo tempo aqui terminou.

Tal como a chuva caindo sobre uma colina
flui em direção ao vale,
    da mesma forma o que é dado aqui
    beneficia os mortos.
Tal como rios cheios de água
enchem o oceano,
   da mesma forma o que é dado aqui
    beneficia os mortos.

"Ele me deu, ela me ajudou,
    eles foram os meus parentes, companheiros, amigos":
oferendas devem ser dadas aos mortos,
refletindo dessa forma
sobre as coisas feitas no passado.
Pois nem lágrimas,
    nem luto
    nenhuma outra lamentação
        beneficia aos mortos
        cujos parentes nisso persistem.
Porém quando esta oferenda é dada, bem colocada na Sangha,
haverá benefícios por longo prazo
e ganhos imediatos.

Dessa forma, a obrigação para com os parentes foi demonstrada,
        uma grande homenagem foi prestada aos mortos,
        e aos monges se lhes deu força:

O mérito que vocês obtiveram
        não é pequeno.


8. Nidhi Kanda -- O Fundo de Reserva

Uma pessoa acumula uma reserva,
em um lugar subterrâneo profundo, abaixo da linha da água:
"Quando surgir a necessidade ou o dever,
isto irá satisfazer as minhas necessidades,
para minha liberdade se for denunciado pelo rei,
molestado por ladrões,
no caso de dívidas, fome ou acidentes."
Com tais propósitos
    no mundo
um fundo de reserva é acumulado.

Mas não importa como ele seja guardado,
em um lugar subterrâneo profundo, abaixo da linha da água:
nem sempre irá satisfazer a necessidade.
A reserva se move do seu lugar,
ou a memória fica confusa;
    ou - sem serem vistas -
    serpentes aquáticas levam a reserva embora,
    espíritos a roubam,
    ou herdeiros detestáveis fogem com ela.
Quando o mérito da pessoa tem fim,
ela está totalmente destruída.

Porém quando um homem ou mulher
colocaram de lado um fundo bem abastecido
de generosidade e virtude,
moderação e autocontrole,
    com relação a um santuário,
    à Sangha,
    um indivíduo fino,
    hóspedes,
    mãe, pai,
    ou um irmão ou irmã mais velha:
Esse é um fundo bem provido.
    Ele não pode ser tomado.
    Ele o segue aonde quer que você vá.
Quando, tendo deixado este mundo,
    para onde você tenha que ir,
    você o leva consigo.
Este fundo não é mantido em sociedade com outras pessoas,
e não pode ser roubado por ladrões.

Assim, sendo prudente, você deve obter méritos,
o fundo que irá acompanhá-lo.
Esse é o fundo
que lhes dá tudo que queiram
aos seres humanos e divinos.

Qualquer coisa a que os devas aspirem,
    tudo se obtém através disto.
Uma bonita complexão, uma bonita voz,
um corpo bem feito, bem formado,
nobreza, seguidores:
    tudo isso se obtém através disto.
Realeza na terra, supremacia,
a glória de um imperador,
soberania sobre os devas no paraíso:
       tudo isso se obtém através disto.
Alcançar o estado humano,
todos os prazeres do paraíso,
alcançar Nibbana:
       tudo isso se obtém através disto.
Amigos excelentes,
dedicação adequada, [1]
domínio do conhecimento claro e libertação: [
2]
       tudo isso se obtém através disto.
Perspicácia, [
3] emancipações, [4]
a perfeição dos discípulos:
       tudo isso se obtém através disto.
O Despertar Particular, [
5]
O Estado de Buda:
       tudo isso se obtém através disto.

Tão poderoso é isto,
    a realização de méritos.
Assim o sábio, o prudente,
    louva a reserva de mérito
    que já foi criada.

Notas:

1. Prática adequada do Dhamma. [Retorna]

2. Conhecimento claro = conhecimento de vidas passadas, conhecimento da morte e ressurgimento (renascimento) dos seres, conhecimento da cessação das impurezas mentais: sensualidade, ser/existir, idéias, ignorância. Libertação = libertação do ciclo de renascimentos. [Retorna]

3. Perspicácia = perspicácia com relação ao Dhamma, ao seu significado, à linguagem e rápida compreensão. Esses quatro talentos são encontrados em alguns, mas não em todos Arahants. [Retorna]

4. Emancipações. O Mahanidana Sutta [DN 15] descreve as oito emancipações da seguinte forma:

Possuindo forma material, ele vê a forma: essa é a primeira libertação. Não percebendo a forma no interior, ele vê a forma no exterior: essa é a segunda libertação. Ele está decidido apenas pelo belo: essa é a terceira libertação. Com a completa superação das percepções da forma, com o desaparecimento das percepções do contato sensorial, sem dar atenção às percepções da diversidade, consciente que o ‘espaço é infinito,’ ele entra e permanece na base do espaço infinito: essa é a quarta libertação. Com a completa superação da base do espaço infinito, consciente de que a ‘consciência é infinita,' ele entra e permanece na base da consciência infinita: essa é a quinta libertação. Com a completa superação da base da consciência infinita, consciente de que ‘não há nada,’ ele entra e permanece na base do nada: essa é a sexta libertação. Com a completa superação da base do nada, ele entra e permanece na base da nem percepção, nem não percepção: essa é a sétima libertação. Com a completa superação da base da nem percepção, nem não percepção, ele entra e permanece na cessação da sensação e percepção: essa é a oitava libertação.”

“Quando um bhikkhu alcança essas oito libertações na seqüência para diante, na seqüência para trás e em ambas as seqüências, para diante e para trás; quando ele as alcança e emerge delas quando quiser, da forma que quiser e por quanto tempo quiser e quando, com a eliminação das impurezas mentais, ele permanece num estado livre de impurezas com a libertação da mente e a libertação pela sabedoria, tendo conhecido e manifestado isso para si mesmo no aqui e agora, então ele é chamado de um bhikkhu que está liberado de ambas as formas. E não existe outra libertação de ambas as formas mais elevada ou mais sublime do que essa.” [Retorna]

5. Despertar Particular: Despertar como um paccekabuddha, alguém que pode alcançar a iluminação sem depender dos ensinamentos de outros, mas que não é capaz de formular o Dhamma da forma como um Buda pleno é capaz. [Retorna]


9. Karaniya Metta Sutta -- Amor Bondade

Este sutta também aparece no Sn I.8.

Quem é hábil no que é benéfico, desejando alcançar
aquele estado de paz, age assim:

capaz, correto, honrado,
com a linguagem nobre, gentil e sem arrogância,

Satisfeito e fácil de sustentar,
com poucos encargos, frugal no seu modo de vida,
os sentidos acalmados, sábio,
moderado, sem cobiçar ganhos.

Não faz nada, mesmo que trivial,
que seja condenado pelos sábios.

Pense: felizes, seguros,
que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Todos os seres vivos que existem,
fracos ou fortes, sem exceção,
compridos, grandes,
médios, curtos,
sutis, grosseiros,

Visíveis e invisíveis,
próximos e distantes,
nascidos e por nascer:
que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Que ninguém engane
ou despreze outrem, em nenhum lugar,
ou devido à raiva ou inimizade
deseje que alguém sofra.

Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida,
ama e protege o seu filho, o seu único filho,
da mesma forma, abraçando todos os seres,
cultive um coração sem limites.

Com amor bondade para todo o universo,
cultive um coração sem limites:
Acima, abaixo e em toda a volta,
desobstruído, livre da raiva e da inimizade.

Quer seja parado, andando,
sentado, ou deitado,
sempre que estiver desperto,
cultive essa atenção plena:
a isto se denomina uma morada divina
no aqui e agora.

Sem estar aprisionado pelas idéias,
virtuoso e com a visão consumada,
tendo subjugado o desejo pelo prazer sensual,
ele não mais renascerá.


Revisado: 26 Setembro 2006

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